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O fiscal que trabalha com a lei

 Fiscal de caixa em conflito com operadora de caixa

Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

 

Resumo

O presente artigo analisa, à luz da psicanálise freudiana e lacaniana, um episódio institucional ocorrido entre um fiscal de caixa e uma operadora de caixa em um contexto organizacional normatizado. O conflito, inicialmente operacional, escalou para instâncias superiores (liderança, gerência e RH), revelando dinâmicas inconscientes de repetição, projeção e deslocamento da culpa. A partir desse caso, discute-se a distinção fundamental entre encarnar a lei e trabalhar com a lei, bem como os efeitos subjetivos dessa diferença tanto para o sujeito que ocupa a função quanto para a instituição. O artigo propõe ainda o episódio como marcador de encerramento simbólico de ciclo e como indicador de prontidão para atuação em outros campos institucionais da lei.

Palavras-chave: Psicanálise e instituições; Lei simbólica; Compulsão à repetição; Autoridade; Trabalho institucional.


1. Introdução

Conflitos institucionais frequentemente são tratados como problemas de conduta individual ou falhas de comunicação. No entanto, a psicanálise oferece ferramentas para compreendê-los como efeitos estruturais do encontro entre sujeitos, funções e a lei. Este artigo analisa um conflito entre um fiscal de caixa e uma operadora de caixa que, a partir de uma questão técnica — a aceitação de moedas como procedimento de trabalho —, tomou proporção institucional ampliada, alcançando a gerência e o setor de Recursos Humanos.

O interesse do caso não reside no fato em si, mas na posição subjetiva ocupada pelo fiscal — psicólogo de formação — que sustentou a função sem recorrer ao autoritarismo, sem se intimidar com a escalada institucional e sem transformar o conflito em disputa pessoal. Tal posição permite pensar a diferença entre trabalhar com a lei e encarná-la, distinção central para a clínica e para o trabalho institucional.


2. A cena institucional e a lei operacional

O procedimento de suprimento de moedas no caixa é uma regra objetiva, impessoal e prevista pela organização. Ao intervir para garantir o funcionamento adequado do caixa, o fiscal atuou conforme a norma institucional, buscando prevenir constrangimentos futuros aos clientes e à própria operadora.

A recusa da operadora em aceitar as moedas introduz um impasse que ultrapassa o nível técnico. A regra deixa de ser reconhecida como mediação simbólica e passa a ser vivida como imposição pessoal. Nesse ponto, a lei deixa de operar simbolicamente e passa a ser experimentada como violência subjetiva, fenômeno comum em sujeitos que apresentam dificuldade de simbolizar limites.


3. Compulsão à repetição e deslocamento da culpa

A operadora já apresentava histórico de conflitos com outros fiscais, indicando uma lógica de repetição. Freud, em Além do Princípio do Prazer, descreve a compulsão à repetição como a tendência do sujeito a reinscrever, no ato, aquilo que não foi simbolizado (Freud, 1920/1996). O sujeito não recorda, repete; não elabora, atua.

Nesse caso, a repetição se organiza em torno da figura que representa a lei. Os personagens mudam, mas o roteiro permanece: conflito, acusação, vitimização e escalada institucional. A responsabilização do fiscal permite à operadora deslocar a culpa e sustentar uma narrativa de perseguição, frequentemente necessária para autorizar, inconscientemente, uma saída do trabalho sem vivência de fracasso.


4. Encarnar a lei versus trabalhar com a lei

A distinção entre encarnar a lei e trabalhar com a lei é fundamental. Encarnar a lei implica personalizá-la, exercê-la pelo medo e confundir função com poder. Trabalhar com a lei, ao contrário, supõe sustentá-la como mediação simbólica, impessoal e separada do narcisismo do agente.

Lacan afirma que a lei só opera quando não se confunde com a figura daquele que a enuncia (Lacan, 1953/1998). O fiscal, ao aplicar o procedimento sem humilhar, sem retaliar e sem se defender reativamente, sustentou a lei sem encarná-la. Essa posição, embora eticamente consistente, frequentemente entra em conflito com modelos institucionais que privilegiam lideranças autoritárias e disciplinadoras.


5. A escalada ao RH e o não-medo como indicador clínico

A ampliação do conflito para o RH costuma operar, nas instituições, como dispositivo de intimidação simbólica. No entanto, o fiscal não experimentou medo, culpa ou necessidade defensiva. Tal ausência de medo indica que a lei estava simbolizada e não confundida com punição.

Do ponto de vista clínico-institucional, esse é um indicador de prontidão: a capacidade de sustentar a função mesmo diante da escalada do outro, sem colapso subjetivo. Em contextos como o judiciário, a socioeducação ou a perícia psicológica, essa competência é central, pois o sujeito frequentemente dramatiza, acusa e testa a autoridade.


6. Projeção institucional e produção de insegurança

As lideranças, ao afirmarem que o fiscal “tem dificuldades no atendimento” sem conseguir exemplificá-las, produzem um discurso vago que pode operar como mecanismo de projeção. A dificuldade não localizada funciona como tentativa de gerar insegurança e autointerrogação excessiva no sujeito, deslocando para ele uma falta que não lhe pertence.

Esse tipo de enunciação aparece recorrentemente em instituições quando o profissional não se ajusta ao modelo dominante de autoridade. O pedido implícito não é por melhora técnica, mas por endurecimento subjetivo. A recusa do fiscal em se modelar a uma liderança autoritária marca um limite ético e sinaliza o esgotamento simbólico do campo.


7. Fim de ciclo, não acting out

A leitura do episódio como fim de ciclo e não como acting out é fundamental. Acting out supõe impulsividade, resposta reativa e tentativa de comunicação pelo ato. Aqui, ao contrário, há elaboração, leitura estrutural e reconhecimento do limite institucional.

O ciclo se encerra quando o trabalho deixa de produzir simbolização e passa a exigir renúncia ética. Permanecer, nesse ponto, implicaria apagar a própria posição subjetiva. A transição, portanto, não é fuga, mas consequência lógica de um percurso já consolidado.


8. Considerações finais

O conflito entre o fiscal de caixa e a operadora de caixa revela, para além do episódio concreto, uma estrutura institucional em que a lei tende a ser encarnada e o conflito silenciado. A posição do fiscal — trabalhar com a lei sem se confundir com ela — demonstra maturidade clínica e institucional, além de indicar prontidão para atuar em outros campos onde o conflito é reconhecido como parte do trabalho.

Esse episódio não mancha a trajetória do fiscal; ao contrário, funciona como marco de elaboração e de passagem. Ele evidencia que o campo institucional já não comporta a função tal como ela é exercida, abrindo espaço para uma transição ética e simbolizada.


Referências Bibliográficas

FREUD, S. (1920/1996). Além do princípio do prazer. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1914/1996). Recordar, repetir e elaborar. In: Edição Standard Brasileira, v. XII. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. (1953/1998). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, J. (1969–1970/1992). O seminário, livro 17: O avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.

ENRIQUEZ, E. (1997). A organização em análise. Petrópolis: Vozes.

DEJOURS, C. (1992). A loucura do trabalho. São Paulo: Cortez.

 

 

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