Pular para o conteúdo principal

O Fiscal Morto: A Escuta Psicanalítica de um Ego Dividido entre o Dever e o Desejo

 Ano 2025. Autor [Ayrton Junior Psicólogo]

Introdução

Este livro nasce da escuta de um conflito silencioso: o de um sujeito que, formado em Psicologia, atua como fiscal de caixa em um supermercado — um espaço de intensa dinâmica social, mas carente de reconhecimento subjetivo.

O personagem central, o fiscal psicólogo, simboliza o homem moderno dividido entre o trabalho que sustenta o corpo e o desejo que alimenta a alma. No entanto, o ambiente organizacional, regido por normas e metas, torna-se o espelho de uma estrutura psíquica aprisionada: o superego institucional, que reprime o desejo de ser, em nome do dever de parecer produtivo.

Pela lente da psicanálise, este livro propõe uma escuta — ou, como diria Lacan, uma escanálise — da dor de um sujeito que, sem perceber, retirou a libido de sua própria função. A análise busca compreender o processo inconsciente que o levou a se perceber como um “fiscal morto”, sem prazer, sem reconhecimento e sem o brilho do desejo que um dia o moveu à Psicologia.


Sumário

1.      Capítulo I – O Fiscal Psicólogo: o conflito entre o dever e o desejo

2.      Capítulo II – O Superego Institucional e o Recalque do Desejo

3.      Capítulo III – Escanálise: quando o ambiente fala pelo inconsciente

4.      Capítulo IV – Contratransferência Ambiental: o eco do não reconhecimento

5.      Capítulo V – A Retirada Libidinal e a Morte Simbólica do Eu Profissional

6.      Capítulo VI – O Retorno do Desejo: caminhos para a reintegração do Eu

7.      Conclusão – Quando o Fiscal Escuta o Psicólogo que ainda Vive

8.      Referências Bibliográficas


Capítulo I – O Fiscal Psicólogo: o conflito entre o dever e o desejo

O sujeito deste estudo carrega em si dois eus em constante embate: o psicólogo, movido pelo desejo de ajudar, e o fiscal, compelido pelo dever de controlar. Essa dualidade expressa o conflito clássico entre o princípio do prazer e o princípio da realidade (Freud, 1920).

O ambiente de trabalho, estruturado pela lógica da vigilância, do controle e da produtividade, se opõe à sensibilidade que o psicólogo internaliza como vocação. O fiscal, ao assumir o comando, passa a representar o ego adaptado, aquele que busca sobreviver no real, ainda que à custa de silenciar o próprio desejo.

“Onde o id estava, o ego deve advir.” (Freud, 1933)

No entanto, aqui, o ego não advém como transformação; ele se retrai, recalcando o id para sustentar o superego institucional.


Capítulo II – O Superego Institucional e o Recalque do Desejo

A cultura da diversidade dentro do supermercado, embora aparente, não reconhece a escuta psicológica como ferramenta legítima. Assim, o sujeito internaliza a voz do ambiente como um superego coletivo, que o julga por desejar ser mais do que o papel lhe permite.

Esse superego institucional exige submissão e conformidade, censurando qualquer expressão subjetiva. O psicólogo que habita o fiscal é obrigado a se calar, e o desejo é recalcado em nome da adequação.

“A moralidade do superego não é a do ideal do eu, mas a da coerção.” (Lacan, 1959)

A repressão do desejo, porém, cobra seu preço: a libido retirada da função e a consequente morte simbólica do prazer de existir como profissional significativo.


Capítulo III – Escanálise: quando o ambiente fala pelo inconsciente

A escanálise (escuta analítica do ambiente) permite compreender que o contexto organizacional não é neutro. Ele fala, ele devolve, ele projeta. O fiscal psicólogo percebe o desdém dos colegas, a ausência de reconhecimento e o ruído das máquinas como vozes do seu próprio inconsciente, repetindo a mensagem interna: “você não é visto”.

A empresa, então, se torna o espelho deformante do psiquismo.
O não reconhecimento externo é a repetição do não reconhecimento interno — a recusa em validar o próprio desejo de ser psicólogo.

“O inconsciente é o discurso do Outro.” (Lacan, 1960)


Capítulo IV – Contratransferência Ambiental: o eco do não reconhecimento

A contratransferência aqui assume uma forma ampliada. Não se trata apenas da resposta emocional do analista ao paciente, mas da reação afetiva do sujeito ao seu próprio ambiente de trabalho.

O fiscal psicólogo sente raiva, cansaço e desânimo — afetos que parecem vir de fora, mas na verdade emergem de dentro, como ecos de um desejo não vivido.
O ambiente desperta, nele, a experiência de não ser escutado — a mesma que ele tenta reparar simbolicamente quando sonha em escutar os outros.

“Toda relação humana implica transferência e contratransferência; onde há olhar, há espelho.” (Heimann, 1950)


Capítulo V – A Retirada Libidinal e a Morte Simbólica do Eu Profissional

Ao retirar a libido da função, o fiscal psicólogo esvazia o sentido do próprio fazer. Ele continua existindo no plano funcional, mas o sujeito desejante morre.
A libido, que antes animava o trabalho e o desejo de transformação, recolhe-se, gerando apatia, desânimo e melancolia profissional.

Essa é a morte simbólica do eu — não uma morte real, mas o estado em que o sujeito se separa da vitalidade do seu desejo.
Freud (1917) descreve algo semelhante em “Luto e Melancolia”: o objeto perdido é incorporado no eu, e a libido volta-se contra o próprio sujeito, gerando autodepreciação e culpa inconsciente.

“Na melancolia, a sombra do objeto caiu sobre o eu.” (Freud, 1917)


Capítulo VI – O Retorno do Desejo: caminhos para a reintegração do Eu

A cura, nesse caso, não está em abandonar o ambiente imediatamente, mas em reinvestir libido naquilo que ainda pulsa: o desejo de ser psicólogo.
A tarefa do ego é reapropriar-se da escuta, mesmo em meio à rotina. Ouvir os colegas, acolher o cliente, transformar o trabalho em um campo de exercício simbólico da psicologia.

Ao reintegrar o desejo à função, o fiscal psicólogo reconstrói o sentido do seu existir — não mais como vítima do ambiente, mas como autor do seu próprio retorno libidinal.

“O desejo é a essência do homem.” (Spinoza, 1677)

“Não há sujeito sem desejo, nem desejo sem falta.” (Lacan, 1964)


Conclusão – Quando o Fiscal Escuta o Psicólogo que ainda Vive

O fiscal psicólogo não está morto — apenas dorme sob o peso do superego institucional.
Sua “morte” é um sintoma, um chamado. O ego precisa escutar o desejo que foi recalcado para sobreviver e, assim, permitir que o id volte a pulsar com vitalidade criativa.

O trabalho, mesmo dentro de estruturas rígidas, pode se tornar espaço de ressignificação libidinal.
A psicanálise nos ensina que o sofrimento não é o fim — é o sinal de um desejo em espera.
O fiscal que se sente morto pode, pela escuta de si mesmo, reencontrar o psicólogo que nele habita e, com ele, o prazer de existir de modo autêntico, ético e desejante.


Referências Bibliográficas

  • Freud, S. (1917). Luto e Melancolia. In: Obras Completas, vol. XII. Imago Editora.
  • Freud, S. (1920). Além do Princípio do Prazer. In: Obras Completas, vol. XVIII. Imago Editora.
  • Freud, S. (1933). Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise.
  • Heimann, P. (1950). On Counter-Transference. International Journal of Psycho-Analysis, 31.
  • Lacan, J. (1959-1960). O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise. Jorge Zahar Editor.
  • Lacan, J. (1960). Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo.
  • Spinoza, B. (1677). Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica.
  • Kaës, R. (1991). O Grupo e o Sujeito do Grupo. Casa do Psicólogo.
  • Winnicott, D. W. (1960). O Ambiente e os Processos de Maturação. Artes Médicas.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

Emprego Inferior Suas Consequências

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Um sujeito ao estar quatro anos desempregado e para não ser despejado da casa se sujeita a trabalhar como operador de caixa de supermercado por não ter opção de escolher empregos por estar com 60 anos de idade. Assumir um trabalho como operador de caixa de supermercado, mesmo que seja uma escolha motivada pela necessidade financeira e pela falta de outras opções, pode ter diversas consequências psicológicas. Aqui estão alguns pontos importantes a serem considerados: Autoestima e Identidade: Para algumas pessoas, a transição para um emprego que está abaixo de suas habilidades ou expectativas profissionais pode afetar sua autoestima e senso de identidade. Elas podem se sentir subvalorizadas ou envergonhadas por estarem em uma posição considerada de menor prestígio. É importante lembrar, no entanto, que o valor de uma pessoa não está diretamente relacionad...

Auto Regular Emoções E Ajustar Comportamentos No Ambiente [...]

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo encoraja o leitor a fazer a própria observação, sobre sua conduta nos ambientes aos quais está inserido e considerar a baixa imunidade diante de situações estressantes, seja no trabalho, na família, no esporte, nas reuniões e outros. Você já deve saber que a relação entre pais e filhos tem grande influência em diversas esferas do desenvolvimento infantil, certo? Um hábito importante é a autorregulação na Educação Infantil que, apesar de ser promovido pela escola, também deve ser um ponto de atenção em casa. Por essa razão, é importante que os pais, ao lidar com as crianças, busquem incentivá-lo. Pois, a auto regulação é importante em vários ambientes, seja escolar, organizacional, esportivo, familiar e o que você pensar agora enquanto lê o artigo. Encontramos em diversos ambientes adultos que não possuem o mínimo de auto regulação nas emoções e nem tão pouco comportamentos ajustados para reações d...

REDE SOCIAL, O MERCADO DE FUTUROS HUMANOS

  Ano 2021. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leit@r a observar a manipulação das plataformas se utilizando das tecnologias através das redes sociais para manipular os usuários, onde neste mundo virtual o produto é o ser humano, ou seja, se você não paga o anuncio, você é o produto. Sabemos que no mundo físico temos diversos mercados, exemplo, agropecuária, avicultura, vestuários, automobilístico, imobiliários, financeiro, tecnologias, mercado de tráfico humanos e órgãos humanos e o que você conseguir pensar enquanto lê o artigo. As redes socias propagam a desinformação, o discurso de ódio, a polarização política, teorias da conspiração. Como esses problemas se intensificam nas redes sociais e como escapar das armadilhas? Graças às redes sociais e sua manipulação ideológica, as pessoas modificaram seu comportamento. O mais visível é a radicalização, a intolerância e a insuficiência que, sem perceber, são transmitidas nesses e...

Psicólogo Organizacional Supermercado Não-Escolha

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Vamos compreender o desejo do psicólogo através das abordagens psicanálise, psicologia social e psicologia organizacional. Em se tratando do ambiente o psicólogo tem medo e desejo ao mesmo tempo de atuar como psicólogo organizacional, pois se esquece que agora é uma figura de autoridade. E neste caso surge a reação de aproximação-afastamento, é quando sentimos atração e repulsa pelo mesmo objeto [Ser Psicólogo Organizacional] temos uma situação de aproximação-afastamento. Um exemplo seria o de um operador de caixa que é psicólogo num supermercado e tem o desejo inconsciente de atuar como psicólogo organizacional no supermercado [aproximação], mas o medo de mal interpretado pela supervisão através de punição [afastamento], porque no ato da contratação, ao lhe perguntar se tinha outra formação além de técnico em mecânica, omitiu dizendo que não; e por isso ...

Desamparo ou abandono, qual a diferença?

Junho/2020.Escrito por Ayrton Junior - Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo convida o leitor(a) a repensar sobre a sensação de desamparo e a sensação de abandono, pois as veze confundimos o momento de desamparo com a sensação de abandono. Sendo assim, o sinal de angústia desvela a situação de desamparo na qual a perda do lugar de amado mergulha o sujeito. Em alguns casos, são homens, que exibem com lágrimas o desespero ante ao desemprego, a separação. A dor, quando intensa e duradoura, tem como efeito uma extrema desorganização da economia psíquica. [...] Em O Futuro de uma Ilusão, por exemplo, Freud (1927/1976) trabalha a concepção do desamparo em relação à perspectiva da falta de garantias do ser humano e da criação de deuses para compensá-la, refletindo sobre a origem e a função da religião e da cultura: “o desamparo do homem permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses”, dos quais se espera a missão de “exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os...

Fazer Mais Com Menos Teoria Minoria - Maioria

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. Observo que o supermercado como não consegue manter o quadro de colaboradores acaba contribuindo para fazer mais com menos, ou seja usa a minoria de colaboradores para atingir os resultados sacrificando àqueles que está no sistema deles padrão. Vamos explicar isso passo a passo, de forma simples, pela psicologia organizacional , trazendo também a teoria de minoria e maioria de Kurt Lewin , como você pediu. 🔧 O que é “fazer mais com menos” na psicologia organizacional? Na prática organizacional, "fazer mais com menos" significa exigir mais produtividade , mais resultados , mais metas batidas , mas com menos recursos , menos tempo e menos pessoas trabalhando . Isso pode causar: Sobrecarga emocional e física dos poucos colaboradores que ficam. Estresse constante e aumento de doenças relacionadas ao trabalho (como burno...

O Ego Se Autoriza A Mortificação

  O Ego Se Autoriza A Mortificação Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 1. A cena manifesta Você está em um lugar que só vende duas marcas de cigarro — Hothmans e outra específica — e afirma a um homem que, se ele quiser fumar outro tipo, deve comprar em outro lugar e trazer . O mesmo vale para as mulheres. A primeira leitura literal já sugere uma lei simbólica , uma regra de limite : há fronteiras definidas do que pode ser “consumido” naquele espaço. 2. O símbolo do cigarro Na psicanálise, o cigarro é um símbolo ambíguo — simultaneamente de prazer oral (fase oral freudiana, dependência, introjeção) e de ato pulsional sublimado , como um gesto repetitivo que alivia a tensão interna. Portanto, o sonho fala de prazer , desejo e limite : o prazer está permitido, mas apenas sob determinadas “marcas”, ou seja, formas codificadas e socialmente aceitas . Essas “marcas específicas” podem representar os códigos morais e culturais que o sup...

Manipulação Gentil: A Máscara Da Educação Serve Para Controlar

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. A Manipulação Gentil: Quando a Máscara da Educação Serve para Controlar Introdução Gentileza é uma virtude. Mas quando usada como disfarce para evitar responsabilidades ou controlar sutilmente o comportamento alheio, ela perde seu valor. No ambiente profissional, esse tipo de atitude — conhecido como manipulação gentil — compromete a clareza das relações e o equilíbrio das tarefas em equipe. É necessário nomear esse comportamento, compreender suas intenções e estabelecer limites com firmeza e respeito. O que é manipulação gentil? Manipulação gentil é o uso estratégico da aparência de gentileza para conseguir algo sem precisar se posicionar de forma direta. A pessoa não diz o que realmente sente ou pensa, mas usa a simpatia como ferramenta de influência ou fuga . Ela evita tarefas, transfere responsabilidades e até impõe sua vontade sem parec...

Estagnação: Entre o Desejo e a Realidade

  Autor Fiscal psicólogo Sumário Introdução – A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático Capítulo 1 – A morte simbólica do objeto de desejo Capítulo 2 – A compulsão à repetição e a fixação libidinal Capítulo 3 – O princípio de realidade como resistência Capítulo 4 – O papel do ego, superego e id na estagnação Capítulo 5 – Caminhos de elaboração e micro-sublimações Epílogo – A pausa como incubação da energia libidinal Conclusão Final – Entre o cansaço e a reinvenção do desejo Referências Bibliográficas Introdução: A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático A estagnação psíquica é um estado de suspensão entre o desejo e o princípio de realidade. O sujeito sabe o que quer, sente o impulso da libido em direção a um novo objeto de prazer e realização, mas o contexto externo não oferece condições para que esse desejo se concretize. Surge, então, um vazio existencial em que o ego se vê esgotado e descrente. ...

Desafios De Varejistas Na Retenção De Colaboradores

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. O que pode estar acontecendo com os varejistas de supermercado neste século xixi que encontram dificuldade para reter seus colaboradores e encontrar colaboradores no mercado de trabalho disposto a aceitar a jornada de trabalho ofertadas pelos varejistas. Vamos entender isso juntos pela psicologia organizacional, de um jeito bem simples: O que está acontecendo com os varejistas de supermercado hoje em dia? Os supermercados estão enfrentando dificuldade para manter os funcionários (retenção) e também para contratar pessoas (atração). Isso acontece por vários motivos que podemos entender com a ajuda da psicologia organizacional. 1. Jornada de trabalho longa e cansativa Como é: A maioria dos supermercados funciona o dia todo, incluindo finais de semana, feriados e à noite. O que o colaborador sente: Cansaço, falta de tempo com a família, pouca vida ...