Resumo
Este artigo analisa, à luz da psicanálise, a
experiência de um psicólogo que ingressa no trabalho em um supermercado não
como destino profissional final, mas como um dispositivo de travessia
subjetiva. A partir dessa experiência concreta, o sujeito desvela uma estrutura
psíquica herdada baseada na nomeação, no reconhecimento institucional e na
idealização de campos legitimados. O trabalho no supermercado, surgido fora de
sua lógica de busca habitual, opera como ruptura dessa alienação,
possibilitando a emergência de uma nova posição subjetiva, aberta à
contingência, à imperfeição e à existência de campos ainda não nomeados.
Articulam-se conceitos de Freud, Lacan e referências bíblicas para sustentar a
leitura clínica dessa travessia.
Palavras-chave: Psicanálise; Alienação; Travessia subjetiva;
Trabalho; Reconhecimento; Desejo.
1.
Introdução: quando o campo não responde
O percurso profissional do sujeito foi, por décadas,
orientado por uma estrutura clara e socialmente validada: busca por
instituições conhecidas, processos seletivos mediados por RH, reconhecimento
prévio como condição para ocupar um lugar. Essa lógica, aprendida na juventude
e reforçada pelo mercado de trabalho, foi aplicada tanto às funções
operacionais quanto ao campo da psicologia.
Contudo, ao não obter resposta das instituições
nomeadas e reconhecidas, o sujeito se confronta com um impasse: o campo da
psicologia institucional não responde. Esse silêncio não é apenas externo;
ele produz efeitos subjetivos profundos, colocando em crise a fantasia de que o
saber, por si só, garantiria um lugar no Outro social.
Segundo Freud, é justamente nos pontos de fracasso
que o inconsciente se manifesta com maior clareza (Freud, 1914/2010). O
não-retorno das instituições funciona, assim, como um ponto de ruptura.
2. O
surgimento do supermercado fora da lógica da nomeação
A entrada no supermercado ocorre de maneira
radicalmente distinta da trajetória anterior: trata-se de uma instituição sem
nome conhecido, sem propaganda midiática, sustentada pela indicação verbal
entre clientes. Esse detalhe é estruturalmente relevante.
Na lógica psicanalítica, o sujeito se orientava por
significantes mestres — nomes consagrados, marcas reconhecidas — que operavam
como garantias simbólicas de valor e pertencimento. O supermercado surge fora
dessa cadeia significante, desorganizando a fantasia de que só é possível
existir profissionalmente onde há reconhecimento prévio.
Lacan afirma que o sujeito é, inicialmente, alienado
ao campo do Outro, definido pelos significantes que o precedem (Lacan,
1964/2008). A experiência no supermercado inaugura uma separação: o sujeito
passa a existir em um campo que não depende de sua nomeação prévia, mas
da demanda concreta daquele espaço.
3. Não é
destino, é travessia
É fundamental destacar que o ingresso no
supermercado não se dá como projeto de ascensão simbólica nem como estratégia
para ocupar o lugar de psicólogo. O sujeito é contratado como operador de caixa
e posteriormente promovido a fiscal de caixa. Esse deslocamento não responde ao
ideal narcísico, mas à lógica interna da instituição.
Aqui, o supermercado funciona como um tempo
lógico de travessia. Lacan descreve a travessia como o momento em que o
sujeito atravessa sua fantasia fundamental, perdendo a ilusão de completude e
controle (Lacan, 1967/2003).
O trabalho operacional confronta o sujeito com uma
verdade difícil: o valor subjetivo não coincide com o lugar social ocupado.
Essa constatação desidealiza o trabalho e, ao mesmo tempo, libera o sujeito da
dependência do reconhecimento institucional como condição de existência.
4. A
capa do iPhone e a inscrição do real
A associação livre entre a troca da capa do iPhone e
a trajetória profissional revela com precisão o movimento psíquico em curso.
A capa azul, perfeitamente ajustada, sem bolhas,
representa a estrutura antiga: encaixe ideal, ausência de falhas, reprodução
fiel do modelo aprendido. Já a capa preta com bordas laranjas, que produz
bolhas na película e imperfeição visível, introduz o real — aquilo que não se
deixa ajustar à fantasia.
Na teoria lacaniana, o real é aquilo que resiste à
simbolização plena (Lacan, 1975/1985). O sujeito, ao tolerar a imperfeição da
nova capa, mostra-se capaz de sustentar um modo de existência fora do ideal de
perfeição, aceitando a falta como constitutiva.
5.
Desalienação e nova posição subjetiva
O efeito mais importante dessa experiência não é
prático, mas subjetivo. O supermercado possibilita ao sujeito desaprender
uma estrutura herdada, desmontando a crença de que todos os campos
funcionam segundo a mesma lógica de reconhecimento, nomeação e visibilidade.
Esse desvelar indica que o sujeito já não está
capturado pela compulsão à repetição — conceito freudiano que designa a
tendência de buscar, reiteradamente, os mesmos cenários de fracasso (Freud,
1920/2010). Ao reconhecer que existem campos fora de seu radar simbólico, o
sujeito se abre à contingência.
Nesse ponto, a referência bíblica ilumina a
articulação simbólica:
“A porta que Deus fecha ninguém abre; e a que Deus
abre ninguém fecha” (Apocalipse 3:7).
As instituições nomeadas funcionaram como portas
fechadas; o supermercado, como uma porta aberta fora da expectativa do sujeito.
Isso não implica uma fé cega, mas uma articulação entre realismo e esperança:
reconhecer que algo pode ou não acontecer, sem submissão ao ideal.
6. O
campo que ainda não foi nomeado
A travessia não garante uma nova inserção
institucional no campo da psicologia. O que ela garante é algo mais
fundamental: uma posição subjetiva capaz de sustentar o não-saber.
O sujeito já não busca apenas onde reconhece; ele
pode ser encontrado por um campo que ainda não nomeou. Essa abertura é condição
para que a demanda emerja do próprio campo, e não da fantasia do sujeito.
Como afirma Lacan, “o desejo do analista é um desejo
advertido” (Lacan, 1964/2008). Analogamente, o desejo do sujeito aqui já não é
ingênuo: ele sabe que pode ocupar ou não ocupar um lugar institucional, sem que
isso anule sua existência ou seu saber.
7.
Considerações finais
O supermercado, neste percurso, não é o fim da
psicologia, nem sua negação. Ele é o meio pelo qual o sujeito atravessa uma
estrutura alienante, desmonta uma fantasia de reconhecimento e se autoriza
a existir fora da idealização.
Essa travessia aponta para um futuro ainda não
nomeado, fora do mapa simbólico anterior, mas agora possível. O sujeito não
muda o mundo institucional; muda sua posição diante dele. E é somente a partir
dessa mudança que algo novo pode, de fato, surgir.
Referências
bibliográficas
FREUD, S. (1914/2010). Recordar, repetir e
elaborar. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, v. 12. Rio de Janeiro: Imago.
FREUD, S. (1920/2010). Além do princípio do
prazer. Rio de Janeiro: Imago.
LACAN, J. (1964/2008). O Seminário, Livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, J. (1967/2003). A lógica do fantasma.
In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
LACAN, J. (1975/1985). O Seminário, Livro 20:
Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar.
BÍBLIA SAGRADA. Apocalipse 3:7. Tradução Almeida
Revista e Atualizada.
Comentários
Postar um comentário