Resumo
Este
artigo analisa, à luz da psicanálise, a permanência de um sujeito em um
contexto laboral exaustivo e insustentável. A partir das contribuições de
Freud, Winnicott e Lacan, discute-se como a compulsão à repetição, a ორგანიზação do falso self e a dimensão do gozo sustentam a
manutenção do sofrimento, mesmo diante da consciência de seus efeitos
devastadores.
1. Introdução
A
frase “não dá mais” marca um ponto de ruptura. No entanto, paradoxalmente, nem
sempre ela conduz à saída. Em muitos casos, o sujeito permanece exatamente onde
já reconheceu ser insuportável.
O caso
do fiscal psicólogo ilustra essa condição: jornadas extensas, sobrecarga
física, privação de sono e ausência de perspectiva de mudança. Ainda assim, há
permanência.
A
psicanálise permite compreender que essa permanência não é simplesmente
racional — ela é estruturada.
2. A compulsão à repetição
Segundo
Sigmund Freud (1920/2010), o sujeito é levado a repetir experiências que não
foram simbolizadas.
A
repetição do sofrimento no trabalho indica:
- não elaboração de
experiências anteriores de desamparo
- tentativa
inconsciente de dominar o traumático
O
trabalho deixa de ser apenas uma atividade econômica e passa a funcionar como
um dispositivo de repetição psíquica.
3. Falso self e esvaziamento
subjetivo
Para
Donald Winnicott (1960/1983), o falso self emerge como uma organização
defensiva que permite ao sujeito adaptar-se às exigências do ambiente, ao custo
da perda de autenticidade.
No
cenário descrito:
- o sujeito
funciona, mas não vive
- trabalha, mas não
se reconhece
- sustenta uma
rotina que o esvazia
O
desejo de atuar como psicólogo permanece, mas encontra-se dissociado da
realidade vivida.
4. Gozo e fixação no sofrimento
Jacques
Lacan (1969-1970/1992) propõe que o sujeito pode se fixar em posições de
sofrimento devido à dimensão do gozo.
A
permanência no trabalho exaustivo pode estar vinculada a:
- uma identificação
com o sacrifício
- uma culpa
inconsciente ao desejar mudança
- uma dificuldade
estrutural de deslocamento subjetivo
O
sofrimento, nesse sentido, não é apenas evitado — ele é, paradoxalmente,
sustentado.
5. O corpo como limite do
psiquismo
A
exaustão física, a privação de sono e o desgaste corporal indicam que o corpo
tornou-se o lugar onde o conflito psíquico se inscreve.
Quando
o sujeito não consegue simbolizar ou transformar sua realidade, o corpo passa a
responder:
- cansaço extremo
- queda de
desempenho
- sensação de
colapso iminente
O
corpo diz aquilo que o sujeito não consegue mais sustentar psiquicamente.
6. Considerações finais
“Não
dá mais” não é apenas um desabafo — é um enunciado clínico.
Ele
indica:
- o esgotamento do
falso self
- o limite da
repetição
- a emergência de
uma verdade subjetiva
No
entanto, reconhecer o limite não garante, por si só, a saída. A travessia exige
elaboração psíquica, reposicionamento subjetivo e, muitas vezes, suporte
clínico.
Sem
isso, o sujeito corre o risco de continuar — mesmo sabendo que não dá mais.
Referências
- Freud, S.
(1920/2010). Além do princípio do prazer.
- Winnicott, D. W.
(1960/1983). O ego e o falso self.
- Winnicott, D. W.
(1965/1983). O ambiente e os processos de maturação.
- Lacan, J.
(1969-1970/1992). O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise.
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