Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
O uso de unhas longas e
ornamentadas por operadoras de caixa, mesmo quando interfere negativamente no
desempenho operacional, costuma ser tratado pelas organizações como questão
disciplinar ou estética. Este artigo propõe uma leitura alternativa, ancorada
na psicanálise e na clínica do trabalho, compreendendo o fenômeno como
expressão simbólica de conflitos entre corpo, desejo e lei institucional.
Argumenta-se que tais manifestações corporais podem operar como resistência
simbólica ou, em determinados contextos, como sabotagem inconsciente, estando
frequentemente associadas ao esgotamento psíquico em funções altamente
normatizadas. Por fim, discute-se o papel da gestão institucional na produção,
manutenção ou elaboração desses sintomas.
1. Introdução
O trabalho de caixa em
supermercados e estabelecimentos de varejo caracteriza-se por elevada
repetição, controle temporal rígido, vigilância constante e baixo
reconhecimento simbólico. Nesse cenário, práticas corporais que aparentam
contrariar a eficiência operacional — como o uso de unhas longas que dificultam
o manuseio do teclado — são frequentemente interpretadas como indisciplina ou
desleixo.
Tal leitura, entretanto, revela-se
limitada. Ao reduzir o corpo a instrumento técnico, a gestão ignora sua
dimensão simbólica e subjetiva. A psicanálise oferece ferramentas conceituais
para compreender essas condutas não como simples falhas individuais, mas como
sintomas produzidos na relação entre sujeito e instituição.
2. O corpo no trabalho: da função ao significante
Na perspectiva psicanalítica, o
corpo não é apenas organismo funcional, mas lugar de inscrição do sujeito. Ele
fala quando a palavra não encontra espaço. Em ambientes altamente normatizados,
onde o discurso do trabalhador é restrito ou desautorizado, o corpo tende a
assumir função expressiva.
As unhas longas e decoradas, nesse
contexto, operam como um significante visível, uma marca de
singularidade em um espaço que exige homogeneização. O corpo, convocado a
funcionar como máquina eficiente, introduz um excesso — estético, simbólico,
narcísico — que tensiona a lógica produtivista.
3. Ideal institucional e conflito psíquico
Do ponto de vista freudiano,
pode-se compreender o fenômeno como conflito entre:
- O Ideal do Eu institucional, que exige
rapidez, precisão e neutralidade corporal;
- O Eu desejante, que busca
reconhecimento, valor e diferenciação.
O trabalho de caixa oferece pouco
retorno libidinal: o esforço investido raramente se traduz em reconhecimento
simbólico. Diante disso, a construção de uma imagem corporal valorizada pode
funcionar como compensação psíquica. O prejuízo funcional decorrente das unhas
não é desconhecido pelo sujeito, mas é tolerado como custo para preservar uma
forma mínima de autoestima.
4. Resistência simbólica e sabotagem inconsciente
É fundamental distinguir dois
registros possíveis desse comportamento.
4.1 Resistência simbólica
A resistência simbólica é
parcialmente consciente e não visa destruir a organização. Trata-se de um modo
de dizer “não completamente” à lógica totalizante do trabalho. O sujeito
obedece às regras centrais, mas preserva um espaço de autoria corporal.
Nesse registro, o erro operacional
é limitado, repetitivo e não escalonado. O gesto sustenta o sujeito sem
produzir colapso.
4.2 Sabotagem inconsciente
Quando o esgotamento psíquico se
intensifica e a resistência simbólica já não é suficiente, o comportamento pode
deslizar para a sabotagem inconsciente. Aqui, os erros tornam-se frequentes, a
angústia aumenta e o sujeito passa a ocupar o lugar de falha constante.
A sabotagem não é deliberada; ela
expressa a ambivalência profunda em relação ao trabalho e pode funcionar como
tentativa inconsciente de expulsão do posto ou de interrupção do sofrimento.
5. O esgotamento psíquico no trabalho de caixa
O trabalho de caixa reúne condições
clássicas de adoecimento psíquico:
- Repetição mecânica;
- Controle excessivo;
- Exposição direta ao conflito com clientes;
- Pouca autonomia;
- Invisibilidade subjetiva.
Nesse cenário, o esgotamento
antecede o sintoma corporal. As unhas longas não inauguram o sofrimento; elas
surgem quando o sujeito já não consegue simbolizar sua insatisfação por vias
discursivas reconhecidas pela instituição.
O corpo, então, torna-se o último
recurso para produzir limite.
6. Implicações para a gestão institucional
A resposta institucional a esse
fenômeno é decisiva. A gestão que atua exclusivamente pela via punitiva:
- Confunde resistência simbólica com
indisciplina;
- Intensifica a vivência de injustiça;
- Acelera o adoecimento e o turnover.
Uma gestão mais elaborada precisa
articular dois níveis:
1.
Funcional,
com critérios claros sobre impacto operacional;
2.
Simbólico,
reconhecendo o trabalhador para além da função e abrindo espaços mínimos de
reconhecimento e escuta.
Sem isso, o sintoma tende a se
repetir ou a se agravar.
7. Conclusão
O uso de unhas longas no trabalho
de caixa não pode ser compreendido apenas como falha individual ou
descumprimento de normas. Trata-se de um fenômeno complexo, situado na
interseção entre corpo, desejo e lei institucional.
Sob a ótica psicanalítica, o
prejuízo operacional pode funcionar como sintoma, resistência simbólica ou
sabotagem inconsciente, frequentemente associado ao esgotamento psíquico em
trabalhos repetitivos e pouco reconhecidos. Ignorar essa dimensão subjetiva não
elimina o problema; ao contrário, contribui para sua cronificação.
Reconhecer o corpo como lugar de
linguagem é condição fundamental para qualquer política institucional que
pretenda, de fato, cuidar do trabalho e de quem o realiza.
Referências bibliográficas (indicativas)
- Freud, S. Inibições, sintomas e ansiedade.
- Lacan, J. O seminário, Livro 7: A ética da
psicanálise.
- Dejours, C. A loucura do trabalho.
- Enriquez, E. A organização em análise.
- Clot, Y. Trabalho e poder de agir.
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