Renúncia Narcísica e Luto Identitário: Condições Psíquicas para a Transição de Carreira do Psicólogo
Resumo
A transição de carreira ou de identidade
profissional no campo da Psicologia não é apenas um movimento técnico ou
estratégico, mas um processo psíquico que envolve renúncia narcísica e trabalho
de luto. Este artigo analisa os fundamentos metapsicológicos dessa passagem,
articulando a noção freudiana de Ideal do Eu, a teoria do luto e as formulações
lacanianas sobre identificação e desejo. Defende-se que a impossibilidade de
transição frequentemente decorre da fixação narcísica ao Ideal profissional,
cuja manutenção consome a energia necessária à mudança.
1. A
identidade profissional como construção narcísica
A identidade do psicólogo é sustentada por um
conjunto de identificações: acadêmicas, institucionais, éticas e imaginárias.
Desde a formação, o sujeito internaliza um Ideal do Eu vinculado à figura do
“bom terapeuta”, do clínico reconhecido, do intelectual produtivo.
Em Introdução ao Narcisismo, Sigmund Freud descreve
o Ideal do Eu como instância psíquica que herda o narcisismo infantil e passa a
funcionar como medida interna de valor. O investimento libidinal desloca-se do
eu real para uma imagem idealizada de si.
No campo profissional, essa imagem pode assumir
formas como:
- O psicólogo sempre
solicitado.
- O clínico
financeiramente estável.
- O intelectual
respeitado.
- O terapeuta
eticamente irrepreensível.
Essa construção não é patológica em si; ela
estrutura o desejo e orienta a formação. Contudo, torna-se problemática quando
a manutenção da imagem ideal impede a transformação.
2.
Transição como ruptura narcísica
Mudar de carreira ou redefinir a identidade
profissional implica reconhecer que o Ideal anteriormente sustentado não será
plenamente realizado — ou já não corresponde ao desejo atual.
Tal reconhecimento produz uma ferida narcísica. O
sujeito confronta:
- A perda da imagem
ideal.
- A possível
desvalorização social.
- O risco de
regressão simbólica (status, renda, reconhecimento).
- A angústia frente
ao desconhecido.
Em Luto e Melancolia, Freud distingue o luto —
processo saudável de desligamento libidinal — da melancolia, na qual o sujeito
se identifica com o objeto perdido e dirige contra si mesmo a agressividade. A
transição profissional exige luto, não autodepreciação.
Sem trabalho de luto, a mudança torna-se impossível
ou sabotada.
3. O
luto da identidade: o que se perde?
Ao mudar de carreira, o psicólogo não perde apenas
uma função; perde:
1.
Uma narrativa de si.
2.
Uma rede de
pertencimento.
3.
Um sistema de
reconhecimento.
4.
Uma imagem de
competência consolidada.
A teoria lacaniana das identificações indica que o
eu é sustentado por imagens e significantes fornecidos pelo Outro simbólico
Jacques Lacan. Alterar a identidade profissional implica deslocar-se na rede
simbólica — o que produz desorientação subjetiva.
O sofrimento não decorre apenas da perda objetiva,
mas da desorganização da consistência imaginária.
4.
Renúncia narcísica como condição de mobilidade
Renunciar narcísicamente não significa abdicar da
dignidade ou da ambição, mas aceitar:
- Que o Ideal
anterior era contingente.
- Que a identidade
não é essência, mas construção.
- Que o valor
subjetivo não se esgota na função exercida.
A renúncia libera energia psíquica. Em termos
econômicos freudianos, o investimento libidinal fixado numa representação
precisa ser retirado para que possa ser reinvestido em novos objetos e
projetos.
Quando o psicólogo permanece fixado ao Ideal de
“quem deveria ser”, ocorre um congelamento da libido. A energia psíquica é
consumida na defesa da imagem, não na construção do novo.
5. O
risco da melancolização profissional
Se o luto não se realiza, instala-se um estado
próximo à melancolia profissional:
- Autocrítica
exacerbada.
- Sentimento de
fracasso estrutural.
- Idealização do
passado.
- Imobilidade
decisória.
Nessa configuração, o sujeito não consegue abandonar
a posição anterior nem investir verdadeiramente em outra. Permanece em
suspensão, consumindo energia na comparação entre o eu atual e o eu idealizado.
6. A
travessia: do Ideal rígido ao desejo singular
A transição torna-se possível quando o sujeito
desloca a referência do Ideal absoluto para o desejo singular.
Enquanto o Ideal opera como medida externa
internalizada, o desejo implica pergunta: “O que me move?” e não apenas “O que
esperam de mim?”.
Essa mudança exige:
- Tolerância à perda
de reconhecimento imediato.
- Suporte simbólico
(análise, supervisão, redes).
- Aceitação de um
período de indeterminação identitária.
A travessia não é linear; ela envolve momentos de
regressão imaginária e reconfiguração simbólica.
7.
Considerações finais
A transição de carreira do psicólogo não é apenas
estratégica, mas metapsicológica. Ela exige:
- Renúncia narcísica
ao Ideal cristalizado.
- Trabalho de luto
pela identidade anterior.
- Redistribuição do
investimento libidinal.
- Rearticulação
simbólica do desejo.
Sem renúncia, não há mobilidade.
Sem luto, não há reinvestimento.
Sem deslocamento do Ideal, não há transição possível.
O desafio não é abandonar a Psicologia, mas
abandonar a identificação rígida com uma imagem idealizada de si como
psicólogo. É nesse ponto que a mudança deixa de ser ameaça e torna-se
possibilidade.
Referências
Bibliográficas
Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo.
In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de
Janeiro: Imago.
Freud, S. (1917). Luto e melancolia. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro:
Imago.
Lacan, J. (1949/1966). O estádio do espelho como
formador da função do eu. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
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