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Deixa Eu Viver Minha Vida

 Uma leitura psicanalítica sobre formação, desejo e o impasse de existir como aquilo que se tornou


Resumo

Este artigo analisa, sob a perspectiva da psicanálise, o caso de um sujeito que, após graduar-se em Psicologia, não exerce a profissão e atua como fiscal de caixa em um supermercado. A partir dos referenciais de Sigmund Freud e Jacques Lacan, discutem-se os conceitos de desejo inconsciente, sintoma, superego, identificação e autorização subjetiva. Argumenta-se que o afastamento da prática profissional não constitui mero fracasso adaptativo, mas expressão de um conflito psíquico estruturante. O trabalho propõe que “viver a própria vida” implica um ato de autorização diante do desejo, e não apenas adequação a um percurso formativo.


1. Introdução

“Deixa eu viver minha vida” não é apenas um apelo emocional; é uma formulação que condensa um impasse estrutural do sujeito moderno: a distância entre o que se escolhe conscientemente e o que se sustenta inconscientemente como desejo.

O caso em análise evidencia essa tensão. Um indivíduo investe cinco anos em formação universitária em Psicologia, adquire um saber técnico e um título profissional, mas não ocupa o lugar simbólico correspondente. Em vez disso, exerce uma função operacional como fiscal de caixa — posição que, à primeira vista, parece desconectada de sua trajetória acadêmica.

A psicanálise permite deslocar a pergunta de “por que ele não trabalha como psicólogo?” para uma questão mais rigorosa:
o que, no nível do desejo, impede que ele sustente essa posição?


2. Formação não garante posição subjetiva

Freud já indicava que o eu não é senhor em sua própria casa (Freud, 1917/2014). Isso implica que decisões conscientes — como a escolha de uma profissão — não esgotam as determinações do sujeito.

A formação universitária pode estar sustentada por:

  • ideais familiares,
  • identificações com figuras de autoridade,
  • fantasias de reconhecimento social.

Contudo, tais elementos não asseguram a inscrição do sujeito no campo do desejo. Como desenvolve Lacan, o desejo não coincide com a demanda consciente; ele é estruturado a partir da falta e da relação com o Outro (Lacan, 1960/1998).

Assim, o diploma representa uma conquista simbólica, mas não garante a sustentação do lugar de psicólogo enquanto posição subjetiva.


3. O sintoma como solução: o trabalho fora da área

Na psicanálise, o sintoma não é apenas um problema — é também uma solução.

O fato de o sujeito trabalhar como fiscal de caixa pode ser interpretado como uma formação de compromisso que resolve, ainda que de forma precária, conflitos inconscientes.

3.1 Evitação da angústia

Exercer a clínica psicológica implica:

  • confrontar o sofrimento do outro,
  • sustentar a escuta,
  • lidar com a incerteza e a responsabilidade subjetiva.

Esses elementos mobilizam angústia. O trabalho operacional, por sua vez, oferece:

  • previsibilidade,
  • regras claras,
  • menor exposição subjetiva.

O sintoma, portanto, protege o sujeito de um encontro com o real que ele não consegue sustentar.


3.2 Superego e punição inconsciente

Freud (1923/2011) descreve o superego como uma instância que não apenas regula, mas também pune o sujeito.

Nesse caso, pode haver uma dinâmica inconsciente marcada por enunciados como:

  • “você não é capaz”,
  • “você não merece esse lugar”.

A não realização profissional aparece, então, como uma forma de autopunição.


3.3 Conflito com o sucesso

Paradoxalmente, o fracasso pode funcionar como defesa contra o sucesso.

Assumir o lugar de psicólogo implica:

  • visibilidade,
  • responsabilidade,
  • reconhecimento simbólico.

Esses elementos podem ser vividos como ameaçadores, sobretudo quando associados a fantasias inconscientes de perda, culpa ou rivalidade (Freud, 1914/2012).


4. A falha na inscrição simbólica: “ser psicólogo”

Para Lacan, não basta ter um título; é necessário ocupar uma posição no campo simbólico.

O sujeito em questão:

  • possui formação,
  • mas não se reconhece como psicólogo.

Isso indica uma falha na autorização subjetiva. Lacan formula que o analista (e, por extensão, qualquer posição simbólica) “se autoriza de si mesmo” (Lacan, 1967/2003).

Sem esse ato, o sujeito permanece à margem de sua própria formação.


5. O não saber viver: impasse do ato

O discurso “não sei como viver como psicólogo” revela uma clivagem entre:

  • saber teórico,
  • saber-fazer (ato).

Na psicanálise, o ato não decorre automaticamente do conhecimento. Ele exige uma decisão que implica risco e perda.

A ausência desse ato mantém o sujeito em uma posição de suspensão, onde o potencial não se realiza.


6. Desejo e gozo: por que permanecer no impasse?

Freud (1920/2010) introduz a noção de repetição para além do princípio do prazer. Lacan, posteriormente, articula essa dimensão ao conceito de gozo.

O sujeito sofre por não exercer sua profissão, mas permanece na situação.

Isso indica a presença de um ganho secundário:

  • evitar fracasso,
  • evitar julgamento,
  • manter estabilidade,
  • preservar-se da angústia.

O sintoma, portanto, não é abandonado facilmente, pois cumpre uma função psíquica.


7. “Deixa eu viver minha vida”: o ato de autorização

A expressão que intitula este artigo pode ser reinterpretada não como uma reivindicação dirigida ao outro, mas como uma exigência dirigida a si mesmo.

Viver a própria vida, na perspectiva psicanalítica, implica:

  • reconhecer o próprio desejo,
  • separar-se das expectativas do Outro,
  • sustentar uma posição, mesmo diante da angústia.

Esse movimento não é adaptativo, mas ético. Trata-se de um ato que inaugura uma nova posição subjetiva.


8. Considerações finais

O caso analisado demonstra que o afastamento da prática profissional não pode ser reduzido a fatores externos ou falhas individuais simples.

Ele expressa:

  • um conflito entre desejo e identificação,
  • a ação do superego,
  • a função protetiva do sintoma,
  • a ausência de um ato de autorização.

A psicanálise não propõe uma solução normativa, mas aponta para a necessidade de elaboração subjetiva. Tornar-se aquilo que se é, nesse contexto, exige mais do que formação: exige a travessia do próprio desejo.


Referências Bibliográficas

Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer. São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1920)

Freud, S. (2011). O ego e o id. São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1923)

Freud, S. (2012). Introdução ao narcisismo. São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1914)

Freud, S. (2014). Conferências introdutórias à psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras. (Original publicado em 1917)

Lacan, J. (1998). Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original publicado em 1960)

Lacan, J. (2003). Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar. (Trabalho original publicado em 1967)

 

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