Psicanálise, desejo, função e travessia subjetiva entre sobrevivência e inscrição institucional
Introdução
Na experiência contemporânea do trabalho, não é raro
que o sujeito se encontre dividido entre a sobrevivência material e o desejo de
uma função simbólica que dê consistência à sua existência. A psicanálise
permite compreender que o sofrimento ligado ao trabalho não se reduz à
precariedade econômica, mas toca diretamente a questão do lugar subjetivo:
aquilo que nomeia o sujeito no laço social.
O caso aqui articulado é o de um sujeito que exerce
há anos a função de fiscal de caixa em um supermercado, mas cujo desejo se
orienta para uma inscrição como psicólogo institucional. Entretanto, esse lugar
desejado não se encontra acessível no presente, e a clínica exercida nas folgas
surge como um resto marginal e sacrificial. O sonho relatado — uma mensagem
sobre como atravessar o luto, sem nomear o objeto perdido — aparece como forma
privilegiada de expressão do inconsciente.
A tese central é: o sujeito está atravessando o
luto da forma antiga de existir profissionalmente, ou seja, o luto de uma
montagem subjetiva marcada pela divisão entre sobrevivência, sacrifício e
idealização.
1. O
luto como operação psíquica e não apenas como perda concreta
Freud define o luto como um processo psíquico
desencadeado pela perda de um objeto investido libidinalmente. Esse objeto pode
ser uma pessoa, mas também pode ser um ideal, uma posição ou uma função (Freud,
1917/2010).
No caso analisado, não se trata de uma perda
material evidente, mas de uma perda simbólica: o sujeito percebe que o lugar do
supermercado já não sustenta sua existência subjetiva.
O luto, portanto, não depende apenas da saída real
do emprego, mas do desinvestimento libidinal que já ocorreu:
o sujeito permanece no trabalho, mas já não se
reconhece nele.
Essa morte simbólica do lugar antecede a ruptura
concreta.
2.
Trabalho, função e identidade: o lugar no laço social
Na psicanálise, o trabalho não é apenas fonte de
renda: ele é um operador de inscrição social. O sujeito se constitui também a
partir do lugar que ocupa no discurso do Outro.
Lacan afirma que o sujeito é efeito do significante
e do laço simbólico (Lacan, 1966/1998). Assim, perder uma função não é apenas
perder um emprego: é perder um nome, um lugar de reconhecimento.
O sujeito aqui se encontra diante da impossibilidade
de sustentar a função de fiscal como identidade. O supermercado torna-se “morto
por dentro”, restando apenas como sobrevivência material.
3. A
clínica marginal como resto sacrificial e sintoma superegóico
O sujeito atende poucos clientes em sua folga
semanal. Essa prática, entretanto, não é vivida como inscrição plena, mas como
psicologia marginal, clandestina e sacrificial.
Freud mostra que o superego pode transformar o
desejo em obrigação cruel, exigindo sacrifício e punição (Freud, 1923/2011).
Nesse sentido, a clínica marginal corre o risco de se tornar penitência:
atender não como escolha, mas como pagamento de uma
falta.
A dívida bancária causada por um golpe intensifica
essa dimensão: a clínica passa a ser instrumento de reparação econômica e
moral, e não um lugar de desejo.
Assim, o luto necessário não é o luto da psicologia,
mas o luto da psicologia como resto superegóico.
4.
Desejo institucional e impossibilidade real: o intervalo entre morte e
nascimento
O desejo de ser psicólogo institucional permanece
vivo. Contudo, não há instituições acessíveis no presente e não há tempo físico
para construir uma inserção imediata.
Esse cenário produz um estado específico:
morte simbólica do lugar antigo sem nascimento
possível do novo lugar.
Winnicott descreve a importância dos espaços
transicionais, nos quais o sujeito atravessa um intervalo entre perda e criação
(Winnicott, 1971/1975). A clínica mínima pode funcionar como um objeto
transicional, impedindo o vazio total.
Mas o risco é que, sem inscrição real, o sujeito
caia numa suspensão melancólica.
5. Luto
e melancolia: o risco da identificação com a perda
Freud distingue luto e melancolia: no luto, o
sujeito sabe o que perdeu; na melancolia, a perda torna-se internalizada e o Eu
se identifica com ela (Freud, 1917/2010).
O sujeito aqui vive perdas contingentes — como a
saída de um cliente por motivo financeiro — que não dizem respeito ao valor do
analista, mas podem ser vividas como sentença subjetiva:
“se ele vai embora, acaba tudo”.
A tarefa do luto é separar contingência de destino,
perda parcial de anulação identitária.
6. O que
está indo embora: a forma antiga de existir profissionalmente
A pergunta central emergiu: “algo do seu lugar está
indo embora — o que será?”
Psicanaliticamente, não é um objeto misterioso, mas
a dissolução de uma montagem antiga:
- supermercado como
identidade eterna
- clínica como
suplemento sacrificial
- instituição como
ideal distante garantido
O que está indo embora é a possibilidade de
permanecer indefinidamente nessa divisão.
O sujeito não faz luto da psicologia, mas do modo
impossível de sustentá-la:
a psicologia como promessa adiada ou penitência.
Lacan nomeia esse ponto como travessia do fantasma:
queda das fantasias que sustentavam o sujeito em sua repetição (Lacan,
1964/1985).
Conclusão:
travessia ética do desejo
O sujeito encontra-se em luto porque a forma antiga
de existir profissionalmente morreu simbolicamente, enquanto o novo lugar ainda
não nasceu no real.
O trabalho de luto consiste em:
- desidentificar-se
do supermercado
- abandonar a
clínica como sacrifício
- sustentar o desejo
sem idealização imediata
- aceitar o tempo da
travessia
O luto não promete felicidade, mas permite verdade:
a separação entre desejo e fantasia.
Como fórmula final:
não é a psicologia que deve morrer, mas a forma
sacrificial e marginal de sustentá-la.
Referências
Bibliográficas
Freud, S. (1917/2010). Luto e Melancolia. In:
Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. São
Paulo: Companhia das Letras.
Freud, S. (1923/2011). O Eu e o Id. In: O
Eu e o Id, “Autobiografia” e outros textos. São Paulo: Companhia das
Letras.
Lacan, J. (1964/1985). O Seminário, Livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1966/1998). Escritos. Rio de
Janeiro: Zahar.
Winnicott, D. W. (1971/1975). O Brincar e a
Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
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