Resumo No discurso contemporâneo da psicologia, especialmente nas redes sociais e no marketing digital, consolidou-se a ideia de que o psicólogo deve “escolher um nicho” como estratégia racional de posicionamento profissional. Este artigo sustenta a tese oposta: na clínica, não é o psicólogo que escolhe o nicho, mas o nicho — entendido como conjunto de sujeitos em sofrimento — que escolhe o psicólogo . A partir de uma leitura estrutural, psicanalítica e institucional, argumenta-se que a escolha clínica se dá por transferência, tempo lógico e autorização simbólica, e não por decisão voluntária, visibilidade ou mérito técnico. A insistência na lógica da escolha ativa do nicho pode produzir alienação, compulsão à repetição e sofrimento profissional. Palavras-chave: nicho clínico; transferência; campo institucional; escolha profissional; psicologia clínica. 1. Introdução: o imperativo contemporâneo da escolha do nicho Nos últimos anos, tornou-se recorrente o discurso s...
Uma leitura estrutural a partir da clínica, da indicação e da metáfora do supermercado Introdução Uma das maiores fontes de sofrimento psíquico entre psicólogos em início ou transição de carreira é a crença de que o sucesso profissional depende exclusivamente de esforço, visibilidade e escolha ativa do nicho . Quando, apesar de investimentos contínuos em formação, marketing e exposição, a clínica não se sustenta, instala-se a vivência de fracasso pessoal, culpa e compulsão à repetição. Este artigo propõe uma leitura estrutural alternativa: não é o psicólogo que escolhe o campo ou o nicho, mas o campo que escolhe o psicólogo . Para tornar essa lógica inteligível, utiliza-se a metáfora do supermercado como modelo didático de funcionamento do campo simbólico, articulando contribuições da psicanálise, da sociologia e da teologia. O campo como estrutura que antecede o sujeito Na sociologia de Pierre Bourdieu, o campo é definido como um espaço estruturado de posições, r...