Autor: O Fiscal Psicólogo
Sumário
Introdução – O
investimento da energia libidinal e a morte simbólica do fiscal
Capítulo I – O desejo aprisionado no supermercado
Capítulo II – O sepultamento do fiscal de caixa
Capítulo III – A travessia do ego e o despertar do psicólogo
Capítulo IV – O encontro dos inconscientes: o cadeado e a nudez
Epílogo – O retorno do desejo
Conclusão Final – A libertação do ser desejante
Referências Bibliográficas
Introdução
– O investimento da energia libidinal e a morte simbólica do fiscal
O
fiscal de caixa viveu anos investindo sua energia libidinal em objetos
externos: o trabalho, os clientes, os elogios e o reconhecimento. Porém, ao
longo do tempo, percebeu que o prazer havia se esvaziado. A energia vital,
antes dirigida à função de fiscal, foi se tornando frustrada.
O
sujeito começou a se perceber duplamente alienado: de um lado, o papel de
fiscal o mantinha preso à repetição; de outro, o desejo de ser psicólogo o
chamava para fora da rotina.
O
sonho em que o fiscal morria simbolicamente representou o desinvestimento total
de energia libidinal no papel profissional antigo. O ego compreendeu que o
fiscal morreu, mas o sujeito desejante renasceu.
Capítulo
I – O desejo aprisionado no supermercado
O
fiscal mantinha-se num ambiente em que o desejo estava reduzido à
produtividade. Cada olhar para o caixa, cada cliente e cada preço conferido era
uma cena repetitiva da alienação.
Freud
(1917) afirma que quando a libido não encontra objeto de prazer, ela se retrai
para o ego. Assim, o fiscal passou a experimentar uma sensação de exaustão e
vazio — sinais de que a energia libidinal já não encontrava mais destino
naquele espaço.
O
inconsciente, então, começou a trabalhar silenciosamente, preparando o ego para
o luto do papel antigo e a travessia para a individuação.
Capítulo
II – O sepultamento do fiscal de caixa
A
morte simbólica do fiscal representou o ponto de virada.
Não havia mais possibilidade de retorno: o sujeito não poderia reviver o prazer
perdido, nem fingir satisfação onde não havia mais libido investida.
Como
ensina Jung (1964), “a individuação começa quando a máscara social perde sua
função.” Assim, o uniforme do fiscal tornou-se o símbolo do personagem morto,
o invólucro de um desejo já transcendido.
O
ego, liberto do papel, passou a caminhar rumo àquilo que verdadeiramente o
representa — o psicólogo em gestação.
Capítulo
III – A travessia do ego e o despertar do psicólogo
A
travessia é o momento em que o sujeito se vê entre dois mundos: o velho que
morre e o novo que ainda não nasceu. Nesse intervalo, o fiscal experimenta
angústia, pois o ego se depara com o vazio — condição essencial para que o novo
self possa emergir.
Lacan
(1953) lembra que o desejo é o que move o sujeito, mas ele sempre surge no
campo do Outro. Assim, o fiscal começa a projetar sua libido em novos objetos
simbólicos: o sonho de atuar em uma instituição, o desejo de cuidar, o prazer
de escutar.
Cada
projeção é uma tentativa de reorganizar a libido em direção à vocação
autêntica.
Capítulo
IV – O encontro dos inconscientes: o cadeado e a nudez
Certa
manhã, o fiscal saiu de casa mais cedo que o habitual. Ao abrir o cadeado do
portão, gesto simples e cotidiano, algo inesperado aconteceu: ele viu, através
da janela da área de serviço, a proprietária de sua casa nua.
Ela
se escondeu, envergonhada, mas o instante havia sido suficiente para mobilizar
algo profundo no inconsciente de ambos.
O
fiscal, até então identificado com o papel morto de fiscal de caixa, viu-se
diante do símbolo da vida nua, do corpo pulsional que não se
envergonha de existir.
A nudez da mulher revelou ao fiscal sua própria nudez interior: a retirada da
armadura do trabalho, das defesas do superego, e o encontro com o desejo vivo
que nele ainda habita.
O
cadeado, nesse contexto, simboliza o aprisionamento do ego.
Ao abri-lo, o fiscal inconscientemente abriu também o portão da própria
repressão.
Não era apenas o portão de casa — era a passagem para fora do papel que o
prendia, o início da libertação simbólica.
O
adiamento do encontro: o tempo do desejo
Mais
tarde, a mulher lhe disse que “não poderia hoje, pois teria visitas, mas talvez
amanhã à noite”. Essa resposta, sob o olhar psicanalítico, não fala apenas de
tempo cronológico — fala do tempo psíquico.
O
desejo, quando amadurece, precisa de espera.
O “amanhã” representa a fase de gestação da libertação: o inconsciente anuncia
que a travessia está em curso, mas ainda há elaborações a serem feitas
antes do ato final.
A
mulher, figura simbólica do inconsciente feminino, mostra ao fiscal que o
desejo precisa ser elaborado, não apenas atuado. A promessa do
“amanhã à noite” é a promessa do renascimento, o momento em que o desejo
poderá se realizar de modo consciente, integrado e não reprimido.
Assim,
o encontro entre os dois não é carnal — é psíquico.
É o encontro entre Eros e a consciência, entre o desejo e o ato
libertador de abrir o cadeado. O fiscal reconhece, então, que a nudez o
convida à verdade de si mesmo: ele já não é o fiscal, é o homem que deseja
viver sua individuação como psicólogo.
Epílogo
– O retorno do desejo
A partir
desse encontro simbólico, o fiscal compreende que o desejo nunca esteve morto —
apenas deslocado. O desejo retorna, agora direcionado à vida real: ao trabalho
com o outro, à escuta, à vocação. O fiscal, que antes observava preços, agora
observa pessoas. A libido que sustentava o controle agora sustenta o cuidado. O
que morre é o papel social; o que renasce é o sujeito desejante.
Conclusão
Final – A libertação do ser desejante
O
encontro com a nudez e a abertura do cadeado revelaram ao fiscal que a
liberdade começa dentro. A mulher representou o espelho de seu
inconsciente, e o ato de abrir o portão simbolizou a passagem da repressão
para a expressão.
Ele
compreende, enfim, que não precisa mais viver preso ao papel do fiscal — pode
agora viver desnudo de máscaras, assumindo o que realmente é: um
psicólogo em processo de individuação. O fiscal libertou-se. E, ao fazê-lo,
inaugurou o próprio amanhecer do desejo.
Referências
Bibliográficas
- Freud, S. (1917). Luto e Melancolia.
- Freud, S. (1905). Três Ensaios sobre a
Teoria da Sexualidade.
- Jung, C. G. (1964). O Homem e seus
Símbolos.
- Lacan, J. (1953). Função e campo da fala
e da linguagem em psicanálise.
- Nasio, J.-D. (1993). O prazer de ler
Freud.
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