Pular para o conteúdo principal

Do Túmulo à Emergência: Uma Leitura Psicanalítica do Luto Simbólico e da Ressurreição da Identidade no Psicólogo-Teólogo

 Ano 2026 Autor Ayrton Júnior Psicólogo CRP 06/147208

Resumo

Este artigo propõe uma leitura integrada entre psicanálise e simbolismo bíblico para compreender o processo vivido por um psicólogo-teólogo que se encontra em conflito entre sua identidade profissional e sua função atual de sobrevivência como fiscal de caixa. A partir da noção de luto simbólico, luto antecipatório e contratransferência, articula-se a narrativa da ressurreição de Lázaro como metáfora estruturante do momento psíquico do sujeito: não de perda definitiva, mas de suspensão identitária com potencial de reativação. O trabalho propõe ainda direções clínicas e práticas para a travessia desse estado, evitando tanto o colapso melancólico quanto a ação impulsiva.


1. Introdução

O sujeito contemporâneo frequentemente se vê atravessado por conflitos entre sobrevivência material e realização simbólica. No caso analisado, um psicólogo com formação teológica encontra-se exercendo uma função laboral que não representa seu desejo, vivida como ameaça de apagamento identitário.

Esse cenário não configura apenas um problema ocupacional, mas um fenômeno psíquico mais complexo: um luto simbólico em curso, associado à possibilidade de não realização de ideais profissionais e existenciais.


2. O Luto Simbólico e suas Configurações

A psicanálise compreende o luto como um processo de desinvestimento libidinal de um objeto perdido. No entanto, nem toda perda é concreta ou consumada. No caso em questão, trata-se de:

  • perda de um ideal de si (identidade como psicólogo pleno)
  • perda de um lugar institucional ainda não conquistado
  • perda de um modelo anterior de atuação
  • perda da fantasia de controle sobre o próprio percurso

Diferencia-se aqui:

2.1 Perda Real

Quando algo já deixou de existir ou não está mais disponível (ex: modelo antigo de consultório).

2.2 Fantasia de Perda

Quando o sujeito antecipa um futuro negativo como se fosse inevitável (ex: “vou me tornar apenas um fiscal de caixa”).

O sofrimento intensifica-se quando essas duas dimensões se confundem, gerando sensação de aniquilação.


3. Luto Antecipatório e Limite Psíquico

O sujeito não está apenas reagindo a uma perda, mas antecipando-a. Esse fenômeno, conhecido como luto antecipatório, coloca o psiquismo em uma posição paradoxal:

  • ainda investe na identidade desejada
  • simultaneamente teme sua perda

Esse duplo movimento gera alto custo psíquico, caracterizado por:

  • ruminação
  • ansiedade
  • sensação de urgência
  • esgotamento emocional

Clinicamente, o sujeito se encontra na transição entre a barganha e o início da fase depressiva do luto, momento crítico em que as defesas começam a falhar.


4. A Cena de Lázaro como Metáfora Estrutural

A recordação da narrativa bíblica da ressurreição de Lázaro não é acidental, mas profundamente significativa do ponto de vista psíquico.

4.1 Elementos Simbólicos

  • Lázaro → identidades do sujeito (psicólogo e teólogo)
  • Túmulo → condição atual de invisibilidade e não reconhecimento
  • Pedra → obstáculos psíquicos e contextuais (medo, espera, inércia)
  • Tempo no túmulo → período de transição e latência
  • Chamado para fora → emergência do desejo
  • Retirada da pedra → ação necessária

4.2 Interpretação Psicanalítica

A escolha desse símbolo revela:

1.      A identidade não é percebida como perdida definitivamente

2.      Existe expectativa de reversibilidade

3.      O sujeito reconhece a necessidade de ação para desbloqueio

Diferente de símbolos de perda irreversível, Lázaro representa uma condição de suspensão com potencial de reativação.


5. O Erro Central do Sujeito

O conflito se organiza em torno de uma formulação equivocada:

“Se eu não estou exercendo plenamente, então eu não sou.”

Essa equivalência entre identidade e exercício pleno gera:

  • angústia
  • autoexigência
  • sensação de fracasso

Do ponto de vista clínico, é necessário operar a seguinte distinção:

identidade não depende exclusivamente do reconhecimento externo imediato


6. A Função do Trabalho Atual

O trabalho no supermercado adquire valor simbólico distorcido:

  • deixa de ser base material
  • passa a representar fracasso existencial

A reestruturação necessária consiste em deslocar esse significado:

de ameaça identitária → para suporte transitório


7. Direção Clínica: Retirar a Pedra

A metáfora bíblica aponta uma direção precisa:

a identidade não está morta — está inacessível

E o impedimento não é absoluto, mas contingente.

7.1 “Retirar a pedra” implica:

  • sair da posição de espera
  • reduzir dependência de validação externa
  • transformar pensamento em ação estruturada

8. Transformação da Angústia em Ação

O luto antecipatório pode ser convertido em motor, desde que mediado.

8.1 Protocolo básico:

1.      Diferenciar perda real de fantasia

2.      Nomear o afeto

3.      Traduzir em tarefa concreta

4.      Executar ação mínima sustentada


9. Reorganização da Identidade

A identidade não deve ser descoberta como algo pronto, mas construída progressivamente:

  • por atos
  • por repetição
  • por inscrição simbólica

O sujeito passa de:

identidade idealizada → identidade em construção


10. Conclusão

O psicólogo-teólogo não se encontra diante da morte de suas identidades, mas de um momento de suspensão em que estas se tornam inacessíveis sob determinadas condições.

A evocação da narrativa de Lázaro revela que:

  • há vida psíquica ainda investida
  • há desejo ativo
  • há bloqueio contingente
  • há possibilidade de emergência

O trabalho clínico e existencial consiste, portanto, não em evitar o luto, mas em:

  • simbolizar a perda
  • sustentar a transição
  • agir sobre os impedimentos

Em última instância, trata-se de responder ao chamado:

sair do túmulo não como milagre passivo, mas como ato possível.


Referências Bibliográficas

Freud, S. (1917). Luto e Melancolia.
Freud, S. (1923). O Ego e o Id.
Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise.
Lacan, J. (1958). A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder.
Bion, W. R. (1962). Aprendendo com a Experiência.
Racker, H. (1968). Estudos sobre Técnica Psicanalítica.
Bíblia Sagrada. Evangelho de João 11:1-44.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas

NEW AMSTERDAM COMO ESPELHO DA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: UMA LEITURA A PARTIR DA PSICOLOGIA DA SAÚDE, PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

  Resumo O presente artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a série televisiva New Amsterdam , analisando-a a partir da Psicologia da Saúde, da Psicanálise e da Psicologia Organizacional. O objetivo é compreender como a narrativa hospitalar pode funcionar como um espelho simbólico para um sujeito que, após experiências profissionais em ambiente hospitalar, encontra-se atualmente inserido em uma organização varejista na função de fiscal de caixa e psicólogo. Discute-se a hipótese de que a série mobiliza processos de identificação, memória institucional, construção identitária e observação dos fenômenos organizacionais, permitindo compreender como experiências passadas permanecem ativas na constituição subjetiva e profissional do indivíduo. Palavras-chave: Psicologia da Saúde; Psicanálise; Identidade Profissional; Organizações; New Amsterdam; Psicologia Organizacional. 1. Introdução As produções audiovisuais frequentemente transcendem a função de entretenimento e t...

Fechamento do ciclo no supermercado pelo fiscal-psicólogo: uma leitura psicanalítica da exaustão estrutural e da autorização para a saída

  Resumo Este artigo analisa o processo de fechamento de ciclo de um trabalhador na função de fiscal de caixa — aqui denominado “fiscal-psicólogo” — a partir da interpretação de um sonho e de sua articulação com a experiência subjetiva no ambiente de trabalho. Sustenta-se que o encerramento do vínculo não decorre apenas de fatores econômicos ou motivacionais, mas de uma falência progressiva das funções psíquicas que sustentavam a permanência . A partir de contribuições de Sigmund Freud, Jacques Lacan e Donald Winnicott, demonstra-se que o sonho opera como dispositivo de validação do limite, retirada da culpa e autorização simbólica para a saída . 1. Introdução Ambientes de trabalho com alta demanda e baixa sustentação coletiva frequentemente produzem sujeitos que desenvolvem funções psíquicas ampliadas para manter o sistema operando. No caso do fiscal-psicólogo, observa-se uma posição singular: leitura constante do comportamento dos outros organização do excesso e...

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

O Desinvestimento Psíquico da Vaga de Assistente de RH Generalista: Uma Leitura Psicanalítica e Organizacional do Silêncio Institucional

  Resumo Este artigo analisa o fenômeno do desinvestimento psíquico diante de um processo seletivo interno para a vaga de Assistente de RH Generalista em uma organização supermercadista. O estudo parte da experiência de um fiscal de caixa graduado em Psicologia que se candidata à vaga buscando uma mudança de posição ocupacional. Entretanto, ao longo do processo, emerge uma contradição fundamental: embora a vaga represente uma possibilidade de saída do sofrimento associado à função atual, ela não corresponde integralmente ao seu projeto identitário de atuar como psicólogo organizacional. A partir das contribuições da psicanálise e da psicologia organizacional, discute-se como o silêncio institucional, a ausência de comunicação organizacional e a demora nas decisões administrativas favorecem processos de ansiedade, idealização, investimento libidinal e posterior desinvestimento psíquico. Palavras-chave: Psicanálise; Psicologia Organizacional; Silêncio Organizacional; Investiment...

O apagamento da identidade profissional

  A identidade profissional não se sustenta apenas em três elementos formais: diploma conhecimento teórico interesse pela área Ela depende fundamentalmente de prática social reconhecida . Segundo o sociólogo Claude Dubar , a identidade profissional é construída pela interação entre duas dimensões: 1.       identidade para si (como a pessoa se vê) 2.       identidade para os outros (como a sociedade a reconhece) Quando alguém é formado em psicologia, mas o ambiente social o reconhece apenas como: fiscal operador supervisor operacional surge uma fratura entre identidade e reconhecimento social . Como o apagamento começa Ele não acontece de forma brusca. Ele ocorre em etapas. 1. Suspensão provisória da profissão A pessoa pensa: “vou trabalhar aqui por enquanto.” A identidade profissional ainda está preservada. 2. Distanciamento da prática Com o tempo começam a aparecer dificu...

Angústia Da Ausência De Clareza De Informações

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um sujeito que trabalha como fiscal de caixa em um supermercado e é psicólogo está angustiado porque não consegue perceber um caminho para ser contratado como psicólogo em alguma instituição e compreende que a ausência de Clareza gera angústia que está lhe fazendo mal. Na psicanálise, podemos entender essa situação analisando os três sistemas psíquicos: id, ego e superego, bem como os conceitos de angústia e desejo. O conflito interno: O id representa os desejos e impulsos mais profundos. Nesse caso, o desejo do sujeito é trabalhar como psicólogo, porque isso se alinha ao que ele valoriza e ao prazer de ajudar os outros. O superego é a parte crítica, que internaliza normas e regras sociais. Ele pode estar julgando o sujeito por não ter "chegado lá" ainda, criando sentimentos de culpa e cobrança. O ego, que é o mediador entre o id e o ...

O Psicólogo E A dor Nas Costas

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um psicólogo que não consegue se empregar em alguma instituição e trabalha como fiscal de caixa ao ir para academia sentindo dores nas costas.Dor físico como uma possível expressão de conflitos emocionais. Me explique e interprete como se eu fosse um iniciante pela abordagem da psicanálise dos conflitos ocultos Na psicanálise, a dor física, como a dor nas costas, pode ser interpretada como uma expressão simbólica de conflitos emocionais ou psicológicos não resolvidos, que ficam "ocultos" na mente, mas se manifestam no corpo. Essa teoria é chamada de somatização, onde o corpo acaba “falando” o que a mente tenta reprimir ou esconder. Vou explicar isso detalhadamente, como se você fosse um iniciante. Imagine que uma pessoa, que é psicóloga, quer trabalhar em sua área, mas, por circunstâncias da vida, acabou aceitando o trabalho como fiscal de ...

Ônibus Lotado – Comportamento Por Conformidade

  Ano 205. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Ônibus lotado, pessoas agasalhadas, janelas fechadas. O ambiente torna-se abafado, desconfortável e com odor desagradável, consequência da falta de ventilação e, em alguns casos, da ausência de cuidados básicos com a higiene pessoal, como banho e escovação dos dentes. Essa situação compromete o bem-estar coletivo e evidencia a necessidade de consciência social. Quando todos compartilham o mesmo espaço, é fundamental que cada um colabore para manter um ambiente minimamente saudável e respeitoso. Cuidar da própria higiene, usar roupas adequadas à temperatura e permitir a circulação de ar abrindo as janelas são atitudes simples que demonstram consideração com o outro. Em um transporte coletivo, o desconforto de um pode se transformar em sofrimento para todos. Portanto, é essencial que cada passageiro assuma sua parte na responsabilidade coletiva. ...

Entre a Esperança Institucional e o Luto do Ideal: Reorganização Identitária Frente à Não Legitimação Profissional

  Resumo O presente artigo analisa, sob perspectiva psicanalítica, o conflito subjetivo entre manter a esperança de reconhecimento institucional e aceitar a perda desse ideal, enfrentando o luto e promovendo reorganização interna. Parte-se da hipótese de que o sofrimento não deriva da ausência de prática profissional, mas da não inscrição simbólica no campo institucional. A partir das contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan, discute-se o Ideal do Eu, o narcisismo, a compulsão à repetição e a função do Outro na legitimação identitária. Conclui-se que o luto do ideal institucional não implica fracasso profissional, mas representa condição para reestruturação subjetiva mais autônoma. 1. Introdução O reconhecimento institucional ocupa, para muitos profissionais, função estruturante na constituição identitária. Quando tal reconhecimento não se concretiza, pode emergir sofrimento intenso, frequentemente interpretado como fracasso. Entretanto, sob leitura psicanalítica,...

Entre o Desejo e o Esgotamento: Uma Leitura Psicanalítica do Impasse Profissional e do Limite Subjetivo

  Ano 2026 Autor Ayrton Júnior Psicólogo CRP 06/147208 Resumo O presente artigo analisa, à luz da psicanálise, o impasse vivido por um sujeito que, formado em psicologia, encontra-se inserido em uma função dissociada de seu desejo — atuando como fiscal de caixa em um supermercado — ao mesmo tempo em que enfrenta repetidas frustrações na tentativa de inserção institucional na área psicológica. A investigação percorre três eixos: (1) a busca por uma resposta inconsciente via sonho, (2) a oscilação entre ilusão e realidade no campo do desejo, e (3) o colapso subjetivo sob a forma de esgotamento. Conclui-se que a questão não se reduz à dicotomia “ilusão versus verdade”, mas à relação entre desejo, posição subjetiva e inscrição no real. 1. Introdução O sofrimento psíquico contemporâneo frequentemente emerge na intersecção entre desejo e realidade social. No caso em análise, o sujeito encontra-se dividido entre: o desejo de atuar como psicólogo em uma institu...