Resumo
Este artigo analisa, à luz da
psicologia social e da psicanálise, o processo de “reinscrição subjetiva”
cotidiana de um psicólogo que atua como fiscal de caixa em um supermercado.
Discute-se como o sujeito, mesmo emocionalmente desligado, permanece capturado
pelo campo do outro — entendido como o espaço simbólico das expectativas
sociais, institucionais e dos clientes — reproduzindo um papel que já não
sustenta sua identidade profissional. A partir de autores clássicos,
investiga-se o esgotamento psíquico, a alienação e a dificuldade de ruptura
desse ciclo.
1. Introdução: o trabalho como campo de inscrição
subjetiva
O ambiente de trabalho não é apenas
um espaço de produção econômica, mas um campo de produção de subjetividade.
Para Christophe Dejours (1992), o trabalho envolve investimento afetivo e
mobilização psíquica constante. No caso em análise, o sujeito não apenas
executa tarefas operacionais, mas precisa “se reinscrever” diariamente como
alguém emocionalmente regulado, disponível e funcional — mesmo quando
internamente já se encontra esgotado.
Essa reinscrição não é neutra: ela
exige um custo psíquico elevado quando há desalinhamento entre identidade e
função.
2. A reinscrição no campo do outro: uma leitura
psicanalítica
A ideia de “se inscrever no campo
do outro” pode ser compreendida a partir de Jacques Lacan, que concebe o
“Outro” como o lugar simbólico das normas, expectativas e reconhecimento. O
sujeito, para existir socialmente, precisa ser reconhecido por esse Outro — no
caso, clientes, colegas e a instituição.
No entanto, o que se observa é um
fenômeno de alienação: o psicólogo já não se reconhece na posição que ocupa,
mas continua a sustentá-la para garantir sobrevivência material. Isso gera um
descompasso entre:
- o
eu subjetivo (desejo de atuar como psicólogo)
- e o
eu social (fiscal de caixa funcional e emocionalmente estável)
Segundo Sigmund Freud (1921), o
sujeito em grupo tende a se identificar com papéis que garantem pertencimento,
mesmo que isso implique sofrimento. Aqui, a repetição da função torna-se uma
forma de manter um lugar no laço social.
3. Desligamento emocional e presença corporal: o
fenômeno da dissociação funcional
O relato indica um desligamento
emocional acompanhado de permanência física — um quadro que pode ser
compreendido como uma forma de dissociação adaptativa.
Para Donald Winnicott (1960),
quando o ambiente não sustenta o verdadeiro self, o sujeito desenvolve um falso
self, que opera socialmente enquanto o verdadeiro self se retrai. Nesse
caso:
- O falso self: o fiscal calmo, mediador,
funcional
- O verdadeiro self: o psicólogo exausto,
desalinhado, desejante de outro lugar
Essa clivagem permite a
sobrevivência, mas ao custo de esvaziamento subjetivo.
4. O supermercado como laboratório emocional e
dispositivo de captura
A percepção do supermercado como
“laboratório humano” revela uma leitura sofisticada do sujeito sobre o
ambiente. Contudo, essa mesma capacidade analítica se torna um fator de
captura.
Segundo Erving Goffman (1959), a
vida social funciona como uma encenação, na qual os indivíduos desempenham
papéis diante de uma audiência. O problema surge quando:
- o papel se torna rígido
- não há possibilidade de “retirada de cena”
- e o ator perde a distância crítica em relação
ao personagem
O psicólogo, ao analisar e mediar
constantemente, permanece hiperimplicado no sistema, o que intensifica o
desgaste.
5. A compulsão à repetição e a dificuldade de
ruptura
A manutenção desse ciclo pode ser
interpretada pela noção freudiana de compulsão à repetição. Mesmo diante
do sofrimento, o sujeito repete a situação por:
- necessidade de segurança material
- medo do desconhecido
- internalização de limites sociais (como idade,
mercado de trabalho, etc.)
Além disso, há uma dimensão de reconhecimento:
ainda que desgastante, o papel desempenhado oferece um lugar simbólico — e
abandoná-lo implica atravessar um vazio identitário.
6. Como quebrar o ciclo de reinscrição no desejo
do outro
Romper esse ciclo não é um ato
puramente racional; envolve reposicionamento subjetivo. Três eixos são
fundamentais:
6.1. Reapropriação do desejo
É necessário diferenciar:
- o que é demanda do Outro (empresa, clientes)
- do que é desejo próprio
Esse movimento implica reconhecer
que permanecer apenas por sobrevivência não pode ser naturalizado
indefinidamente.
6.2. Construção de saídas simbólicas
Antes da saída concreta, é preciso
criar saídas psíquicas:
- reduzir a identificação com o papel
- operar com maior distanciamento subjetivo
- limitar o investimento emocional no ambiente
6.3. Transição gradual
A ruptura total pode ser inviável
no curto prazo. Portanto:
- ativar estratégias de reinserção profissional
- reconstruir identidade como psicólogo fora
daquele campo
- buscar espaços onde o verdadeiro self possa
emergir
7. Considerações finais
O psicólogo que se reinscreve
diariamente no ambiente de supermercado vive um conflito estrutural entre
sobrevivência e desejo. Sua permanência não é sinal de fraqueza, mas de uma
organização psíquica que prioriza estabilidade frente ao risco.
Entretanto, a continuidade desse
processo tende a intensificar o esvaziamento subjetivo. A saída não está apenas
em “sair do supermercado”, mas em deixar de se inscrever integralmente no
desejo do outro, recuperando gradualmente a autoria sobre a própria
trajetória.
Referências
- DEJOURS, C. A loucura do trabalho. São
Paulo: Cortez, 1992.
- FREUD, S. Psicologia das massas e análise do
eu (1921).
- GOFFMAN, E. A representação do eu na vida
cotidiana. Petrópolis: Vozes, 1959.
- LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro:
Zahar, 1998.
- WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos
de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1960.
Comentários
Postar um comentário