Resumo
O presente artigo propõe uma leitura psicanalítica
da condição subjetiva do fiscal-psicólogo, figura marcada pela cisão entre a
função institucional de sobrevivência e o desejo de inscrição simbólica no
campo da psicologia. A partir da análise de atos falhos cotidianos — o
esquecimento do óculos e o desvio no trajeto do ônibus — sustenta-se que tais
falhas não são meros acidentes, mas emergências do sujeito como resto dentro da
função. Esses episódios revelam um luto institucional suspenso: a perda de um
corpo institucional capaz de sustentar o desejo e conferir lugar ao saber.
Articulam-se os conceitos freudianos de ato falho, compulsão à repetição e
luto, bem como as formulações lacanianas sobre alienação, separação e Real.
Palavras-chave: ato falho; desejo; instituição; luto; alienação;
psicanálise.
1.
Introdução: o sujeito sem corpo institucional
A questão central que atravessa este texto é a
seguinte: o que acontece quando o desejo de um sujeito não encontra um corpo
institucional que o acolha?
O fiscal-psicólogo ocupa uma posição paradoxal. De
um lado, está inscrito na instituição supermercadista como fiscal de caixa —
função de vigilância, controle e repetição. De outro, carrega um saber e um
desejo ligados à psicologia, mas sem lugar social efetivo para sua realização.
Trata-se, portanto, de um sujeito dividido:
capturado pelo Outro institucional, mas atravessado por um resto que insiste.
Como afirma Lacan:
“O sujeito é representado por um significante para
outro significante”
(LACAN, 1964/1985).
Quando não há significante institucional que
represente o desejo, o sujeito emerge como resto, como falha.
2. O ato
falho como emergência do sujeito
Freud inaugura a noção de ato falho ao demonstrar
que os erros do cotidiano não são simples distrações, mas formações do
inconsciente.
“Os atos falhos não são acidentais: eles possuem
sentido e podem ser interpretados”
(FREUD, 1901/1996).
O ato falho é precisamente o ponto em que o
automatismo da consciência falha e algo do inconsciente se manifesta.
No caso do fiscal-psicólogo, dois episódios são
paradigmáticos:
1.
o retorno para trocar o
óculos diante do carro-forte
2.
o desvio de trajeto ao
entrar no ônibus errado
Ambos revelam que o sujeito não coincide plenamente
com a função que exerce.
3. O
óculos e o retorno ao detalhe: compulsão à repetição
Na primeira cena, o fiscal sobe cedo, dirige-se ao
atendimento do carro-forte e percebe estar com o óculos inadequado. Retorna
para trocar.
O carro-forte condensa o Real institucional:
- dinheiro
- controle
- vigilância
- risco
Nesse ponto, o sujeito tropeça e volta.
Esse retorno ao mesmo lugar pode ser lido como
repetição. Freud escreve:
“O paciente repete em vez de recordar”
(FREUD, 1920/1996).
A compulsão à repetição surge quando a perda não
pode ser simbolizada. O sujeito retorna ao detalhe porque o horizonte está
interditado.
O óculos torna-se metáfora:
- ver de perto →
captura pelo imediato
- ver de longe →
horizonte do desejo
O sujeito, impossibilitado de sustentar o horizonte,
retorna ao circuito da função.
4. O
ônibus errado: desvio do trajeto e encontro com o Real
Na segunda cena, após bater o ponto, o fiscal corre
para pegar o ônibus planejado. Entra num ônibus semelhante, mas equivocado,
sendo lançado a um trajeto completamente distinto.
Aqui, o ato falho não se expressa como retorno, mas
como desvio.
Lacan distingue o automatismo da repetição (automaton)
do encontro com o Real (tyché):
“A repetição se funda no encontro faltoso com o
Real”
(LACAN, 1964/1985).
O ônibus errado representa o rompimento do caminho
linear e convencional. O sujeito desejava o trajeto garantido, familiar,
padronizado. Porém, o Real irrompe e exige outra travessia: esforço, paciência,
sustentação.
O desvio espelha que não há inscrição possível pelo
caminho normativo.
5. O
luto institucional: psicologia suspensa e lugar impossível
O fiscal-psicólogo vive um luto específico: não
apenas o luto de um emprego, mas o luto de um lugar institucional para o
desejo.
Freud define o luto como o trabalho psíquico diante
da perda:
“No luto, o mundo torna-se pobre e vazio”
(FREUD, 1917/1996).
Entretanto, aqui o luto permanece suspenso, pois a
psicologia não é totalmente abandonada nem plenamente realizada.
Dunker observa que o sofrimento contemporâneo
frequentemente se articula à precarização dos lugares simbólicos:
“O mal-estar atual está ligado à crise das
instituições que organizavam o laço social”
(DUNKER, 2015).
Sem corpo institucional, o desejo não encontra
inscrição e retorna como repetição ou desvio.
6.
Alienação institucional e o sujeito como resto
O supermercado aparece como dispositivo de
alienação:
- ponto eletrônico
- protocolos
- vigilância
- repetição
funcional
Lacan descreve a alienação como captura do sujeito
pelo significante do Outro:
“O sujeito se constitui no campo do Outro”
(LACAN, 1964/1985).
Mas há sempre um excedente: algo que não se integra
totalmente.
Os atos falhos mostram isso: o sujeito emerge como
resto dentro da função.
Safatle, ao discutir sofrimento e reconhecimento,
aponta que a ausência de lugar social intensifica a experiência de desamparo:
“O sujeito sofre quando não encontra formas de
reconhecimento e inscrição”
(SAFATLE, 2016).
7.
Conclusão: o desejo sem corpo institucional
Os atos falhos analisados — o óculos e o ônibus —
não são episódios banais. Eles espelham a condição estrutural do
fiscal-psicólogo:
- desejo de
inscrição no futuro
- ausência de lugar
institucional disponível
- repetição como
defesa contra a perda
- desvio como
encontro com o Real
- luto suspenso pela
psicologia impossível
O sujeito permanece entre sobrevivência e desejo.
Em síntese:
Quando não há corpo institucional para o desejo, o
sujeito emerge como resto na falha, na repetição e no desvio.
Referências
Bibliográficas
DUNKER, Christian Ingo Lenz. Mal-estar,
sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo:
Boitempo, 2015.
FREUD, Sigmund. Psicopatologia da vida cotidiana
(1901). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de
Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). In:
Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer
(1920). In: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os quatro
conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos
políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.
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