Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Estigma,
Imaginário Coletivo e Reconfiguração da Legitimidade na Psicologia Social
Resumo
Este
artigo discute, sob a ótica da psicologia social, os efeitos do estigma
atribuído a um político que já passou pelo sistema prisional. Analisa como o
imaginário coletivo, a teoria da rotulagem e os processos de categorização
social influenciam a percepção pública, dificultam a reintegração simbólica e
interferem na confiança política. Conclui argumentando que o rótulo de
“criminoso”, quando naturalizado, opera como uma segunda pena, social e
permanente.
1.
Introdução
A
figura do político carrega altos níveis de exposição pública e expectativas
morais amplificadas. Quando um indivíduo com trajetória política é preso —
independentemente do motivo ou da posterior reparação jurídica — forma-se em
torno dele um imaginário coletivo que tende a cristalizar a identidade de
“criminoso”. O objetivo deste artigo é compreender, pela psicologia social,
como esse processo ocorre e quais suas consequências para a participação cívica
e a vida pública.
2.
Estigma e Identidade Social
O
estigma, segundo Erving Goffman, é uma marca que reduz uma pessoa de sujeito
complexo a uma identidade deteriorada.
No caso do político que foi preso:
- a categoria “político” perde sua
complexidade e é substituída por “ex-presidiário”;
- atributos positivos como liderança,
capacidade de articulação e experiência são desconsiderados;
- o indivíduo passa a ser visto como portador
permanente de uma falha moral.
Esse
processo não reflete o indivíduo em si, mas a necessidade coletiva de manter
fronteiras simbólicas entre os “corretos” e os “desviantes”.
3.
A Teoria da Rotulagem e a Condenação Social Permanente
A
teoria da rotulagem (labeling theory) explica que rótulos sociais têm força
prescritiva, não apenas descritiva.
Ao ser rotulado como “criminoso”, o político passa a ser analisado
exclusivamente a partir dessa categoria.
O
efeito é duplo:
1.
O público naturaliza que o rótulo define o
caráter.
2.
O sujeito enfrenta dificuldades para
reconstruir sua identidade política.
Assim,
a pena legal pode terminar, mas a pena social se perpetua.
4.
O Imaginário Coletivo e a Moralidade Pública
No
imaginário social, a política é associada à moralidade.
Essa expectativa produz uma crença coletiva: um político que foi preso não é
apenas alguém que errou, mas alguém cujo caráter é supostamente incompatível
com a vida pública.
Trata-se
de um processo de essencialização moral:
- o erro passado é interpretado como essência
permanente;
- o histórico judicial é transformado em
símbolo de desconfiança ética;
- a sociedade passa a operar com a lógica do
“uma vez criminoso, sempre criminoso”.
Essa
visão ignora transformações pessoais, ressocialização e complexidades da
trajetória humana.
5.
Categorização Social e Exclusão Política
A
psicologia social demonstra que as pessoas tendem a simplificar o mundo
reduzindo indivíduos a grupos.
Assim, “político preso” vira uma categoria homogênea, ignorando singularidades.
Essa
categorização produz efeitos concretos:
- resistência a aceitar a candidatura de
alguém que teve passagem pelo sistema prisional;
- suspeita constante, mesmo diante de
absolvições ou reparações judiciais;
- vigilância moral intensa e unilateral.
A
exclusão política, portanto, não é apenas institucional — é simbólica.
6.
Impactos na Reintegração e na Democracia
Quando
o imaginário coletivo elimina a possibilidade de retorno político, surgem
consequências sociais:
- Deslegitimação automática: o
indivíduo é visto como moralmente impedido.
- Redução da diversidade de trajetórias:
posições públicas ficam restritas a quem teve passados “limpos”, muitas
vezes mais por invisibilidade de erros do que por ausência deles.
- Fragilização da democracia:
quando apenas histórias “aceitáveis” são permitidas, perde-se a amplitude
de representatividade.
A
democracia pressupõe que indivíduos podem errar, reparar e retornar. Negar isso
cria um modelo excludente e punitivo.
7.
Considerações Finais
O
político que foi preso torna-se exemplo claro de como o estigma ultrapassa
limites legais, tornando-se um marcador simbólico duradouro. A psicologia
social evidencia que o imaginário coletivo opera como segunda pena, criando
barreiras à reintegração e definindo o indivíduo pelo seu erro passado.
A superação desse quadro exige alfabetização social sobre estigma, compreensão
de identidades múltiplas e políticas públicas que combatam a rotulagem
permanente.
Referências
Bibliográficas (sugeridas)
- Goffman, E. Estigma: Notas Sobre a
Manipulação da Identidade Deteriorada.
- Becker, H. Outsiders: Estudos de
Sociologia do Desvio.
- Tajfel,
H. & Turner, J. An Integrative Theory of Intergroup Conflict.
- Moscovici, S. Representações Sociais:
Investigações em Psicologia Social.
- Tyler,
T. Why People Obey the Law.
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