A SOBREPOSIÇÃO DE IDENTIDADES PROFISSIONAIS: UMA ANÁLISE PSICANALÍTICA DO COMPORTAMENTO CONSCIENTE E INCONSCIENTE DE UMA TÉCNICA EM ENFERMAGEM QUE ATUA COMO OPERADORA DE CAIXA
Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Resumo
Este
artigo analisa, sob a perspectiva da psicanálise, o comportamento consciente e
inconsciente de uma técnica em enfermagem que exerce a função de operadora de
caixa em um supermercado. A investigação considera os conflitos psíquicos
decorrentes da discrepância entre a identidade profissional originalmente
construída e a atividade laboral atual, examinando mecanismos de defesa,
ambivalências, formações sintomáticas e o papel do superego. A reflexão abrange
ainda o impacto dessa descontinuidade na constituição do sujeito, na vivência
do trabalho e na produção de sentido. O estudo busca contribuir para a
compreensão dos efeitos subjetivos gerados pela mudança forçada ou
circunstancial de campo profissional, especialmente em contextos precarizados
do trabalho contemporâneo.
1.
Introdução
Mudanças
de trajetória profissional constituem fenômeno frequente na contemporaneidade,
especialmente diante de condições socioeconômicas instáveis. Quando a transição
implica a saída de uma área vocacionalmente marcada, como a enfermagem, para
uma função de natureza operacional em ambientes de grande pressão, como
supermercados, novos conflitos psíquicos podem emergir.
A psicanálise oferece recursos interpretativos para compreender a estrutura
inconsciente que sustenta comportamentos visíveis no cotidiano de trabalho, bem
como os efeitos subjetivos da descontinuidade identitária.
O
presente artigo busca analisar o funcionamento psíquico de uma técnica em
enfermagem que trabalha como operadora de caixa, explorando a dimensão
consciente e inconsciente dessa vivência e discutindo suas repercussões
afetivas e simbólicas.
2.
A construção da identidade profissional sob a ótica psicanalítica
A
identidade profissional, segundo estudos psicodinâmicos do trabalho, envolve
processos de identificação profunda, investimento libidinal e construção de
sentido. A formação em enfermagem, tradicionalmente associada ao cuidado, à
responsabilidade e ao reconhecimento social, tende a mobilizar componentes
narcísicos e idealizados do Eu.
Para
Freud (1914), o Ideal do Eu funciona como instância reguladora,
orientando aspirações e expectativas de realização. Quando a atividade exercida
se afasta do ideal construído, o conflito entre Eu e Ideal do Eu intensifica o
sofrimento psíquico.
Em
trabalhadores submetidos a atividades distantes de sua formação, o deslocamento
pode gerar:
- sentimento de desvalorização;
- vivência de inadequação;
- frustração narcísica;
- ativação de defesas como racionalização,
recalque e formação reativa.
Nesse
contexto, a psicanálise permite examinar como conteúdos inconscientes
influenciam comportamentos aparentemente simples no ambiente de trabalho.
3.
Comportamentos Conscientes: o que se apresenta à consciência
A
técnica em enfermagem, hoje operadora de caixa, manifesta comportamentos
conscientes que refletem tanto sua disciplina profissional anterior quanto as
demandas práticas do trabalho atual. Entre eles:
3.1.
Execução técnica da função
Cumprimento
das tarefas operacionais: registro de produtos, conferência de valores, rapidez
no atendimento e respeito às normas institucionais.
3.2.
Controle emocional e autocontenção
Diante
da pressão cotidiana, mantém postura profissional, contendo irritações, queixas
e frustrações, preservando a imagem de trabalhadora responsável.
3.3.
Comparações explícitas entre a enfermagem e o comércio
Expressa
verbalmente a sensação de estar “fora da área”, “desaproveitando a formação” ou
“apenas cumprindo uma fase”, o que evidencia a fratura identitária consciente.
3.4.
Busca consciente por reconhecimento
Empenha-se
em realizar a função com excelência, esperando validação da chefia e dos
clientes, o que funciona como tentativa de compensar a perda de status
simbólico da profissão original.
4.
Comportamentos Inconscientes: o que orienta o agir sem ser percebido
A
partir da psicanálise, identifica-se uma série de movimentos inconscientes que
sustentam o comportamento da trabalhadora.
4.1.
Persistência inconsciente do papel de cuidadora
Mesmo
no caixa, reaparecem atitudes herdadas da enfermagem: atenção excessiva ao
cliente, preocupação com bem-estar alheio e dificuldade de estabelecer limites.
Esse fenômeno articula o retorno do recalcado, em que traços
identitários reprimidos emergem sob outras formas.
4.2.
Culpa inconsciente pelo afastamento da área de saúde
A culpa,
derivada do superego, manifesta-se como autocrítica constante, sensação de
dívida e necessidade de compensação. Aos olhos da psicanálise, trata-se do
conflito entre o “eu real” e o “eu que deveria ser”.
4.3.
Deslocamento da frustração
Insatisfações
profundas com a situação profissional podem ser deslocadas para:
- irritação com clientes,
- conflitos com colegas,
- intolerância com pequenas falhas do sistema
de cobrança.
O
deslocamento (Freud, 1900) atua para evitar o contato direto com a dor psíquica
original.
4.4.
Resistência ao retorno à profissão original
A
psicanálise entende a resistência como força que se opõe ao desejo. A
trabalhadora pode inconscientemente evitar reconsiderar a enfermagem por medo
de falhar, reviver traumas da área ou lidar com cobranças internas de
perfeição.
4.5.
Identificações inconscientes
A
identidade profissional primária funciona como matriz simbólica. Assim, mesmo
deslocada do campo da saúde, ela continua a interpretar situações cotidianas
sob lógica de cuidado, diagnóstico e vigilância — elementos que estruturam seu
habitus psíquico.
5.
Discussão: Conflito psíquico, trabalho e subjetividade
A
análise sugere um conflito entre três instâncias internas:
- O desejo, ligado ao cuidado
e à vocação da enfermagem;
- O ego, que tenta se adaptar à
realidade econômica do supermercado;
- O superego, que cobra, critica
e produz culpa.
Esse
conflito repercute na saúde mental, podendo gerar exaustão, sensação de
improdutividade e perda de sentido. A psicanálise demonstra que a repressão
contínua de uma identidade desejada tende a retornar em sintomas, lapsos e
desconfortos subjetivos.
A
situação analisada representa, portanto, não apenas uma troca de emprego, mas
um processo de reorganização psíquica profundo.
6.
Considerações Finais
A
experiência de uma técnica em enfermagem atuando como operadora de caixa revela
uma dinâmica complexa entre identidade profissional, desejo, superego e
mecanismos de defesa. A psicanálise permite compreender que uma mudança
aparente de função pode desencadear conflitos inconscientes que influenciam
diretamente o comportamento, o humor, a performance e a vivência de sentido no
trabalho.
Os
achados indicam a necessidade de espaços de escuta, políticas de acolhimento e
estratégias de apoio psicológico para trabalhadores em transição ou desvio de
função, a fim de minimizar o sofrimento psíquico e favorecer a reintegração
subjetiva.
Referências
FREUD,
S. A Interpretação dos Sonhos (1900).
FREUD, S. Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914).
FREUD, S. O Ego e o Id (1923).
DEJOURS, C. A Psicodinâmica do Trabalho. Rio de Janeiro: FGV, 1992.
BIRMAN, J. Psicanálise, Identidade e Subjetividade. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2006.
LANCMAN, S. Subjetividade, Trabalho e Sofrimento Psíquico. São Paulo:
Cortez, 2008.
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