Pular para o conteúdo principal

O Psicólogo E A Repressão

 Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208

O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um indivíduo que trabalha como fiscal de caixa num supermercado e também exerce a função de psicólogo clínico, mas tem intenção de renunciar ao cargo de fiscal de caixa e espera de algum modo ser contratado como psicólogo para trabalhar em alguma instituição, mas não sabe como encontrar no mercado de trabalho a instituição, pode acaso a função de fiscal de caixa reprimindo o desejo de atuar como psicólogo em alguma instituição. Me explica e interpreta como se eu fosse um iniciante pela abordagem da psicanálise o mecanismo de defesa repressão agindo neste sujeito.

Na psicanálise, o mecanismo de defesa da repressão ocorre quando o ego empurra um desejo ou impulso para o inconsciente, de modo que a pessoa não se sinta em conflito com normas sociais ou crenças internas. Esse desejo reprimido permanece oculto, mas continua influenciando a pessoa de maneira indireta, causando insatisfação ou até sintomas psicológicos.

No caso desse indivíduo, ele trabalha como fiscal de caixa, mas seu verdadeiro desejo é atuar integralmente como psicólogo em uma instituição. Ele deseja renunciar ao cargo de fiscal, mas parece que algo dentro dele "impede" essa mudança, deixando-o preso em sua posição atual.

A repressão entra em ação quando ele evita ou "esconde" o desejo de sair do supermercado e trabalhar em psicologia em uma instituição. Esse desejo é suprimido, porque talvez ele acredite que, por enquanto, não é viável fazer essa transição, ou teme o impacto financeiro ou emocional da mudança. Ou seja, o superego (parte da mente que representa as normas e valores) julga que deixar o trabalho atual é arriscado ou imprudente, então o ego reprime o desejo, empurrando-o para o inconsciente.

Esse processo pode levar o indivíduo a continuar no papel de fiscal de caixa, sentindo-se insatisfeito ou incomodado, mas sem entender bem o porquê. Esse conflito interno entre o que ele realmente quer (ser psicólogo) e o que está fazendo atualmente (ser fiscal) pode gerar sentimentos de frustração e até de apatia. Como o desejo reprimido não desaparece, ele pode retornar em forma de sintomas ou fantasias, como uma esperança vaga de que, algum dia, será "automaticamente" contratado como psicólogo sem que precise agir para isso.

Para resolver esse conflito, ele precisaria reconhecer conscientemente seu desejo e trabalhar estratégias para realizar a transição de carreira. Ao trazer o desejo para a consciência e lidar com as barreiras reais e imaginárias que o impedem, ele pode superar a repressão e buscar ativamente oportunidades de emprego como psicólogo em instituições, em vez de esperar passivamente que essa mudança aconteça.

Quando um desejo é reprimido, ele não desaparece; permanece no inconsciente e pode se manifestar por meio de sintomas psicológicos, indicando um conflito interno entre o que o indivíduo deseja e o que ele realmente faz. No caso desse indivíduo que trabalha como fiscal de caixa, mas quer ser psicólogo em tempo integral, alguns sintomas psicológicos que podem surgir incluem:

Ansiedade: Esse é um dos sintomas mais comuns da repressão. A ansiedade surge como uma reação do ego ao desejo reprimido, pois ele teme que esse desejo venha à tona e provoque conflito. O sujeito pode sentir uma inquietação constante ou uma sensação de que algo está "errado", mesmo que não consiga identificar a causa.

Insatisfação e apatia: Por estar em uma função que não o satisfaz, o indivíduo pode começar a sentir uma profunda insatisfação e até apatia em relação ao trabalho como fiscal. A falta de motivação para realizar as tarefas diárias e a sensação de "estar preso" podem indicar que seu verdadeiro desejo está reprimido.

Sintomas psicossomáticos: A repressão de desejos pode se manifestar fisicamente. Por exemplo, ele pode começar a ter dores de cabeça, tensão muscular ou problemas digestivos, que são sintomas físicos causados pelo estresse e pelo conflito emocional. Isso ocorre porque o corpo também reage a conflitos internos, e os sintomas psicossomáticos são uma maneira de "externalizar" o sofrimento psicológico.

 

Sentimento de inferioridade ou autocrítica intensa: O desejo de atuar como psicólogo pode ser reprimido por uma voz interna crítica (ligada ao superego) que diz que ele "não é bom o suficiente" ou que "nunca vai conseguir". Esse autocrítica intensificada pode levar ao sentimento de inferioridade e à insegurança, dificultando que ele tome decisões para mudar de carreira.

Desmotivação e procrastinação: O sujeito pode se sentir desmotivado para buscar oportunidades na área da psicologia e procrastinar a transição, evitando ativamente ações que o aproximariam de sua meta. Essa é uma forma de autossabotagem, um comportamento que também resulta da repressão, pois ele inconscientemente evita lidar com o desejo reprimido e o desconforto que esse desejo traz.

Irritabilidade ou frustração: Quando o desejo reprimido pressiona para emergir, ele pode gerar irritação com as condições atuais de trabalho e até frustração com pessoas ao redor. A irritabilidade, às vezes aparentemente sem motivo, pode ser um sinal de que algo está "preso" e precisa ser liberado.

Esses sintomas refletem o esforço do ego para manter o desejo reprimido e impedir que o indivíduo confronte diretamente seu desejo de ser psicólogo em uma instituição. Para aliviar esses sintomas, seria importante que ele reconhecesse conscientemente esse desejo e trabalhasse ativamente em um plano para realizar a mudança de carreira, o que reduziria o impacto negativo da repressão.

Para que o ego possa reconhecer o desejo de atuar como psicólogo em alguma instituição e impedir que ele permaneça reprimido, causando sintomas, ele precisa passar por um processo de autoconhecimento e aceitação. Abaixo estão alguns passos que o ego pode seguir para trazer esse desejo à consciência de forma segura e integrada:

Identificar e reconhecer o desejo reprimido: O primeiro passo é o indivíduo permitir-se pensar conscientemente sobre seu desejo de trabalhar como psicólogo em uma instituição. Esse processo pode começar com perguntas introspectivas, como "Por que eu realmente quero fazer essa transição?", "O que me atrai na atuação como psicólogo em uma instituição?" ou "O que ganho e o que perco ao permanecer como fiscal de caixa?". Reconhecer o desejo de forma aberta e sem julgamentos reduz o poder da repressão.

Explorar as barreiras e os medos associados: Muitas vezes, o ego reprime um desejo por causa de medos ou crenças limitantes. O indivíduo pode explorar quais são os medos que o mantêm preso ao cargo atual, como o medo da insegurança financeira, da rejeição ou do fracasso. Isso pode incluir um trabalho de questionamento sobre o quanto essas barreiras são reais e como podem ser enfrentadas.

Buscar o apoio de um psicoterapeuta: A ajuda de um psicoterapeuta pode ser fundamental para auxiliar o ego a reconhecer e expressar o desejo de maneira saudável. A terapia oferece um espaço seguro para o indivíduo refletir sobre seus desejos reprimidos, explorar as emoções associadas e encontrar formas de lidar com as pressões internas e externas.

Imaginar cenários e possibilidades: O ego pode ajudar a reduzir a repressão permitindo-se "visualizar" a realização do desejo. Ao imaginar-se trabalhando como psicólogo em uma instituição, ele pode diminuir o medo do desconhecido e perceber que essa transição é possível. A visualização ajuda o ego a aceitar o desejo como algo realizável, diminuindo a força da repressão.

Estabelecer um plano gradual de transição: O desejo reprimido geralmente causa sintomas porque o indivíduo sente que está "preso" em sua situação atual. O ego pode começar a reconhecer e respeitar o desejo ao elaborar um plano de transição realista para a carreira de psicólogo. Isso pode incluir procurar instituições de interesse, preparar o currículo, estabelecer uma rede de contatos profissionais, ou até buscar uma oportunidade de trabalho voluntário como psicólogo. A ação concreta permite que o ego se comprometa com o desejo de maneira gradual e planejada, fortalecendo-o para enfrentar eventuais desafios.

Reafirmar o valor e a importância do desejo: Quando o ego reafirma o valor desse desejo – de trabalhar ajudando pessoas e promover bem-estar – ele reforça a importância do desejo e o enxerga como algo positivo e não ameaçador. Isso também ajuda o ego a neutralizar a pressão do superego, que pode criticar ou censurar a mudança de carreira como sendo "arriscada".

 

Ao seguir esses passos, o ego permite que o desejo de atuar como psicólogo em uma instituição seja trazido à consciência e tratado com realismo e aceitação. Dessa forma, o indivíduo passa a agir de maneira mais alinhada com o que realmente quer, reduzindo os sintomas psicológicos e promovendo uma maior satisfação pessoal e profissional.

O sujeito pode ganhar várias coisas ao permanecer no cargo de fiscal de caixa, especialmente se ele ainda não se sente totalmente seguro para fazer a transição para a psicologia em tempo integral. Aqui estão alguns dos ganhos que ele pode estar obtendo:

Estabilidade financeira: Permanecer como fiscal de caixa provavelmente oferece uma segurança financeira que ele ainda não tem certeza de conseguir apenas com a psicologia clínica. Esse ganho reduz a ansiedade sobre suas finanças, o que pode ser especialmente importante se ele estiver em uma fase inicial de sua carreira como psicólogo.

Segurança emocional: A função atual pode fornecer uma zona de conforto, onde ele já conhece as atividades, o ambiente e as expectativas. A transição para uma nova carreira ou para um novo cargo pode gerar medo do desconhecido e da rejeição, então ele pode inconscientemente sentir que é mais seguro permanecer onde está.

Identidade profissional estabilizada: Trabalhar como fiscal de caixa pode dar a ele uma identidade profissional que é aceita e reconhecida socialmente, enquanto a transição para ser psicólogo em uma instituição poderia envolver questionamentos e uma redefinição dessa identidade, o que às vezes é desconfortável.

Evitar o risco de fracasso: A repressão ao desejo de atuar integralmente como psicólogo também pode proteger o indivíduo do medo de não alcançar o sucesso na nova área. Ao permanecer no cargo de fiscal, ele evita se expor à possibilidade de não conseguir se estabelecer no novo campo ou não atender às suas próprias expectativas.

Menos exposição à avaliação externa: Na função de psicólogo em uma instituição, ele poderia estar sujeito a uma avaliação mais frequente ou mais intensa sobre seu desempenho, seu conhecimento e suas habilidades, algo que pode temer. Já como fiscal de caixa, ele conhece as demandas e se sente mais à vontade em atender às expectativas.

 

Cumprimento de expectativas familiares ou sociais: O papel de fiscal de caixa pode estar alinhado com as expectativas de sua família ou de sua comunidade, que talvez vejam essa posição como uma fonte de renda mais tradicional e estável. Mudar de área poderia ir contra essas expectativas, levando a um conflito com valores externos.

Esses ganhos atuam como forças que mantêm o indivíduo na posição atual, apesar de seu desejo reprimido de atuar integralmente como psicólogo. Essas razões têm um papel importante, mas, se ele entender que esses ganhos vêm ao custo de uma possível realização pessoal e profissional, ele poderá começar a reavaliar suas prioridades e ver formas de alcançar uma segurança semelhante na área de psicologia.

Ao renunciar ao cargo de fiscal de caixa para buscar uma atuação como psicólogo em uma instituição, o sujeito pode enfrentar algumas perdas significativas, especialmente se ainda depende dessa função como uma base de segurança e estabilidade. Essas perdas incluem:

Estabilidade financeira imediata: Ao deixar o cargo, ele perde uma fonte de renda que é garantida e previsível, o que pode aumentar sua ansiedade sobre sustentar-se financeiramente enquanto constrói uma nova carreira ou busca uma posição institucional como psicólogo.

Segurança emocional e zona de conforto: A função atual oferece um ambiente familiar e previsível, onde ele já se sente competente e seguro. Renunciar ao cargo significa abandonar essa zona de conforto, o que pode ser desestabilizador emocionalmente, já que ele precisaria lidar com novos desafios e exigências em um ambiente desconhecido.

Rede de apoio no ambiente de trabalho atual: Trabalhar há algum tempo como fiscal de caixa pode ter permitido que ele estabelecesse relações com colegas e supervisores que o apoiam e com quem ele tem uma boa convivência. Ao deixar o cargo, ele perde essa rede de apoio profissional e social, o que pode resultar em sentimentos de solidão ou insegurança na transição para um novo ambiente.

 

Identidade profissional e reconhecimento: No papel de fiscal de caixa, ele tem uma identidade profissional consolidada, reconhecida pela equipe e pela empresa. Ao sair, ele perde essa posição reconhecida e precisa construir uma nova identidade e um novo status como psicólogo, o que pode ser desafiador, especialmente em um novo campo.

Benefícios trabalhistas e direitos acumulados: Se o cargo atual oferece benefícios específicos (como plano de saúde, seguro, férias remuneradas, ou fundo de garantia), ele perde esses direitos ao renunciar. A ausência desses benefícios pode representar uma perda financeira e um aumento na insegurança pessoal e profissional, ao menos até que ele se estabilize como psicólogo.

Possível aprovação ou segurança perante a família e a comunidade: Em certos contextos, um trabalho tradicional e estável pode ser visto pela família ou pela comunidade como mais "seguro" e "respeitável" do que uma carreira em psicologia, que ainda pode ser cercada de estigmas ou insegurança quanto à estabilidade. Renunciar ao cargo pode significar enfrentar a desaprovação dessas pessoas, o que pode pesar psicologicamente.

Rotina estabelecida e previsibilidade diária: A função de fiscal de caixa oferece uma rotina fixa e previsível, o que proporciona uma sensação de controle sobre o próprio tempo e as próprias tarefas. A transição para um trabalho como psicólogo em instituição pode implicar uma rotina mais variada, com menos previsibilidade e novos tipos de demandas, o que pode ser desafiador até que ele se adapte.

Essas perdas podem contribuir para que o ego reprima o desejo de mudança, pois a perspectiva de renunciar ao cargo e enfrentar essas ausências pode ser vista como uma ameaça ao seu equilíbrio emocional e material. Porém, ao refletir sobre essas perdas de forma consciente, ele pode planejar estratégias para minimizá-las, o que o ajudará a tomar a decisão com mais segurança e menos medo, permitindo-se prosseguir em direção à realização como psicólogo.

 

 

 

O sujeito pode estar acionando o mecanismo de defesa de fuga da realidade ao evitar lidar com o desejo de transição para a carreira de psicólogo em tempo integral e manter-se no cargo de fiscal de caixa. Esse mecanismo funciona como uma maneira de proteger o ego da ansiedade e das inseguranças que surgem quando ele considera a mudança de carreira. A fuga da realidade ocorre de várias maneiras no caso dele:

Evitando o enfrentamento do desejo reprimido: O sujeito reconhece o desejo de atuar em uma instituição como psicólogo, mas, ao permanecer no cargo de fiscal de caixa, ele evita a realidade de que precisa tomar ações concretas para realizar essa transição. Esse comportamento o afasta de encarar a verdade sobre sua insatisfação e sobre a necessidade de enfrentar os desafios da nova carreira.

Criando desculpas ou justificativas: Para manter-se em seu cargo atual, ele pode acionar justificativas racionais como a segurança financeira e a estabilidade do emprego. Isso permite que ele continue na zona de conforto e evite lidar com os riscos e as incertezas de uma mudança. Assim, ele foca nos aspectos positivos do cargo de fiscal para fugir da realidade de que o desejo de mudança está se tornando cada vez mais intenso.

Fantasiando sobre o futuro sem agir no presente: O sujeito pode imaginar uma carreira satisfatória como psicólogo em uma instituição, mas sem tomar medidas práticas para que isso se concretize, como procurar oportunidades, redes de contato ou planos de desenvolvimento profissional. A fantasia de um "futuro ideal" age como uma fuga que o impede de encarar a realidade de que precisa tomar decisões e fazer escolhas reais para chegar onde deseja.

Negando a insatisfação atual: Ele pode minimizar ou ignorar os sentimentos de insatisfação que sente como fiscal de caixa, se convencendo de que o trabalho atual é "suficiente" ou que está "tudo bem" permanecer onde está. Dessa forma, ele foge da realidade de que essa situação vai de encontro ao seu desejo profundo de atuar em uma área mais alinhada com seus valores e propósito.

 

Procrastinando decisões importantes: A fuga da realidade também se manifesta na procrastinação, onde ele evita buscar novos empregos, fazer uma transição gradual ou adquirir as habilidades necessárias para trabalhar em uma instituição. Isso o impede de agir para alcançar seu objetivo, mantendo-o em um ciclo onde o desejo de mudança é constantemente postergado.

Ao acionar o mecanismo de fuga da realidade, o sujeito se protege da ansiedade, do medo do desconhecido e das possíveis dificuldades que uma mudança traria. Porém, ao não encarar a realidade e evitar tomar decisões, ele continua em um estado de insatisfação e impede a própria realização profissional. Para superar essa fuga, ele precisaria desenvolver mais autoconfiança e elaborar um plano concreto para avançar na direção de seu desejo, reduzindo assim o poder do mecanismo de defesa sobre suas ações e escolhas.

 

Comentários

Postagens mais visitadas

NEW AMSTERDAM COMO ESPELHO DA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: UMA LEITURA A PARTIR DA PSICOLOGIA DA SAÚDE, PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

  Resumo O presente artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a série televisiva New Amsterdam , analisando-a a partir da Psicologia da Saúde, da Psicanálise e da Psicologia Organizacional. O objetivo é compreender como a narrativa hospitalar pode funcionar como um espelho simbólico para um sujeito que, após experiências profissionais em ambiente hospitalar, encontra-se atualmente inserido em uma organização varejista na função de fiscal de caixa e psicólogo. Discute-se a hipótese de que a série mobiliza processos de identificação, memória institucional, construção identitária e observação dos fenômenos organizacionais, permitindo compreender como experiências passadas permanecem ativas na constituição subjetiva e profissional do indivíduo. Palavras-chave: Psicologia da Saúde; Psicanálise; Identidade Profissional; Organizações; New Amsterdam; Psicologia Organizacional. 1. Introdução As produções audiovisuais frequentemente transcendem a função de entretenimento e t...

Fechamento do ciclo no supermercado pelo fiscal-psicólogo: uma leitura psicanalítica da exaustão estrutural e da autorização para a saída

  Resumo Este artigo analisa o processo de fechamento de ciclo de um trabalhador na função de fiscal de caixa — aqui denominado “fiscal-psicólogo” — a partir da interpretação de um sonho e de sua articulação com a experiência subjetiva no ambiente de trabalho. Sustenta-se que o encerramento do vínculo não decorre apenas de fatores econômicos ou motivacionais, mas de uma falência progressiva das funções psíquicas que sustentavam a permanência . A partir de contribuições de Sigmund Freud, Jacques Lacan e Donald Winnicott, demonstra-se que o sonho opera como dispositivo de validação do limite, retirada da culpa e autorização simbólica para a saída . 1. Introdução Ambientes de trabalho com alta demanda e baixa sustentação coletiva frequentemente produzem sujeitos que desenvolvem funções psíquicas ampliadas para manter o sistema operando. No caso do fiscal-psicólogo, observa-se uma posição singular: leitura constante do comportamento dos outros organização do excesso e...

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

O Desinvestimento Psíquico da Vaga de Assistente de RH Generalista: Uma Leitura Psicanalítica e Organizacional do Silêncio Institucional

  Resumo Este artigo analisa o fenômeno do desinvestimento psíquico diante de um processo seletivo interno para a vaga de Assistente de RH Generalista em uma organização supermercadista. O estudo parte da experiência de um fiscal de caixa graduado em Psicologia que se candidata à vaga buscando uma mudança de posição ocupacional. Entretanto, ao longo do processo, emerge uma contradição fundamental: embora a vaga represente uma possibilidade de saída do sofrimento associado à função atual, ela não corresponde integralmente ao seu projeto identitário de atuar como psicólogo organizacional. A partir das contribuições da psicanálise e da psicologia organizacional, discute-se como o silêncio institucional, a ausência de comunicação organizacional e a demora nas decisões administrativas favorecem processos de ansiedade, idealização, investimento libidinal e posterior desinvestimento psíquico. Palavras-chave: Psicanálise; Psicologia Organizacional; Silêncio Organizacional; Investiment...

O apagamento da identidade profissional

  A identidade profissional não se sustenta apenas em três elementos formais: diploma conhecimento teórico interesse pela área Ela depende fundamentalmente de prática social reconhecida . Segundo o sociólogo Claude Dubar , a identidade profissional é construída pela interação entre duas dimensões: 1.       identidade para si (como a pessoa se vê) 2.       identidade para os outros (como a sociedade a reconhece) Quando alguém é formado em psicologia, mas o ambiente social o reconhece apenas como: fiscal operador supervisor operacional surge uma fratura entre identidade e reconhecimento social . Como o apagamento começa Ele não acontece de forma brusca. Ele ocorre em etapas. 1. Suspensão provisória da profissão A pessoa pensa: “vou trabalhar aqui por enquanto.” A identidade profissional ainda está preservada. 2. Distanciamento da prática Com o tempo começam a aparecer dificu...

Angústia Da Ausência De Clareza De Informações

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um sujeito que trabalha como fiscal de caixa em um supermercado e é psicólogo está angustiado porque não consegue perceber um caminho para ser contratado como psicólogo em alguma instituição e compreende que a ausência de Clareza gera angústia que está lhe fazendo mal. Na psicanálise, podemos entender essa situação analisando os três sistemas psíquicos: id, ego e superego, bem como os conceitos de angústia e desejo. O conflito interno: O id representa os desejos e impulsos mais profundos. Nesse caso, o desejo do sujeito é trabalhar como psicólogo, porque isso se alinha ao que ele valoriza e ao prazer de ajudar os outros. O superego é a parte crítica, que internaliza normas e regras sociais. Ele pode estar julgando o sujeito por não ter "chegado lá" ainda, criando sentimentos de culpa e cobrança. O ego, que é o mediador entre o id e o ...

O Psicólogo E A dor Nas Costas

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um psicólogo que não consegue se empregar em alguma instituição e trabalha como fiscal de caixa ao ir para academia sentindo dores nas costas.Dor físico como uma possível expressão de conflitos emocionais. Me explique e interprete como se eu fosse um iniciante pela abordagem da psicanálise dos conflitos ocultos Na psicanálise, a dor física, como a dor nas costas, pode ser interpretada como uma expressão simbólica de conflitos emocionais ou psicológicos não resolvidos, que ficam "ocultos" na mente, mas se manifestam no corpo. Essa teoria é chamada de somatização, onde o corpo acaba “falando” o que a mente tenta reprimir ou esconder. Vou explicar isso detalhadamente, como se você fosse um iniciante. Imagine que uma pessoa, que é psicóloga, quer trabalhar em sua área, mas, por circunstâncias da vida, acabou aceitando o trabalho como fiscal de ...

Ônibus Lotado – Comportamento Por Conformidade

  Ano 205. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Ônibus lotado, pessoas agasalhadas, janelas fechadas. O ambiente torna-se abafado, desconfortável e com odor desagradável, consequência da falta de ventilação e, em alguns casos, da ausência de cuidados básicos com a higiene pessoal, como banho e escovação dos dentes. Essa situação compromete o bem-estar coletivo e evidencia a necessidade de consciência social. Quando todos compartilham o mesmo espaço, é fundamental que cada um colabore para manter um ambiente minimamente saudável e respeitoso. Cuidar da própria higiene, usar roupas adequadas à temperatura e permitir a circulação de ar abrindo as janelas são atitudes simples que demonstram consideração com o outro. Em um transporte coletivo, o desconforto de um pode se transformar em sofrimento para todos. Portanto, é essencial que cada passageiro assuma sua parte na responsabilidade coletiva. ...

Entre a Esperança Institucional e o Luto do Ideal: Reorganização Identitária Frente à Não Legitimação Profissional

  Resumo O presente artigo analisa, sob perspectiva psicanalítica, o conflito subjetivo entre manter a esperança de reconhecimento institucional e aceitar a perda desse ideal, enfrentando o luto e promovendo reorganização interna. Parte-se da hipótese de que o sofrimento não deriva da ausência de prática profissional, mas da não inscrição simbólica no campo institucional. A partir das contribuições de Sigmund Freud e Jacques Lacan, discute-se o Ideal do Eu, o narcisismo, a compulsão à repetição e a função do Outro na legitimação identitária. Conclui-se que o luto do ideal institucional não implica fracasso profissional, mas representa condição para reestruturação subjetiva mais autônoma. 1. Introdução O reconhecimento institucional ocupa, para muitos profissionais, função estruturante na constituição identitária. Quando tal reconhecimento não se concretiza, pode emergir sofrimento intenso, frequentemente interpretado como fracasso. Entretanto, sob leitura psicanalítica,...

Quando o desejo não desaparece, mas se retira: exaustão, renúncia e fantasia de salvação no “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo analisa, à luz da psicanálise, a posição subjetiva de um sujeito que, inserido em um contexto de trabalho repetitivo e percebido como esvaziante, relata exaustão, desistência e entrega a uma instância transcendente. Argumenta-se que não há extinção do desejo, mas sua retirada da ação, com deslocamento para a espera e para a fantasia de salvação. A partir de autores como Sigmund Freud e Jacques Lacan, discute-se o desinvestimento libidinal, a renúncia subjetiva e a persistência do desejo em formas deslocadas. 1. Introdução: da exaustão ao esvaziamento do agir A descrição do chamado “fiscal psicólogo” não se reduz a um quadro de cansaço ocupacional. Trata-se de uma experiência mais radical: a dificuldade de sustentar o desejo como operador da ação. O sujeito relata não apenas estar cansado, mas “não saber mais o que fazer”, acompanhado de um gesto de “lavar as mãos” frente à própria trajetória. Tal posição indica uma passagem da impli...