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Entre o medo de perder e o desejo de desistir: uma leitura winnicottiana do apagamento identitário no trabalho

 Resumo

Este artigo analisa, à luz da teoria de Donald Winnicott, o conflito psíquico vivido por um sujeito que, embora formado em psicologia, encontra-se inserido em uma função laboral que não corresponde à sua identidade profissional. Discute-se o medo de perda da identidade de psicólogo, articulando-o aos conceitos de self verdadeiro, falso self e falha ambiental. Argumenta-se que o medo não indica necessariamente um desejo consciente de abandono identitário, mas pode coexistir com tendências defensivas de adaptação que visam evitar o colapso psíquico.


1. Introdução

A inserção precária ou desalinhada no mercado de trabalho pode produzir efeitos significativos sobre a organização do self. Quando há discrepância entre formação, desejo e função exercida, o sujeito pode vivenciar um processo de esvaziamento subjetivo. Nesse contexto, emerge um conflito específico: o medo de perder a própria identidade profissional.

A questão central que orienta esta análise é: o medo de perder a identidade pode coexistir com um movimento inconsciente de desistência dessa mesma identidade?


2. Self verdadeiro e falso self

Segundo Winnicott (1960/1983), o desenvolvimento saudável do indivíduo depende da possibilidade de expressão do self verdadeiro, entendido como a fonte da espontaneidade e da criatividade. Esse self se constitui em um ambiente suficientemente bom, capaz de acolher e sustentar os gestos espontâneos do sujeito.

Em contrapartida, o falso self emerge como uma organização defensiva diante de falhas ambientais. Sua função inicial é adaptativa:

“O falso self tem como função proteger o self verdadeiro, ocultando-o e, em casos extremos, substituindo-o” (Winnicott, 1960/1983).

No cenário analisado, a permanência na função de fiscal de caixa pode ser compreendida como uma expressão de falso self, na medida em que implica adaptação contínua às exigências externas, sem correspondência com a identidade subjetiva do indivíduo.


3. Falha ambiental e retração do self

Winnicott enfatiza que o ambiente exerce papel estruturante no desenvolvimento psíquico. Quando o ambiente falha de forma prolongada — por exemplo, ao não oferecer condições para a inserção profissional compatível com a formação do sujeito — ocorre um comprometimento da continuidade de ser.

Nesse sentido:

“A submissão é a base do falso self, e a submissão implica uma reação à falha ambiental” (Winnicott, 1960/1983).

O sujeito, após mobilizar recursos internos (busca por emprego, elaboração psíquica, tentativas de inserção), depara-se com a ausência de respostas do ambiente. Como consequência, há uma retração do self verdadeiro e uma intensificação da adaptação.


4. O medo de perder a identidade: entre preservação e defesa

O medo de perder a identidade de psicólogo pode ser compreendido, em primeiro lugar, como um sinal de vitalidade psíquica. Ele indica que o self verdadeiro ainda não foi totalmente eclipsado.

Contudo, a teoria winnicottiana permite avançar na análise ao considerar que esse medo pode coexistir com um movimento defensivo menos evidente.

Winnicott (1974/1994), ao discutir o medo do colapso, afirma:

“O medo do colapso é o medo de um colapso que já foi experimentado.”

Aplicado ao caso em questão, isso sugere que o sujeito já vivenciou, em algum nível, falhas ambientais significativas (frustração na inserção profissional), e passa a temer um esvaziamento mais radical do self.

Diante disso, pode emergir uma tendência inconsciente não exatamente de desejar perder a identidade, mas de:

  • abdicar da luta por sua sustentação
  • reduzir o investimento libidinal no self verdadeiro
  • manter-se em uma posição de adaptação menos ameaçadora

5. Desejo de desistência ou defesa contra o colapso?

É fundamental diferenciar, conceitualmente, desejo e defesa.

Na perspectiva winnicottiana, não se trata de afirmar que o sujeito deseja genuinamente abandonar sua identidade de psicólogo. O que pode ocorrer é algo mais sutil:

uma organização defensiva que transforma a desistência em forma de sobrevivência psíquica.

A permanência na função atual não é, portanto, expressão de realização, mas de estabilização. Trata-se de evitar o risco inerente à retomada do gesto espontâneo — risco este que envolve novas frustrações, rejeições e possíveis vivências de falha.


6. Considerações finais

A análise proposta permite concluir que o medo de perder a identidade profissional não deve ser interpretado de forma simplista como um indicativo de desejo inconsciente de abandono. Em vez disso, ele revela um campo de tensão entre:

  • a persistência do self verdadeiro
  • e a força adaptativa do falso self

A permanência em uma função desalinhada pode operar como defesa contra o colapso psíquico, oferecendo continuidade ao custo de vitalidade.

Assim, o conflito não se reduz a querer ou não querer, mas se estrutura como uma escolha inconsciente entre:

viver com risco e autenticidade ou sobreviver com adaptação e esvaziamento.


Referências

Winnicott, D. W. (1960/1983). Ego distortion in terms of true and false self. In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.

Winnicott, D. W. (1974/1994). Fear of breakdown. In: Explorações psicanalíticas. Porto Alegre: Artmed.

Winnicott, D. W. (1965/1983). O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed.

 

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