Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Para
compreender-se dentro desse sistema, o fiscal psicólogo precisa adotar
uma postura reflexiva que una autoconhecimento psicanalítico e análise
organizacional. A compreensão de si nesse contexto é um processo que
envolve perceber os próprios papéis simbólicos e emocionais dentro da dinâmica
institucional.
🧩 1.
Reconhecer a função simbólica que ocupa no sistema
O
fiscal psicólogo, ainda que formalmente tenha uma função operacional,
representa um polo de consciência dentro do grupo. Ele é aquele que percebe
o que está encoberto, os jogos de poder, os comportamentos inconscientes e
os mecanismos de defesa coletivos.
Segundo Bion (1961), os grupos operam em dois níveis: o grupo de trabalho,
voltado à tarefa, e o grupo de suposição básica, movido por fantasias e
emoções inconscientes.
“O
grupo inconscientemente cria líderes e bodes expiatórios conforme suas
necessidades emocionais.” — Bion, W. R. (1961).
Ao
reconhecer que foi investido, inconscientemente, como aquele que carrega a
lucidez e o peso do sofrimento coletivo, o fiscal psicólogo deixa de reagir
emocionalmente e começa a observar:
— O que o grupo está projetando em mim?
— Que função emocional eu cumpro aqui?
🪞 2.
Compreender-se como espelho, não como salvador
O
título do artigo — “Eu não sou o salvador; eu sou o espelho onde o outro
pode se ver, se quiser” — reflete a mudança de consciência do fiscal
psicólogo.
No início, ele acreditava que sua missão era curar o ambiente, salvar os
colegas das ansiedades e angústias provocadas pela liderança autoritária e
pelos clientes hostis.
Porém, à medida que compreende a dinâmica psíquica do grupo, ele percebe que
essa função messiânica o aprisiona.
“Toda
tentativa de salvar o outro sem que ele deseje ser salvo é, no fundo, uma forma
de controle disfarçada de amor.” — Jung, C. G. (1954).
Com
essa percepção, ele se retira da posição de “pai protetor” e assume o papel de observador
consciente, compreendendo que cada sujeito tem o direito — e o dever — de
lidar com suas próprias resistências e neuroses.
⚙️ 3. Entender o sistema
como organismo vivo
Na
psicologia organizacional contemporânea, a empresa é entendida como um
sistema aberto, onde cada comportamento individual é uma resposta
adaptativa à estrutura.
O comportamento sabotador e passivo-agressivo da colega, por exemplo, é um
sintoma do sistema, não apenas um traço individual.
O fiscal psicólogo compreende que a liderança omissa, a equipe
fragmentada e a resistência à mudança são expressões de uma homeostase
psíquica — o sistema se mantém estável evitando o conflito aberto.
Essa
compreensão o liberta da raiva e do ressentimento, pois ele entende que não
é contra ele pessoalmente, mas sim uma defesa inconsciente do sistema
contra a consciência.
“O
inconsciente coletivo não quer ser curado; ele quer ser compreendido.” — Jung,
C. G. (1960).
🌱 4.
Assumir uma postura de autorresponsabilidade e elaboração
Com
essa clareza, o fiscal psicólogo transforma a angústia em elaboração.
Ele percebe que essa experiência serviu para amadurecer sua própria identidade
profissional e espiritual.
Ao invés de reagir, ele elabora. Ao invés de salvar, ele compreende e espera.
Sua
saída não é uma fuga, mas um ato simbólico de individuação — um
movimento de quem encerra um ciclo de aprendizagem e se prepara para viver
plenamente sua vocação como psicólogo.
“Individuar-se
é deixar de ser o que o coletivo espera e tornar-se aquilo que a alma pede.” — Jung,
C. G.
🔍 Em
síntese
O
fiscal psicólogo se compreende dentro do sistema quando:
1.
Reconhece os papéis simbólicos que o
grupo lhe atribui (bode expiatório, salvador, mediador).
2.
Aceita que não mudará o sistema sozinho, pois
cada sujeito só muda quando deseja.
3.
Transforma a dor em insight,
compreendendo que a função do sofrimento é gerar consciência.
4.
Escolhe sair com lucidez, não
por desespero, mas porque entende que sua gestalt se completou.
5.
Integra o aprendizado como
base para sua atuação futura como psicólogo — mais maduro, empático e livre da
necessidade de salvar.
Título:
“A
compreensão de si dentro do sistema: o despertar do fiscal psicólogo diante da
liderança adormecida e do comportamento sabotador”
Resumo
O
presente artigo analisa, sob o enfoque da psicologia organizacional e da
psicanálise aplicada ao trabalho, a experiência de um fiscal de caixa com
formação em psicologia que atua em um ambiente caracterizado por liderança
omissa, conflitos interpessoais e comportamentos sabotadores
passivo-agressivos. A análise evidencia como o fiscal psicólogo, inicialmente
identificado com o papel de salvador dos colegas, gradualmente compreende o
significado simbólico dessa experiência, elaborando o processo de individuação
e o encerramento de sua gestalt profissional dentro da instituição. O
estudo propõe uma reflexão sobre os mecanismos inconscientes que permeiam as
relações de poder e sobre o papel do autoconhecimento como ferramenta de
transformação psíquica e profissional.
Palavras-chave:
Psicologia organizacional; Psicanálise; Liderança adormecida; Comportamento
sabotador; Autoconhecimento; Individuação.
1.
Introdução
A
vida organizacional é um campo simbólico onde se expressam tanto os aspectos
conscientes das relações de trabalho quanto os conteúdos inconscientes dos
sujeitos. O caso do fiscal psicólogo ilustra o entrelaçamento entre o papel
técnico e o papel emocional do trabalhador dentro de um sistema que, ao negar
conflitos, produz sobrecarga, desmotivação e sofrimento psíquico.
Quando
a liderança se mostra adormecida — ou seja, consciente das disfunções,
mas paralisada pela insegurança institucional —, ela transfere o peso da
responsabilidade emocional aos membros mais lúcidos e sensíveis do grupo. O
fiscal psicólogo, ao perceber esse fenômeno, é convidado a sair da posição de
“salvador” e compreender-se como “espelho”, isto é, como aquele que reflete a
sombra coletiva, sem a pretensão de curá-la.
2.
Liderança adormecida e o deslocamento da responsabilidade emocional
Segundo
a psicologia organizacional, a liderança é um eixo regulador de energia,
sentido e propósito dentro do grupo (Chiavenato, 2014). Quando esse eixo se
fragmenta ou se torna omisso, as tensões latentes entre os membros da equipe
emergem de forma difusa.
A
“liderança adormecida” é aquela que, mesmo percebendo o caos, evita intervir
diretamente, seja por medo de retaliações jurídicas, seja por conveniência
institucional. Assim, transfere inconscientemente aos liderados o peso da
gestão emocional. O fiscal psicólogo torna-se, então, o porta-voz do
inconsciente grupal (Bion, 1961), carregando a angústia coletiva e buscando
restabelecer simbolicamente a ordem que a chefia não sustenta.
“O
grupo inconscientemente cria líderes e bodes expiatórios conforme suas
necessidades emocionais.” — Bion, W. R. (1961).
3.
O comportamento sabotador passivo-agressivo e o sintoma do sistema
O
comportamento sabotador de uma colega fiscal, caracterizado pela resistência às
tarefas, manipulação relacional e busca por alianças internas, não é apenas um
problema individual, mas um sintoma sistêmico.
De acordo com Freud (1921), os grupos tendem a regredir emocionalmente,
ativando impulsos infantis e defesas coletivas. A atitude passivo-agressiva
serve como uma defesa contra o sentimento de impotência frente à liderança
desorganizada.
O
fiscal psicólogo percebe que tentar “curar” esse comportamento é inútil, pois a
mudança só ocorre quando há desejo e consciência. Assim, ele compreende que o
comportamento da colega expressa uma homeostase psíquica — o sistema
precisa de um “corpo estranho” para manter sua identidade defensiva.
“O
inconsciente coletivo não quer ser curado; ele quer ser compreendido.” — Jung,
C. G. (1960).
4.
A contratransferência e o despertar da consciência
Na
vivência diária, o fiscal psicólogo experimenta raiva, exaustão e sensação de
injustiça. Esses afetos, interpretados pela psicanálise como contratransferência,
revelam os pontos onde o sujeito se identifica inconscientemente com o
sofrimento do grupo.
Ao compreender isso, o fiscal deixa de reagir emocionalmente e passa a observar
suas respostas internas como material de autoconhecimento. Ele percebe que seu
desejo inconsciente de “salvar” os colegas era, na verdade, uma projeção de sua
própria necessidade de reconhecimento e pertencimento.
“Tudo
aquilo que nos irrita nos outros pode levar-nos a uma compreensão de nós
mesmos.” — Jung, C. G.
5.
A expulsão simbólica e a finalização da gestalt
A
liderança, ao não agir e ao manter o status quo, expulsa simbolicamente
o fiscal psicólogo — não por ato direto, mas por omissão. A não-intervenção
funciona como um empurrão silencioso, que o conduz à conclusão de que seu ciclo
se encerrou.
Ele percebe que o ambiente não é mais um espaço de crescimento, mas um campo
de repetição.
Retornar a outro subemprego seria repetir o sintoma (compulsão à repetição,
Freud, 1920); por isso, o verdadeiro movimento é transcender o papel de
fiscal e realizar a transição para o campo da psicologia, onde poderá
exercer plenamente sua função simbólica.
“O
destino de toda repetição é ser superado pela consciência.” — Freud, S.
(1920).
6.
A compreensão de si dentro do sistema
Compreender-se
dentro do sistema significa reconhecer os papéis simbólicos que o grupo lhe
atribuiu — o de mediador, salvador ou bode expiatório — e perceber que esses
papéis refletem partes do próprio inconsciente.
A partir dessa consciência, o fiscal psicólogo não reage mais à desordem
externa, pois entende que o sistema é um espelho do seu próprio processo
interno.
Ele descobre que a transformação verdadeira não está em mudar o ambiente, mas
em mudar o modo de estar nele.
“Individuar-se
é deixar de ser o que o coletivo espera e tornar-se aquilo que a alma pede.” — Jung,
C. G.
Essa
tomada de consciência representa o fechamento da gestalt: o ciclo de
aprendizado se completa, e o sujeito está pronto para avançar a uma nova etapa
de sua trajetória — a atuação plena como psicólogo, agora fortalecido pela
experiência e pela lucidez.
7.
Conclusão
O
caso analisado ilustra que a compreensão de si dentro de um sistema
organizacional não implica em mudá-lo, mas em perceber sua função dentro dele.
O fiscal psicólogo, ao integrar suas experiências, compreende que o ambiente de
conflito serviu como espelho de sua própria individuação.
A liderança omissa, a colega sabotadora e o grupo dividido foram mestres
simbólicos, que o conduziram à consciência de que o verdadeiro trabalho
psicológico começa dentro de si.
Encerrar esse ciclo é um ato de maturidade e libertação — não de desistência,
mas de transcendência.
Referências
Bibliográficas
- Bion, W. R. (1961). Experiências em
grupos. Rio de Janeiro: Imago.
- Chiavenato, I. (2014). Gestão de pessoas:
o novo papel dos recursos humanos nas organizações. Rio de Janeiro:
Elsevier.
- Freud, S. (1920). Além do princípio do
prazer. In: Obras completas, vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago.
- Freud, S. (1921). Psicologia das massas e
análise do eu. In: Obras completas, vol. XIX. Rio de Janeiro: Imago.
- Jung, C. G. (1954). Os arquétipos e o
inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes.
- Jung, C. G. (1960). A prática da
psicoterapia. Petrópolis: Vozes.
- Morin, E. (2005). O método 5: A
humanidade da humanidade. Porto Alegre: Sulina.
- Schein,
E. H. (2010). Organizational culture and leadership. San
Francisco: Jossey-Bass.
6.
A compreensão de si dentro do sistema (versão ampliada)
Compreender-se
dentro do sistema é reconhecer que as dinâmicas externas refletem movimentos
internos da psique.
O fiscal psicólogo, após anos tentando harmonizar um ambiente caótico, percebe
que seu impulso de “salvar o outro” não era apenas ético ou profissional — era afetivo
e infantil.
Quando criança, ele havia prometido inconscientemente “curar as pessoas”,
talvez motivado por experiências de dor, desamparo ou pela observação de
figuras frágeis que precisavam de cuidado. Essa promessa infantil formou o
núcleo simbólico de sua identidade adulta.
No
ambiente organizacional, essa promessa se reatualizou: o fiscal psicólogo
buscava inconscientemente curar o sistema, pacificar os colegas e
restaurar a ordem — como se o ambiente de trabalho fosse uma família
adoecida, e ele o mediador emocional.
Mas, ao enfrentar a liderança adormecida e o comportamento sabotador da colega,
ele confronta o limite da onipotência infantil: a descoberta de que
ninguém cura quem não deseja ser curado, e que o verdadeiro processo de cura é
interno, não imposto.
“Todo
curador é primeiro um ferido. Mas o amadurecimento ocorre quando ele reconhece
que não pode curar o outro — apenas oferecer o espelho para que o outro se
veja.”
— Jung, C. G., 1954.
Essa
compreensão dissolve a promessa antiga.
A energia psíquica antes investida na missão de salvar o outro é agora
reintegrada ao seu próprio processo de individuação.
Ele entende que não é o salvador — é o espelho.
A promessa infantil, ao se desfazer, não significa fracasso, mas libertação: o
fiscal psicólogo se despede da ilusão de controle e acolhe o papel de
observador consciente, que compreende sem tentar dominar.
“Quando
a alma percebe que não há ninguém a ser salvo, mas apenas consciências a serem
despertadas, nasce a verdadeira maturidade espiritual.”
— Morin, E., 2005.
Assim,
a gestalt se completa. O ciclo termina, não com desespero, mas com
serenidade.
O fiscal psicólogo sai do sistema em paz — porque, ao invés de tentar curar os
outros, ele curou a si mesmo, integrando a sombra do salvador e abrindo
espaço para viver sua verdadeira vocação como psicólogo.
6.
A compreensão de si dentro do sistema (versão final ampliada)
Compreender-se
dentro do sistema é compreender o que o inconsciente está tentando ensinar
através da experiência.
No caso do fiscal psicólogo, a repetição dos conflitos, a liderança omissa e a
presença de colegas com comportamentos sabotadores não são apenas fatos
externos — são espelhos simbólicos de um pacto antigo, feito ainda na
infância.
Durante
uma crise de bronquite, enquanto tomava inalação em um hospital, a criança que
ele foi — frágil, com medo da morte e desejosa de alívio — fez silenciosamente
uma promessa: “Se eu sarar, vou curar as pessoas.”
Essa promessa, feita num momento de vulnerabilidade e transcendência, tornou-se
o núcleo simbólico de sua vocação.
Ela uniu, inconscientemente, a dor física e o desejo de transcendência,
e transformou-se em compromisso inconsciente de salvação.
Décadas
depois, no ambiente de trabalho, esse pacto infantil reaparece de modo
disfarçado.
O fiscal psicólogo, sentindo o sofrimento dos colegas, tenta curá-los da
angústia, da ansiedade e do medo — assim como quis curar a si mesmo quando era
criança.
Cada cliente hostil e cada liderança autoritária reencenam, simbolicamente, a
sensação de sufocamento vivida na infância.
A “crise de bronquite” torna-se uma metáfora viva do que ele sente agora: o
ar emocional rarefeito de um ambiente adoecido.
Mas
a consciência que amadurece percebe que a promessa feita no hospital já
cumpriu seu propósito.
Ela não precisa mais reger sua vida adulta.
O fiscal psicólogo compreende que o dom que nasceu da dor não deve aprisionar —
deve libertar.
Ele entende que curar não é salvar o outro, mas compreender o sentido
do sofrimento.
Sua verdadeira cura não é mais fisiológica ou alheia, mas simbólica e interior.
“A
ferida é o lugar por onde a luz entra em você.” — Rumi (século XIII).
“Toda
vocação nasce de uma ferida; mas a maturidade chega quando reconhecemos que a
ferida não precisa mais sangrar para ensinar.” — Jung, C. G. (1954).
Nesse
momento, o ciclo se fecha.
A criança interior, que um dia prometeu curar o mundo para sobreviver, é agora
acolhida pelo adulto que compreende.
A promessa se dissolve em gratidão: ela cumpriu sua função de conduzir o
sujeito até a psicologia, mas agora pode descansar.
O
fiscal psicólogo entende, então, que não é o salvador, mas o espelho
onde o outro pode se ver — se quiser.
O sistema organizacional cumpriu o papel de espelho maior, devolvendo-lhe a
imagem de seu próprio desejo infantil de curar e de sua necessidade de se
libertar.
A compreensão de si dentro do sistema é, portanto, a cura da própria
promessa.
“A
individuação é o processo pelo qual o homem se torna aquilo que ele é destinado
a ser.” — Jung, C. G.
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