Psicanálise, Instituições de Controle e a Construção de uma Posição Ética
Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior
Psicólogo CRP 06/147208
Introdução
Este livro nasce da escuta de um
caso aparentemente banal: o percurso de um operador de caixa em um
supermercado. Contudo, o que se revela ao longo dessa trajetória é uma estrutura
institucional complexa, marcada por dispositivos de controle, captura
subjetiva e produção sistemática de sofrimento.
A promoção ao cargo de fiscal de
caixa, a recusa desse lugar, o esgotamento, o sonho recorrente com o
supermercado e a emergência de um desejo de deslocamento para a psicologia
institucional não são eventos isolados. São formações de um mesmo campo: o do laço
entre sujeito e instituição, mediado pelo superego e pelo discurso do
Mestre.
O objetivo deste livro é introduzir
uma leitura psicanalítica desse laço, articulando clínica, teoria e ética,
e mostrando como um ato subjetivo pode inaugurar um projeto ético diante de
instituições adoecidas.
Sumário
1.
O Supermercado como
Instituição de Controle
2.
Promoção Simbólica,
Superego Institucional e Captura do Sujeito
3.
O “Não” como Ato
Subjetivo
4.
Sintoma Organizacional,
Esgotamento e Clínica do Trabalho
5.
Do Ato ao Projeto
Ético: a Posição do Psicólogo Institucional
Conclusão
Referências Bibliográficas
Capítulo 1 – O Supermercado como Instituição de
Controle
O supermercado não é apenas um
local de trabalho; ele opera como instituição de controle, nos termos
foucaultianos, mas também como campo privilegiado do Discurso do Mestre,
conforme formulado por Lacan.
Nele, o sujeito é reduzido à
função, ao tempo cronometrado e ao desempenho mensurável. O operador de caixa
ocupa um lugar de extrema exposição: seu corpo, sua fala e seus gestos são
permanentemente vigiados.
“O discurso do mestre se sustenta
na exclusão do sujeito do desejo.”
(Lacan, O Seminário, Livro 17)
Nesse contexto, o sofrimento não é
acidente, mas efeito estrutural. A instituição exige adaptação contínua
e produz esgotamento como subproduto necessário.
Capítulo 2 – Promoção Simbólica, Superego
Institucional e Captura do Sujeito
A promoção de operador de caixa a
fiscal aparece, à primeira vista, como reconhecimento. Contudo,
psicanaliticamente, trata-se de uma promoção simbólica, não de uma
ascensão subjetiva.
O fiscal encarna o superego
institucional: vigia, cobra, corrige e transmite a violência simbólica da
hierarquia. Ao fazê-lo, ele se torna simultaneamente agente e vítima do
sistema.
Freud já advertia:
“O superego torna-se tanto mais
severo quanto mais o sujeito obedece.”
(Freud, O Ego e o Id)
A promoção, assim, captura o
sujeito ao lhe oferecer um Ideal que exige renúncia ao próprio desejo.
Capítulo 3 – O “Não” como Ato Subjetivo
Quando um operador eleito para
fiscal diz “não” à supervisão, algo decisivo ocorre. Esse “não” não é simples
recusa funcional; ele pode adquirir o estatuto de ato subjetivo.
O ato, em Lacan, é aquilo que:
- rompe uma identificação,
- não pede autorização,
- produz um antes e um depois.
“O ato só se sustenta na medida em
que o sujeito aceita perder algo de si.”
(Lacan, O Seminário, Livro 15)
O “não” introduz um limite ao
desejo do Outro institucional e fere o narcisismo da liderança, revelando que o
Ideal proposto não é universal nem desejável para todos.
Capítulo 4 – Sintoma Organizacional, Esgotamento
e Clínica do Trabalho
O adoecimento recorrente em
supermercados e instituições semelhantes não pode ser reduzido a fragilidade
individual. Trata-se de sintoma organizacional.
O sujeito adoece no lugar onde o
discurso falha. Burnout, angústia, sonhos de aprisionamento e medo de não
conseguir sair são respostas clínicas a um sistema que exclui a palavra.
“O sintoma é o retorno da verdade
no ponto em que o discurso falha.”
(Lacan, Escritos)
A clínica do trabalho, orientada
pela psicanálise, não visa adaptar o sujeito à instituição, mas descolar o
sujeito da identificação mortífera que o mantém preso ao sofrimento.
Capítulo 5 – Do Ato ao Projeto Ético: a Posição
do Psicólogo Institucional
O ato subjetivo, por si só, não
basta. Ele precisa ser sustentado no tempo, transformando-se em projeto
ético.
Esse projeto não busca novos Ideais
totalizantes, mas se orienta por:
- limite,
- responsabilidade,
- escuta do desejo.
O psicólogo institucional, nesse
cenário, ocupa uma posição delicada. Seu risco é tornar-se operador do
superego, ajustando sujeitos a instituições adoecidas. Sua ética, ao contrário,
exige:
“Não ceder quanto ao desejo.”
(Lacan, O Seminário, Livro 7)
Sua função não é curar a
instituição, mas introduzir fendas, criar lugares de palavra e sustentar
o conflito como índice de vida psíquica.
Conclusão
Este livro demonstrou que o
percurso do operador de caixa ao fiscal — e a recusa desse lugar — não é um
caso individual isolado, mas um exemplo paradigmático do laço entre sujeito
e instituições de controle.
A promoção simbólica captura; o
superego adoece; o sintoma denuncia; o ato rompe; e o projeto ético sustenta
uma nova posição no laço social.
Sair do supermercado, em última
instância, não é apenas mudar de emprego. É sair de uma posição subjetiva
que exige o sacrifício do desejo em nome da obediência.
Referências Bibliográficas
- Freud, S. (1923). O Ego e o Id.
- Freud, S. (1930). O Mal-Estar na Civilização.
- Lacan, J. (1959–1960). O Seminário, Livro 7:
A Ética da Psicanálise.
- Lacan, J. (1969–1970). O Seminário, Livro
17: O Avesso da Psicanálise.
- Lacan, J. (1966). Escritos.
- Foucault, M. (1975). Vigiar e Punir.
- Dejours, C. (1992). A Loucura do Trabalho.
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