Resumo
Este artigo examina o percurso subjetivo de um
psicólogo que, após anos de repetição infrutífera na busca por inserção
institucional segundo modelos tradicionais de reconhecimento, realiza um
desvelamento estrutural que o conduz a desaprender uma lógica herdada de acesso
ao trabalho e às instituições. A análise articula conceitos psicanalíticos —
como alienação, compulsão à repetição, fantasia e travessia do fantasma — com
referências bíblicas que abordam fechamento e abertura de portas, esperança e
limites do agir humano. Sustenta-se que a experiência concreta de ingresso em
um supermercado fora do circuito simbólico habitual operou como analisador
psíquico e espiritual, permitindo ao sujeito sair da ilusão de controle e
reconhecer a existência de campos não nomeados, tanto no trabalho quanto na
vida.
1. Introdução: quando o sofrimento não é falta de
esforço
O sujeito em questão construiu sua relação com o
trabalho a partir de um modelo aprendido precocemente: buscar empresas
reconhecidas, enviar currículos, submeter-se a processos seletivos mediados por
RH e aguardar validação institucional. Tal estrutura foi aplicada de modo
generalizado a todos os campos de ação, inclusive à psicologia.
Entretanto, após anos de investimento libidinal nesse modelo sem retorno
simbólico ou material, instala-se um sofrimento específico: não a falta de
saber, mas a impossibilidade de encontrar campo para exercê-lo.
A angústia não decorre da ausência de competência,
mas da insistência em uma via única de reconhecimento. Como afirma Freud, “o
sujeito sofre não apenas pelo que lhe falta, mas também pelo que insiste em
repetir” (Freud, 1920/2010). É nesse ponto que o sofrimento deixa de ser
contingente e passa a revelar algo estrutural.
2. A compulsão à repetição e a fantasia do nome que
autoriza
Do ponto de vista psicanalítico, a busca reiterada
por instituições “nomeadas” pode ser compreendida como expressão da compulsão
à repetição. O sujeito repete porque acredita, inconscientemente, que o
nome reconhecido — a marca, a instituição famosa, o lugar validado socialmente
— possui o poder de autorizá-lo a existir naquele campo.
Lacan nos ajuda a compreender que o sujeito, ao se
alienar ao Outro, busca nele o significante que lhe dê consistência (Lacan,
1964/2008). No caso em análise, o Outro aparece encarnado nos nomes
institucionais conhecidos. São esses nomes que prometem: “se você entrar
aqui, você será alguém”. O problema é que essa promessa não se cumpre, e o
sujeito permanece do lado de fora.
A repetição, portanto, não é erro de estratégia,
mas fidelidade a uma fantasia: a de que só há lugar onde já há nome.
3. O supermercado como analisador psíquico
A entrada no supermercado rompe essa lógica. Não se
trata de uma empresa conhecida, não há propaganda midiática, não há nome forte
no imaginário social. O acesso se dá por indicação verbal, por confiança
transmitida de cliente a cliente. Trata-se de um circuito simbólico distinto,
sustentado não pela imagem, mas pela palavra e pela responsabilidade de quem
indica.
Esse supermercado surge fora do radar simbólico
do sujeito. Ele não foi buscado ativamente; ele apareceu. E aparece não
para colocá-lo como psicólogo, mas como operador de caixa — posição que
desmonta qualquer fantasia narcísica de reconhecimento pelo saber.
Justamente por isso, essa experiência opera como um
analisador estrutural: revela que existem campos que não passam pela
nomeação prévia do sujeito. Campos que existem antes de serem reconhecidos por
ele.
4. Alienação, separação e travessia
Lacan descreve dois tempos fundamentais na
constituição do sujeito: alienação e separação. Na alienação, o sujeito se
identifica aos significantes do Outro; na separação, ele reconhece que o Outro
não garante tudo (Lacan, 1964/2008).
A estrutura herdada — buscar apenas instituições
nomeadas — corresponde à alienação. O desvelamento ocorrido após anos no
supermercado marca um movimento de separação: o sujeito percebe que o Outro (o
mercado, a instituição, o nome famoso) não é completo e não detém o monopólio
do sentido nem do campo de atuação.
Essa passagem pode ser entendida como uma travessia
do fantasma: o abandono da crença de que só há existência onde há
reconhecimento prévio.
5. A metáfora da capa do iPhone: quando o encaixe
perfeito impede o novo
A associação livre entre a troca da capa do iPhone
e a busca por trabalho é clinicamente eloquente. A capa azul encaixa
perfeitamente: não produz bolhas, não gera incômodo, mantém a aparência ideal.
Ela representa a estrutura conhecida, confortável, sem atrito — mas também sem
novidade.
A capa preta com bordas laranjas, ao contrário,
causa bolhas, imperfeição, desconforto visual. Ela não se ajusta ao ideal, mas
introduz o real: algo não previsto, não controlável, que desorganiza a estética
anterior.
Na psicanálise, o real é justamente aquilo
que não se encaixa (Lacan, 1975/2007). A bolha na tela é o real que insiste.
Assim como o supermercado fora da nomeação, ele não se integra à fantasia
anterior, mas exige uma reconfiguração subjetiva.
6. A fé como limite do controle, não como negação
do real
A articulação com a teologia não aparece aqui como
fé cega, mas como reconhecimento de limite. O versículo bíblico — “A porta
que Deus fecha ninguém abre, e a porta que Deus abre ninguém fecha”
(Apocalipse 3:7) — não promete sucesso institucional, mas desmonta a ilusão de
controle absoluto.
Os nomes conhecidos eram portas fechadas. O
supermercado desconhecido foi uma porta aberta. Isso não significa garantia de
que outra porta institucional se abrirá, mas inaugura uma posição subjetiva
mais ética: aceitar que nem tudo depende da insistência no mesmo caminho.
Como em Provérbios 16:9: “O coração do homem
traça o seu caminho, mas o Senhor lhe dirige os passos.”
7. O luto pelo não reconhecimento e o fim da espera
amarga
Há aqui um luto específico: o luto por não ter
ocupado o lugar institucional sonhado como psicólogo. Freud (1917/2010) nos
lembra que o luto saudável não elimina o desejo, mas permite que o objeto
perdido deixe de aprisionar o sujeito.
Encerrar simbolicamente a espera não significa
negar o desejo, mas retirá-lo da posição de condição para existir. O saber não
foi inútil. Ele existe, ainda que não encontre, por ora, campo institucional.
8. Conclusão: desaprender como ato ético
Desaprender uma estrutura herdada não é fracasso; é
um ato ético. O supermercado não escolheu o sujeito para que ele mudasse a
instituição com seu saber psicológico, mas para que ele mudasse sua relação com
o saber, com o reconhecimento e com o real.
Ao aceitar permanecer ali sem transformar o local
em juiz de sua existência, o sujeito deixa de se odiar por não ter sido
reconhecido e começa a existir fora da lógica da validação.
Se houver campo, o saber será usado.
Se não houver, ele não foi em vão.
Essa posição não é resignação; é maturidade
subjetiva.
Referências Bibliográficas
Psicanálise
Freud, S. (1917/2010). Luto e melancolia.
Obras Completas, vol. 12. Companhia das Letras.
Freud, S. (1920/2010). Além do princípio do
prazer. Obras Completas, vol. 14. Companhia das Letras.
Lacan, J. (1964/2008). O Seminário, Livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Zahar.
Lacan, J. (1975/2007). O Seminário, Livro 20:
Mais, ainda. Zahar.
Referências Bíblicas
Bíblia Sagrada. Apocalipse 3:7.
Bíblia Sagrada. Provérbios 16:9.
Bíblia Sagrada. Eclesiastes 3:1.
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