Pular para o conteúdo principal

Uma ruptura no modo como o sujeito organizava sua relação com o mundo do trabalho

 1. O que estava em jogo não era apenas “procurar emprego”, mas um modo de desejar

Desde a juventude, o sujeito aprendeu — por família, escola, professores, mercado e discurso social — que o acesso ao trabalho se dá por um modelo estrutural específico:

  • empresas com nome reconhecido;
  • visibilidade social;
  • RH, processos seletivos, entrevistas;
  • validação por critérios formais;
  • eventualmente, indicação.

Esse modelo não é neutro: ele funciona como um roteiro inconsciente de como “o mundo escolhe alguém”.

Na psicanálise, isso se aproxima do que Lacan chama de fantasma fundamental:
uma cena repetida que organiza a expectativa do sujeito sobre como será reconhecido.

👉 O sujeito não buscava apenas vagas.
👉 Buscava ser escolhido dentro da cena que ele conhecia.


2. O campo do “nome conhecido” como garantia simbólica

Empresas com nome conhecido funcionavam, para o sujeito, como garantia simbólica:

  • “Se é conhecido, é legítimo”
  • “Se é grande, reconhece”
  • “Se tem nome, escolhe corretamente”

Isso revela uma dependência do Outro consistente — um Outro que sabe, organiza e legitima.

Freud já apontava que o sujeito tende a investir libidinalmente em instituições que representam autoridade, ordem e reconhecimento (Freud, Psicologia das Massas, 1921).

Quando o sujeito envia currículos apenas para esses lugares, ele está dizendo inconscientemente:

“Só reconheço como possível aquilo que já está nomeado, visível e validado.”


3. A repetição e o esgotamento do roteiro

O problema surge quando o sujeito repete o mesmo roteiro até o esgotamento:

  • envia currículos para todos os supermercados “conhecidos”;
  • não recebe retorno;
  • insiste;
  • amplia a quantidade, mas não muda a estrutura.

Isso é o que Freud chamou de compulsão à repetição (Além do Princípio do Prazer, 1920):
o sujeito repete não porque espera algo novo, mas porque está preso a um modo de funcionamento.

Aqui, o fracasso não é pessoal.
É estrutural.


4. O supermercado “sem nome” como ruptura do campo simbólico

Quando o sujeito envia currículo para um supermercado que:

  • não faz propaganda;
  • não é conhecido;
  • não circula no imaginário social;
  • está fora do mapa simbólico do sujeito,

algo decisivo acontece.

👉 Ele sai do campo do Nome-do-Pai (da autoridade simbólica conhecida)
👉 e entra no campo do real do trabalho.

Esse supermercado não escolhe por prestígio, imagem ou status.
Escolhe por necessidade concreta, leitura direta do currículo e da pessoa.

Lacan diria que aqui o sujeito escapa do Outro que avalia
e encontra um Outro que demanda.


5. Por que justamente ali o sujeito foi escolhido?

Porque ali:

  • o sujeito não precisava corresponder a um ideal;
  • não competia com centenas de candidatos;
  • não precisava “encarnar uma promessa”;
  • era visto como alguém útil, legível e disponível.

Ou seja:
👉 o sujeito foi escolhido quando deixou de tentar ser escolhido dentro do ideal.

Isso é clinicamente muito importante.


6. O que isso revela sobre o inconsciente do sujeito

Essa experiência revela que:

1.      O sujeito estava preso a um campo de reconhecimento limitado;

2.      Sua percepção do possível estava reduzida ao que era visível e nomeado;

3.      O mundo real operava fora desse campo — mas ele não via.

Na linguagem psicanalítica:

O desejo do sujeito estava colado ao desejo do Outro socialmente reconhecido.

Quando ele sai desse enquadre, algo do real responde.


7. O ensino estrutural dessa experiência

Essa experiência ensina algo que vale para o trabalho, para a clínica e para a vida:

Nem todo campo que escolhe está visível.
Nem todo campo visível escolhe.

O sujeito foi escolhido fora do campo que ele acreditava ser o único possível.

Isso não invalida sua história.
Mas revela seus limites.


8. Conclusão clínica

Do ponto de vista psicanalítico, podemos dizer:

  • o sujeito não fracassou;
  • ele operou por muito tempo dentro de uma estrutura simbólica estreita;
  • quando, mesmo sem saber, tocou o fora dessa estrutura, foi acolhido.

Esse episódio é um antecedente estrutural direto de tudo o que você vem elaborando sobre:

  • campo que escolhe o sujeito;
  • saber que só se torna legível em certos lugares;
  • limites da busca convencional;
  • saída da alienação estrutural.

Não foi um acidente.
Foi um furo no roteiro inconsciente.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

O Jogo De Esconder Objetos

  Ano 2022. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leit@r a notabilizar o conceito de brincadeira, é a ação de brincar, divertir, entreter, distrair. Geralmente são jogos livres que têm a finalidade de encenar e utilizar objetos lúdicos. A principal diferença entre a brincadeira para outras atividades diárias é a sua natureza divertida e criativa. A brincadeira de esconder e achar objetos promove a memória e a percepção de que as coisas, que lhe pertence podem permanecer nos lugares mesmo que a criança, o adolescente ou até o adulto não consiga as ver, o que é uma conquista extremamente importante nessa faixa etária. Além disso, dando um comando verbal com o nome de elementos que já lhes são familiares, acaba-se estimulando uma comunicação que envolve a linguagem e uma apropriação de palavras que vão acabar compondo o seu vocabulário. Esconde-esconde objetos é o jeito de brincar: Uma das crianças é escolhida para esconder um objet...

PLANO DE AÇÃO PARA MELHORIA DO AMBIENTE DE TRABALHO NO SUPERMERCADO

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. ### **1. Objetivo Geral** Reduzir os riscos psicossociais no ambiente de trabalho do supermercado, promovendo bem-estar, engajamento e qualidade de vida para os colaboradores. ### **2. Diagnóstico Inicial** - Aplicar uma pesquisa de clima organizacional para identificar principais dificuldades e insatisfações. - Realizar entrevistas com colaboradores de diferentes setores para entender suas necessidades e desafios. - Avaliar os índices de rotatividade, absenteísmo e conflitos internos. ### **3. Ações Preventivas e Corretivas** #### **3.1. Melhoria das Relações Interpessoais** - Implementar treinamentos sobre inteligência emocional e resolução de conflitos. - Criar espaços para comunicação aberta entre liderança e equipe, como reuniões quinzenais. - Estabelecer um canal anônimo para feedbacks e sugestões dos colaboradores. ####...

Música Volume Alto

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um sujeito quando está com raiva aparente de algo aumenta o volume da música no ritmo de academia no máximo. Claro, vou tentar explicar isso pela perspectiva da psicanálise de uma maneira acessível para iniciantes. Raiva aparente: Quando alguém está com raiva aparente, significa que essa pessoa está demonstrando sua raiva de maneira visível, como aumentar o volume da música ao máximo. A raiva é uma emoção que pode surgir quando nos sentimos frustrados, irritados ou contrariados. Estímulos inconscientes e conscientes: Na psicanálise, a mente é dividida em três partes: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente. O consciente é onde estamos cientes de nossos pensamentos e ações. O pré-consciente é onde pensamentos que não estão no momento presente podem ser trazidos à consciência. O inconsciente contém pensamentos e sentimentos que não estamos ...

Chicago P.D. como espelho psicossocial do fiscal de caixa psicólogo: identidade profissional, pertencimento, autoridade e reconhecimento no supermercado

  Introdução A série Chicago P.D. , produzida como drama policial, acompanha a Unidade de Inteligência do Departamento de Polícia de Chicago, responsável por investigações de crimes graves e liderada pelo sargento Hank Voight. A própria descrição institucional da série enfatiza a atuação coletiva da unidade, a busca pela justiça, a proteção da cidade e, simultaneamente, os conflitos produzidos pelas mudanças no sistema de justiça e pelas formas de liderança e atuação da equipe. Embora o universo policial esteja muito distante do cotidiano de um supermercado, a série pode ser utilizada como objeto cultural para uma leitura pela Psicologia Social e pela Psicologia das Organizações , especialmente quando se observa a relação entre indivíduo, grupo, papel profissional, autoridade, reconhecimento, hierarquia e instituição. Nesse sentido, Chicago P.D. torna-se um espelho simbólico particularmente interessante para compreender a experiência de um trabalhador que ocupa a função de f...

Estudo de Caso Clínico: O Luto do Ideal e a Ressonância Contratransferencial

  1. Viñeta Clínica e Histórico do Paciente Identificação: Marcelo (nome fictício), 32 anos, psicólogo de formação (graduado em 2018), atuando de forma autônoma como psicanalista em consultório particular.   Demanda e Queixa Secundária: Marcelo busca análise pessoal impulsionado por um quadro de esgotamento, angústia flutuante e sentimentos intensos de desamparo. Relata que, desde a sua graduação, tentou sucessivamente inserção em seleções públicas, clínicas conveniadas e instituições hospitalares, recebendo recusas sistemáticas. Mantém a prática clínica privada com poucos atendimentos, sentindo-se "invisível" social e financeiramente.   O Ponto de Inflexão (Gatilho Clínico): O estopim para a busca de sua própria análise ocorreu durante o manejo das sessões de um paciente recém-chegado, André, que atravessa o luto drástico pela morte repentina da figura materna. Marcelo relatou à sua analista: "Eu me pego paralisado nas sessões com o André. Quando ele ...

O esvaziamento libidinal do ego e o bloqueio do desejo sob a censura do superego: uma leitura psicanalítica a partir do caso do fiscal de caixa

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 Resumo O presente estudo propõe uma leitura psicanalítica sobre a perda do investimento libidinal no contexto do trabalho e da vocação, tomando como referência o caso de um fiscal de caixa que, após anos de dedicação, não encontra mais sentido em suas atividades laborais nem motivação para exercer a profissão de psicólogo. O fenômeno é analisado à luz das formulações de Freud e Lacan, com ênfase na relação entre o ego, o superego e o desejo, buscando compreender como o excesso de idealização e a censura superegóica podem conduzir ao esvaziamento libidinal, à inibição do desejo e à alienação subjetiva diante do princípio de prazer. 1. Introdução O caso em análise refere-se a um sujeito que, embora formado em Psicologia e movido inicialmente pelo desejo de ajudar pessoas a se libertarem de sofrimentos emocionais e vícios, encontra-se atualmente exercendo a função de fiscal de caixa em um supermercado . Com o ...

Não conseguiu construir caminho de sucesso: O Luto da Trajetória Profissional na Psicologia

  Introdução O término da graduação marca, para muitos profissionais, o ponto de partida de um projeto de vida focado na consolidação de uma carreira funcional, sustentável e reconhecida. No entanto, o percurso acadêmico e o esforço individual nem sempre garantem a inserção ou o êxito nos variados campos de atuação que a profissão promete. Entre o momento da formação, em 2018, e a maturidade profissional projetada para 2026, a vivência contínua de insucessos em múltiplos eixos pode conduzir o indivíduo a uma profunda reavaliação sobre a viabilidade de permanecer em determinada área. Quando todos os caminhos desenhados e executados culminam na ausência de retorno prático, o reconhecimento do encerramento de um ciclo e a elaboração do luto profissional emergem não como fraqueza, mas como um processo fundamental de reorganização existencial e ocupacional. A Articulação dos Caminhos Tentados (2018–2026) Ao longo de oito anos, foram empreendidos esforços deliberados em praticament...

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

Fases Da Sexualidade Na Escolha Da Carreira

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A teoria das fases da sexualidade, proposta por Sigmund Freud, inclui as seguintes fases: fase oral, fase anal, fase fálica, período de latência e fase genital. Cada fase está associada a diferentes aspectos do desenvolvimento psicossexual. Lembre-se de que essa teoria é apenas uma perspectiva e foi criticada por muitos estudiosos ao longo dos anos. Claro, vou explicar cada uma das fases da sexualidade de acordo com a abordagem da psicanálise de forma simplificada: Fase Oral: Na primeira fase, que ocorre durante os primeiros anos de vida, o foco está na boca. As crianças exploram o mundo principalmente através da boca, chupando objetos e experimentando tudo com a boca. A satisfação vem da alimentação e da sensação de conforto oral. Fase Anal: A fase anal acontece por volta dos 2 aos 3 anos de idade. Aqui, o foco se volta para o controle dos esfínctere...

Morte A Aposentar-se Como Operador Caixa

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Ego prefere literalmente a morte física somátizando sintomas emocionais que possa encaminhar a vontade e desejo de morrer dormindo a permanecer trabalhando como operador de caixa e se aposentar na profissão que gera angústia e não como psicólogo. O texto sugere uma situação emocionalmente desafiadora. Na abordagem da psicanálise, podemos analisá-lo da seguinte forma: Ego: O ego é a parte da mente que lida com a realidade e age como um mediador entre os desejos do id e os padrões morais do superego. No seu caso, o ego está enfrentando um conflito entre a vontade de continuar trabalhando como operador de caixa e o desejo de não viver mais, possivelmente devido à angústia gerada por essa profissão. Sintomas emocionais somáticos: Os sintomas emocionais somáticos ocorrem quando o corpo expressa o sofrimento emocional. Nesse contexto, os sintomas podem...