Pular para o conteúdo principal

Vou continuar sendo função até a aposentadoria ou vou conseguir ser sujeito?

 A transferência institucional como espelho da transferência de vida que não acontece


Resumo

Este artigo analisa, a partir de uma leitura psicanalítica e institucional, a condição subjetiva de um trabalhador inserido no ambiente supermercadista que, mesmo após ser transferido de unidade, permanece preso ao mesmo impasse existencial. Argumenta-se que a transferência espacial não opera como transformação simbólica, pois o núcleo do sofrimento está na posição subjetiva ocupada dentro da instituição: ser função, tampão e sustentáculo de falhas organizacionais. A partir de Lacan, propõe-se que a verdadeira transferência é de discurso, e não de endereço. O supermercado aparece como cenário onde se dramatiza a divisão entre sobrevivência e vocação, colocando em cena a pergunta fundamental: permanecer como função ou tornar-se sujeito.

Palavras-chave: psicanálise institucional; Lacan; transferência; sofrimento no trabalho; subjetividade.


1. Introdução: ele foi transferido de loja, mas não de destino

A transferência de um trabalhador de uma loja para outra pode parecer, do ponto de vista administrativo, uma solução concreta: muda-se o espaço, reorganizam-se equipes, alteram-se rotinas. Contudo, do ponto de vista subjetivo, muitas vezes nada se desloca.

Ele foi transferido de loja, mas não de destino.

A mudança espacial não resolve porque o núcleo do conflito não está no endereço, mas na posição simbólica que ele ocupa: um lugar de precariedade, improviso e tamponamento institucional.

Em termos lacanianos, a verdadeira transferência não se dá como deslocamento físico, mas como deslocamento de discurso. Como afirma Lacan:

“A transferência não é um fenômeno de deslocamento real, mas uma atualização do inconsciente na relação.”
(Lacan, 1964/2008)

Portanto, mudar de unidade não altera necessariamente o lugar subjetivo ocupado pelo sujeito dentro da instituição.


2. A transferência institucional: repetição de um lugar

Na psicanálise, a transferência é o modo como o sujeito reinscreve no presente os roteiros inconscientes de sua história. No campo institucional, isso se amplia: a organização torna-se palco de repetição e captura subjetiva.

A instituição convoca o trabalhador não apenas para executar tarefas, mas para sustentar suas falhas estruturais. Ele não é apenas operador: ele é tampão.

Esse mecanismo pode ser compreendido como uma forma de transferência institucional: a empresa deposita nele uma função que excede o cargo formal, exigindo que ele contenha crises, suporte improvisos e neutralize conflitos.

Kaës descreve esse fenômeno ao afirmar que as instituições produzem alianças inconscientes que capturam o sujeito em posições repetitivas:

“O sujeito é convocado a ocupar lugares psíquicos necessários ao funcionamento institucional.”
(Kaës, 1991)

Assim, ele não muda de destino porque continua sendo convocado para o mesmo lugar: o lugar funcional.


3. Desejo de outra posição simbólica: não é só um cargo

O impasse não é apenas profissional, mas existencial.

Ele deseja:

  • outra posição simbólica
  • outra função subjetiva
  • outro lugar de existência

O desejo aqui não se reduz a uma promoção ou troca de setor. Trata-se de uma demanda por reconhecimento simbólico: deixar de ser engrenagem e tornar-se sujeito.

Em Lacan, o desejo é sempre desejo de outra coisa, desejo que não se satisfaz na lógica da necessidade:

“O desejo do homem é o desejo do Outro.”
(Lacan, 1966/1998)

O supermercado opera no registro da necessidade: cobrir turnos, resolver faltas, sobreviver. Já o sujeito busca um campo de vocação, onde sua existência não seja reduzida a função.


4. Dentro e fora do supermercado: o mesmo impasse

O drama se duplica.

Dentro:

  • precarização
  • improviso
  • ser tampão
  • ser usado
  • sobreviver

Fora:

  • desejo de ser psicólogo
  • falta de oportunidade
  • espera
  • sensação de bloqueio

O supermercado torna-se espelho de uma condição existencial:

estar preso num lugar que não é seu, aguardando uma passagem que não se abre.

Essa espera produz desmotivação e silêncio. A música interna desaparece. O desejo se apaga.

Christophe Dejours, ao estudar o sofrimento no trabalho, afirma que a organização pode capturar o sujeito em uma lógica de sobrevivência que destrói a dimensão desejante:

“O sofrimento começa quando o sujeito não consegue mais transformar o trabalho em realização simbólica.”
(Dejours, 1992)


5. O supermercado como palco de uma divisão subjetiva

No fundo, esse cenário revela:

  • que a instituição não oferece futuro, apenas necessidade
  • que ele é convocado a sustentar falhas alheias
  • que seu desejo está em outro campo
  • que ele vive uma divisão entre sobrevivência e vocação

O supermercado deixa de ser apenas local de trabalho: torna-se palco psíquico.

Ali se dramatiza a pergunta central:

“Vou continuar sendo função ou vou conseguir ser sujeito?”

Essa pergunta é profundamente lacaniana: o sujeito é sempre dividido, barrado, atravessado por discursos que o capturam.

Como diz Lacan:

“O sujeito é efeito do significante.”
(Lacan, 1966/1998)

Enquanto ele permanecer apenas como significante funcional dentro da empresa — fiscal, tampão, contenção — não há passagem subjetiva.


6. Conclusão: a transferência de vida que não acontece

A transferência institucional espelha uma transferência de vida que não acontece.

Ele muda de loja, mas não muda de lugar simbólico.

Porque o que precisa mudar não é o endereço, mas o discurso.

O verdadeiro deslocamento não é administrativo: é subjetivo.

A travessia necessária é esta:

  • sair do lugar de função
  • abandonar o destino de tampão
  • sustentar o desejo como sujeito

Enquanto isso não ocorre, o supermercado seguirá sendo o cenário onde ele sobrevive, mas não existe.


Referências Bibliográficas

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez, 1992.

KAËS, René. A instituição e as instituições: estudos psicanalíticos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.

LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. (Original de 1966).

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. (Original de 1964).

FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

Entre - Lugar

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. O que é o entre - lugar que as vezes nos encontramos em algumas situações. Construa um texto citando como exemplo um indivíduo que está no entre lugar através da psicologia social para ser gravado no Ainda sou podcast pelo host psicólogo Ayrton Júnior adaptado na linguagem assertiva informativa e que movimentos o sujeito realizar para demover se do entre lugar para ocupar na realidade o lugar que lhe pertence por direito Abaixo está um texto adaptado para ser lido no seu podcast "Ainda Sou" , com linguagem assertiva e informativa, fundamentado na psicologia social , explicando o conceito de entre-lugar e como o sujeito pode sair dessa posição ambígua e retomar o seu lugar legítimo na realidade: 🎙️ AINDA SOU — por Ayrton Júnior Hoje, vamos falar sobre um conceito muito presente nas experiências humanas, mas pouco nomeado: o entre-...

Estagnação: Entre o Desejo e a Realidade

  Autor Fiscal psicólogo Sumário Introdução – A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático Capítulo 1 – A morte simbólica do objeto de desejo Capítulo 2 – A compulsão à repetição e a fixação libidinal Capítulo 3 – O princípio de realidade como resistência Capítulo 4 – O papel do ego, superego e id na estagnação Capítulo 5 – Caminhos de elaboração e micro-sublimações Epílogo – A pausa como incubação da energia libidinal Conclusão Final – Entre o cansaço e a reinvenção do desejo Referências Bibliográficas Introdução: A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático A estagnação psíquica é um estado de suspensão entre o desejo e o princípio de realidade. O sujeito sabe o que quer, sente o impulso da libido em direção a um novo objeto de prazer e realização, mas o contexto externo não oferece condições para que esse desejo se concretize. Surge, então, um vazio existencial em que o ego se vê esgotado e descrente. ...

Desejo, Frustração e Narcisismos Nas Relações Virtuais

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um indivíduo está utilizando um aplicativo de relacionamento e se vê preso a uma dinâmica repetitiva: deseja mulheres que não o desejam e rejeita aquelas que demonstram interesse por ele. Essa experiência, embora comum, revela aspectos profundos da estrutura psíquica do sujeito, especialmente sob a ótica da psicanálise. O desejo do sujeito não está apenas direcionado às mulheres, mas àquilo que elas representam para ele. Ele projeta sobre as mulheres mais bonitas e jovens um ideal de beleza, juventude e valor social. Desejá-las é, para ele, uma forma de se aproximar do seu próprio ideal do eu — uma imagem idealizada de quem gostaria de ser. Assim, não se trata apenas de querer o outro, mas de desejar ser desejado por esse outro idealizado. Isso é o que Lacan chama de “desejo do desejo do Outro”. Ao desejar ser objeto do desejo dessas mulheres, o ...

NEW AMSTERDAM COMO ESPELHO DA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: UMA LEITURA A PARTIR DA PSICOLOGIA DA SAÚDE, PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

  Resumo O presente artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a série televisiva New Amsterdam , analisando-a a partir da Psicologia da Saúde, da Psicanálise e da Psicologia Organizacional. O objetivo é compreender como a narrativa hospitalar pode funcionar como um espelho simbólico para um sujeito que, após experiências profissionais em ambiente hospitalar, encontra-se atualmente inserido em uma organização varejista na função de fiscal de caixa e psicólogo. Discute-se a hipótese de que a série mobiliza processos de identificação, memória institucional, construção identitária e observação dos fenômenos organizacionais, permitindo compreender como experiências passadas permanecem ativas na constituição subjetiva e profissional do indivíduo. Palavras-chave: Psicologia da Saúde; Psicanálise; Identidade Profissional; Organizações; New Amsterdam; Psicologia Organizacional. 1. Introdução As produções audiovisuais frequentemente transcendem a função de entretenimento e t...

Escorpião Dentro De Casa

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do Leitor para um excelente tópico. Um sujeito vai orar a Deus e quando se levanta observa um escorpião próximo ao tênis. Então mata escorpião. Na psicanálise, os sonhos, comportamentos e eventos simbólicos podem refletir conteúdos do inconsciente, como desejos reprimidos, conflitos internos ou mecanismos de defesa. O escorpião, nesse caso, pode ser interpretado como um símbolo de algo perigoso, oculto ou reprimido que surgiu à consciência. Vamos analisar o cenário como se você fosse iniciante: A oração a Deus : Representa uma busca por conexão espiritual, proteção ou orientação. Essa atitude pode ser vista como um movimento do ego em busca de equilíbrio e suporte diante de conflitos internos. O escorpião próximo ao tênis : O escorpião, em um contexto simbólico, pode representar algo no inconsciente que o sujeito considera ameaçador, como um medo, um desejo reprimido ou uma culpa...

A ilusão de que o sujeito escolhe o campo quando é o campo quem o escolhe

  Resumo Este artigo discute a crença amplamente difundida de que o indivíduo escolhe livremente seu campo profissional, analisando-a como uma ilusão produzida por discursos meritocráticos e individualizantes. A partir de uma leitura psicanalítica e sociológica, argumenta-se que, na realidade, são os campos institucionais que escolhem os sujeitos segundo lógicas próprias, frequentemente opacas para quem está fora deles. Articula-se essa tese à trajetória de um psicólogo–teólogo que, ao longo de sua história laboral, sempre foi selecionado por instituições em campos abertos, mas sofreu ao tentar acessar campos fechados por meio de estratégias inadequadas. O acesso ao saber estrutural produz a elaboração do luto, o fim da compulsão à repetição e uma nova posição subjetiva diante da espera. 1. Introdução: a narrativa moderna da escolha O discurso contemporâneo do trabalho sustenta que o sujeito escolhe sua profissão, sua instituição e sua trajetória a partir de decisões ra...

O Desinvestimento Psíquico da Vaga de Assistente de RH Generalista: Uma Leitura Psicanalítica e Organizacional do Silêncio Institucional

  Resumo Este artigo analisa o fenômeno do desinvestimento psíquico diante de um processo seletivo interno para a vaga de Assistente de RH Generalista em uma organização supermercadista. O estudo parte da experiência de um fiscal de caixa graduado em Psicologia que se candidata à vaga buscando uma mudança de posição ocupacional. Entretanto, ao longo do processo, emerge uma contradição fundamental: embora a vaga represente uma possibilidade de saída do sofrimento associado à função atual, ela não corresponde integralmente ao seu projeto identitário de atuar como psicólogo organizacional. A partir das contribuições da psicanálise e da psicologia organizacional, discute-se como o silêncio institucional, a ausência de comunicação organizacional e a demora nas decisões administrativas favorecem processos de ansiedade, idealização, investimento libidinal e posterior desinvestimento psíquico. Palavras-chave: Psicanálise; Psicologia Organizacional; Silêncio Organizacional; Investiment...

Entre o Desejo e o Esgotamento: Uma Leitura Psicanalítica do Impasse Profissional e do Limite Subjetivo

  Ano 2026 Autor Ayrton Júnior Psicólogo CRP 06/147208 Resumo O presente artigo analisa, à luz da psicanálise, o impasse vivido por um sujeito que, formado em psicologia, encontra-se inserido em uma função dissociada de seu desejo — atuando como fiscal de caixa em um supermercado — ao mesmo tempo em que enfrenta repetidas frustrações na tentativa de inserção institucional na área psicológica. A investigação percorre três eixos: (1) a busca por uma resposta inconsciente via sonho, (2) a oscilação entre ilusão e realidade no campo do desejo, e (3) o colapso subjetivo sob a forma de esgotamento. Conclui-se que a questão não se reduz à dicotomia “ilusão versus verdade”, mas à relação entre desejo, posição subjetiva e inscrição no real. 1. Introdução O sofrimento psíquico contemporâneo frequentemente emerge na intersecção entre desejo e realidade social. No caso em análise, o sujeito encontra-se dividido entre: o desejo de atuar como psicólogo em uma institu...

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais. 1. Introdução O filme  Minha Querida Senhorita  (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser inter...