Entre profissionais formados para cuidar — psicólogos, terapeutas, assistentes sociais, enfermeiros — existe um fenômeno subjetivo particular que pode aparecer quando a trajetória profissional não se concretiza como imaginado. Podemos chamá-lo de ferida narcísica da profissão de cuidado. Essa ferida não diz respeito apenas ao emprego. Ela atinge o sentimento de valor pessoal ligado à própria identidade profissional. 1. Profissões de cuidado e investimento narcísico Escolher uma profissão de cuidado raramente é apenas uma decisão técnica. Ela envolve um investimento identitário profundo. O sujeito constrói uma imagem de si como alguém que: compreende o sofrimento humano ajuda outras pessoas possui escuta qualificada exerce uma função social relevante Esse investimento pode ser entendido, em termos psicanalíticos, como um investimento narcísico na profissão. 2. Quando a realidade não confirma essa identidade Se o profissional não consegue exerc...
Não se trata de luto por morte de uma pessoa, mas pela perda ou suspensão de uma versão de si mesmo que foi imaginada no passado . Esse processo é pouco discutido, mas é bastante presente em trajetórias profissionais interrompidas. 1. A identidade profissional como projeto de futuro Durante a formação acadêmica, o sujeito não adquire apenas conhecimentos técnicos. Ele constrói também uma narrativa de futuro : onde vai trabalhar como será reconhecido qual papel social ocupará A profissão torna-se parte da identidade. Quando essa narrativa não se concretiza, surge uma ruptura simbólica. 2. O objeto perdido Na teoria psicanalítica clássica de Sigmund Freud, o luto envolve a perda de um objeto investido afetivamente. No caso da identidade profissional, o objeto perdido não é uma pessoa. É um projeto de si mesmo . Algo como: “O profissional que eu imaginava ser.” 3. Por que esse luto costuma ser silencioso Esse tipo de perda raramen...