A Reinscrição Compulsiva no Trabalho de Supermercado e a Possibilidade de Ruptura: uma análise psicossocial, psicanalítica e crítica do cotidiano laboral
Resumo
O presente artigo analisa o
fenômeno da reinscrição compulsiva no trabalho cotidiano, tomando como
referência o contexto de um psicólogo inserido na função de fiscal de caixa em
supermercado. A investigação articula conceitos da psicanálise, psicologia social
e teorias críticas do trabalho contemporâneo, destacando a compulsão à
repetição, a alienação no campo do Outro e a internalização da lógica
neoliberal. Parte-se da hipótese de que a permanência no trabalho, mesmo sob
sofrimento psíquico, é sustentada por mecanismos subjetivos e estruturais que
capturam o sujeito em um ciclo de reinscrição diária. Conclui-se que a ruptura
desse ciclo não se reduz a uma decisão individual, mas exige uma reorganização
subjetiva e condições materiais que permitam a emergência do desejo.
Palavras-chave:
compulsão à repetição; trabalho; subjetividade; neoliberalismo; sofrimento
psíquico.
1. Introdução
O cotidiano laboral contemporâneo,
especialmente em contextos operacionais como o varejo supermercadista, revela
formas específicas de sofrimento psíquico marcadas pela repetição e pela
adaptação forçada. O sujeito, mesmo consciente de seu esgotamento, retorna
diariamente ao mesmo lugar, reinscrevendo-se em uma função que já não sustenta
sua identidade.
Esse movimento não é aleatório. Ele
se estrutura como um circuito: entrar, sustentar o papel, desligar-se
emocionalmente e retornar no dia seguinte. Trata-se de uma repetição que
ultrapassa o comportamento e atinge o nível da estrutura subjetiva.
2. A reinscrição compulsiva como repetição
psíquica
A noção de compulsão à repetição,
formulada por Sigmund Freud, oferece um eixo central de compreensão. Segundo o
autor:
“O sujeito tende a repetir
experiências, mesmo dolorosas, como forma de tentar dominá-las” (FREUD,
1920/1921, p. 34).
No contexto do trabalho, essa
repetição assume uma forma particular: o sujeito retorna não porque deseja, mas
porque está estruturado em torno dessa repetição.
A reinscrição diária no
supermercado pode ser compreendida, portanto, como:
- tentativa de manter estabilidade
- esforço de domínio sobre o sofrimento
- manutenção de um lugar no laço social
3. O campo do Outro e a captura do sujeito
A repetição não ocorre no vazio,
mas no campo do Outro. Conforme Jacques Lacan:
“O desejo do homem é o desejo do
Outro” (1998, p. 203).
O sujeito se reinscreve porque há
um Outro que o espera:
- clientes que demandam atendimento
- instituição que exige desempenho
- sociedade que valoriza produtividade
Essa captura simbólica sustenta a
permanência. Sair não implica apenas abandonar um trabalho, mas perder um lugar
de reconhecimento.
4. O falso self e a adaptação funcional
A permanência no ciclo de
reinscrição exige a construção de uma camada adaptativa. Segundo Donald
Winnicott:
“O falso self organiza uma
adaptação às exigências do ambiente, ocultando o verdadeiro self” (1960, p.
145).
No caso analisado:
- o sujeito funciona
- atende expectativas
- regula emoções
Mas internamente encontra-se
esvaziado. A repetição passa a ser sustentada por esse falso self.
5. A dimensão estrutural: precarização e
neoliberalismo
A compulsão à repetição não pode
ser compreendida apenas como fenômeno intrapsíquico. Ela é intensificada por
condições materiais.
Dados do mercado de trabalho
brasileiro indicam:
- alta informalidade (IBGE, 2023)
- elevada rotatividade no varejo
- crescimento de afastamentos por transtornos
mentais (BRASIL, 2022)
Nesse cenário, a permanência no
trabalho torna-se uma estratégia de sobrevivência.
Além disso, conforme Pierre Dardot
e Christian Laval:
“O indivíduo é levado a se
comportar como uma empresa de si mesmo” (2016, p. 328).
O sujeito passa a sustentar sua
própria exploração.
6. O cansaço e o esgotamento como produto da
repetição
A repetição contínua produz
desgaste. Segundo Byung-Chul Han:
“O sujeito do desempenho explora a
si mesmo até o esgotamento” (2017, p. 25).
O psicólogo no supermercado encarna
essa lógica:
- compreende o sistema
- sustenta o funcionamento
- permanece esgotado
7. A possibilidade de ruptura da reinscrição
A ruptura desse ciclo não ocorre
por simples decisão racional. Ela exige deslocamentos em três níveis:
7.1 Ruptura simbólica
Deixar de se identificar
integralmente com o papel exercido.
7.2 Ruptura subjetiva
Reconhecer a diferença entre:
- desejo próprio
- demanda do Outro
7.3 Ruptura prática
Construir condições reais de saída:
- novas inserções profissionais
- reorganização financeira
- redes de apoio
Nesse sentido, a ruptura é um
processo, não um evento.
8. Paradoxo central: saber não basta
O caso analisado evidencia um ponto
crucial: o sujeito sabe, mas não consegue sair.
Como afirma Sigmund Freud:
“O eu não é senhor em sua própria
casa” (1921, p. 67).
A lucidez não elimina a repetição —
apenas a torna consciente.
9. Considerações finais
A reinscrição compulsiva no
trabalho cotidiano deve ser compreendida como fenômeno multideterminado, que
articula:
- compulsão psíquica à repetição
- captura no campo do Outro
- adaptação via falso self
- precarização estrutural
- racionalidade neoliberal
A ruptura desse ciclo exige mais do
que vontade: implica reconstrução subjetiva e transformação das condições
materiais.
O psicólogo que retorna todos os
dias ao supermercado não está apenas repetindo um comportamento — ele está
sustentando uma posição em uma estrutura que, ao mesmo tempo, o mantém e o
esgota.
Referências (ABNT)
BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde
mental e trabalho no Brasil. Brasília: MS, 2022.
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A
nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo:
Boitempo, 2016.
DEJOURS, Christophe. A loucura
do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
FREUD, Sigmund. Além do
princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1920.
FREUD, Sigmund. Psicologia das
massas e análise do eu. Rio de Janeiro: Imago, 1921.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do
cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
IBGE. PNAD Contínua: mercado de
trabalho brasileiro. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.
LACAN, Jacques. Escritos.
Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
WINNICOTT, Donald Woods. O
ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
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