Luto, desejo e suspensão subjetiva na travessia entre o resto clínico e a inscrição no laço social
Introdução
A prática da psicologia, quando exercida fora de um
corpo institucional e sem reconhecimento simbólico estável, pode assumir uma
forma paradoxal: ela permanece como desejo, mas existe apenas como resto. O
sujeito sustenta a função clínica de modo marginal, sacrificial e precário,
muitas vezes após jornadas extenuantes de trabalho em funções que já perderam
investimento libidinal.
Este artigo articula uma problemática central: a
psicologia sem corpo institucional, isto é, a psicologia vivida não como
lugar social consistente, mas como suplemento de sobrevivência, promessa adiada
ou penitência subjetiva. A partir de Freud e Lacan, trata-se de compreender
como o desejo de ser psicólogo institucional pode permanecer vivo, enquanto as
formas concretas de sustentação do lugar entram em colapso, produzindo luto,
exaustão e suspensão.
1. O
trabalho como inscrição simbólica e não apenas sobrevivência
Na perspectiva psicanalítica, o trabalho não é
apenas uma atividade econômica. Ele é um operador de inscrição do sujeito no
laço social. O sujeito não “trabalha” apenas: ele se nomeia a partir do lugar
que ocupa no discurso do Outro.
Lacan afirma que o sujeito é efeito do significante
e se constitui no campo do Outro (Lacan, 1966/1998). Assim, uma função
profissional pode operar como significante-mestre: um nome que organiza a
existência.
No caso aqui articulado, o sujeito permanece há anos
como fiscal de caixa no supermercado, mas esse lugar encontra-se simbolicamente
morto:
- a função permanece
no real
- mas já não
sustenta a identidade
- tornou-se apenas
sobrevivência
O sujeito está fiscal, mas já não é fiscal.
Essa dissociação inaugura o luto de uma forma antiga
de existir profissionalmente.
2.
Psicologia como resto: clínica marginal e precariedade do lugar
Paralelamente, o sujeito sustenta atendimentos
clínicos mínimos em sua folga semanal. Contudo, essa clínica não se apresenta
como lugar pleno de reconhecimento, mas como resto:
- resto do tempo
- resto do corpo
- resto da energia
- prática marginal
A psicologia aparece sem corpo institucional, isto
é, sem suporte simbólico coletivo que a estabilize como função social.
O sujeito não encontra um lugar de psicólogo no
Outro institucional. O que resta é uma prática privada mínima, pendurada na
contingência de um ou dois clientes.
Essa precariedade produz uma existência profissional
frágil:
“se o cliente vai embora, algo do meu lugar
desaparece.”
3. Luto
e melancolia: quando a perda toca a identidade
Freud distingue luto e melancolia de forma decisiva.
No luto, o sujeito sofre pela perda de um objeto, mas preserva o Eu. Na
melancolia, a perda se torna perda do próprio Eu, pois o sujeito não sabe
exatamente o que perdeu e identifica-se com a falta (Freud, 1917/2010).
Aqui, a perda de um cliente por motivo financeiro —
contingente e não subjetiva — é vivida como perda identitária:
- não é apenas
“perdi um atendimento”
- é “perdi meu ser
psicólogo”
Isso revela que a clínica mínima estava funcionando
como suporte ontológico:
“sou psicólogo porque ainda tenho alguém.”
Quando esse fio ameaça romper, a psicologia sem
corpo institucional revela seu caráter insustentável.
4. O
desejo institucional e a travessia interminável
O desejo de trabalhar como psicólogo institucional
permanece vivo. Entretanto, a ausência de acesso real a instituições cria um
intervalo prolongado.
Esse intervalo não dura semanas, mas anos.
Após cinco anos de travessia, o sujeito não recusa a
falta por capricho, mas por esgotamento:
- a travessia
tornou-se interminável
- o desejo permanece
sem corpo
- o lugar não se
produz
Winnicott sublinha que o sujeito necessita de
espaços transicionais para atravessar perdas e criar novos sentidos (Winnicott,
1971/1975). Contudo, quando o espaço transicional se prolonga indefinidamente,
ele deixa de ser ponte e torna-se prisão.
O sujeito vive então:
morte simbólica do lugar antigo sem nascimento
possível do novo.
5.
Clínica como sacrifício e superego: a psicologia como penitência
Outro elemento central é a transformação da clínica
em sacrifício. Sustentada em meio à exaustão e vinculada ao pagamento de
dívidas financeiras, a psicologia corre o risco de operar como punição
superegóica.
Freud mostra que o superego pode exigir sofrimento e
transformar o desejo em obrigação cruel (Freud, 1923/2011). Assim, a clínica
deixa de ser ato de desejo e torna-se penitência:
- atender para
reparar
- atender para pagar
- atender para não
falhar
A psicologia sem corpo institucional tende a
deslizar para esse lugar superegóico, pois falta-lhe reconhecimento simbólico
externo e sobra-lhe exigência interna.
6. O ato
de suspensão: luto da forma sacrificial, não do desejo
Diante do colapso da clínica marginal e do
esgotamento da travessia, surge a possibilidade do ato:
encerrar a clínica como resto.
Mas esse encerramento não deve ser lido como
abandono do desejo, e sim como luto de uma forma precária de sustentação.
A formulação correta do ato é:
- fim da clínica
marginal
- suspensão
estratégica
- preservação do
desejo para outro corpo possível
Lacan afirma que o desejo não se abandona como um
objeto qualquer: ele insiste e retorna (Lacan, 1964/1985). Portanto, o corte
ético não é matar o desejo, mas recusar sua forma mortífera.
O luto verdadeiro é:
luto da psicologia como promessa adiada e
sacrifício.
Conclusão:
psicologia sem corpo institucional como impasse contemporâneo
A psicologia sem corpo institucional revela uma
problemática subjetiva e social:
- o sujeito deseja
uma inscrição simbólica
- mas encontra
apenas restos precários
- a sobrevivência
consome o corpo
- o desejo permanece
suspenso
O sofrimento não se reduz à falta de emprego
institucional, mas ao colapso de uma forma antiga de existir profissionalmente:
dividido entre supermercado morto e clínica marginal sacrificial.
O ato possível é fazer luto não da psicologia, mas
da psicologia sem corpo, sem lugar e sem reconhecimento. Suspender não é
desistir: é recusar o sacrifício como condição de existência.
A travessia exige que o desejo encontre, um dia,
corpo institucional. Até lá, o sujeito deve nomear o intervalo sem
transformá-lo em sentença melancólica.
Referências
Bibliográficas
Freud, S. (1917/2010). Luto e Melancolia. In:
Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. São
Paulo: Companhia das Letras.
Freud, S. (1923/2011). O Eu e o Id. In: O
Eu e o Id, “Autobiografia” e outros textos. São Paulo: Companhia das
Letras.
Lacan, J. (1964/1985). O Seminário, Livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1966/1998). Escritos. Rio de
Janeiro: Zahar.
Winnicott, D. W. (1971/1975). O Brincar e a
Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
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