Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Vamos
analisá-la pela psicanálise, articulando os conceitos de escuta
analítica (escanálise), transferência, contratransferência, identificação,
libido e morte psíquica do eu profissional.
1.
O cenário simbólico
O
fiscal psicólogo vive uma cisão interna: de um lado, o fiscal,
função social reconhecida e necessária dentro da organização; de outro, o psicólogo,
que representa o seu ideal do eu — o sujeito desejante de transformação,
escuta e sentido humano.
No entanto, o ambiente organizacional, sustentado por uma cultura da
diversidade aparente, não reconhece o valor simbólico da psicologia.
Esse meio social funciona, portanto, como um superego coletivo — rígido,
normativo e voltado à produtividade, não à subjetividade.
2.
O recalque institucional e a identificação alienada
Ao
entrar nesse ambiente, o psicólogo precisa se adaptar para sobreviver
psiquicamente. Ele recalca o desejo de exercer sua escuta e acolher o
sofrimento alheio, substituindo-o por uma identificação alienada: “sou
apenas um fiscal”.
Essa identificação é uma formação reativa — um modo inconsciente de
defesa contra o sofrimento de não ser reconhecido.
O eu, para não entrar em conflito com o superego institucional, abandona a
libido investida na identidade de psicólogo e desloca-a para uma posição de
neutralidade, de não-desejo. Assim, ele se torna o que você chamou de “fiscal
morto” — alguém que cumpre a função, mas sem energia libidinal, sem
prazer, sem investimento simbólico.
3.
A escanálise: o que o ambiente revela
Pela
escanálise — que implica “escutar o que o inconsciente diz por meio dos
atos, sintomas e silêncios” — o ambiente do supermercado atua como um espelho
deformante.
O fiscal psicólogo, ao perceber que a subjetividade é desvalorizada, projeta
no ambiente o seu próprio conflito interno: o não reconhecimento externo
ecoa o seu próprio não reconhecimento interno.
Ou seja, o ambiente apenas manifesta o que já está reprimido dentro dele
— a renúncia ao desejo de ser psicólogo pleno.
4.
A contratransferência ambiental
A
contratransferência aqui não ocorre no setting clínico tradicional, mas
numa relação simbólica entre sujeito e instituição.
O ambiente desperta no fiscal psicólogo uma sensação de impotência,
desvalorização e cansaço — sentimentos que, na verdade, pertencem ao seu inconsciente
recalcado.
A instituição funciona como o outro transferencial, um campo que
desperta a repetição da experiência de não ser visto, de não ser reconhecido.
Inconscientemente, o fiscal psicólogo repete a cena de rejeição simbólica:
ele deseja ser validado como psicólogo, mas, por medo do julgamento e do
conflito, recalca o próprio desejo e aceita a posição de fiscal sem libido — um
ato de autopunição inconsciente.
5.
A morte simbólica e o chamado do desejo
Quando
você diz “um fiscal morto que retirou sua energia libidinal da própria função”,
isso traduz um estado de melancolia profissional.
A libido retirada do mundo não retorna ao eu como narcisismo saudável, mas como
culpa e esvaziamento.
O sujeito entra em agonia libidinal: vive, mas não se reconhece;
trabalha, mas não se realiza.
Na leitura psicanalítica, isso é um sinal de que o desejo está recalcado,
mas ainda pulsa — o desejo de reconectar-se com o ideal do eu (o psicólogo,
o ser que escuta, o que transforma).
6.
Síntese interpretativa
|
Conceito |
Manifestação
no caso |
|
Recalque |
Repressão
do desejo de exercer a psicologia dentro do ambiente que não a reconhece |
|
Identificação
alienada |
“Sou
apenas um fiscal”, negação da identidade desejante |
|
Superego
institucional |
Cultura
que valoriza produtividade e sufoca subjetividade |
|
Retirada
libidinal |
Perda
de energia e prazer pelo trabalho, sensação de morte psíquica |
|
Contratransferência
ambiental |
Sentimentos
de desvalorização e impotência despertados pelo contexto |
|
Escanálise |
O
ambiente reflete a repressão e o conflito interno do sujeito |
|
Chamado
do desejo |
Necessidade
de reinvestir libido no seu ser psicólogo e reencontrar sentido |
7.
Conclusão
O
fiscal psicólogo vive o drama do ego dividido entre o princípio
de realidade institucional e o princípio do prazer do seu verdadeiro eu
desejante.
Sua morte simbólica como fiscal é o preço do recalque: ao negar o
psicólogo em si, nega também a vitalidade do seu desejo.
A cura — ou o reencontro — começará quando ele puder escutar seu próprio
inconsciente, reconhecer o sofrimento como mensagem, e realocar a
libido no seu ideal do eu, recuperando o sentido e a potência criativa que
o ambiente tentou silenciar.
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