Um Estudo Clínico sobre a Transição de Identidade Profissional no Contexto do Supermercado
Ano 2026 Autor Ayrton Júnior
Psicólogo CRP 06/147208
Introdução
O presente estudo analisa uma sequência de episódios
cotidianos envolvendo o esquecimento recorrente do crachá por um trabalhador
que exerce a função de fiscal de caixa, mas possui formação e desejo de atuar
como psicólogo.
Embora, à primeira vista, o fenômeno possa ser
interpretado como simples falha de memória, sua repetição e evolução ao longo
do tempo permitem uma leitura mais aprofundada, articulando conceitos da
psicanálise, da psicologia institucional e da psicologia do trabalho.
O objetivo é demonstrar como um comportamento
aparentemente banal pode expressar um processo mais amplo de desinvestimento
simbólico de uma função e de transição de identidade profissional.
Fundamentação
Teórica
Na tradição inaugurada por Sigmund Freud, os
chamados atos falhos são compreendidos como formações que revelam, de maneira
indireta, conflitos psíquicos não plenamente conscientes.
Associado a isso, o conceito de Compulsão à
repetição descreve a tendência do sujeito a repetir determinados padrões
enquanto o conflito subjacente não é elaborado.
No campo institucional, o crachá pode ser
compreendido como um significante de pertencimento, marcando a posição
do sujeito dentro da organização e funcionando como mediador entre identidade
individual e papel social.
Descrição
do Caso
O sujeito, atuando como fiscal de caixa, passa a
apresentar uma sequência de esquecimentos do crachá ao longo de vários dias
consecutivos.
Os episódios seguem uma evolução:
1.
Esquecimento com
percepção tardia
2.
Repetição do
comportamento
3.
Percepção diante do
espelho
4.
Correção
progressivamente mais rápida
5.
Antecipação do erro
6.
Dependência de gatilhos
externos (catraca)
7.
Persistência residual
do comportamento
8.
Ocorrência em contexto
de transição institucional (mudança de loja)
Ao longo desse percurso, observa-se uma mudança na
relação do sujeito com o próprio comportamento.
Análise
Clínica
A análise do caso permite identificar cinco fases
principais:
1.
Emergência do Conflito
O esquecimento inicial indica uma falha na
incorporação automática do crachá, sugerindo um início de desinvestimento
simbólico da função.
2.
Repetição
A recorrência do comportamento evidencia a
insistência do psiquismo em torno do mesmo ponto, conforme descrito na teoria
psicanalítica.
3.
Tomada de Consciência
O sujeito passa a perceber o padrão e refletir sobre
ele, reduzindo a necessidade de expressão indireta do conflito.
4.
Regulação
O comportamento deixa de ser automático e passa a
ser controlado conscientemente, com correções cada vez mais rápidas.
5.
Residual Comportamental
O esquecimento persiste de forma leve, sem carga
simbólica significativa, indicando a perda de função do sintoma.
Discussão
O caso demonstra que o crachá, enquanto objeto
material, assume função simbólica relevante. Sua não utilização automática
indica uma ruptura entre o sujeito e o papel institucional que ocupa.
A repetição do esquecimento não deve ser entendida
como déficit cognitivo, mas como:
- perda de sentido
da função
- redução do
investimento psíquico
- reorganização da
identidade profissional.
Além disso, observa-se que, após a elaboração do
conflito, o comportamento deixa de ser expressão do inconsciente e passa a ser
um fenômeno de ordem comportamental, resolvido por meio de reorganização de
hábitos.
Implicações
para a Psicologia do Trabalho
Este caso ilustra como processos subjetivos impactam
diretamente o desempenho e os comportamentos cotidianos no ambiente
organizacional.
Para profissionais da área, isso aponta para a
necessidade de:
- considerar a
dimensão simbólica das funções
- reconhecer sinais
sutis de desinvestimento
- compreender a
relação entre identidade e desempenho.
Conclusão
O esquecimento repetido do crachá revelou-se um
indicador consistente de um processo de transição de identidade profissional.
Ao longo do tempo, o comportamento evoluiu de um ato
falho com possível conteúdo inconsciente para um padrão residual sem carga
simbólica relevante.
Conclui-se que:
o sujeito já não sustenta internamente a identidade
institucional de fiscal de caixa, embora ainda a ocupe na prática.
O caso evidencia que mudanças na identidade
profissional podem se manifestar inicialmente por meio de pequenas rupturas nos
automatismos cotidianos, antes de se consolidarem em transformações concretas
na trajetória de trabalho.
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