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O Psicólogo que se inscreve todos os dias no ambiente de supermercado: uma análise psicossocial e psicanalítica da alienação no trabalho contemporâneo

 Resumo

O presente artigo investiga o fenômeno da reinscrição subjetiva cotidiana no ambiente de trabalho, a partir do caso de um psicólogo que atua como fiscal de caixa em um supermercado. Analisa-se, sob a ótica da psicologia social e da psicanálise, o conflito entre identidade profissional e função exercida, destacando os processos de alienação, formação de falso self e captura no campo do Outro. A pesquisa, de natureza teórica, fundamenta-se em autores como Christophe Dejours, Jacques Lacan, Donald Winnicott e Erving Goffman. Conclui-se que a permanência no trabalho, mesmo após o desligamento emocional, está associada à necessidade de reconhecimento simbólico e sobrevivência material, configurando um estado de sofrimento psíquico silencioso.

Palavras-chave: subjetividade; trabalho; alienação; falso self; psicologia social.


1. Introdução

O trabalho, na contemporaneidade, ultrapassa sua função econômica, constituindo-se como um dos principais organizadores da identidade subjetiva. Em contextos de precarização e alta exigência emocional, observa-se a emergência de fenômenos como o esgotamento psíquico e a dissociação entre o sujeito e o papel profissional desempenhado.

Este artigo propõe analisar o processo de “reinscrição subjetiva diária” de um psicólogo inserido em uma função operacional, marcada por exigências emocionais intensas e baixa correspondência com sua identidade profissional. A problemática central consiste em compreender: por que o sujeito permanece se reinscrevendo em um lugar onde já não se reconhece?


2. Referencial teórico

2.1 Trabalho e sofrimento psíquico

De acordo com Christophe Dejours (1992), o trabalho mobiliza dimensões subjetivas profundas, podendo ser tanto fonte de realização quanto de sofrimento. Quando há impossibilidade de transformação das condições laborais, o sofrimento tende a se intensificar, levando o sujeito a desenvolver estratégias defensivas.

2.2 O campo do Outro e a alienação

Na perspectiva de Jacques Lacan (1998), o sujeito constitui-se no campo do Outro, ou seja, nas redes simbólicas de linguagem, reconhecimento e expectativa social. A alienação ocorre quando o indivíduo sustenta um lugar nesse campo em detrimento de seu próprio desejo.

2.3 Falso self e adaptação social

Segundo Donald Winnicott (1960), o falso self emerge como uma organização defensiva diante de ambientes que não acolhem o verdadeiro self. Trata-se de uma adaptação funcional, porém potencialmente geradora de vazio existencial.

2.4 A representação do eu na vida cotidiana

Para Erving Goffman (1959), a interação social pode ser compreendida como uma performance, na qual os indivíduos encenam papéis socialmente esperados. A rigidez desses papéis pode levar à perda de autenticidade.


3. Metodologia

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa de natureza teórica, baseada em revisão bibliográfica clássica nas áreas da psicologia social, psicodinâmica do trabalho e psicanálise. O método adotado consiste na análise interpretativa de um caso-tipo, utilizado como dispositivo heurístico para articulação conceitual.


4. Análise e discussão

4.1 A reinscrição subjetiva como prática cotidiana

A reinscrição subjetiva refere-se ao processo pelo qual o sujeito, diariamente, reassume um papel social, mesmo quando este já não corresponde à sua identidade. No caso analisado, o psicólogo:

  • reconhece o ambiente como desgastante
  • compreende os conflitos interpessoais
  • apresenta competência analítica elevada

Ainda assim, continua a se apresentar como funcional e emocionalmente regulado.

Esse movimento evidencia uma dissociação entre compreensão e ação.


4.2 Dissociação entre presença física e ausência emocional

Observa-se um fenômeno de permanência corporal associado ao desligamento afetivo. Tal configuração aproxima-se do que Winnicott descreve como funcionamento do falso self:

  • manutenção do desempenho social
  • retraimento do núcleo subjetivo
  • sensação de esvaziamento

Essa dissociação permite a continuidade no trabalho, mas compromete a vitalidade psíquica.


4.3 Alienação e captura no desejo do Outro

A permanência no trabalho pode ser compreendida como efeito da alienação no campo do Outro. O sujeito continua a sustentar o papel de fiscal de caixa porque:

  • é reconhecido nesse lugar
  • obtém estabilidade mínima
  • evita o confronto com o vazio identitário

A ruptura implicaria não apenas mudança ocupacional, mas uma reorganização simbólica profunda.


4.4 O paradoxo da lucidez

Diferentemente de quadros de alienação inconsciente, o caso analisado apresenta um elemento central: a lucidez. O sujeito compreende sua condição, mas permanece nela.

Esse paradoxo pode ser explicado pela coexistência de:

  • consciência crítica elevada
  • limitação prática de mudança
  • dependência das estruturas sociais

A lucidez, nesse contexto, não liberta — apenas torna o sofrimento mais evidente.


5. Considerações finais

A análise evidencia que a reinscrição cotidiana no trabalho, mesmo diante do esgotamento, não é um fenômeno irracional, mas estruturado por dimensões simbólicas, econômicas e subjetivas.

O psicólogo permanece não por desconhecimento, mas por estar inserido em uma rede que articula:

  • necessidade de sobrevivência
  • busca por reconhecimento
  • dificuldade de sustentar o próprio desejo

Conclui-se que intervenções eficazes devem ir além da dimensão individual, considerando também as condições institucionais e sociais que sustentam esse ciclo.


Referências (Normas ABNT)

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. 5. ed. São Paulo: Cortez, 1992.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. Rio de Janeiro: Imago, 1921.

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983.

 

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