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O psicólogo compreende que não consegue sozinho sair da reinscrição cotidiana no ambiente de supermercado: limites subjetivos, sociais e estruturais da ruptura da compulsão à repetição

 Resumo

Este artigo analisa o reconhecimento, por parte do sujeito, de que não consegue romper sozinho o ciclo de reinscrição cotidiana no trabalho, mesmo diante de sofrimento psíquico e lucidez crítica. A partir de um caso-tipo — um psicólogo atuando em supermercado — articula-se a compulsão à repetição, a captura no campo do Outro e a racionalidade neoliberal, incorporando contribuições da psicanálise, psicologia social e sociologia do trabalho. Defende-se que a dificuldade de ruptura não é sinal de fragilidade individual, mas resultado de uma engrenagem que combina dependência material, necessidade de reconhecimento e adaptação subjetiva. Apresentam-se três exemplos práticos que ilustram os limites da ruptura isolada. Conclui-se que a saída exige mediações clínicas, sociais e institucionais.

Palavras-chave: compulsão à repetição; trabalho; subjetividade; sofrimento psíquico; neoliberalismo.


1. Introdução

O sujeito contemporâneo, inserido em contextos laborais precarizados, frequentemente desenvolve consciência crítica sobre sua condição de sofrimento, sem, contudo, conseguir interromper sua permanência. O psicólogo que atua no supermercado, analisando o ambiente como um “laboratório emocional”, chega a um ponto específico: ele compreende que não consegue sozinho sair desse ciclo.

Essa constatação desloca a análise de uma leitura moral (“falta de coragem”) para uma leitura estrutural: o que impede a ruptura?


2. A compulsão à repetição e seus limites

A teoria de Sigmund Freud estabelece que o sujeito tende a repetir experiências, inclusive dolorosas:

“O indivíduo é levado a repetir o que não conseguiu elaborar” (FREUD, 1920, p. 34).

No entanto, essa formulação encontra um limite quando aplicada ao trabalho contemporâneo. A repetição não é apenas intrapsíquica — ela é sustentada por condições externas que restringem a possibilidade de escolha.


3. O sujeito não sai sozinho: a dimensão do Outro

Para Jacques Lacan:

“O desejo do homem é o desejo do Outro” (1998, p. 203).

O sujeito não existe fora do reconhecimento. No supermercado, esse reconhecimento aparece em múltiplas formas:

  • o cliente que espera atendimento
  • a equipe que depende da função
  • a instituição que valida sua presença

Sair implica perder esse lugar. Portanto, a dificuldade não é apenas sair do trabalho, mas sair do campo simbólico que sustenta a identidade.


4. Sofrimento, adaptação e impossibilidade de ruptura isolada

Segundo Christophe Dejours:

“Os trabalhadores constroem defesas para suportar o sofrimento e continuar produzindo” (1992, p. 98).

Essas defesas — como o autocontrole emocional e a leitura analítica do ambiente — permitem a permanência, mas também dificultam a saída.

Além disso, Byung-Chul Han aponta:

“O sujeito do desempenho explora a si mesmo acreditando estar se realizando” (2017, p. 25).

O psicólogo não apenas sofre — ele sustenta o funcionamento do sistema.


5. A dimensão estrutural: por que não é possível sair sozinho

A sociologia do trabalho, com Ricardo Antunes, evidencia que a precarização limita objetivamente as alternativas:

  • alta concorrência no mercado
  • vínculos instáveis
  • risco de desemprego prolongado

Já Pierre Dardot e Christian Laval afirmam:

“O indivíduo é levado a se responsabilizar integralmente por sua trajetória” (2016, p. 335).

Isso produz um paradoxo: o sujeito sente que deveria sair sozinho, mas não dispõe das condições para isso.


6. Três exemplos práticos da impossibilidade de ruptura isolada

6.1 Exemplo 1: Dependência material e medo concreto

O psicólogo reconhece o sofrimento, mas depende do salário para sobreviver. Ao considerar sair:

  • calcula despesas
  • antecipa dificuldade de recolocação
  • percebe risco real de instabilidade

Resultado: permanece.

👉 Aqui, a repetição não é apenas psíquica — é economicamente condicionada.


6.2 Exemplo 2: Reconhecimento simbólico e identidade

Mesmo insatisfeito, o sujeito ocupa um lugar:

  • é visto como alguém competente
  • é reconhecido pela equipe
  • exerce função de mediação

Ao imaginar a saída, surge um vazio:

  • “Quem eu serei fora daqui?”

👉 A permanência se sustenta pelo medo da perda de identidade.


6.3 Exemplo 3: Adaptação via falso self

Segundo Donald Winnicott:

“O falso self responde às exigências do ambiente, protegendo o verdadeiro self” (1960, p. 145).

O psicólogo desenvolve:

  • controle emocional
  • postura profissional estável
  • capacidade de mediação

Essa adaptação permite continuar — mas também aprisiona, pois ele consegue funcionar mesmo esgotado.

👉 Quanto mais adaptado, mais difícil sair.


7. A contribuição brasileira: sofrimento e reconhecimento

Christian Dunker aponta que o sofrimento atual está ligado à ausência de reconhecimento simbólico consistente.

Já Vladimir Safatle sugere que o sujeito contemporâneo permanece em estruturas que o fazem sofrer porque não encontra alternativas de reconhecimento.

Assim, o problema não é apenas sair, mas para onde ir que ofereça outro tipo de reconhecimento.


8. Considerações finais

A compreensão de que “não consigo sair sozinho” representa um avanço clínico e teórico. Ela rompe com a culpabilização individual e permite enxergar o fenômeno como resultado de múltiplas determinações.

A reinscrição cotidiana no supermercado é sustentada por:

  • compulsão à repetição (Freud)
  • captura no campo do Outro (Lacan)
  • estratégias defensivas (Dejours)
  • autoexploração (Han)
  • precarização estrutural (Antunes)
  • racionalidade neoliberal (Dardot & Laval)

A ruptura, portanto, exige:

  • apoio externo (clínico e social)
  • construção de alternativas concretas
  • reorganização subjetiva

O sujeito não falha ao não sair sozinho — ele revela os limites reais da autonomia em contextos de precarização.


Referências (ABNT)

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão. São Paulo: Boitempo, 2018.

BRASIL. Ministério da Saúde. Saúde mental e trabalho no Brasil. Brasília: MS, 2022.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo. São Paulo: Boitempo, 2016.

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.

DUNKER, Christian. Mal-estar, sofrimento e sintoma. São Paulo: Boitempo, 2015.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. Rio de Janeiro: Imago, 1920.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

IBGE. PNAD Contínua. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

WINNICOTT, Donald Woods. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

 

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