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O Desejo Aprisionado entre o Dever e o Sentido

 Ano 2025. Autor [ ayrton Junior Psicólogo]

🧭 Introdução

Neste livro, o autor propõe uma leitura psicanalítica do cotidiano institucional, tomando como metáfora o fiscal de caixa que também é psicólogo — um sujeito dividido entre o dever profissional e o desejo de exercer sua vocação de escuta e transformação humana.

A partir de sua vivência em um supermercado — espaço de consumo, controle e repetição — o autor interpreta, à luz da psicanálise, como o sujeito moderno perde o sentido de si quando o desejo é reprimido pela rigidez institucional.
Porém, mostra também que mesmo em um ambiente aparentemente sem alma, o olhar analítico pode descobrir um laboratório vivo de emoções.


📑 Sumário

1.      O fiscal e o psicólogo: um sujeito dividido

2.      A perda do desejo e o esvaziamento libidinal

3.      A função simbólica do trabalho

4.      O supermercado como metáfora do inconsciente

5.      Superego institucional e submissão moral

6.      Frustração, raiva e tristeza: emoções do ego aprisionado

7.      Angústia e apatia: a morte simbólica do desejo

8.      Contratransferência e identificação com a função

9.      O olhar analítico no ambiente impessoal

10. O marketing e o discurso do gozo

11. A alienação e o recalque do desejo de ser útil

12. O sofrimento como ganho secundário do ego

13. Escuta silenciosa: o psicólogo ativo dentro da instituição rígida

14. A reconciliação entre o fiscal e o psicólogo

15. Ressignificar o desejo: o trabalho como campo analítico

Conclusão Final
Referências Bibliográficas


📖 Capítulo 1 — O fiscal e o psicólogo: um sujeito dividido

“O homem é dividido pelo desejo, e é nesse intervalo entre o que faz e o que sonha que mora o inconsciente.” — (Lacan, 1964)

Neste capítulo, o autor apresenta o conflito interno do fiscal-psicólogo: entre a identidade que o ambiente exige (o fiscal controlador) e a identidade que sua alma deseja (o psicólogo acolhedor).
A função de fiscal representa o ego adaptado ao princípio de realidade, enquanto a função de psicólogo expressa o ego mediador do desejo.
A cisão entre ambas revela o drama moderno do trabalhador: a alienação de si mesmo em nome da estabilidade.


Capítulo 2 — A perda do desejo e o esvaziamento libidinal

“Aonde o desejo é sufocado, instala-se o sintoma.” — (Freud, 1917)

O desejo é a energia vital que movimenta o sujeito. Quando o trabalho deixa de ser espaço de criação, ele se transforma em repetição, e a libido se retira do objeto.
No caso do fiscal-psicólogo, a perda do desejo é o sintoma da submissão do ego ao superego moral — o mandamento inconsciente de que “sofrer é ser bom”.
A consequência é o tédio, a apatia e o esvaziamento do sentido.


Capítulo 3 — A função simbólica do trabalho

O trabalho é o lugar onde o sujeito simboliza sua existência.
Quando ele é reduzido a mera função, o símbolo se quebra, e o sujeito perde o laço com o próprio desejo.
A psicanálise ensina que o trabalho pode ser uma via de sublimação, mas também de repressão, dependendo de como o sujeito se inscreve nele.


Capítulo 4 — O supermercado como metáfora do inconsciente

O supermercado é um espelho da estrutura psíquica:

  • O estoque representa o inconsciente (conteúdos reprimidos);
  • O caixa é o ponto de troca simbólica (entre desejo e satisfação);
  • O cliente é o id, buscando prazer imediato;
  • O fiscal é o ego, tentando controlar o impulso;
  • A gerência é o superego, que pune e impõe regras.

Neste cenário, o psicólogo-fiscal pode observar as pulsões sociais, o comportamento humano e os sintomas coletivos do consumo e da repetição.


Capítulo 5 — Superego institucional e submissão moral

“O superego é o herdeiro do complexo de Édipo.” — (Freud, 1923)

O superego institucional é a voz da norma, do controle e da culpa.
Ele se manifesta nas hierarquias rígidas, nos regulamentos e na cultura da produtividade.
O fiscal, ao se submeter excessivamente, torna-se objeto do olhar punitivo do superego, perdendo sua espontaneidade e autenticidade.


Capítulo 6 — Frustração, raiva e tristeza: emoções do ego aprisionado

Essas emoções surgem quando o ego percebe que seu desejo não pode se realizar:

  • A frustração denuncia o bloqueio do prazer;
  • A raiva expressa o conflito entre desejo e censura;
  • A tristeza revela a perda do sentido e do valor próprio.

Cada uma delas é um sinal do inconsciente pedindo escuta.


Capítulo 7 — Angústia e apatia: a morte simbólica do desejo

“A angústia não engana.” — (Lacan, 1962)

A angústia é o alarme do inconsciente. Ela surge quando o sujeito se distancia do seu desejo.
Mas, quando o ego não suporta mais o conflito, entra em apatia — uma defesa contra o sofrimento.
É o estado em que “nada mais importa”, e o trabalho vira automatismo.


Capítulo 8 — Contratransferência e identificação com a função

O ambiente institucional provoca no psicólogo reações afetivas inconscientes — a contratransferência.
O fiscal-psicólogo se identifica com o papel de vigilante, mas sente repulsa por ele, porque essa função simboliza a censura que ele próprio sofreu.
Reconhecer essa contratransferência é o primeiro passo para retomar o olhar clínico dentro do cotidiano.


Capítulo 9 — O olhar analítico no ambiente impessoal

Mesmo num local onde não se fala de sentimentos, o psicólogo pode escutar os sintomas do grupo: irritação, queixas, isolamento, sabotagem, ironias.
Cada comportamento revela uma mensagem inconsciente coletiva.
O fiscal atento transforma o supermercado num campo de observação analítica.


Capítulo 10 — O marketing e o discurso do gozo

O marketing corporativo fala ao inconsciente: promete prazer, saciedade, status.
Assim como o superego, ele exige mais — “goze!”, “consuma!”.
O psicólogo pode decifrar esse discurso, vendo o supermercado como um palco das pulsões contemporâneas.


Capítulo 11 — A alienação e o recalque do desejo de ser útil

O fiscal-psicólogo sente-se inútil não porque seu trabalho não tenha função, mas porque o desejo de ser útil de modo humano foi reprimido.
A alienação é o preço do recalque: o sujeito nega o próprio desejo para caber no molde institucional.


Capítulo 12 — O sofrimento como ganho secundário do ego

“O sofrimento pode tornar-se uma forma disfarçada de prazer.” — (Freud, 1926)

A resistência secundária do ego faz o sujeito reter o sofrimento, porque ele lhe dá sentido e identidade (“sou bom porque aguento”).
Compreender esse ganho inconsciente é essencial para libertar o desejo e reencontrar o prazer de existir.


Capítulo 13 — Escuta silenciosa: o psicólogo ativo dentro da instituição rígida

O psicólogo não precisa de título para exercer escuta.
Ele pode atuar com gestos sutis:

  • Escutar um colega em sofrimento;
  • Compreender o sintoma de um cliente impaciente;
  • Refletir silenciosamente sobre as dinâmicas emocionais do grupo.
    Essas ações são micro-intervenções analíticas.

Capítulo 14 — A reconciliação entre o fiscal e o psicólogo

O reencontro entre o fiscal e o psicólogo simboliza a integração do eu dividido.
Quando o fiscal reconhece o valor da escuta e o psicólogo reconhece o limite do contexto, ambos se completam.
O sujeito deixa de lutar contra si mesmo e passa a agir com consciência e simbolização.


Capítulo 15 — Ressignificar o desejo: o trabalho como campo analítico

O desejo não desaparece — ele se desloca.
Ao ver o supermercado como laboratório de emoções, o fiscal-psicólogo redescobre o sentido do trabalho.
A psicanálise ensina que o desejo não precisa de permissão externa para existir; ele só precisa ser escutado.
Nesse ponto, o sujeito volta a ser autor da própria história.


🪞 Conclusão Final

O fiscal-psicólogo representa o sujeito moderno: dividido, alienado, mas ainda desejante.
Mesmo em um ambiente impessoal, ele pode transformar a rotina em campo de análise e autoconhecimento.
O supermercado torna-se espelho do inconsciente coletivo — e o fiscal, um analista silencioso do comportamento humano.
Ressignificar o desejo é, portanto, um ato ético e libertador.


📚 Referências Bibliográficas

  • Freud, S. (1917). Introdução ao narcisismo e outros textos.
  • Freud, S. (1923). O ego e o id.
  • Freud, S. (1926). Inibições, sintomas e angústia.
  • Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
  • Lacan, J. (1962). A angústia.
  • Dejours, C. (1992). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho.
  • Enriquez, E. (1997). Da horda ao Estado: psicanálise do vínculo social.
  • Kaës, R. (2001). O sujeito do grupo: o inconsciente no vínculo social.
  • Birman, J. (1999). Mal-estar na atualidade: a psicanálise e as novas formas de subjetivação.
  • Winnicott, D. W. (1971). O brincar e a realidade.
  • Arendt, H. (1958). A condição humana.

 

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