Resumo
Este artigo analisa o processo pelo qual um sujeito,
após anos de sofrimento na busca por inserção institucional segundo um modelo
herdado e universalizado de empregabilidade, realiza um desvelamento estrutural
que lhe permite desmontar a fantasia de um caminho único para todos os campos
de trabalho. A partir da experiência concreta de ingresso em um supermercado
fora do circuito midiático e simbólico habitual, sustenta-se que o sujeito não
aprende algo novo, mas desaprende uma estrutura herdada que organizava sua
relação com o trabalho, o reconhecimento e o campo institucional. O
supermercado opera como analisador psíquico e institucional, possibilitando a
travessia da alienação para uma relação mais direta com o real.
1.
Introdução: quando o problema não é a falta de saber
Durante anos, o sujeito analisado sustentou a crença
de que o acesso a instituições — inclusive no campo da psicologia — obedeceria
à mesma lógica estrutural aprendida na juventude: envio de currículos,
processos seletivos, entrevistas e validação por nomes conhecidos no mercado.
Tal modelo, transmitido por familiares, professores e pelo discurso dominante
do trabalho, foi tomado como universal.
O fracasso reiterado desse método não produziu,
inicialmente, questionamento estrutural, mas intensificação da busca,
configurando um quadro típico de compulsão à repetição (Freud,
1920/2010). O sofrimento não derivava da ausência de competência, mas da
submissão inconsciente a uma estrutura que não correspondia ao funcionamento
real dos campos buscados.
2.
Estrutura herdada e alienação simbólica
Na perspectiva lacaniana, a alienação ocorre quando
o sujeito só se reconhece a partir dos significantes oferecidos pelo Outro
(Lacan, 1964/2008). No caso em análise, o Outro assume a forma do mercado de
trabalho normativo, que legitima instituições visíveis, nomeadas e
midiaticamente reconhecidas.
Essa estrutura herdada pode ser formulada da
seguinte maneira inconsciente:
“Existe um caminho correto, geral e válido para
todos os campos; se eu o seguir corretamente, serei escolhido.”
Tal crença impede o sujeito de perceber que os
campos institucionais não operam segundo uma lógica universal, mas segundo estruturas
específicas, territoriais e seletivas.
3. O
tempo do desvelar: por que levou quatro anos
O desvelar estrutural não se dá por informação, mas
por experiência. Foram necessários quatro anos no supermercado para que o
sujeito pudesse realizar uma leitura retrospectiva da própria trajetória. Esse
tempo não corresponde a atraso, mas ao que Lacan denomina tempo lógico:
o momento de concluir só ocorre após o sujeito ter sido suficientemente
atravessado pelo real (Lacan, 1945/1998).
Antes da experiência concreta, a estrutura herdada
ainda podia ser sustentada como hipótese. Depois dela, torna-se insustentável.
4. O
supermercado como analisador institucional
O supermercado em questão não fazia parte do campo
simbólico do sujeito. Não utilizava propaganda midiática, não possuía nome
reconhecido e operava por indicação verbal entre clientes, implicando
responsabilidade subjetiva de quem indica.
Essa instituição funcionou como um analisador,
no sentido proposto por Lourau (1975): algo que revela o funcionamento oculto
das estruturas sociais e subjetivas. Ao escolher o sujeito para funções simples
— operador de caixa e, posteriormente, fiscal de caixa — o supermercado
mostrou, no real, que:
- existem campos
fora da visibilidade;
- a escolha antecede
o reconhecimento;
- a função precede o
título;
- o nome não garante
acesso.
5.
Desaprender não é renunciar: é atravessar a fantasia
O que se desvela não é apenas a existência de outros
campos, mas a falsidade da universalização da estrutura herdada. O sujeito
compreende que extrapolou legitimamente — porém equivocadamente — um modelo de
acesso válido para trabalhos simples para campos complexos como o da psicologia
institucional.
Esse movimento corresponde, em termos
psicanalíticos, à travessia da fantasia: o abandono da crença
inconsciente que organizava o desejo e sustentava a repetição (Lacan,
1966/1998).
Desaprender, aqui, não significa perder saber, mas retirar
o saber do lugar de exigência ao Outro.
6.
Efeitos subjetivos do desvelamento
Após o desvelar, o sujeito:
- deixa de se culpar
pelo não reconhecimento;
- compreende a
lógica estrutural do fracasso reiterado;
- encerra a
compulsão à repetição;
- aceita os limites
do real sem colapso;
- sustenta seu saber
sem exigir campo imediato.
Essa mudança não garante inserção institucional
futura, mas encerra a alienação mais mortífera: a de acreditar que tudo que
existe já está nomeado e que a ausência de resposta equivale à inexistência de
campo.
7.
Considerações finais
O sujeito não levou quatro anos para aprender algo
novo.
Levou quatro anos para desaprender uma estrutura herdada.
O supermercado não surge como solução vocacional,
mas como operador de verdade: ao funcionar fora da nomeação simbólica
dominante, permitiu ao sujeito desmontar a fantasia de um caminho padrão e
abrir-se a uma relação menos alienada com o real.
Se houver campo institucional no futuro, ele não
será reparação, mas acréscimo.
Se não houver, o saber produzido não foi inútil: sustentou o sujeito enquanto o
mercado não respondia.
Referências
Bibliográficas
Freud, S. (2010). Além do princípio do prazer.
In: Obras Completas, vol. 14. São Paulo: Companhia das Letras. (Original
publicado em 1920).
Lacan, J. (1998). O tempo lógico e a asserção da
certeza antecipada. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar. (Texto original de
1945).
Lacan, J. (2008). O Seminário, Livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lourau, R. (1975). A análise institucional.
Petrópolis: Vozes.
Bourdieu, P. (1980). Le capital social. Actes
de la Recherche en Sciences Sociales, 31.
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