Resumo
Este artigo analisa, à luz da psicanálise, um
episódio aparentemente simples do mundo do trabalho — a contratação por uma
instituição fora do circuito conhecido — como operador de um espelhamento
estrutural para o psicólogo em transição profissional. Sustenta-se que o
sofrimento repetido não decorre de incapacidade subjetiva, mas da insistência
em acessar apenas campos simbólicos já nomeados e reconhecidos. O texto discute
como a ruptura com o “campo conhecido” desvela limites da percepção, desmonta a
compulsão à repetição e possibilita uma leitura mais lúcida da relação entre
sujeito, saber e instituição, sem produzir novas ilusões.
1.
Introdução: quando o fracasso não é pessoal
Na experiência do trabalho e da inserção
institucional, muitos sujeitos interpretam a ausência de reconhecimento como
falha individual. A repetição de recusas tende a ser vivida como prova de
inadequação ou insuficiência. Contudo, do ponto de vista psicanalítico, é
preciso interrogar não apenas o sujeito que busca, mas o campo no
qual ele insiste em buscar.
O episódio analisado neste artigo — a contratação
por um supermercado fora do circuito de nomes conhecidos — permite uma leitura
estrutural que ultrapassa o acaso e oferece um espelhamento clínico decisivo
para o psicólogo que, por anos, buscou inserção institucional sem êxito.
2. O
campo conhecido como limite da percepção
Desde a juventude, o sujeito aprende um modelo
dominante de empregabilidade: empresas reconhecidas, processos seletivos
formais, RH, entrevistas padronizadas. Esse modelo não é apenas técnico; ele se
torna um roteiro inconsciente que organiza onde o sujeito acredita que
pode ser escolhido.
Freud (1921) já apontava que o sujeito tende a
investir libidinalmente em instituições que encarnam autoridade e
reconhecimento social. Assim, “nomes conhecidos” funcionam como garantias
simbólicas: aquilo que é visível, nomeado e legitimado passa a ser confundido
com o único campo possível.
O problema surge quando o sujeito confunde o mapa
com o território.
3.
Compulsão à repetição e esgotamento estrutural
Ao insistir exclusivamente nesse modelo, mesmo
diante de repetidos não-retornos, o sujeito entra no que Freud (1920) denominou
compulsão à repetição: a insistência em refazer o mesmo percurso, não
porque ele funcione, mas porque é o único conhecido.
Nesse ponto, o sofrimento deixa de ser informativo e
torna-se desgastante. O sujeito não erra na técnica — ele erra no campo. A
estratégia é correta, mas aplicada em uma estrutura fechada para ele.
4. O
campo fora do mapa: quando o real responde
A contratação por um supermercado que não fazia
parte do imaginário do sujeito — sem propaganda, sem nome reconhecido, fora do
circuito simbólico — representa uma ruptura. Ali, o sujeito não é avaliado por
idealizações, mas por necessidade concreta e legibilidade direta.
Lacan diria que o sujeito sai do lugar de quem busca
reconhecimento no Outro consistente e encontra um Outro que simplesmente
demanda. Nesse movimento, algo do real responde, não como promessa, mas como
acontecimento.
5. O
espelhamento para o psicólogo
Esse episódio espelha, para o psicólogo, alguns
pontos fundamentais:
1.
O não reconhecimento
institucional não foi prova de incapacidade.
2.
O sofrimento prolongado
esteve ligado à insistência em campos simbólicos fechados.
3.
O mundo é maior do que
o conjunto de instituições visíveis.
4.
Nem todo campo visível
escolhe; nem todo campo invisível salvará.
O espelhamento não oferece garantia de que outro
campo surgirá na psicologia. Ele oferece algo mais modesto e mais sólido: desalienação.
6. O
limite da analogia: onde a ilusão precisa cessar
É fundamental marcar um limite clínico: o que
funcionou no supermercado não se transfere automaticamente para o campo
da psicologia institucional. Os campos são distintos, as exigências simbólicas
são outras, e nem toda instituição sabe ou quer usar determinado saber.
Transformar esse espelhamento em promessa seria
produzir uma nova ilusão. O ganho psíquico não está na esperança renovada, mas
na retirada da culpa e da autoacusação.
7.
Considerações finais: desalienação sem promessa
O episódio ensina que o sujeito foi escolhido quando
saiu do lugar onde precisava ser reconhecido. Isso não garante futuro
institucional, mas encerra uma guerra interna antiga. O psicólogo pode, a
partir daí, sustentar sua existência sem transformar o mercado, a instituição
ou o supermercado em juízes de seu valor.
Desalienar-se não é vencer.
É parar de se destruir tentando vencer onde não há jogo.
Referências
Bibliográficas
Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer.
Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1921). Psicologia das Massas e Análise
do Eu. Rio de Janeiro: Imago.
Lacan, J. (1958–1959). O Seminário, Livro 6: O
Desejo e sua Interpretação. Rio de Janeiro: Zahar.
Han, B.-C. (2017). Sociedade do Cansaço.
Petrópolis: Vozes.
Bourdieu, P. (1996). Razões Práticas: Sobre a
Teoria da Ação. Campinas: Papirus
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