O Psicólogo que se inscreve todos os dias no ambiente de supermercado: precarização, neoliberalismo e a captura da subjetividade no trabalho contemporâneo
Resumo
Este artigo aprofunda a análise da
reinscrição subjetiva cotidiana no trabalho a partir da articulação entre
psicologia social, psicanálise e teorias contemporâneas sobre neoliberalismo e
precarização. A partir de um caso-tipo — um psicólogo atuando como fiscal de
caixa — investiga-se como a permanência em um lugar de sofrimento se sustenta
não apenas por fatores intrapsíquicos, mas por dispositivos sociais que
capturam o sujeito em uma lógica de desempenho e adaptação contínua. O
referencial teórico inclui autores clássicos como Christophe Dejours, Jacques
Lacan e Donald Winnicott, articulados com pensadores contemporâneos como
Byung-Chul Han, Richard Sennett e Pierre Dardot. Conclui-se que a reinscrição
cotidiana é efeito de uma racionalidade neoliberal que transforma o sujeito em
gestor de si, intensificando o sofrimento psíquico.
Palavras-chave:
neoliberalismo; subjetividade; trabalho; precarização; sofrimento psíquico.
1. Introdução
As transformações no mundo do
trabalho nas últimas décadas produziram novas formas de sofrimento psíquico,
marcadas pela internalização das exigências de desempenho e pela
responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso profissional.
O sujeito contemporâneo não apenas
trabalha: ele se produz continuamente como trabalhador, reinscrevendo-se
cotidianamente em papéis que garantam sua permanência no laço social.
2. Problema, hipótese e objetivos
2.1 Problema de pesquisa
Como a racionalidade neoliberal e a
precarização do trabalho contribuem para a manutenção da reinscrição subjetiva
em contextos de sofrimento psíquico?
2.2 Hipótese
A hipótese central é que o sujeito
permanece no ciclo de reinscrição não apenas por alienação simbólica, mas
porque internaliza a lógica neoliberal de autogestão, tornando-se responsável
por sustentar seu próprio lugar de exploração.
2.3 Objetivo geral
Analisar a reinscrição subjetiva no
trabalho a partir da articulação entre psicanálise, psicologia social e teorias
contemporâneas do neoliberalismo.
2.4 Objetivos específicos
- Investigar a relação entre precarização e
sofrimento psíquico
- Analisar a internalização da lógica de
desempenho
- Compreender o papel da autogestão na manutenção
do sofrimento
- Discutir os limites da ruptura subjetiva no
neoliberalismo
3. Referencial teórico ampliado
3.1 Psicodinâmica do trabalho e sofrimento
Segundo Christophe Dejours (1992,
p. 34):
“O trabalho nunca é neutro em
relação à saúde mental.”
3.2 O sujeito no campo do Outro
Para Jacques Lacan (1998, p. 203):
“O desejo do homem é o desejo do
Outro.”
3.3 Neoliberalismo e subjetividade
De acordo com Pierre Dardot e
Christian Laval (2016, p. 322):
“O neoliberalismo não é apenas uma
ideologia ou política econômica, mas uma racionalidade que tende a estruturar e
organizar a ação dos governantes e a conduta dos governados.”
Essa formulação é central: o
sujeito passa a se autogerir como uma empresa.
3.4 Sociedade do cansaço
Segundo Byung-Chul Han (2017, p.
25):
“A sociedade do desempenho produz
sujeitos exaustos e deprimidos, que exploram a si mesmos acreditando estar se
realizando.”
3.5 Corrosão do caráter
Para Richard Sennett (2006, p. 27):
“O capitalismo flexível corrói o
caráter ao desestruturar narrativas de longo prazo, impedindo que o indivíduo
construa uma identidade coerente.”
4. Metodologia
Pesquisa qualitativa de natureza
teórica, baseada em revisão bibliográfica e análise interpretativa de
caso-tipo, articulando diferentes matrizes teóricas.
5. Análise e discussão
5.1 A reinscrição como autogestão neoliberal
O sujeito não apenas ocupa um lugar
— ele o reproduz ativamente. A reinscrição diária torna-se um ato de
autogestão.
Nesse sentido:
“O indivíduo neoliberal é um
empresário de si mesmo” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 328).
O psicólogo no supermercado não
está apenas preso — ele também sustenta a estrutura que o captura.
5.2 O esgotamento como efeito estrutural
O cansaço relatado não é
contingente, mas estrutural:
“O excesso de positividade leva ao
colapso psíquico” (HAN, 2017, p. 30).
A exigência de ser sempre calmo,
produtivo e emocionalmente regulado intensifica o desgaste.
5.3 Falso self em contexto neoliberal
A teoria de Donald Winnicott ganha
nova dimensão: o falso self deixa de ser apenas defesa individual e passa a ser
exigência social.
O sujeito precisa funcionar —
independentemente de sua condição interna.
5.4 Citação direta longa (ABNT)
A internalização da lógica
neoliberal pode ser sintetizada da seguinte forma:
“A norma neoliberal impõe a cada
indivíduo que se constitua como sujeito econômico ativo, responsável por
maximizar seu capital humano, adaptando-se continuamente às exigências do
mercado” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 335).
5.5 O paradoxo da lucidez no neoliberalismo
Diferentemente de contextos
anteriores, o sujeito contemporâneo frequentemente sabe que está sendo
explorado, mas continua.
Isso ocorre porque:
- a responsabilidade foi individualizada
- a falha é percebida como pessoal
- a saída implica risco elevado
6. Considerações finais
A reinscrição subjetiva cotidiana
no trabalho, em contextos precarizados, deve ser compreendida como efeito de
uma racionalidade mais ampla, que ultrapassa o indivíduo.
O psicólogo que permanece no
supermercado não está apenas preso a uma função, mas a um modelo de
subjetivação que:
- exige desempenho constante
- captura o desejo
- transforma sofrimento em responsabilidade
individual
A ruptura, portanto, não é apenas
ocupacional, mas política e subjetiva.
Referências (Normas ABNT)
DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A
nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo:
Boitempo, 2016.
DEJOURS, Christophe. A loucura
do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.
FREUD, Sigmund. Psicologia das
massas e análise do eu. Rio de Janeiro: Imago, 1921.
GOFFMAN, Erving. A representação
do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2002.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do
cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
LACAN, Jacques. Escritos.
Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
SENNETT, Richard. A corrosão do
caráter. Rio de Janeiro: Record, 2006.
WINNICOTT, Donald Woods. O
ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.
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