Pular para o conteúdo principal

O que de mim ficará quando eu não estiver mais aqui? O legado do psicólogo

 Ano 2025. Autor [Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208]


Introdução

Todo sujeito, em algum momento de sua trajetória, confronta-se com uma pergunta estrutural: o que de mim permanecerá?
Na psicologia e na psicanálise, essa pergunta não se refere apenas à morte biológica, mas à inscrição simbólica do sujeito no laço social. Este livro propõe uma reflexão sobre o legado do psicólogo como criador, tomando dois espelhos culturais fundamentais: Frankenstein, como metáfora da criação a partir da morte simbólica, e Jogador Nº 1, como figura do reconhecimento, da autoria e da permanência no campo simbólico.


Sumário

1.      Legado, morte simbólica e desejo de permanência

2.      O psicólogo entre função e autoria

3.      Frankenstein: criar vida a partir do que foi descartado

4.      O criador e a responsabilidade pela obra

5.      Jogador Nº 1: reconhecimento, mérito e inscrição simbólica

6.      A obra que divide: preconceito, estereótipo e exclusão

7.      Nome, reputação e memória social

8.      Sustentar o legado: ética, desejo e responsabilidade


Capítulo 1 — Legado, morte simbólica e desejo de permanência

O legado nasce da experiência da falta. Em psicanálise, a morte simbólica representa o fim de uma posição subjetiva que já não sustenta o desejo.

“A morte não é apenas um evento biológico, mas uma operação simbólica.”
— Jacques Lacan

O psicólogo deseja que algo de si sobreviva para além da função cotidiana, transformando experiência em obra.


Capítulo 2 — O psicólogo entre função e autoria

Existe uma diferença estrutural entre ocupar uma função e assumir uma autoria. A função é substituível; a autoria deixa marca.

“Onde Isso era, devo advir.”
— Sigmund Freud

Criar uma obra é assumir o risco de tornar-se visível.


Capítulo 3 — Frankenstein: criar vida a partir do que foi descartado

Frankenstein simboliza a tentativa de dar vida ao que foi rejeitado, esquecido ou considerado morto.

“Aprenda comigo, se não com meus preceitos, ao menos com meu exemplo.”
— Mary Shelley

O psicólogo cria a partir de restos: sofrimento, exclusão, falhas e silêncio.


Capítulo 4 — O criador e a responsabilidade pela obra

O erro de Victor Frankenstein não foi criar, mas abandonar sua criação diante do horror do Outro.

“O ato funda o sujeito, mas exige responsabilidade.”
— Jacques Lacan

Toda obra sem autor retorna como ameaça.


Capítulo 5 — Jogador Nº 1: reconhecimento, mérito e inscrição simbólica

Em Jogador Nº 1, o criador constrói um universo para deixar um legado e ser lembrado.

“As pessoas precisam de algo em que acreditar.”
— Ernest Cline

O psicólogo deseja reconhecimento não como vaidade, mas como validação simbólica de sua contribuição.


Capítulo 6 — A obra que divide: preconceito, estereótipo e exclusão

Toda criação que toca o Real provoca estranheza.

“O estranho é aquilo que deveria ter permanecido oculto, mas veio à luz.”
— Sigmund Freud

Preconceito e estereótipo são defesas contra o novo.


Capítulo 7 — Nome, reputação e memória social

O legado é a inscrição do nome no discurso do Outro.

“O nome próprio é o significante da existência simbólica.”
— Jacques Lacan

Ser lembrado não é ser amado; é não ser apagado.


Capítulo 8 — Sustentar o legado: ética, desejo e responsabilidade

Criar uma obra exige sustentação ética. Não basta produzir; é preciso responder pelos efeitos.

“A ética da psicanálise é a ética do desejo.”
— Jacques Lacan

O psicólogo sustenta seu legado quando não recua diante do conflito que ele produz.


Conclusão Final

Frankenstein e Jogador Nº 1 espelham dois polos do desejo do psicólogo:
— criar a partir da morte simbólica;
— ser reconhecido e permanecer no campo simbólico.

O legado não é consenso, mas marca. O que ficará não será apenas o que foi feito, mas o modo como o sujeito sustentou sua criação diante do mundo. A pergunta “o que de mim ficará?” encontra resposta não na imortalidade, mas na autoria assumida.


Referências Bibliográficas

  • CLINE, Ernest. Jogador Nº 1. Rio de Janeiro: LeYa, 2011.
  • FREUD, Sigmund. O estranho. Edição standard brasileira.
  • FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização.
  • LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 7: A ética da psicanálise.
  • LACAN, Jacques. Escritos.
  • SHELLEY, Mary. Frankenstein ou o Prometeu Moderno.
  • BAUMAN, Zygmunt. Identidade.

Comentários

Postagens mais visitadas

A Compreensão de Si Dentro do Sistema: O Supermercado

  O despertar do fiscal psicólogo diante da liderança adormecida e do comportamento sabotador” Resumo O presente artigo analisa, sob o enfoque da psicologia organizacional e da psicanálise aplicada ao trabalho , a experiência de um fiscal de caixa com formação em psicologia que atua em um ambiente caracterizado por liderança com fisionomia consciente e particularidades de uma pessoa inconsciente , conflitos interpessoais e comportamentos sabotadores passivo-agressivos . A vida organizacional é um campo simbólico onde se expressam tanto os aspectos conscientes das relações de trabalho quanto os conteúdos inconscientes dos sujeitos. O caso do fiscal psicólogo ilustra o entrelaçamento entre o papel técnico e o papel emocional do trabalhador dentro de um sistema que, ao negar conflitos, produz sobrecarga, desmotivação e sofrimento psíquico. Quando a liderança se mostra adormecida — ou seja, consciente ou inconsciente das disfunções, mas paralisada pela insegurança inst...

Operadora E O Ato Falho

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do Leitor para um excelente tópico. Uma operadora era pra abrir a caixa 10, mas ela abriu a caixa 11 e foi anunciada pelo Fiscal e tentou culpar o Fiscal pelo alto falho. Vamos analisar essa situação pela abordagem psicanalítica como se fosse para um iniciante: O fato : A operadora cometeu um erro (abriu a caixa errada) e foi anunciada pelo Fiscal. Em resposta, ela tentou culpar o Fiscal. Perspectiva psicanalítica : Esse comportamento pode ser entendido como uma manifestação de mecanismos de defesa. nterpretação psicanalítica: Ação da operadora : Abrir a caixa errada pode ser resultado de um momento de distração ou de um ato falho. Na psicanálise, um ato falho é quando o inconsciente interfere nas ações conscientes. Isso pode acontecer, por exemplo, se a operadora tivesse uma preocupação ou desejo inconsciente que a desconcentrava. Advertência do Fiscal : Ao ser anunciada, ...

Trabalho Simples

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Parece que o Psicólogo precisou trabalhar como fiscal de caixa de supermercado num ambiente onde não valoriza e nem reconhece a Psicologia para que o Fiscal de caixa psicólogo se valorizasse e se reconhecesse como psicólogo. Pela psicanálise, podemos interpretar essa situação como um conflito entre o desejo do ego (ser psicólogo e exercer essa profissão) e a censura do superego (que impôs a necessidade de trabalhar como fiscal de caixa antes de se reconhecer como psicólogo). Como isso aconteceu? O desejo do ego: Desde a formação em Psicologia, o ego queria atuar como psicólogo, ajudando as pessoas a superar dificuldades emocionais. A censura do superego: O superego, que é formado pelas regras e valores internalizados ao longo da vida, impôs a ideia de que ainda não era o momento, que talvez fosse necessário passar por desafios antes de assumi...

O Ato Falho da Creatina: O Desejo Esquecido e o Despertar do Inconsciente

  Autor fiscal- Psicólogo Sumário 1.       Introdução – O Esquecimento que Revela o Desejo 2.       Capítulo 1 – O Ego Cansado e o Superego Vigilante 3.       Capítulo 2 – A Libido em Transição: Do Dever ao Desejo 4.       Capítulo 3 – O Esquecimento como Mensagem do Inconsciente 5.       Epílogo – Quando o Corpo Fala o que a Boca Silencia 6.       Conclusão – Da Falha à Consciência: O Caminho da Liberdade Interna 7.       Referências Bibliográficas Introdução – O Esquecimento que Revela o Desejo O dia começava como outro qualquer: o fiscal de caixa preparava seu café da manhã, deixou ao lado a creatina e o suplemento, planejou tomá-los após o café, mas esqueceu. Quando percebeu o frasco na pia, já se preparando para sair, tomou apressadamente a creatina e partiu para o trabalho. E...

Estímulos Intrínsecos Trabalhar Instituição Idosos – Psicologia Social

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Qual pode ser a motivação de um psicólogo para desejar trabalhar em instituições de longa permanecia para idosos. Vamos compreender o comportamento do psicólogo por meio da abordagem psicologia social. A psicologia social se preocupa em entender como os indivíduos são influenciados pelo contexto social em que vivem, incluindo as instituições. Ao trabalhar em uma instituição de longa permanência para idosos, um psicólogo pode ser motivado por diversos fatores relacionados a essa abordagem. Influências externas e tendências dominantes: Os psicólogos também estão sujeitos a influências externas, como a cultura profissional predominante, as demandas do sistema de saúde ou as preferências dos clientes. Se a abordagem psicanalítica, terapia comportamental cognitiva, psicologia humanista e outras não for valorizada ou for menos solicitada em determinado contex...

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais. 1. Introdução O filme  Minha Querida Senhorita  (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser inter...

Dinheiro objeto de cobiça na pandemia

Ano 2020.Escrito por Ayrton Junior O presente artigo chama a atenção do leitor(a) a olhar para si mesmo e perceber como está se enxergando na pandemia em relação ao dinheiro e as partes não resolvidas que espelha o dinheiro na sua vida. Nossos hábitos financeiros não são apenas produtos do condicionamento e de lições aprendidas de como manejar o dinheiro que aprendemos [ou não] quando crianças. Existem sujeitos gastadores e poupadores nas famílias, crianças que cresceram na pobreza e conseguem riqueza, herdeiros que gastam toda a fortuna da família. Nas relações que temos com nossas finanças está ligado ao auto controle da ação por impulso [prazer / e ou desprazer e a ansiedade]. Um dos instrumentos de aferição da saúde psíquica é exatamente a relação da pessoa com o dinheiro. O leitor já chegou à conclusão óbvia de que o dinheiro ou poder cobrem ilusoriamente todas as carências pessoais, pois a pessoa que o detém será objeto do comentário, cobiça e interesse dos demais a sua vo...

Deslocamento Libidinal e Frustração Profissional: Uma Leitura Psicanalítica da Intensificação do Investimento Erótico na Vida Adulta

  Resumo Este artigo propõe uma análise psicanalítica da intensificação da excitação sexual em um homem adulto que, diante de frustrações profissionais persistentes, investe maciçamente sua libido em uma relação virtual marcada por troca de nudez e erotização recíproca. A partir da metapsicologia de Sigmund Freud, articulam-se os conceitos de libido, deslocamento, catexia, sublimação e economia psíquica para compreender o fenômeno. Dialoga-se também com contribuições de Jacques Lacan acerca do desejo e da falta, ampliando a interpretação estrutural do caso. Palavras-chave: libido; deslocamento; frustração profissional; sublimação; desejo; psicanálise. 1. Introdução A psicanálise concebe o psiquismo como uma economia de forças, na qual a energia pulsional — particularmente a libido — busca constantemente vias de investimento e descarga. Quando determinadas áreas da vida encontram-se bloqueadas ou frustradas, essa energia pode ser redirecionada para outros objetos disp...

Fugindo De Perseguidores

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Sonho que estou sendo perseguido por homens e me escondo deles. Sonhos de perseguição são bastante comuns e podem ter diferentes significados, dependendo do contexto específico do sonho e da vida do sonhador. No entanto, de modo geral, esse tipo de sonho pode refletir uma sensação de medo, ansiedade ou estresse em relação a uma situação específica da vida do sonhador, na qual ele se sente perseguido ou ameaçado por alguém ou algo. No seu caso, o sonho parece indicar que você está enfrentando algum tipo de pressão ou ameaça em sua vida, que pode ser representada pelos homens que o perseguem. O fato de você se esconder deles pode indicar que você está tentando evitar ou evitar essa situação de alguma forma. Pode ser útil pensar em sua vida atual e ver se há alguma situação estressante ou conflituosa que possa estar contribuindo para esses sentimentos. O...

Salário Emocional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. O salário emocional é um conceito que se refere a benefícios não financeiros oferecidos por uma empresa aos seus funcionários. Esses benefícios incluem coisas como reconhecimento, oportunidades de aprendizado e desenvolvimento, flexibilidade no horário de trabalho, um ambiente de trabalho agradável, feedback construtivo e outras formas de valorização dos colaboradores. O salário emocional é importante porque muitos funcionários buscam mais do que apenas dinheiro em seus empregos. Eles querem sentir que estão fazendo um trabalho significativo, que são valorizados pela empresa e que têm oportunidades para crescer e desenvolver suas habilidades. Ao oferecer um salário emocional atraente, as empresas podem aumentar a satisfação e o engajamento dos funcionários, reduzir a rotatividade e melhorar a produtividade. Algumas das formas comuns de salário emocional...