Permanência no Sofrimento na Função de Fiscal de Caixa: Uma Leitura Psicanalítica da Compulsão à Repetição e do Laço com o Trabalho
Resumo
Este artigo propõe uma análise psicanalítica da
permanência de um sujeito em uma função laboral marcada por sofrimento,
especificamente na posição de fiscal de caixa em um supermercado. A partir dos
conceitos de compulsão à repetição, supereu, identificação e gozo, discute-se
como fatores subjetivos se articulam com elementos sociais, como o etarismo,
sem reduzi-los a causalidades lineares. Argumenta-se que a manutenção no
sofrimento não se explica apenas por condições externas, mas por uma economia
psíquica que sustenta a repetição.
1.
Introdução
A permanência em contextos de trabalho
exploratórios, mesmo quando reconhecidos como tais pelo próprio sujeito, coloca
em evidência uma questão central para a psicanálise: por que alguém permanece
onde sofre?
No caso do fiscal de caixa, observa-se um paradoxo:
há consciência da exploração e do desgaste, mas simultaneamente uma dificuldade
de desligamento. Essa situação convida a uma leitura que ultrapassa
determinismos sociais e investiga os mecanismos inconscientes implicados nessa
fixação.
2.
Compulsão à repetição e além do princípio do prazer
Segundo Sigmund Freud (1920/2010), em Além do
Princípio do Prazer, o sujeito não se orienta exclusivamente pela busca de
prazer e evitação do desprazer. Há uma tendência à repetição de experiências,
inclusive dolorosas, que escapam à lógica hedonista.
No contexto analisado, a permanência no trabalho
pode ser compreendida como:
- uma repetição de
posições subjetivas anteriores,
- uma tentativa de
domínio de experiências passadas não elaboradas,
- ou a manutenção de
um circuito psíquico já estruturado.
Assim, o sofrimento deixa de ser apenas um efeito
colateral e passa a ser parte integrante da economia psíquica do sujeito.
3.
Identificação e gozo no sofrimento
Na releitura lacaniana, o sofrimento pode estar
articulado ao conceito de gozo. Para Jacques Lacan (1969-1970/1992), o sujeito
pode se fixar em posições que lhe causam dor, mas que sustentam uma forma de
satisfação inconsciente.
Nesse sentido, o fiscal de caixa pode estar
identificado a uma posição de:
- exploração,
- sacrifício,
- resistência
silenciosa.
Essa identificação produz um efeito paradoxal: o
sujeito se queixa da situação, mas sua saída implicaria uma ruptura com essa
identidade.
4.
Supereu e manutenção do sofrimento
O supereu desempenha papel central na manutenção do
sintoma. Longe de ser apenas uma instância moralizadora, ele pode assumir uma
função cruel, exigindo do sujeito mais sofrimento e renúncia.
Freud (1923/2011), em O Ego e o Id, descreve
o supereu como uma instância que pode operar de forma tirânica. No caso
analisado, isso pode se manifestar como:
- impossibilidade de
se autorizar a buscar melhores condições,
- sentimento
inconsciente de culpa ao desejar sair,
- imperativo de
suportar e permanecer.
5. O
etarismo: entre realidade social e uso psíquico
O etarismo, entendido como discriminação por idade,
constitui um fator social relevante que pode impactar trajetórias
profissionais. Ele pode limitar oportunidades e afetar a autoestima do
trabalhador.
No entanto, do ponto de vista psicanalítico, é
fundamental distinguir:
- o etarismo
enquanto realidade objetiva,
- e o etarismo
enquanto discurso internalizado ou utilizado defensivamente.
Quando o sujeito afirma que “em qualquer lugar será
igual”, pode estar:
- expressando uma
percepção real do mercado,
- ou operando uma
racionalização que encobre a angústia diante da mudança.
Assim, o etarismo pode ser incorporado ao discurso
superegóico ou funcionar como justificativa para a manutenção do sintoma.
6.
Angústia, desconhecido e fixação
A saída da posição atual implica enfrentar o
desconhecido, o que convoca a angústia. Para a psicanálise, a angústia está
relacionada à perda de referências e à confrontação com a falta.
Nesse contexto, permanecer no sofrimento pode ser
menos ameaçador do que:
- arriscar-se a uma
nova posição,
- questionar a
própria identidade,
- ou enfrentar a
possibilidade de fracasso.
O sofrimento conhecido, portanto, funciona como um
ponto de estabilidade psíquica.
7.
Considerações clínicas
A intervenção clínica não deve se orientar por
aconselhamentos diretos, como “trocar de emprego”, mas por uma escuta que
permita ao sujeito:
- reconhecer o que
se repete em sua trajetória,
- identificar os
ganhos inconscientes da permanência,
- questionar as
certezas que sustentam sua imobilidade.
Trata-se de deslocar o sujeito de uma posição de
determinação externa para uma implicação subjetiva em seu próprio sofrimento.
8.
Conclusão
A permanência no sofrimento na função de fiscal de
caixa não pode ser reduzida a fatores como exploração laboral ou etarismo,
embora estes sejam relevantes. A psicanálise evidencia que há uma lógica
inconsciente que sustenta essa fixação, articulando repetição, identificação e
gozo.
Compreender essa dinâmica permite uma abordagem mais
rigorosa, que não elimina o social, mas também não abdica da dimensão
subjetiva. É nessa tensão entre o externo e o interno que se constrói a
possibilidade de deslocamento.
Referências
Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer
(1920). São Paulo: Companhia das Letras.
Freud, S. (2011). O ego e o id (1923). São
Paulo: Companhia das Letras.
Lacan, J. (1992). O seminário, livro 17: O avesso
da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Zahar.
Dejours, C. (1992). A loucura do trabalho: estudo
de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez.
Enriquez, E. (1997). A organização em análise.
Petrópolis: Vozes.
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