O versículo bíblico — “a porta que Deus fecha ninguém abre, e a porta que Deus abre ninguém fecha” (Ap 3:7) — pode ser lido, neste contexto, não como explicação mística, mas como operador simbólico de realidade.
1. As portas fechadas: nomes
conhecidos como insistência imaginária
Os
supermercados conhecidos, amplamente divulgados, faziam parte do mapa
imaginário do sujeito. Eram nomes:
- reconhecidos
socialmente,
- validados pelo
discurso dominante,
- associados à ideia
de “emprego legítimo”.
A
insistência nesses nomes corresponde, em termos psicanalíticos, à fixação em
significantes mestres: lugares já autorizados pelo Outro social. Contudo, a
repetição sistemática de não resposta indica que essas portas estavam estruturalmente
fechadas, independentemente do esforço do sujeito.
Aqui,
a teologia e a psicanálise convergem:
- teologicamente:
portas que Deus não abriu;
- psicanaliticamente:
campos que não responderam ao desejo, apesar da insistência.
A
persistência não era fé — era compulsão à repetição.
2. A porta aberta: o nome fora
do radar
O
supermercado desconhecido não estava nomeado no campo simbólico do sujeito. Ele
não:
- fazia propaganda,
- não circulava no
discurso social valorizado,
- não fazia parte da
sua cartografia psíquica de oportunidades.
E, no
entanto, foi ali que houve resposta.
Do
ponto de vista bíblico, essa é a porta aberta:
não porque o sujeito a dominasse, mas justamente porque não a controlava.
Do
ponto de vista psicanalítico, trata-se de um encontro com o real:
- fora do ideal,
- fora do
reconhecimento,
- fora da
expectativa.
O
campo respondeu quando o sujeito saiu do lugar onde precisava ser reconhecido e
entrou no lugar onde podia ser lido.
3. Transposição para a
psicologia institucional
O
mesmo operador se repete no campo da psicologia:
- Instituições nomeadas, conhecidas,
idealizadas (RH, concursos,
processos seletivos clássicos)
→ portas fechadas por 12 anos. - Instituições não nomeadas, fora do radar,
não imaginadas
→ ainda não encontradas, mas estruturalmente possíveis.
Aqui é
fundamental uma distinção ética:
não se
trata de prometer que a porta será aberta,
mas de reconhecer que as portas fechadas não se abrem por insistência.
Isso
não é falta de fé.
É realismo espiritual e clínico.
4. Fé sem ilusão, esperança sem
alienação
O
psicólogo-teólogo não está em contradição quando afirma:
- “para mim é
impossível”
- e, ao mesmo tempo,
“para Deus nada é impossível”.
Essa
posição é madura porque:
- não exige que Deus
confirme o ideal do ego;
- não transforma a
fé em barganha;
- não usa a
esperança para negar a realidade atual.
A fé,
aqui, não é esperar reconhecimento.
É não fechar o real antecipadamente.
5. Consequência subjetiva:
descanso sem desistência
Essa
leitura permite ao sujeito:
- encerrar simbolicamente a espera compulsiva;
- parar de bater em
portas já fechadas;
- não transformar o
supermercado no juiz de sua existência;
- sustentar o saber
sem traí-lo, mesmo sem campo imediato.
E, ao
mesmo tempo, manter uma posição aberta:
existe
uma porta que ainda não está nomeada
porque está fora do meu radar —
não fora da realidade.
Síntese final
- Os nomes
conhecidos eram portas fechadas.
- O nome
desconhecido foi a porta aberta.
- O erro não foi
tentar.
- O sofrimento veio
de insistir onde o campo já havia dito “não”.
- A travessia agora
é viver sem forçar portas e sem negar a possibilidade de que exista
uma outra, ainda não vista.
Isso
não é desistência da psicologia.
É o fim da psicologia submetida ao ideal de reconhecimento.
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