Quando o desejo não desaparece, mas se retira: exaustão, renúncia e fantasia de salvação no “fiscal psicólogo”
Resumo
Este artigo analisa, à luz da
psicanálise, a posição subjetiva de um sujeito que, inserido em um contexto de
trabalho repetitivo e percebido como esvaziante, relata exaustão, desistência e
entrega a uma instância transcendente. Argumenta-se que não há extinção do
desejo, mas sua retirada da ação, com deslocamento para a espera e para a
fantasia de salvação. A partir de autores como Sigmund
Freud e Jacques Lacan, discute-se o desinvestimento libidinal, a
renúncia subjetiva e a persistência do desejo em formas deslocadas.
1. Introdução: da exaustão ao esvaziamento do
agir
A descrição do chamado “fiscal
psicólogo” não se reduz a um quadro de cansaço ocupacional. Trata-se de uma
experiência mais radical: a dificuldade de sustentar o desejo como operador da
ação.
O sujeito relata não apenas estar
cansado, mas “não saber mais o que fazer”, acompanhado de um gesto de “lavar as
mãos” frente à própria trajetória. Tal posição indica uma passagem da
implicação subjetiva para uma forma de renúncia, na qual o sujeito deixa de se
colocar como agente de sua própria história.
2. Desinvestimento libidinal e retração do mundo
Segundo Sigmund
Freud (1917/2010), no texto Luto e Melancolia, o
desinvestimento libidinal implica uma retirada da energia psíquica dos objetos
do mundo.
No caso analisado, essa retirada
aparece de forma ampliada:
- no trabalho (supermercado)
- na carreira desejada (psicologia)
- na vida amorosa (aplicativos de relacionamento)
Entretanto, diferentemente de um
colapso total, observa-se que o sujeito ainda mantém referências simbólicas — o
que indica não uma eliminação da libido, mas sua redistribuição e retração.
3. O “lavar as mãos” como posição subjetiva
O gesto de “lavar as mãos” não é
meramente comportamental; ele representa uma mudança estrutural de posição.
O sujeito deixa de ocupar o lugar
de quem deseja e age, passando a ocupar o lugar de quem:
- espera
- observa
- e se desresponsabiliza parcialmente pelo
próprio destino
Essa posição configura uma forma de
defesa contra a angústia associada à frustração e ao fracasso.
4. Fantasia de salvação e dependência do Outro
A expectativa de que “algo” ou
“alguém” venha retirá-lo dessa condição revela uma fantasia de salvação.
Para Jacques
Lacan (1960/1998), o desejo do sujeito está estruturado em relação ao
Outro. Quando o sujeito não sustenta seu próprio desejo, pode deslocá-lo para o
Outro, esperando dele a autorização ou a intervenção necessária para agir.
Nesse caso, a saída do supermercado
não é mais concebida como ato, mas como evento externo.
5. A desistência amorosa como proteção narcísica
A retirada dos aplicativos de
relacionamento não indica ausência de desejo, mas sua inibição.
Freud (1914/2010), em Introdução
ao Narcisismo, aponta que o sujeito pode retirar investimentos do mundo
externo para preservar sua integridade narcísica.
Assim, ao evitar o campo amoroso, o
sujeito:
- reduz o risco de rejeição
- evita confrontos com a própria insuficiência
percebida
- mantém uma forma de equilíbrio psíquico, ainda
que empobrecido
6. A fala dirigida a Deus: entre entrega e
apagamento
A enunciação “Deus, faça o que o
senhor quiser” pode ser interpretada de duas formas:
1.
como reconhecimento de
limite
2.
como abdicação da
posição desejante
No contexto analisado, prevalece a
segunda leitura. Trata-se de uma transferência da responsabilidade subjetiva
para uma instância absoluta, indicando não um fortalecimento da fé, mas um
esgotamento do sujeito enquanto agente.
7. Onde o desejo persiste
Apesar do discurso de desistência,
o desejo permanece ativo em formas deslocadas:
- na expectativa de “um dia sair”
- na insatisfação com o presente
- na manutenção da identidade “psicólogo”
- na busca de sentido (inclusive na análise da
própria condição)
Como afirma Jacques
Lacan (1964/2008), o desejo não desaparece; ele se manifesta de forma
indireta, muitas vezes através de sintomas, fantasias ou adiamentos.
8. O conflito entre ideal e realidade
O núcleo do sofrimento reside no
descompasso entre:
- o ideal do eu (ser psicólogo, reconhecido)
- a realidade vivida (trabalho repetitivo e
desvalorizado)
Esse hiato produz:
- vergonha
- sensação de traição de si
- paralisia diante da ação
A solução inconsciente encontrada é
a retirada: não realizar, mas também não abandonar completamente o ideal.
9. Considerações finais
O caso analisado não revela a
ausência de desejo, mas sua suspensão na esfera da ação. O sujeito não deixa de
desejar; ele deixa de se autorizar a agir em nome desse desejo.
A passagem da ação para a espera,
da implicação para a delegação ao Outro, constitui o ponto crítico da dinâmica
psíquica descrita.
Do ponto de vista clínico, o
trabalho não consistiria em “motivar” o sujeito, mas em recolocá-lo na posição
de quem pode sustentar seu desejo, mesmo diante da falta, da incerteza e da
frustração.
Referências
- Sigmund Freud. (1914/2010). Introdução
ao narcisismo. São Paulo: Companhia das Letras.
- Sigmund Freud. (1917/2010). Luto e
melancolia. São Paulo: Companhia das Letras.
- Jacques Lacan. (1998). Escritos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
- Jacques Lacan. (2008). O Seminário,
Livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar.
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