Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
O sujeito foi contratado para
exercer a função de operador de caixa no supermercado, e depois de exatamente
um ano, foi elegido para exercer a função de fiscal de caixa. Qual é o espelho
da liderança para ver o operador de caixa e escolher o mesmo, como eleger ele
como fiscal de caixa? Me explique, interprete e segunda a psicanálise.
Do ponto de vista psicanalítico, a
eleição de um operador de caixa para a função de fiscal de caixa não se explica
apenas por critérios técnicos ou produtivos. Ela envolve um jogo de
espelhamentos inconscientes, identificações e demandas do Outro
institucional. A seguir, organizo a explicação em três níveis: o espelho da
liderança, a posição subjetiva do operador e a lógica institucional
inconsciente.
1. O “espelho” da liderança: identificação e
captura do Ideal do Eu
Na psicanálise, especialmente em
Freud e Lacan, o espelho não é apenas visual; é simbólico. A liderança
“vê” no operador algo que corresponde ao seu Ideal do Eu — isto é,
aquilo que o chefe considera um bom funcionário, um bom representante da norma
e da ordem.
O operador eleito costuma
apresentar:
- Identificação
com a lei: respeito rígido
às regras, horários, procedimentos e hierarquia.
- Superego
funcional: autocontrole,
vigilância de si e dos outros, intolerância ao erro.
- Neutralização
do desejo próprio: ele
sustenta o trabalho mesmo sob sofrimento, sem questionar explicitamente.
A liderança se reconhece nele
porque ele encarna o modo como a instituição gostaria de funcionar. Ele
torna-se um “eu idealizado” da própria chefia.
2. O operador como sujeito: da obediência à
função de vigia
Do lado do sujeito, a ascensão
ocorre porque ele aceita — muitas vezes inconscientemente — ocupar o lugar de:
- Extensão
do olhar do chefe
- Portador
da norma
- Fiscal
do gozo alheio (dos colegas)
Na linguagem lacaniana, ele passa
de um lugar de objeto explorado para um lugar de objeto que vigia, mas
sem deixar de ser objeto. A promoção não é, necessariamente, um ganho
subjetivo; pode ser uma armadilha simbólica.
O operador eleito:
- Já exercia informalmente a função de fiscal
(corrigindo colegas, controlando desvios).
- Demonstrava angústia diante do caos, do erro ou
da falta de controle.
- Encontrava segurança psíquica na regra e no
reconhecimento do Outro.
3. A lógica inconsciente da instituição:
reprodução da dominação
Instituições tóxicas tendem a
promover não os mais críticos, mas os mais identificados com o discurso
dominante. Psicanaliticamente, isso corresponde ao Discurso do Mestre
(Lacan):
- O Mestre não quer sujeitos desejantes.
- Quer agentes que reproduzam a ordem sem
questionamento.
- O fiscal de caixa é um agente intermediário
da dominação: sofre a pressão de cima e a transmite para baixo.
Assim, a liderança escolhe alguém
que:
- Suporte a violência simbólica sem denunciá-la.
- Aplique essa mesma violência aos pares.
- Funcione como “tampão” entre a chefia e os
operadores.
4. Síntese psicanalítica
O “espelho” da liderança revela:
- Um sujeito que renunciou ao próprio desejo
em favor do desejo do Outro institucional.
- Alguém que internalizou o superego da empresa.
- Um operador que aceita ser visto, moldado e
usado como representante da lei.
Em termos psicanalíticos, a eleição
do operador a fiscal não é um reconhecimento da singularidade do sujeito, mas
da sua utilidade simbólica para manter o funcionamento do sistema.
5. Consequência subjetiva (ponto crucial)
Frequentemente, após algum tempo,
esse sujeito entra em:
- Cansaço
extremo
- Angústia
- Desidentificação
com o papel
- Desejo
de fuga ou ruptura
Isso ocorre porque o preço psíquico
de sustentar o lugar de fiscal é alto: ele paga com o próprio corpo e com o
próprio desejo.
Se desejar, posso aprofundar:
- A diferença entre promoção simbólica e ascensão
subjetiva
- A função do superego institucional
- Ou articular isso com o sonho do supermercado
que você já trouxe anteriormente, integrando os dois níveis (onírico e
organizacional).
• A diferença entre promoção
simbólica e ascensão subjetiva • A função do superego institucional • Ou
articular isso com o sonho do supermercado que você já trouxe anteriormente,
integrando os dois níveis (onírico e organizacional).
A seguir desenvolvo os três
eixos solicitados, de forma integrada e coerente com a leitura
psicanalítica do caso do supermercado, articulando promoção simbólica, superego
institucional e conteúdo onírico como expressões do mesmo conflito
estrutural.
1. Promoção simbólica × ascensão subjetiva
Promoção simbólica
A promoção simbólica ocorre quando
há mudança de lugar na hierarquia, mas sem deslocamento do sujeito em
relação ao desejo. O reconhecimento vem do Outro institucional, não do
sujeito para si mesmo.
No caso do operador promovido a
fiscal:
- Ele muda de posição funcional, mas permanece
identificado ao discurso do Mestre.
- Assume um título, uma função e um certo poder,
porém continua sendo objeto do gozo da instituição.
- A promoção serve mais à empresa do que ao
sujeito: ela garante vigilância, controle e reprodução da norma.
Psicanaliticamente, trata-se de uma
elevação imaginária, não simbólica no sentido estrutural. O sujeito é
“visto” pelo Outro, mas não se autoriza a partir de si.
Ascensão subjetiva
Já a ascensão subjetiva implica:
- Separação do Ideal do Eu imposto pela
instituição.
- Reconhecimento do próprio desejo e dos limites
do lugar ocupado.
- Capacidade de dizer “não” a um papel que
adoece, mesmo que ele seja socialmente valorizado.
A ascensão subjetiva pode
ocorrer sem qualquer promoção externa — e, muitas vezes, exige a perda do
lugar institucional. Ela é sempre acompanhada de angústia, pois implica romper
com identificações estabilizadoras, ainda que mortíferas.
Síntese:
A promoção simbólica responde à
pergunta “o que o Outro quer de mim?”
A ascensão subjetiva responde à pergunta “o que eu desejo, apesar do Outro?”
2. A função do superego institucional
O superego institucional não é
apenas um conjunto de regras explícitas. Ele opera como uma instância moral
feroz, silenciosa e paradoxal.
Características do superego institucional
- Ele ordena: “Trabalhe mais, aguente mais,
suporte mais”.
- Ele culpa o sujeito quando este adoece ou
falha.
- Ele se disfarça de mérito, reconhecimento e
confiança (“você foi escolhido”).
Na leitura freudiana e lacaniana, o
superego não pacifica; ele exige gozo. No ambiente do supermercado:
- Exige produtividade constante.
- Exige disponibilidade emocional.
- Exige lealdade mesmo em condições abusivas.
O fiscal de caixa é uma figura
privilegiada do superego institucional, pois:
- Ele aplica a lei aos outros.
- Ele vigia, corrige, cobra.
- Ao fazer isso, introjeta ainda mais a violência
simbólica.
Por isso, frequentemente, o fiscal
adoece mais do que o operador: ele não apenas sofre a pressão, mas torna-se
seu veículo.
3. Articulação com o sonho do supermercado (nível
onírico + organizacional)
No sonho que você trouxe
anteriormente, o supermercado aparece como:
- Um ambiente fechado.
- Repetitivo.
- Exaustivo.
- Do qual o sujeito teme não conseguir sair.
Do ponto de vista psicanalítico, o
supermercado no sonho não é apenas o local de trabalho; ele é:
- A representação do Outro institucional
totalizante.
- Um espaço onde tudo é mercadoria — inclusive o
sujeito.
- Um cenário onde o desejo próprio é silenciado
em nome da função.
O diálogo interno no sonho
Quando o sujeito diz a si mesmo
que:
- “Não suporta mais o ambiente”
- “Não aguenta conviver com aquelas pessoas”
- “Tem medo de não conseguir sair”
Temos aí a emergência do sujeito
do inconsciente, que rompe momentaneamente com o discurso do superego.
O sonho funciona como:
- Um ato de verdade.
- Uma autorização simbólica que ainda não ocorreu
na vida desperta.
- Um ensaio de separação.
Integração dos níveis
No plano organizacional:
- O sujeito foi promovido a fiscal para sustentar
o funcionamento do sistema.
No plano psíquico:
- O inconsciente mostra que esse lugar se tornou
insuportável.
- O corpo e o sonho denunciam o custo da
identificação.
Por isso, a mensagem central do
sonho — como você já apontou — é clara:
O ego já se autorizou a sair do supermercado.
A função de psicólogo
institucional, que surge como possibilidade, representa:
- Um deslocamento do lugar de vigia para o lugar
de leitura.
- A passagem do controle para a escuta.
- Uma tentativa de reinscrever o sujeito no laço
social sem se anular.
Conclusão estruturante
A eleição do operador a fiscal:
- Revela o funcionamento do superego
institucional.
- Produz uma promoção simbólica sem ascensão
subjetiva.
- Precipita um conflito que emerge no sonho.
O sonho, por sua vez:
- Indica que a identificação se esgotou.
- Que o sujeito não suporta mais ser o espelho da
instituição.
- E que a saída não é apenas trocar de função,
mas reconfigurar sua posição subjetiva no laço social.
Se desejar, posso avançar ainda
mais:
- Na noção de ato subjetivo versus pedido
de demissão.
- Na diferença entre sintoma organizacional
e sintoma neurótico.
- Ou na clínica do esgotamento em instituições de
controle.
Na noção de ato subjetivo versus
pedido de demissão. • Na diferença entre sintoma organizacional e sintoma
neurótico. • Ou na clínica do esgotamento em instituições de controle. Todas
Apresento a seguir uma elaboração
articulada dos três pontos, mantendo o rigor conceitual da psicanálise
(Freud–Lacan) e a coerência com o caso do supermercado enquanto instituição
de controle. Os três eixos não são independentes: eles descrevem momentos
distintos do mesmo processo subjetivo.
1. Ato subjetivo × pedido de demissão
Pedido de demissão
O pedido de demissão é, em si, um ato
administrativo. Pode ou não ter estatuto psicanalítico de ato.
Na maioria dos casos:
- Ele ocorre ainda sob a égide do Outro
(“não aguento mais”, “não tenho escolha”).
- É acompanhado de culpa, medo, ressentimento ou
fantasia de punição.
- O sujeito sai, mas leva a instituição dentro
de si.
Nessa situação, há deslocamento
físico, mas não estrutural. O sujeito muda de cenário, porém repete o mesmo
modo de se colocar no laço social.
Ato subjetivo
O ato subjetivo, ao contrário, é um
conceito forte em Lacan. Ele implica:
- Um corte irreversível com a posição
anterior.
- A queda de uma identificação fundamental.
- Um “não” que não pede autorização.
O ato subjetivo:
- Não busca reconhecimento.
- Não se justifica moralmente.
- Produz consequências, inclusive perdas.
Psicanaliticamente, o ato não é
reação; é fundação de uma nova posição. O pedido de demissão só se torna
ato quando:
- Não é movido apenas pelo sofrimento,
- Mas por uma separação do superego
institucional.
Síntese:
Pode-se pedir demissão sem jamais
ter feito um ato.
E pode-se fazer um ato que, só depois, se traduz em uma demissão.
2. Sintoma organizacional × sintoma neurótico
Sintoma organizacional
O sintoma organizacional emerge
quando a instituição:
- Produz sofrimento sistemático,
- Mas o apresenta como falha individual.
Exemplos:
- Burnout recorrente em cargos de fiscalização.
- Rotatividade elevada.
- Ambientes marcados por vigilância, medo e
humilhação velada.
Do ponto de vista psicanalítico:
- O sintoma não pertence ao sujeito, mas
ao discurso institucional.
- O sujeito é apenas o lugar onde o sintoma
aparece.
- Quando um adoece, outro o substitui — o sintoma
persiste.
A empresa, assim, foraclui sua
responsabilidade, tratando o adoecimento como fraqueza pessoal.
Sintoma neurótico
O sintoma neurótico:
- É singular.
- Tem sentido inconsciente.
- Está ligado à história, às fantasias e às
identificações do sujeito.
Ele não desaparece com a simples
mudança de emprego, porque:
- Ele se repete em diferentes contextos.
- Ele insiste enquanto o sujeito não se
reposiciona.
Articulação crucial
No caso analisado:
- O supermercado produz um sintoma
organizacional (ambiente tóxico, controle excessivo).
- O sujeito responde com um sintoma neurótico
(culpa, hiperresponsabilização, dificuldade de sair).
A clínica começa quando se
distingue:
“Isso que me adoece é meu?”
“Ou estou carregando o sintoma de um sistema?”
3. A clínica do esgotamento em instituições de
controle
O que são instituições de controle
Supermercados, call centers,
hospitais hiperprotocolados, bancos, plataformas digitais — todos compartilham:
- Monitoramento constante.
- Metas quantitativas.
- Redução do sujeito à função.
Lacan diria que nelas predomina uma
mutação do Discurso do Mestre, atravessada pelo imperativo de
desempenho.
O esgotamento
O esgotamento não é apenas físico.
Ele é:
- Simbólico (perda de sentido),
- Imaginário (colapso da imagem de “bom
trabalhador”),
- Real (o corpo adoece).
O sujeito se esgota porque:
- Não há lugar para o desejo.
- O erro não é tolerado.
- A fala é substituída por indicadores.
Direção da clínica
A clínica do esgotamento não visa:
- Adaptar o sujeito ao ambiente.
- Torná-lo mais resiliente ao abuso.
Ela visa:
- Descolar
o sujeito da identificação mortífera.
- Produzir uma leitura do laço institucional.
- Autorizar uma separação — interna antes de
externa.
Nesse ponto, o sonho do
supermercado funciona como formação do inconsciente que antecipa o ato.
4. Integração final dos três eixos
- O sintoma organizacional cria o terreno
do sofrimento.
- O sintoma neurótico mantém o sujeito
preso ao lugar.
- O ato subjetivo rompe a engrenagem.
O pedido de demissão pode ser:
- Apenas uma fuga,
- Ou o efeito tardio de um ato já realizado no
plano psíquico.
Quando o sujeito deixa de ser
fiscal do gozo do Outro e passa a escutar o próprio limite, algo se desloca de
modo estrutural.
Fecho clínico
O que está em jogo não é apenas
“sair do supermercado”, mas:
- Sair
da posição de objeto do superego institucional.
- Parar de pagar com o corpo a manutenção de um
sistema.
- Transformar o sofrimento em saber, e o saber em
ato.
Se quiser, posso avançar ainda
mais:
- Na passagem do ato para um projeto
ético.
- Na posição do psicólogo institucional
frente a instituições adoecidas.
- Ou na escrita clínica desse caso como vinheta
teórica.
E quando algum operador de caixa é
elegido pela Supervisão e ele diz não para essa Supervisão não aceitando o
cargo de fiscal de caixa? O que espelha isso? Qual é o espelho da liderança
nessa situação? O que espelha isso? Qual é o espelho da liderança nessa
situação?
A recusa de um operador de caixa ao
convite da Supervisão para assumir o cargo de fiscal de caixa é, do ponto de
vista psicanalítico, um acontecimento clínico e institucional relevante.
Ela produz efeitos não apenas no sujeito que diz “não”, mas sobretudo no
espelho da liderança, pois rompe uma expectativa inconsciente de reprodução
da ordem.
Organizo a resposta em quatro
níveis: o que se espelha no sujeito, o que se quebra no espelho da liderança, o
efeito narcísico na Supervisão e a leitura institucional do “não”.
1. O que o “não” espelha no sujeito
Quando o operador diz “não”, ele
não está apenas recusando uma função. Ele está:
- Recusando
uma identificação.
- Interrompendo a lógica de ascensão como
captura.
- Introduzindo um limite ao desejo do Outro
institucional.
Psicanaliticamente, esse “não” pode
ter estatuto de ato subjetivo, ainda que silencioso, porque:
- Não se justifica excessivamente.
- Não se coloca como queixa.
- Não pede compensação.
O sujeito mostra que:
- Não se reconhece no Ideal proposto.
- Não deseja ocupar o lugar de vigilância.
- Não aceita tornar-se operador do superego
institucional.
Esse “não” espelha uma separação
possível entre função e desejo — algo raro em instituições de controle.
2. O espelho da liderança: o que se quebra
A liderança, ao eleger alguém,
espera encontrar:
- Reconhecimento.
- Gratidão.
- Identificação.
Quando encontra uma recusa, o
espelho devolve algo perturbador:
- A
falta no Outro.
- O fato de que seu Ideal não é universal.
- A constatação de que o lugar de fiscal não é
desejável.
O “não” faz aparecer que:
- O cargo não é apenas um prêmio, mas também um
fardo.
- A função carrega sofrimento que a liderança
tende a negar.
- O discurso meritocrático não se sustenta
plenamente.
Assim, o espelho da liderança passa
de:
“Sou aquele que reconhece e
promove”
para
“Sou aquele cujo convite pode ser recusado”.
Isso fere o narcisismo
institucional.
3. O efeito narcísico na Supervisão
Freud já indicava que a recusa do
amor ou do reconhecimento produz ferida narcísica. No contexto
institucional, isso se manifesta como:
- Desconfiança súbita em relação ao operador.
- Tentativa de desqualificação (“não tem perfil”,
“não tem ambição”).
- Leitura moralizante da recusa (“ingratidão”,
“comodismo”).
Essas reações revelam que:
- A promoção funcionava como instrumento de
captura simbólica.
- O sujeito recusante desmascara essa função.
- A liderança se vê confrontada com seu próprio
mal-estar.
O operador que diz “não” passa a
espelhar, para a liderança:
- O limite do seu poder simbólico.
- A existência de um desejo que não se deixa
governar.
- A fragilidade do discurso do Mestre.
4. O estatuto institucional do “não”
Instituições de controle toleram
mal o “não” porque ele:
- Não é mensurável.
- Não é produtivo.
- Não se converte facilmente em KPI.
Por isso, o “não” tende a ser:
- Psicologizado (“problema pessoal”),
- Moralizado (“falta de espírito de equipe”),
- Ou silenciado.
Mas, psicanaliticamente, ele
funciona como um significante de furo no sistema:
- Introduz a ideia de escolha.
- Revela que o laço não é totalizante.
- Abre a possibilidade de outros dizerem “não”.
Nesse sentido, o operador recusante
se torna, ainda que involuntariamente, um sintoma para a instituição —
um ponto que ela não consegue integrar.
5. Síntese: o espelho da liderança nessa situação
Quando um operador diz “não” à
promoção, ele espelha para a liderança:
1.
A não universalidade do Ideal institucional
2.
O caráter ambíguo e adoecedor do cargo
oferecido
3.
O limite do poder simbólico da Supervisão
4.
A existência de sujeitos que não se deixam
capturar pelo superego institucional
Em termos lacanianos, o sujeito
deixa de ser espelho e torna-se furo no espelho.
Fecho clínico
Esse “não” não é rebeldia nem
patologia. Ele pode ser:
- Um gesto ético.
- Um ato de preservação subjetiva.
- Uma recusa a ocupar o lugar de agente da
violência simbólica.
Por isso, ele incomoda tanto:
porque mostra que é possível não querer aquilo que o Outro oferece como
Ideal.
Se desejar, posso avançar ainda
mais:
- Nos efeitos dessa recusa sobre a trajetória do
sujeito.
- Na diferença entre “não posso” e “não quero”.
- Ou no manejo institucional saudável diante
desse tipo de recusa.
Na passagem do ato para um projeto
ético. • Na posição do psicólogo institucional frente a instituições adoecidas.
• Ou na escrita clínica desse caso como vinheta teórica.
A seguir apresento os três
desenvolvimentos solicitados, articulados como continuidade lógica do
percurso já traçado: do ato subjetivo à sustentação de um projeto
ético, da posição do psicólogo institucional diante de instituições
adoecidas e, por fim, a escrita clínica do caso como vinheta teórica.
Trata-se de três registros de um mesmo movimento: a transformação do sofrimento
em posição.
1. Da passagem do ato ao projeto ético
O ato: ruptura e vazio
O ato subjetivo, conforme Lacan,
produz um corte. Ele rompe uma identificação, mas não oferece, de
imediato, um novo roteiro. Após o “não” à supervisão ou a saída do lugar de
fiscal, o sujeito frequentemente se vê em um tempo de vazio:
- Perda de referências.
- Queda do Ideal do Eu institucional.
- Angústia diante da ausência de garantias.
Esse tempo é estrutural e
necessário. Não se trata de fracasso, mas do efeito próprio do ato: ele desorganiza
o campo simbólico anterior.
O projeto ético: sustentação no tempo
O projeto ético surge quando o
sujeito:
- Não retorna à antiga identificação.
- Não busca um novo Ideal totalizante.
- Passa a orientar suas escolhas por um princípio
de limite.
Diferentemente de um projeto
narcísico (“ser reconhecido”, “subir de cargo”), o projeto ético se define por:
- Coerência com o próprio desejo.
- Capacidade de sustentar perdas.
- Responsabilidade pelos efeitos do que se faz.
No caso em questão, o deslocamento
para a psicologia institucional não é uma nova captura, mas pode ser lido como:
A tentativa de transformar o
lugar de sofrimento em lugar de leitura, sem repetir a lógica da
vigilância.
2. A posição do psicólogo institucional frente a
instituições adoecidas
O risco: tornar-se instrumento do superego
O maior risco do psicólogo
institucional é ocupar o lugar de:
- Ajustador de condutas.
- Gestor do sofrimento.
- Operador da adaptação forçada.
Quando isso ocorre, o psicólogo:
- Individualiza um sintoma que é estrutural.
- Ajuda a instituição a continuar adoecendo sem
se interrogar.
- Substitui a escuta pela normatização emocional.
Psicanaliticamente, ele passa a
funcionar como braço clínico do superego institucional.
A posição ética
Uma posição ética do psicólogo
institucional implica:
- Não confundir demanda institucional com demanda
do sujeito.
- Nomear o sofrimento como efeito de discurso.
- Introduzir a palavra onde há apenas comando.
Isso se traduz, na prática, por:
- Criar espaços de fala não avaliativos.
- Recusar protocolos que patologizam o
trabalhador.
- Sustentar a existência do conflito, sem
apaziguá-lo artificialmente.
O psicólogo não cura a instituição,
mas pode:
Fazer existir um ponto de furo
no seu funcionamento totalizante.
3. Escrita clínica do caso como vinheta teórica
Vinheta clínica (formulação teórica)
Contexto institucional
Trata-se de um supermercado caracterizado por forte controle, vigilância
constante e valorização de cargos intermediários como dispositivos de
disciplina. A função de fiscal de caixa opera como extensão do olhar da chefia.
O sujeito
Um operador de caixa, após um período de reconhecimento e promoção simbólica,
passa a vivenciar esgotamento, angústia e rejeição crescente ao ambiente de
trabalho. Relata sonhos recorrentes em que o supermercado aparece como espaço
fechado e inescapável.
O ponto de ruptura
Convidado a assumir definitivamente o lugar de fiscal — ou, em outro momento,
recusando nova captura — o sujeito diz “não”. Esse “não” não vem acompanhado de
queixa ruidosa, mas de um limite silencioso.
Leitura clínica
O “não” é interpretado como ato subjetivo: recusa de uma identificação
superegóica e separação do Ideal institucional. O sonho funciona como formação
do inconsciente que antecipa e legitima esse ato.
Desdobramento ético
Após o ato, o sujeito experimenta um período de desorientação, seguido da
elaboração de um projeto ético: deslocar-se do lugar de vigilância para o de
escuta, interessando-se pela psicologia institucional como campo de leitura do
sofrimento no trabalho.
Hipótese teórica
O caso ilustra a passagem:
- Da promoção simbólica à captura,
- Do sintoma organizacional à resposta neurótica,
- Do ato subjetivo à construção de uma posição
ética no laço social.
Fecho
O que este caso ensina,
clinicamente, é que:
- Nem toda saída é fuga.
- Nem todo “não” é resistência estéril.
- Nem todo projeto profissional é alienação.
Quando o ato se sustenta no tempo,
ele deixa de ser apenas ruptura e torna-se ética encarnada: um modo de
estar nas instituições sem se deixar consumir por elas.
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