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Entre o Desejo e o Esgotamento: Uma Leitura Psicanalítica do Impasse Profissional e do Limite Subjetivo

 Ano 2026 Autor Ayrton Júnior Psicólogo CRP 06/147208


Resumo

O presente artigo analisa, à luz da psicanálise, o impasse vivido por um sujeito que, formado em psicologia, encontra-se inserido em uma função dissociada de seu desejo — atuando como fiscal de caixa em um supermercado — ao mesmo tempo em que enfrenta repetidas frustrações na tentativa de inserção institucional na área psicológica. A investigação percorre três eixos: (1) a busca por uma resposta inconsciente via sonho, (2) a oscilação entre ilusão e realidade no campo do desejo, e (3) o colapso subjetivo sob a forma de esgotamento. Conclui-se que a questão não se reduz à dicotomia “ilusão versus verdade”, mas à relação entre desejo, posição subjetiva e inscrição no real.


1. Introdução

O sofrimento psíquico contemporâneo frequentemente emerge na intersecção entre desejo e realidade social. No caso em análise, o sujeito encontra-se dividido entre:

  • o desejo de atuar como psicólogo em uma instituição
  • e a permanência em uma função que não o representa subjetivamente

Essa tensão é agravada por tentativas reiteradas de inserção profissional sem sucesso, culminando em um estado de exaustão física e psíquica.

A questão que orienta este estudo é:

Trata-se de uma ilusão a ser abandonada ou de um desejo a ser sustentado?


2. O Apelo ao Inconsciente e o Silêncio do Sonho

O sujeito dirige-se ao inconsciente, solicitando uma resposta sob a forma de sonho que esclareça sua dúvida: estaria ele se iludindo?

No entanto, ao despertar, não se recorda de qualquer conteúdo onírico.

Segundo Sigmund Freud (1900/2019), o esquecimento do sonho não implica ausência de produção psíquica, mas indica a ação do recalque. O sonho, enquanto formação do inconsciente, pode ter ocorrido, mas seu conteúdo foi barrado por resistências do ego.

Dessa forma, o “silêncio” não é ausência de resposta, mas um efeito de defesa:

o conteúdo produzido era potencialmente incompatível com o equilíbrio psíquico do sujeito.


3. Ilusão, Desejo e Realidade

A insistência do sujeito em obter uma resposta definitiva (“estou me iludindo ou não?”) revela uma tentativa de eliminar a incerteza.

Freud (1927/2014), ao tratar da ilusão, aponta que ela não se define por ser falsa, mas por estar fundada em um desejo. Nesse sentido:

  • desejar tornar-se psicólogo não é, em si, uma ilusão
  • mas pode tornar-se ilusório acreditar que o desejo, por si só, garante sua realização

A análise do caso indica que:

  • o desejo é consistente
  • porém, a forma de sustentação desse desejo pode estar parcialmente apoiada em expectativas irreais

4. A Falha de Inscrição no Campo Institucional

Apesar de o sujeito afirmar ter tentado múltiplas estratégias — inclusive ocupando posições de entrada consideradas “inferiores” — não houve inserção efetiva no campo da psicologia.

Essa repetição aponta para um ponto estrutural:

não se trata apenas de agir, mas de como o sujeito se inscreve simbolicamente no campo profissional.

De acordo com Jacques Lacan (1964/2008), o sujeito não ocupa um lugar apenas por intenção ou saber, mas por um ato que o autoriza simbolicamente diante do Outro.

Nesse caso, observa-se:

  • presença de saber e desejo
  • mas dificuldade em sustentar uma posição reconhecível como “psicólogo”

5. O Não Reconhecimento: Entre o Outro e o Sujeito

O não reconhecimento relatado ocorre em dois níveis:

5.1. No Outro (instituição)

  • ausência de demanda institucional
  • não validação formal da função

5.2. No sujeito

  • oscilação na sustentação do lugar
  • dependência de validação externa
  • dificuldade em consolidar uma posição estável

Essa dupla dimensão reforça o impasse:
o sujeito não é reconhecido porque ainda não sustenta plenamente o lugar — e não sustenta porque não é reconhecido.


6. O Colapso: Do Impasse ao Esgotamento

A repetição sem resultado, somada à permanência em um ambiente laboral hostil, conduz o sujeito a um estado de exaustão extrema.

Os elementos descritos — fadiga, irritabilidade, saturação emocional — são compatíveis com o quadro de Burnout.

Nesse ponto, ocorre uma inflexão decisiva:

a questão deixa de ser “continuar ou desistir” e passa a ser “como interromper o dano atual”.


7. A Tentação da Desistência como Alívio Psíquico

Diante do esgotamento, emerge uma solução aparentemente lógica:

“Se estou me iludindo, devo desistir e encerrar o sofrimento.”

Contudo, essa decisão não se fundamenta em uma análise objetiva da realidade, mas em uma tentativa de:

  • eliminar a angústia
  • recuperar controle
  • interromper o conflito

Como apontado por Freud (1920/2010), o aparelho psíquico tende a evitar o desprazer, mesmo que isso implique renunciar a desejos fundamentais.


8. Separação Necessária: Trabalho Atual vs. Desejo Profissional

Um ponto central da análise consiste em separar duas dimensões frequentemente confundidas:

8.1. O trabalho atual

  • fonte direta de sofrimento
  • ambiente percebido como insustentável

8.2. O projeto profissional em psicologia

  • ainda aberto
  • não plenamente realizado
  • mas também não invalidado

Confundir essas dimensões leva a uma conclusão equivocada:

“Como o trabalho atual é insuportável, então o projeto na psicologia é ilusório.”


9. Conclusão

A análise do caso permite afirmar que:

1.      O sujeito não está se iludindo ao desejar atuar como psicólogo

2.      Contudo, sua forma de inserção no campo profissional ainda não produziu efeitos reais

3.      O estado atual de esgotamento compromete a capacidade de decisão

4.      A desistência, nesse momento, tende a operar como defesa contra a angústia

Portanto, a questão não se resolve pela escolha entre “continuar” ou “desistir”, mas pela reorganização em dois níveis:

  • clínico: interromper o esgotamento
  • estratégico: reformular a forma de inserção no campo

Referências Bibliográficas

Freud, S. (1900/2019). A interpretação dos sonhos. São Paulo: Companhia das Letras.

Freud, S. (1920/2010). Além do princípio do prazer. São Paulo: Companhia das Letras.

Freud, S. (1927/2014). O futuro de uma ilusão. São Paulo: Companhia das Letras.

Lacan, J. (1964/2008). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

Maslach, C., & Leiter, M. P. (2016). Burnout: A multidimensional perspective. In: Stress: Concepts, cognition, emotion, and behavior. Academic Press.

 

 

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