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O PSICÓLOGO QUE SE INSCREVE TODOS OS DIAS NO AMBIENTE DE SUPERMERCADO: PRECARIZAÇÃO, NEOLIBERALISMO E SOFRIMENTO PSÍQUICO NO TRABALHO CONTEMPORÂNEO

 Resumo

Este artigo analisa o fenômeno da reinscrição subjetiva cotidiana no trabalho, a partir de um caso-tipo de um psicólogo inserido em função operacional no varejo. O estudo articula psicologia social, psicanálise e teorias contemporâneas sobre neoliberalismo com dados empíricos do contexto brasileiro. Parte-se da hipótese de que a permanência em contextos de sofrimento psíquico não se reduz à dimensão individual, sendo sustentada por precarização estrutural e pela internalização da lógica de desempenho. Trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza teórica, baseada em revisão bibliográfica e análise interpretativa. O referencial inclui Christophe Dejours, Jacques Lacan, Byung-Chul Han e Pierre Dardot. Conclui-se que a reinscrição cotidiana no trabalho é efeito de uma racionalidade que transforma o sujeito em gestor de si, intensificando o sofrimento psíquico.

Palavras-chave: trabalho; subjetividade; burnout; neoliberalismo; precarização.


Abstract

This article analyzes the phenomenon of daily subjective reinscription in the workplace, based on a case-type of a psychologist working in an operational retail position. The study articulates social psychology, psychoanalysis, and contemporary theories of neoliberalism with empirical data from the Brazilian labor context. It is hypothesized that remaining in psychologically distressing work environments is not merely an individual issue but is sustained by structural precarization and the internalization of performance logic. This is a qualitative theoretical study based on bibliographic review and interpretative analysis. The theoretical framework includes Christophe Dejours, Jacques Lacan, Byung-Chul Han, and Pierre Dardot. The findings suggest that daily reinscription at work reflects a broader rationality that transforms individuals into self-managing subjects, intensifying psychological suffering.

Keywords: work; subjectivity; burnout; neoliberalism; precarization.


1. Introdução

As transformações recentes no mundo do trabalho, especialmente sob a égide do neoliberalismo, produziram uma reorganização profunda das relações laborais e da subjetividade. O trabalho deixa de ser apenas uma atividade produtiva e passa a operar como dispositivo central de constituição identitária.

No Brasil, esse processo se intensifica diante de cenários de instabilidade, informalidade e alta rotatividade. Nesse contexto, emerge um fenômeno recorrente: a permanência do sujeito em condições de sofrimento psíquico, mesmo quando há consciência desse sofrimento.


2. Problema, hipótese e objetivos

2.1 Problema de pesquisa

Como a articulação entre precarização do trabalho e racionalidade neoliberal contribui para a reinscrição subjetiva em contextos de sofrimento psíquico?


2.2 Hipótese

A permanência no trabalho, mesmo sob sofrimento, é sustentada pela internalização da lógica neoliberal de autogestão, associada à insegurança estrutural do mercado de trabalho brasileiro.


2.3 Objetivo geral

Analisar a reinscrição subjetiva no trabalho contemporâneo articulando dimensões psicanalíticas, psicossociais e empíricas.


2.4 Objetivos específicos

  • Investigar o papel da precarização no sofrimento psíquico
  • Analisar a internalização da lógica de desempenho
  • Compreender a relação entre reconhecimento social e permanência no trabalho
  • Integrar dados empíricos à análise teórica

3. Metodologia

Trata-se de um estudo qualitativo, de natureza teórica, fundamentado em revisão bibliográfica e análise interpretativa de caso-tipo. Foram utilizados dados secundários provenientes de instituições como IBGE e Ministério da Saúde, articulados a referenciais da psicologia social, psicanálise e sociologia do trabalho.


4. Resultados e discussão

4.1 Precarização e insegurança no contexto brasileiro

Dados do IBGE indicam elevados índices de informalidade no mercado de trabalho brasileiro, alcançando aproximadamente 39% da população ocupada (IBGE, 2023). Tal cenário contribui para a manutenção do trabalhador em posições insatisfatórias, devido ao risco de desemprego.


4.2 Sofrimento psíquico como fenômeno estrutural

Segundo Christophe Dejours (1992, p. 34):

“O trabalho nunca é neutro em relação à saúde mental.”

O sofrimento psíquico, portanto, não deve ser compreendido como exceção, mas como possibilidade inerente ao trabalho.


4.3 O sujeito neoliberal e a autogestão

De acordo com Pierre Dardot e Christian Laval (2016, p. 328):

“O indivíduo neoliberal é um empresário de si mesmo.”

Essa lógica desloca para o sujeito a responsabilidade por sua permanência, intensificando a autovigilância e o autocontrole.


4.4 Sociedade do cansaço e burnout

Para Byung-Chul Han (2017, p. 25):

“O sujeito do desempenho explora a si mesmo até o esgotamento.”

Esse modelo contribui para o aumento de quadros como burnout, já reconhecido como fenômeno ocupacional.


4.5 Alienação e campo do Outro

A psicanálise permite compreender a dimensão simbólica da permanência. Segundo Jacques Lacan (1998, p. 203):

“O desejo do homem é o desejo do Outro.”

Assim, o sujeito permanece também para sustentar um lugar de reconhecimento.


4.6 Citação direta longa

“A norma neoliberal exige que o indivíduo se torne responsável por sua própria valorização, devendo adaptar-se continuamente às exigências do mercado, independentemente de suas condições subjetivas” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 335).


5. Considerações finais

A reinscrição subjetiva cotidiana no trabalho deve ser compreendida como fenômeno multideterminado, que articula dimensões psíquicas e estruturais. O sujeito permanece não apenas por escolha, mas por estar inserido em um sistema que:

  • exige desempenho constante
  • precariza vínculos
  • individualiza o sofrimento

A ruptura, portanto, exige não apenas mudança individual, mas transformação das condições sociais e simbólicas que sustentam esse modelo.


6. Implicações clínicas e organizacionais

A análise da reinscrição subjetiva no trabalho, articulada à precarização e à racionalidade neoliberal, não se esgota no plano teórico. Seus desdobramentos incidem diretamente sobre a prática clínica e sobre a gestão organizacional, exigindo intervenções em múltiplos níveis.


6.1 Implicações clínicas: escuta do sofrimento no contexto laboral

No campo clínico, torna-se fundamental reconhecer que o sofrimento relacionado ao trabalho não pode ser reduzido a conflitos intrapsíquicos isolados. Conforme destaca Christophe Dejours (1992), o sofrimento no trabalho emerge da relação entre organização laboral e subjetividade.

Nesse sentido, a clínica deve:

  • Evitar a psicologização excessiva do sofrimento, reconhecendo determinantes sociais e organizacionais
  • Acolher a ambivalência do sujeito, que simultaneamente deseja sair e precisa permanecer
  • Trabalhar a distinção entre desejo próprio e demanda do Outro, conforme a formulação de Jacques Lacan

Além disso, é necessário atenção ao funcionamento do falso self, descrito por Donald Winnicott, especialmente em sujeitos altamente adaptados, mas subjetivamente esvaziados.

“O falso self pode organizar uma adaptação aparentemente bem-sucedida, enquanto o verdadeiro self permanece oculto” (WINNICOTT, 1960, p. 145).

A clínica, portanto, não deve ter como objetivo imediato a ruptura com o trabalho, mas a reconstrução progressiva da posição subjetiva do sujeito, permitindo:

  • reapropriação do desejo
  • ampliação da capacidade de escolha
  • redução da alienação

6.2 Implicações para a saúde mental do trabalhador

Os dados empíricos brasileiros indicam crescimento de afastamentos por transtornos mentais, o que reforça a necessidade de intervenções preventivas.

Nesse contexto, a atuação clínica pode contribuir para:

  • identificação precoce de sinais de burnout
  • elaboração do sofrimento antes da cronificação
  • fortalecimento de recursos psíquicos

Entretanto, como aponta Byung-Chul Han (2017), há um risco de transformar o cuidado em mais uma exigência de desempenho. Assim, a clínica deve evitar reproduzir a lógica neoliberal de “otimização do sujeito”.


6.3 Implicações organizacionais: limites da adaptação

No nível organizacional, os achados indicam que estratégias centradas exclusivamente na adaptação do trabalhador são insuficientes.

Programas como:

  • treinamentos de inteligência emocional
  • incentivo à resiliência
  • campanhas motivacionais

podem, paradoxalmente, intensificar o sofrimento ao deslocar para o indivíduo a responsabilidade por suportar condições adversas.

Conforme Pierre Dardot e Christian Laval (2016):

“A racionalidade neoliberal transforma o sujeito em responsável por sua própria exploração.”

Dessa forma, intervenções organizacionais eficazes devem incluir:

  • Revisão das condições reais de trabalho (carga, ritmo, metas)
  • Ampliação de espaços de escuta coletiva
  • Redução da sobrecarga emocional em funções de atendimento
  • Reconhecimento institucional do sofrimento psíquico

6.4 Gestão e subjetividade: para além da performance

A gestão contemporânea tende a valorizar desempenho, produtividade e controle emocional. No entanto, conforme aponta Richard Sennett (2006), esse modelo pode corroer a identidade do trabalhador.

Assim, propõe-se uma mudança de paradigma:

  • do trabalhador como recurso → para o trabalhador como sujeito
  • da performance contínua → para a sustentabilidade psíquica
  • da adaptação individual → para a responsabilidade organizacional

6.5 Articulação clínica-organizacional

Por fim, destaca-se a necessidade de articulação entre clínica e organização. O sofrimento no trabalho não pode ser tratado exclusivamente em consultório, nem apenas por políticas institucionais isoladas.

Uma abordagem integrada deve considerar:

  • escuta clínica qualificada
  • intervenções organizacionais estruturais
  • políticas públicas de saúde do trabalhador

Síntese da seção

As implicações evidenciam que o fenômeno da reinscrição subjetiva:

  • não é apenas individual
  • não se resolve apenas com “mudança de atitude”
  • exige transformação simultânea nos níveis clínico, organizacional e social

Referências (ABNT)

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental e trabalho no Brasil. Brasília: MS, 2022.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

IBGE. PNAD Contínua: mercado de trabalho brasileiro. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

SENNETT, Richard. A corrosão do caráter. Rio de Janeiro: Record, 2006.

WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

 

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