Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208
Introdução
A
aposentadoria, para além de um marco administrativo, constitui um evento de
grande impacto psíquico. Ela representa o encerramento de uma etapa em que o
sujeito se reconhecia e era reconhecido socialmente por meio de sua atividade
laboral. No entanto, quando a função profissional deixa de existir, o sujeito
se depara com a perda de uma das principais fontes de sua identidade. A
psicanálise compreende esse momento como uma experiência de morte simbólica,
em que ocorre o rompimento com as identificações que sustentavam o sentimento
de pertencimento e de valor pessoal.
Desenvolvimento
O
trabalho, segundo Freud (1930/2010), é um dos pilares da vida civilizada, pois
oferece ao sujeito um lugar de utilidade e reconhecimento social. É através
dele que o indivíduo constrói parte essencial de sua identidade e organiza seu
investimento libidinal no mundo. Quando esse vínculo é rompido pela
aposentadoria, o sujeito perde não apenas o papel social que exercia, mas
também a estrutura simbólica que o amparava no laço social. Alguns se enveredam
no caminho das substâncias psicoativas, outros que já tem o comportamento de
agressão através do álcool acabam por buscar a morte através do álcool de modo
inconsciente.
A
função profissional opera como uma máscara social, conceito que remete
àquilo que o sujeito encena para ser aceito e reconhecido no espaço público.
Essa máscara, no entanto, não é mera aparência: ela constitui um modo de
existir diante do outro. Birman (1999) observa que, quando o sujeito é privado
das suas formas de reconhecimento, ele se confronta com uma “nudez subjetiva”,
isto é, com a ausência das imagens que o protegiam do vazio do ser.
Nesse
contexto, a aposentadoria pode suscitar um processo de luto psíquico. O
sujeito precisa elaborar a perda da função que lhe conferia sentido, posição e
desejo. Quando esse luto não é simbolizado, o indivíduo corre o risco de
permanecer fixado ao passado, identificando-se com a imagem do “profissional
que foi”, sem conseguir investir desejo em novas formas de existir. Erikson
(1972) já apontava que, nas etapas tardias da vida, o desafio psíquico é
transformar a integridade do vivido em sabedoria, sem sucumbir ao desespero
diante das perdas.
A
perda da identidade profissional, portanto, implica uma castração simbólica,
pois o sujeito reconhece seus limites e a impossibilidade de sustentar
eternamente o mesmo papel social. Esse reconhecimento pode provocar sentimentos
de inutilidade, desamparo e vazio, conduzindo o sujeito ao adoecimento
psíquico. Birman (2000) observa que, em sociedades centradas na produtividade,
o sujeito aposentado é frequentemente lançado à invisibilidade, como se a perda
da função equivaler à perda de valor existencial.
Por
outro lado, quando o processo de luto é elaborado, a aposentadoria pode se
transformar em um espaço de reinvenção. O sujeito pode redirecionar sua energia
vital para outras dimensões da vida — vínculos afetivos, atividades criativas,
ações solidárias —, reconfigurando sua identidade fora das amarras das máscaras
sociais. Nesse sentido, a aposentadoria pode ser vivida não como morte, mas
como renascimento simbólico.
Considerações
finais
A
aposentadoria, sob a ótica psicanalítica, é uma experiência de transição
marcada por perdas e pela necessidade de reconstrução subjetiva. A morte da
função profissional implica a morte das máscaras sociais que sustentavam a
identidade, exigindo do sujeito a elaboração de um luto e a criação de novos
sentidos para a existência. Aquele que consegue transformar a perda em
oportunidade de reinvenção psíquica e simbólica encontra, na aposentadoria, não
o fim, mas o início de uma nova forma de viver — menos atrelada à aparência
social e mais próxima da autenticidade de ser sujeito.
Referências
- Birman, J. (1999). Mal-estar na
atualidade: A psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira.
- Birman, J. (2000). Subjetividade, tempo e
mal-estar na cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- Erikson, E. H. (1972). Identidade,
juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar.
- Freud, S. (1930/2010). O mal-estar na
civilização. In: Obras completas, vol. 18. São Paulo: Companhia das
Letras.
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