O adoecimento corporal no ambiente de trabalho nem sempre pode ser compreendido apenas por sua dimensão orgânica. A psicanálise e a psicossomática propõem uma leitura mais ampla do sintoma, entendendo o corpo como espaço de inscrição do sofrimento psíquico, especialmente quando o sujeito permanece submetido a tensões emocionais prolongadas, conflitos identitários e exigências adaptativas excessivas. No contexto do supermercado, o caso do fiscal de caixa que também é psicólogo torna-se particularmente significativo. Trata-se de um sujeito dividido entre duas posições simbólicas: externamente ocupa uma função operacional e de vigilância; internamente, identifica-se com um desejo de reconhecimento ligado à área da psicologia e dos recursos humanos. Essa coexistência de lugares subjetivos produz tensão contínua, desgaste emocional e sensação de suspensão identitária. Segundo Freud, “o ego é прежде de tudo um ego corporal” (Freud, 1923/1996). O corpo, portanto, não é apenas biológ...
O ambiente de trabalho nem sempre é confortável. Em muitos casos, ele exige adaptação constante, resistência emocional e capacidade de suportar pressões físicas e psicológicas. Dentro do supermercado, por exemplo, o fiscal de caixa ocupa uma posição estratégica: precisa lidar com conflitos, cobranças, metas, clientes insatisfeitos, falhas operacionais e, ao mesmo tempo, manter equilíbrio emocional diante da equipe. Quando esse profissional também possui formação em Psicologia, especialmente na área organizacional, sua percepção sobre o ambiente de trabalho torna-se ainda mais profunda. O desconforto vivido no cotidiano organizacional não se limita apenas ao cansaço físico. Ele também aparece na sensação de injustiça, na falta de reconhecimento, na sobrecarga emocional e na necessidade constante de autocontrole. Segundo Christophe Dejours, referência da psicodinâmica do trabalho, o sofrimento no ambiente laboral surge quando existe um conflito entre a subjetividade do trabalhado...