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Por que o campo da psicologia não responde?

 Compulsão à repetição, nomes legitimados e a ilusão de autorização institucional

Resumo

Este artigo analisa, à luz da psicanálise, o impasse vivido por psicólogos que, mesmo munidos de formação, experiência e saber clínico, não encontram resposta do campo institucional. Argumenta-se que tal silêncio não se explica apenas por fatores mercadológicos ou etários, mas pela repetição inconsciente de um modo específico de busca: a insistência em instituições já nomeadas, reconhecidas e validadas no inconsciente do sujeito como detentoras do poder de autorização. Essa repetição sustenta uma esperança ilusória de reconhecimento e impede a emergência de outras formas de laço com o campo. O texto articula compulsão à repetição, ideal do eu, reconhecimento simbólico e estrutura institucional.


1. Introdução: o silêncio do campo não é neutro

Quando o campo da psicologia não responde, a tendência imediata é interpretar o silêncio como rejeição pessoal, incompetência ou falha individual. Contudo, do ponto de vista psicanalítico, o silêncio do campo também pode ser lido como efeito de uma repetição estrutural do próprio sujeito em sua forma de demandar lugar.

O problema central não é apenas não ser escolhido, mas buscar sempre ser escolhido pelos mesmos lugares, mesmo quando esses lugares reiteradamente não respondem. Trata-se menos de azar ou exclusão e mais de uma fixação inconsciente a determinados nomes institucionais, investidos de valor simbólico desde a juventude.


2. A compulsão à repetição e o retorno ao mesmo lugar

Freud (1920), ao formular o conceito de compulsão à repetição, demonstra que o sujeito tende a reproduzir experiências que não trouxeram satisfação, como se nelas houvesse algo a ser finalmente resolvido. No campo do trabalho e das instituições, essa repetição se manifesta como insistência em um mesmo modelo de acesso, mesmo após repetidos fracassos.

No caso analisado, o psicólogo:

  • busca instituições conhecidas,
  • legitimadas socialmente,
  • organizadas por RH, processos seletivos e critérios competitivos,
  • que ocupam, em seu inconsciente, o lugar de Outro que autoriza.

Ainda que a experiência empírica demonstre a ineficácia desse caminho, o sujeito retorna a ele, sustentado pela fantasia de que “se for ali, será válido”. A repetição não ocorre por ignorância, mas porque o inconsciente reconhece esses nomes como portadores de valor simbólico.


3. Nomes legitimados e a fantasia de autorização

Lacan (1958-1960) aponta que o sujeito não deseja apenas ocupar um lugar, mas ser reconhecido pelo Outro. Certas instituições passam a encarnar esse Outro, funcionando como instâncias imaginárias de legitimação do eu profissional.

Esses “nomes conhecidos”:

  • carregam prestígio,
  • prometem pertencimento,
  • oferecem a ilusão de identidade consolidada.

Assim, não é qualquer instituição que interessa, mas aquela que confirma o ideal do eu. O problema é que essas estruturas, altamente fechadas, não operam pela singularidade do saber, mas pela lógica da equivalência, da escassez e da competição.

O silêncio dessas instituições não é pessoal:
é estrutural.


4. Esperança ou ilusão?

A esperança, quando articulada à realidade, permite abertura ao novo. Já a esperança sustentada pela compulsão à repetição torna-se expectativa ilusória. Ela mantém o sujeito preso a um circuito em que:

  • o campo não responde,
  • o sujeito insiste,
  • a angústia aumenta,
  • o desejo se esgota.

Winnicott (1965) destaca que a adaptação excessiva a um ambiente que não responde produz empobrecimento subjetivo. No contexto institucional, insistir em estruturas que não acolhem o saber singular transforma a esperança em forma de sofrimento.


5. Quando o campo responde fora do nome

O episódio em que o sujeito é contratado por um supermercado sem nome conhecido, fora do circuito simbólico previamente investido, revela um ponto crucial:
o campo respondeu quando ele saiu do lugar onde precisava ser reconhecido.

Isso demonstra que:

  • o acesso não ocorre necessariamente pelos lugares idealizados,
  • o reconhecimento pode emergir fora do mapa inconsciente original,
  • a autorização não vem apenas do nome, mas da função exercida no laço.

Esse mesmo mecanismo se repete na psicologia: o saber encontra lugar quando o sujeito se autoriza a existir fora do circuito da validação ideal.


6. O campo da psicologia não responde — ou responde de outra forma?

Dizer que o campo da psicologia não responde pode encobrir uma verdade mais incômoda:
ele não responde ao modo como o sujeito o interpela.

Enquanto a demanda for:

“Reconheça-me para que eu exista”

o campo, organizado por lógicas impessoais, tende ao silêncio.

Quando a posição muda para:

“Meu saber existe; se houver campo, será encontro”

o silêncio deixa de ser ferida e passa a ser dado da realidade.


7. Conclusão

O não-responder do campo não invalida o saber produzido. Ele evidencia os limites de um modelo de busca sustentado pela compulsão à repetição e pela fantasia de autorização via nomes legitimados. O trabalho psíquico necessário não é insistir mais, mas elaborar o luto do reconhecimento idealizado, permitindo que outras formas de laço — ou mesmo a ausência delas — não anulem a existência subjetiva do psicólogo.

Encerrar esse modo de busca não é desistência; é mudança de posição subjetiva.


Referências Bibliográficas

Freud, S. (1920/2010). Além do princípio do prazer. Obras Completas, v. 14. São Paulo: Companhia das Letras.

Freud, S. (1917/2010). Luto e melancolia. Obras Completas, v. 12. São Paulo: Companhia das Letras.

Lacan, J. (1958-1960/1999). O Seminário, Livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Lacan, J. (1966/1998). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

Winnicott, D. W. (1965/1983). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.

Enriquez, E. (1997). A organização em análise. Petrópolis: Vozes.

 

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