Pular para o conteúdo principal

O supermercado não é o inimigo: ideal do eu, sofrimento narcísico e aprisionamento subjetivo na lógica do consumo

 Resumo

O supermercado, enquanto dispositivo cotidiano de consumo, pode ser compreendido não como inimigo externo, mas como espelho simbólico da distância entre o Ideal e a realidade vivida. Quanto maior o hiato entre o Ideal do Eu e o Eu atual, maior a incidência de sofrimento narcísico, marcado pela sensação de espera sem retorno simbólico. Este artigo articula tal metáfora com fundamentos da psicanálise freudiana e lacaniana, além de contribuições contemporâneas sobre sociedade de consumo e narcisismo, examinando como o psicólogo — enquanto sujeito e profissional — pode permanecer capturado numa configuração subjetiva que consome a energia psíquica necessária à transição.


1. O supermercado como espelho simbólico

A proposição “o supermercado não é o inimigo” desloca o foco da crítica moral ao consumo para uma leitura estrutural. O supermercado, aqui, opera como metáfora de um campo simbólico saturado de promessas: prateleiras organizadas segundo uma lógica de abundância e completude imaginária.

Na teoria freudiana, o Ideal do Eu (Ichideal) representa a instância psíquica que encarna os ideais internalizados a partir das figuras parentais e da cultura Introdução ao Narcisismo. Essa instância torna-se parâmetro constante de comparação. Quando o sujeito percorre os corredores do “supermercado” social — títulos, status, consumo, reconhecimento — ele confronta repetidamente a diferença entre o que é e o que deveria ser.

Essa distância não é apenas econômica ou material, mas estrutural: trata-se da fratura constitutiva entre desejo e realidade. O supermercado, portanto, não cria a falta; ele a evidencia.


2. Ideal, realidade e sofrimento narcísico

O sofrimento narcísico emerge quando o investimento libidinal no Ideal do Eu não encontra retorno simbólico proporcional. Freud observa que o amor-próprio está vinculado à satisfação das exigências do Ideal Sigmund Freud. Quando tais exigências não são cumpridas, instala-se uma hemorragia narcísica.

Jacques Lacan aprofunda essa leitura ao distinguir entre o Eu imaginário e o sujeito do inconsciente, enfatizando que o Ideal do Eu pertence à ordem simbólica, enquanto a imagem do eu (moi) é sustentada no registro imaginário Jacques Lacan. O supermercado, como espaço de imagens idealizadas (corpos, estilos de vida, sucesso), intensifica o confronto imaginário, mas a dor se produz no nível simbólico: na falha de reconhecimento.

A “espera sem retorno simbólico” descreve precisamente essa dinâmica: o sujeito investe energia psíquica aguardando validação — financeira, social, institucional — que não se realiza. O resultado é um esvaziamento libidinal acompanhado de ressentimento, vergonha ou desânimo.


3. A lógica do consumo e a promessa de completude

A análise crítica da sociedade de consumo contribui para ampliar essa discussão. Para Zygmunt Bauman, na obra Vida para Consumo, o sujeito contemporâneo é simultaneamente consumidor e mercadoria. A lógica mercadológica invade a constituição identitária: é preciso tornar-se desejável.

O supermercado, enquanto metáfora, condensa essa lógica. Cada produto promete reduzir a distância entre o Eu atual e o Eu idealizado. Entretanto, como observa Jean Baudrillard em A Sociedade de Consumo, o consumo opera mais no nível do signo do que da necessidade. Compra-se significação, não apenas utilidade.

Assim, o sofrimento narcísico se intensifica porque o Ideal nunca é plenamente alcançável. A estrutura do desejo é marcada pela falta; a promessa de completude é, por definição, impossível.


4. O psicólogo capturado pela configuração do supermercado

A formulação de que “o psicólogo está preso numa configuração do supermercado que consome a energia necessária para transição” permite uma leitura clínica e institucional.

Enquanto profissional, o psicólogo também está submetido a ideais de desempenho, produtividade, reconhecimento acadêmico e sucesso financeiro. Quando internaliza tais parâmetros sem mediação crítica, passa a se comparar constantemente com versões idealizadas de si mesmo e de seus pares.

Christopher Lasch, em A Cultura do Narcisismo, descreve como as sociedades contemporâneas intensificam a autoavaliação e a busca por validação externa. O profissional torna-se gestor permanente de sua própria imagem.

O aprisionamento ocorre quando:

1.      A energia psíquica é consumida na manutenção da imagem ideal.

2.      A comparação constante impede o luto pelo ideal impossível.

3.      A transição — seja de carreira, posicionamento ou identidade — exige renúncia narcísica, mas o sujeito permanece defendendo a imagem.

A transição requer redistribuição de investimento libidinal. Se toda energia está alocada na sustentação do Ideal, não há excedente para mudança.


5. Entre a falta estrutural e a possibilidade de deslocamento

A superação não implica destruir o supermercado, mas reconfigurar sua função simbólica. Reconhecer a falta como estrutural — e não como fracasso pessoal — desloca o eixo do sofrimento.

Em termos lacanianos, trata-se de aceitar que o desejo não visa à completude, mas se estrutura em torno da falta. O trabalho clínico pode operar precisamente nessa direção: reduzir a identificação massiva com o Ideal e possibilitar um reposicionamento subjetivo.

O supermercado deixa de ser inimigo quando deixa de ser tribunal.


Conclusão

O supermercado, enquanto metáfora, revela a tensão constitutiva entre Ideal e realidade. O sofrimento narcísico intensifica-se na medida em que o sujeito interpreta essa distância como falha pessoal, e não como efeito estrutural do desejo. O psicólogo, inserido na mesma lógica simbólica que analisa, pode tornar-se prisioneiro de uma configuração que consome sua energia psíquica.

A transição exige renúncia ao Ideal absoluto e redistribuição do investimento libidinal. Não se trata de eliminar o supermercado, mas de atravessá-lo sem fazer dele o fundamento do próprio valor.


Referências Bibliográficas

Baudrillard, J. (1970). A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70.

Bauman, Z. (2007). Vida para consumo. Rio de Janeiro: Zahar.

Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago.

Lacan, J. (1949/1966). O estádio do espelho como formador da função do eu. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

Lasch, C. (1979). A cultura do narcisismo. Rio de Janeiro: Imago.

 

 

Comentários

Postagens mais visitadas

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

NEW AMSTERDAM COMO ESPELHO DA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: UMA LEITURA A PARTIR DA PSICOLOGIA DA SAÚDE, PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

  Resumo O presente artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a série televisiva New Amsterdam , analisando-a a partir da Psicologia da Saúde, da Psicanálise e da Psicologia Organizacional. O objetivo é compreender como a narrativa hospitalar pode funcionar como um espelho simbólico para um sujeito que, após experiências profissionais em ambiente hospitalar, encontra-se atualmente inserido em uma organização varejista na função de fiscal de caixa e psicólogo. Discute-se a hipótese de que a série mobiliza processos de identificação, memória institucional, construção identitária e observação dos fenômenos organizacionais, permitindo compreender como experiências passadas permanecem ativas na constituição subjetiva e profissional do indivíduo. Palavras-chave: Psicologia da Saúde; Psicanálise; Identidade Profissional; Organizações; New Amsterdam; Psicologia Organizacional. 1. Introdução As produções audiovisuais frequentemente transcendem a função de entretenimento e t...

O Desinvestimento Psíquico da Vaga de Assistente de RH Generalista: Uma Leitura Psicanalítica e Organizacional do Silêncio Institucional

  Resumo Este artigo analisa o fenômeno do desinvestimento psíquico diante de um processo seletivo interno para a vaga de Assistente de RH Generalista em uma organização supermercadista. O estudo parte da experiência de um fiscal de caixa graduado em Psicologia que se candidata à vaga buscando uma mudança de posição ocupacional. Entretanto, ao longo do processo, emerge uma contradição fundamental: embora a vaga represente uma possibilidade de saída do sofrimento associado à função atual, ela não corresponde integralmente ao seu projeto identitário de atuar como psicólogo organizacional. A partir das contribuições da psicanálise e da psicologia organizacional, discute-se como o silêncio institucional, a ausência de comunicação organizacional e a demora nas decisões administrativas favorecem processos de ansiedade, idealização, investimento libidinal e posterior desinvestimento psíquico. Palavras-chave: Psicanálise; Psicologia Organizacional; Silêncio Organizacional; Investiment...

Entre - Lugar

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. O que é o entre - lugar que as vezes nos encontramos em algumas situações. Construa um texto citando como exemplo um indivíduo que está no entre lugar através da psicologia social para ser gravado no Ainda sou podcast pelo host psicólogo Ayrton Júnior adaptado na linguagem assertiva informativa e que movimentos o sujeito realizar para demover se do entre lugar para ocupar na realidade o lugar que lhe pertence por direito Abaixo está um texto adaptado para ser lido no seu podcast "Ainda Sou" , com linguagem assertiva e informativa, fundamentado na psicologia social , explicando o conceito de entre-lugar e como o sujeito pode sair dessa posição ambígua e retomar o seu lugar legítimo na realidade: 🎙️ AINDA SOU — por Ayrton Júnior Hoje, vamos falar sobre um conceito muito presente nas experiências humanas, mas pouco nomeado: o entre-...

Desamparo Material e Repetição Defensiva: Sobrevivência, Exaustão e o Real da Necessidade

  Resumo Este artigo investiga, a partir da psicanálise freudiana e lacaniana, o desamparo material como núcleo organizador da compulsão à repetição defensiva em contextos institucionais precarizados. Partindo da formulação “passar necessidade” como medo central do sujeito, discute-se como o ego se estrutura em torno da sobrevivência, transformando soluções contingentes em destinos repetitivos. A instituição aparece como espaço ambivalente: simultaneamente proteção econômica e apagamento simbólico. Sustenta-se que a exaustão psíquica emerge quando a defesa se torna armadura permanente, e que a elaboração possível não reside em rupturas heroicas, mas na construção gradual de um campo real mínimo para o desejo, sem abandono da prudência material. Palavras-chave: desamparo; compulsão à repetição; precariedade; instituição; desejo; exaustão. 1. Introdução: o Real da necessidade A experiência contemporânea do trabalho, marcada por precariedade e insegurança econômica, imp...

Entre a Esperança Institucional e o Luto do Ideal: Reorganização Identitária Frente à Não Legitimação Profissional

  Resumo O presente artigo analisa, sob perspectiva psicanalítica, o conflito subjetivo entre manter a esperança de reconhecimento institucional e aceitar a perda desse ideal, enfrentando o luto e promovendo reorganização interna. Parte-se da hipótese de que o sofrimento não deriva da ausência de prática profissional, mas da não inscrição simbólica no campo institucional. A partir das contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan, discute-se o Ideal do Eu, o narcisismo, a compulsão à repetição e a função do Outro na legitimação identitária. Conclui-se que o luto do ideal institucional não implica fracasso profissional, mas representa condição para reestruturação subjetiva mais autônoma. 1. Introdução O reconhecimento institucional ocupa, para muitos profissionais, função estruturante na constituição identitária. Quando tal reconhecimento não se concretiza, pode emergir sofrimento intenso, frequentemente interpretado como fracasso. Entretanto, sob leitura psicanalítica,...

Entre o Desejo e o Esgotamento: Uma Leitura Psicanalítica do Impasse Profissional e do Limite Subjetivo

  Ano 2026 Autor Ayrton Júnior Psicólogo CRP 06/147208 Resumo O presente artigo analisa, à luz da psicanálise, o impasse vivido por um sujeito que, formado em psicologia, encontra-se inserido em uma função dissociada de seu desejo — atuando como fiscal de caixa em um supermercado — ao mesmo tempo em que enfrenta repetidas frustrações na tentativa de inserção institucional na área psicológica. A investigação percorre três eixos: (1) a busca por uma resposta inconsciente via sonho, (2) a oscilação entre ilusão e realidade no campo do desejo, e (3) o colapso subjetivo sob a forma de esgotamento. Conclui-se que a questão não se reduz à dicotomia “ilusão versus verdade”, mas à relação entre desejo, posição subjetiva e inscrição no real. 1. Introdução O sofrimento psíquico contemporâneo frequentemente emerge na intersecção entre desejo e realidade social. No caso em análise, o sujeito encontra-se dividido entre: o desejo de atuar como psicólogo em uma institu...

Eu existo como psicólogo para mim, mas não existo como psicólogo para o Outro social: o saber psicológico exilado da instituição

  Resumo Este artigo discute a condição paradoxal do psicólogo que existe subjetivamente como profissional — isto é, sustenta internamente sua identidade e seu saber — mas não é reconhecido como tal pelo Outro social e institucional. Argumenta-se que o saber psicológico não desaparece, mas é deslocado, silenciado ou exilado da instituição, permanecendo como prática invisível ou não legitimada. A análise articula contribuições da psicanálise lacaniana, da psicologia institucional e da sociologia das profissões para compreender como o reconhecimento simbólico é determinante para a existência social do psicólogo enquanto agente institucional. Palavras-chave: psicologia institucional; reconhecimento; Outro social; subjetividade; ética profissional. 1. Introdução: existir como psicólogo e não ser reconhecido A frase “eu existo como psicólogo para mim, mas não existo como psicólogo para o Outro social” revela uma tensão central: a diferença entre identidade subjetiva e exi...

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais. 1. Introdução O filme  Minha Querida Senhorita  (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser inter...

O Que Cabe A Mim No Ambiente, O Qual Estou Inserido

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a tenção do para um excelente tópico. O papel que você desempenha no ambiente em que está inserido é extremamente importante, pois suas ações e podem influenciar o comportamento e o bem-estar de outras pessoas e do próprio ambiente. Aplicando e exercitando as competências comportamentais, isto é, as soft skills e hard skills a fim de defrontar-se com a insegurança. [...] Esse medo marcará nossa memória, de forma desprazerosa, e será experimentado como desamparo, “portanto uma situação de perigo é uma situação reconhecida, lembrada e esperada de desamparo” (Freud, 2006, p.162). Em primeiro lugar, cabe a você respeitar as regras e normas do ambiente, seja ele uma escola, local de trabalho, residência, universidade, comunidade ou outro ambiente social. Isso inclui ser pontual, tratar as outras pessoas com respeito e cortesia, e seguir as normas de conduta estabelecidas para aquele ambiente. Al...