Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Introdução
Este livro nasce da necessidade de
compreender, à luz da psicanálise e da clínica do trabalho, uma cena
aparentemente banal do cotidiano institucional: um conflito entre dois fiscais
de caixa. Longe de se tratar apenas de um desentendimento interpessoal, a
situação revela uma trama complexa de acting out, identificação projetiva,
sofrimento ético e adoecimento psíquico produzido por organizações que não
simbolizam seus conflitos.
A expressão “cair na armadilha”,
utilizada pela encarregada, funciona aqui como operador clínico. Ela nomeia,
ainda que de forma intuitiva, um processo inconsciente no qual um sujeito é
capturado pela dinâmica passivo-agressiva de outro e, ao reagir, perde sua
posição simbólica. O objetivo deste livro é desdobrar essa cena, mostrando como
ela se articula com Burnout, dinâmica institucional tóxica e com o desejo de
deslocamento da função operacional para um lugar de escuta.
Este não é um livro sobre culpados,
mas sobre posições subjetivas, economia psíquica institucional e possibilidades
de saída simbólica.
Sumário
1.
A Cena e a Armadilha
Psíquica
2.
Passivo-agressividade,
Acting Out e Identificação Projetiva
3.
Instituição, Sofrimento
Ético e Burnout
4.
A Armadilha como
Dispositivo Institucional
5.
Do Operacional ao Lugar
de Escuta: Uma Saída Possível
Capítulo 1 – A Cena e a Armadilha Psíquica
O conflito entre o fiscal e a
colega passivo-agressiva não pode ser lido apenas no nível factual. Trata-se de
uma cena em que o sujeito é deslocado de sua função simbólica para uma posição
imaginária de confronto.
A armadilha consiste em provocar
uma reação afetiva que retira o sujeito do lugar da função e o insere na
rivalidade do ego. Ao reagir, o fiscal deixa de representar a norma e passa a
representar a si mesmo na cena.
“O eu não é senhor em sua própria
casa.” (Freud)
Essa afirmação freudiana esclarece
por que o sujeito reage mesmo quando sabe, racionalmente, que não deveria. A
armadilha opera no inconsciente.
Capítulo 2 – Passivo-agressividade, Acting Out e
Identificação Projetiva
A passivo-agressividade é uma forma
de atuação indireta do conflito. O sujeito não confronta, mas provoca. Não
nomeia, mas induz o outro a agir.
Nesse contexto, a identificação
projetiva é central: afetos intoleráveis são evacuados e colocados no outro,
que passa a senti-los e expressá-los.
Quando o fiscal reage, ele entra no
acting out, encenando aquilo que não conseguiu ser simbolizado pela colega e
pela instituição.
“Aquilo que não é simbolizado
retorna no real.” (Lacan)
A armadilha é eficaz porque
transforma conflito psíquico em cena concreta.
Capítulo 3 – Instituição, Sofrimento Ético e
Burnout
O Burnout, neste caso, não é efeito
de excesso de tarefas, mas de excesso de implicação subjetiva sem
reconhecimento simbólico.
O sofrimento ético emerge quando o
trabalhador sabe como deveria agir, deseja agir corretamente, mas é impedido
pela organização do trabalho.
Responder à provocação fere o
sujeito; silenciar-se também. Essa dupla impossibilidade produz desgaste
profundo.
“O sofrimento no trabalho começa
quando o sujeito não pode mais reconhecer-se no que faz.” (Christophe Dejours)
A fala da encarregada reconhece a
armadilha, mas não transforma a estrutura que a produz, agravando o sofrimento.
Capítulo 4 – A Armadilha como Dispositivo
Institucional
A armadilha não é apenas
interpessoal; ela é institucional. Organizações que não simbolizam conflitos
tendem a personalizá-los.
O conflito deixa de ser estrutural
e passa a ser tratado como problema de relacionamento. Assim, a instituição se
preserva, enquanto os sujeitos adoecem.
O fiscal implicado torna-se bode
expiatório funcional: aquele que tenta fazer funcionar e, por isso mesmo, é
capturado pelo sintoma.
“As instituições também têm
inconsciente.” (René Kaës)
A repetição da cena indica que o
conflito cumpre uma função na economia psíquica institucional.
Capítulo 5 – Do Operacional ao Lugar de Escuta:
Uma Saída Possível
O desejo de sair da função
operacional não é fuga, mas efeito de lucidez. O sujeito passa do agir para o
compreender.
O lugar de escuta — psicólogo
institucional, analista do trabalho, mediador simbólico — surge como tentativa
de devolver palavra onde há ato.
Essa mudança implica uma nova
posição subjetiva: menos captura imaginária, mais sustentação simbólica.
“A ética da psicanálise é a ética
do desejo.” (Lacan)
Quando a instituição não oferece
esse lugar, o sujeito tende a adoecer ou a se retirar.
Conclusão Final
O fiscal cai na armadilha não por
fragilidade pessoal, mas porque ocupa uma posição ética em uma instituição que
não simboliza seus conflitos. A armadilha é o nome de um dispositivo
inconsciente que captura aqueles que tentam sustentar o funcionamento.
Compreender essa cena permite ao
sujeito retirar-se do circuito de repetição, recuperar sua posição simbólica e
escolher, com mais liberdade, seu destino profissional e subjetivo.
Referências Bibliográficas
- Freud, S. (1915). O inconsciente.
- Freud, S. (1923). O ego e o id.
- Lacan, J. (1959–1960). O Seminário, Livro 7:
A ética da psicanálise.
- Lacan, J. (1966). Escritos.
- Dejours, C. (1992). A loucura do trabalho.
- Dejours, C. (2004). Subjetividade, trabalho
e ação.
- Kaës, R. (1997). A instituição e as
instituições.
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