Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, a condição de um psicólogo cuja prática clínica encontra-se reduzida ao mínimo enquanto sua vida laboral é dominada por um trabalho exaustivo em um supermercado. Apesar de elevado nível de consciência sobre sua situação — incluindo o reconhecimento da exploração institucional, da própria raiva e da estagnação — o sujeito permanece impossibilitado de realizar o ato de ruptura. Argumenta-se que o impasse não decorre de ignorância ou falta de motivação, mas de uma configuração estrutural marcada por inibição do ato, captura libidinal, ação superegóica e sustentação inconsciente da posição de impossibilidade. 1. Introdução O cenário em questão revela uma tensão clássica na clínica psicanalítica contemporânea: a dissociação entre saber e agir . O sujeito em análise sustenta simultaneamente duas posições: no plano simbólico: “sou psicólogo” no plano real: exerce uma função laboral que consome sua energi...
Quando o desejo não desaparece, mas se retira: exaustão, renúncia e fantasia de salvação no “fiscal psicólogo”
Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, a posição subjetiva de um sujeito que, inserido em um contexto de trabalho repetitivo e percebido como esvaziante, relata exaustão, desistência e entrega a uma instância transcendente. Argumenta-se que não há extinção do desejo, mas sua retirada da ação, com deslocamento para a espera e para a fantasia de salvação. A partir de autores como Sigmund Freud e Jacques Lacan, discute-se o desinvestimento libidinal, a renúncia subjetiva e a persistência do desejo em formas deslocadas. 1. Introdução: da exaustão ao esvaziamento do agir A descrição do chamado “fiscal psicólogo” não se reduz a um quadro de cansaço ocupacional. Trata-se de uma experiência mais radical: a dificuldade de sustentar o desejo como operador da ação. O sujeito relata não apenas estar cansado, mas “não saber mais o que fazer”, acompanhado de um gesto de “lavar as mãos” frente à própria trajetória. Tal posição indica uma passagem da impli...