A angústia do fiscal psicólogo: uma interpretação fenomenológica da tensão entre existência e realização profissional
Ano 2026 Autor Ayrton Júnior Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
Este artigo analisa, à luz da fenomenologia, a angústia vivida por um sujeito
formado em psicologia que exerce a função de fiscal de caixa em um
supermercado, enquanto enfrenta repetidas frustrações na tentativa de inserção
no campo institucional da psicologia. A investigação busca compreender essa
angústia não como mero sintoma patológico, mas como um fenômeno existencial que
revela a relação do sujeito com seu projeto de ser, sua liberdade e sua
facticidade. Discute-se, ainda, se tal angústia possui um caráter benéfico ou
maléfico no processo de constituição do sujeito.
1. Introdução
A experiência de não realização profissional, especialmente quando vinculada a
um projeto existencial significativo, pode desencadear uma vivência intensa de
angústia. No caso do fiscal psicólogo, observa-se uma discrepância entre sua
formação, seu desejo de atuar como psicólogo e sua realidade concreta de
trabalho. A fenomenologia, enquanto método de investigação da experiência
vivida, oferece ferramentas para compreender essa angústia a partir do modo
como ela se manifesta à consciência do sujeito.
2. A angústia como fenômeno
existencial
Na perspectiva fenomenológica, particularmente em autores como Heidegger e
Sartre, a angústia não é reduzida a um transtorno ou emoção negativa isolada,
mas compreendida como uma tonalidade afetiva fundamental que revela a condição
do ser humano enquanto ser-no-mundo.
Heidegger (1927/2005) afirma que:
“A angústia revela o nada e, com isso, a
possibilidade mais própria do ser-aí.”
Nesse sentido, a angústia do fiscal psicólogo não é
apenas resultado de fracassos externos, mas emerge da percepção de um
descompasso entre aquilo que ele é (sua situação atual) e aquilo que ele pode
ser (seu projeto como psicólogo). A angústia desvela sua liberdade — mas também
o peso dessa liberdade diante da impossibilidade momentânea de realizá-la.
3. Facticidade e projeto: o
conflito vivido no supermercado
A fenomenologia existencial enfatiza a tensão entre facticidade (as condições
dadas da existência) e transcendência (a capacidade de projetar-se além do
dado).
No caso em análise:
- Facticidade: trabalho atual como fiscal de caixa,
limitações institucionais, ausência de experiência comprovada.
- Projeto: tornar-se psicólogo atuante em uma instituição, aplicar
conhecimentos, produzir impacto.
Sartre (1943/2014) descreve essa tensão ao afirmar:
“O homem não é nada além daquilo que faz de si
mesmo.”
A angústia surge, então, porque o sujeito percebe
que, apesar de seu desejo e formação, ele ainda não conseguiu efetivar seu
projeto. O supermercado torna-se um espaço simbólico de estagnação, onde sua
identidade profissional parece suspensa ou não reconhecida.
4. A vivência subjetiva da
angústia
Fenomenologicamente, é essencial descrever como essa angústia aparece:
- Sensação de
aprisionamento ou repetição (rotina no supermercado)
- Percepção de
inutilização de suas capacidades
- Sentimento de
desvalorização ou invisibilidade profissional
- Confronto
constante com o “não-ser ainda” psicólogo institucional
Essa angústia não é apenas sobre “não conseguir
emprego”, mas sobre uma ameaça à própria identidade: quem sou eu se não
consigo ser aquilo que me proponho a ser?
5. A angústia: benéfica ou
maléfica?
Na fenomenologia existencial, a angústia possui um caráter ambíguo.
5.1 Aspecto benéfico
A angústia pode ser profundamente reveladora. Ela:
- Expõe o desejo
autêntico do sujeito
- Desvela sua
liberdade e responsabilidade
- Impulsiona à ação
e à transformação
Como afirma Kierkegaard (1844/2010):
“A angústia é a vertigem da liberdade.”
Nesse sentido, a angústia do fiscal psicólogo indica
que seu projeto de ser psicólogo é genuíno e significativo. Ela funciona como
um sinal de que há algo essencial em jogo.
5.2 Aspecto maléfico
Por outro lado, quando não elaborada, a angústia pode:
- Paralisar o
sujeito
- Gerar sentimento
de impotência
- Produzir
desistência ou resignação
Se o sujeito passa a interpretar sua situação como
definitiva (“nunca serei psicólogo”), a angústia deixa de ser mobilizadora e
torna-se aprisionante.
6.
Considerações finais
A angústia vivida pelo fiscal psicólogo não deve ser compreendida apenas como
sofrimento a ser eliminado, mas como uma experiência existencial que revela a
profundidade de seu desejo e a tensão entre sua realidade e seu projeto.
Sob a ótica fenomenológica, essa angústia é, ao
mesmo tempo:
- Um sinal de
desalinhamento existencial
- Um chamado à ação
e à reconfiguração de seu caminho
A questão central não é eliminar a angústia, mas compreendê-la
e atravessá-la, transformando-a em motor de construção de novas
possibilidades concretas de inserção profissional.
Referências
Bibliográficas
HEIDEGGER, M. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes,
2005.
SARTRE, J.-P. O Ser e o Nada. Petrópolis:
Vozes, 2014.
KIERKEGAARD, S. O Conceito de Angústia. São
Paulo: Martins Fontes, 2010.
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da Percepção.
São Paulo: Martins Fontes, 2011.
VAN DEN BERG, J. H. O Paciente Psiquiátrico.
São Paulo: Mestre Jou, 1973.
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