Ano 2024. Autor [Ayrton Junior Psicólogo]
Uma
Leitura Psicanalítica sobre Reconhecimento e Desamparo Profissional
SUMÁRIO
Introdução
Capítulo
1 - A Escrita como Sintoma e Desejo
Capítulo
2 - O Reconhecimento do Outro: Entre a Demanda e a Falta
Capítulo
3 - Transferência e Figuras de Autoridade no Campo Acadêmico
Capítulo
4 - A Ferida Narcísica: Quando o Outro Não Responde
Capítulo
5 - Rivalidade Fraterna e Inveja no Campo Profissional
Capítulo
6 - Repetição e Gozo: A Economia Psíquica do Não Reconhecimento
Capítulo
7 - Da Repetição à Elaboração: Caminhos Clínicos
Conclusão
Referências
Bibliográficas
INTRODUÇÃO
Este
livro nasce de uma interrogação clínica e epistemológica: o que significa, para
um psicólogo, escrever e não ser lido? Mais precisamente, o que está em jogo
quando um profissional da psicologia produz artigos e livros, envia seus
trabalhos a professores e colegas, e encontra como resposta apenas o silêncio?
A
questão ultrapassa o plano da mera sociologia profissional ou da análise
institucional. Ela toca o núcleo mesmo da constituição subjetiva: o desejo de
reconhecimento, a busca pelo olhar do Outro, a angústia diante da indiferença.
Como nos ensina Lacan, o sujeito não é senão aquilo que um significante
representa para outro significante. E quando esse outro significante não
responde, quando o Outro permanece mudo, o que resta ao sujeito?
A
psicanálise nos oferece instrumentos preciosos para pensar essa situação. Desde
Freud, sabemos que a escrita pode ser tanto sublimação quanto sintoma, tanto
criação quanto repetição compulsiva. A produção intelectual não está fora do
campo pulsional; ao contrário, ela é atravessada pelas mesmas forças
inconscientes que governam nossas escolhas amorosas, nossas inibições e nossas
angústias.
Este
trabalho se propõe a investigar, através da lente psicanalítica, as
vicissitudes do psicólogo escritor que se confronta com a indiferença de seus
pares. Não se trata de um estudo de caso particular, mas de uma análise
estrutural das dinâmicas inconscientes que operam nesse cenário.
CAPÍTULO
1
A
ESCRITA COMO SINTOMA E DESEJO
A
escrita ocupa na psicanálise um lugar paradoxal. Por um lado, Freud via na
produção literária e científica uma das mais elevadas formas de sublimação - a
capacidade de transformar energia pulsional em criação culturalmente
valorizada. Por outro lado, a clínica nos mostra frequentemente que escrever
pode ser também uma compulsão, uma tentativa desesperada de dar forma ao que
resta informe, de dominar através da palavra o que escapa à simbolização.
"A
sublimação é uma satisfação pulsional sem recalque", afirma Freud em O
Mal-Estar na Civilização (1930). Quando um psicólogo escreve artigos e
livros, ele está canalizando suas pulsões epistêmicas - a pulsão de saber, o
desejo de conhecer - para uma produção que beneficia o campo coletivo. Há nisso
algo de heroico, de civilizatório.
Mas
a questão se complica quando observamos o destino dessa produção. O psicólogo
não escreve apenas para arquivar seu saber em uma gaveta. Ele escreve para
alguém. Como diz Lacan em O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos
Fundamentais da Psicanálise (1964): "O inconsciente é o discurso do
Outro". A escrita é sempre endereçada, mesmo quando o autor não sabe
exatamente a quem.
No
caso do psicólogo que envia seus textos a professores e colegas, o
endereçamento é explícito. Há uma demanda clara: "Leiam-me. Reconheçam meu
trabalho. Digam-me que existo no campo do saber". Esta demanda não é
patológica em si mesma - todo produtor de conhecimento busca interlocução. O
que merece nossa atenção analítica é o que acontece quando essa demanda
encontra o vazio como resposta.
A
escrita pode então revelar sua dimensão sintomática. O sintoma, para Freud, é
uma formação de compromisso entre o desejo e a defesa. Escrever
compulsivamente, enviar textos repetidamente sem obter resposta, insistir nesse
movimento - tudo isso pode configurar um sintoma no sentido freudiano: algo que
se repete porque não pôde ser elaborado simbolicamente.
Klein
nos oferece outra perspectiva. Em Inveja e Gratidão (1957), ela fala da
necessidade do bebê de que seu amor seja recebido e valorizado pelo objeto
primário. Quando o psicólogo oferece seus escritos e não recebe resposta,
reedita-se algo dessa experiência arcaica: a oferta de amor (sob a forma de
produção intelectual) que não encontra continente.
A
escrita pode ser também reparação no sentido kleiniano - uma tentativa de
restaurar o objeto danificado pelas fantasias agressivas. O psicólogo que
escreve pode estar, inconscientemente, tentando reparar os objetos internos da
profissão: os mestres idealizados, o saber psicológico, a comunidade
científica. O silêncio dos pares frustra esse movimento reparatório, deixando o
sujeito preso em sua culpa inconsciente.
Winnicott,
por sua vez, nos fala do gesto espontâneo e da criatividade primária em O
Brincar e a Realidade (1971). A escrita genuína brota de um espaço
potencial, de uma área intermediária entre o eu e o não-eu. Mas quando essa
criação é sistematicamente ignorada, o espaço potencial colapsa. O que era
genuíno e criativo pode se transformar em submissão ao falso self - escrever
não mais por desejo próprio, mas por uma exigência superegóica de
produtividade.
É
importante distinguir aqui entre o desejo de escrever e a demanda de
reconhecimento. O primeiro pertence à ordem da sublimação e pode trazer
satisfação mesmo sem retorno externo. A segunda pertence à ordem da dependência
narcísica e condena o sujeito à busca infinita por validação alheia. A clínica
nos mostra que, frequentemente, essas duas dimensões coexistem de forma
conflituosa no mesmo sujeito.
Lacan,
em sua teoria do desejo, nos lembra que o desejo é sempre desejo do Outro -
desejo de ser desejado pelo Outro. O psicólogo que escreve deseja o desejo de
seus mestres e pares. Quer ser desejado enquanto produtor de saber, enquanto
sujeito que tem algo a dizer. O silêncio que recebe não é apenas ausência de
feedback; é ausência de desejo. O Outro não o deseja, e essa constatação é
devastadora para a economia narcísica do sujeito.
A
interrogação que guiará este trabalho é: como transformar essa compulsão
sintomática de escrever e buscar validação em um ato criativo verdadeiro, que
possa prescindir do reconhecimento imediato do Outro sem deixar de endereçar-se
legitimamente ao campo simbólico?
CAPÍTULO
2
O
RECONHECIMENTO DO OUTRO: ENTRE A DEMANDA E A FALTA
O
reconhecimento é um conceito central tanto na filosofia quanto na psicanálise.
Hegel, em sua dialética do senhor e do escravo, já demonstrava que a
consciência de si passa necessariamente pelo reconhecimento mútuo. Não há
subjetividade fora da intersubjetividade. Essa tese hegeliana encontra
ressonância profunda na teoria psicanalítica.
Para
Lacan, o sujeito se constitui no campo do Outro. Em O Estádio do Espelho
(1949), ele demonstra como a criança só acede a uma imagem unificada de si
mesma através do olhar e da palavra do Outro - geralmente a mãe. Esse Outro
primordial confirma: "Sim, esse aí no espelho é você". Sem esse
reconhecimento fundante, não há constituição subjetiva possível.
O
psicólogo que escreve e busca leitores está, num certo sentido, repetindo essa
operação constitutiva. Ele oferece sua produção ao olhar do Outro (professores,
colegas, estudantes de psicologia e leitores do senso comum) e espera um
reconhecimento que confirme: "Sim, seu trabalho existe. Você é um produtor
legítimo de saber". Quando esse reconhecimento não vem, algo da
constituição narcísica do sujeito é ameaçado.
Freud,
em Introdução ao Narcisismo (1914), distingue entre narcisismo primário
e secundário. O narcisismo primário é aquele estado originário em que o bebê se
toma a si mesmo como objeto de amor, antes de distinguir-se do mundo exterior.
O narcisismo secundário é o retorno da libido aos objetos internos após
decepções com os objetos externos. O psicólogo que não recebe feedback pode
estar vivendo um movimento de retração narcísica: diante da indiferença dos
outros, ele retira seus investimentos e volta-se para si mesmo.
Mas
essa solução é precária. Como nos ensina Kohut em A Restauração do Self
(1977), todos nós precisamos de objetos-self ao longo da vida - pessoas e
instituições que nos confirmem, nos valorizem, nos reflitam. Não se trata de
imaturidade ou dependência patológica; é uma necessidade estrutural do
psiquismo humano. O problema surge quando essa necessidade se torna absoluta e
não encontra satisfação.
A
demanda é um conceito lacaniano que nos ajuda a pensar essa situação. A demanda
é sempre demanda de amor, diz Lacan em O Seminário, Livro 5: As Formações do
Inconsciente (1958). Quando pedimos algo a alguém - seja um feedback sobre
um texto, seja um copo d'água - o que realmente pedimos é prova de amor.
Queremos ser reconhecidos como dignos de atenção, de cuidado, de consideração.
O
psicólogo que envia seus textos aos colegas, professores, posta seus artigos em
bloggers está fazendo uma demanda. Na superfície, pede um feedback técnico, uma
avaliação acadêmica. Mas na profundidade inconsciente, está pedindo amor
profissional - que o outro se importe com sua produção, que dedique tempo e
atenção a ler suas palavras, que o reconheça como par digno de interlocução.
Quando
essa demanda encontra o silêncio, o sujeito se depara com a falta - conceito
fundamental em Lacan. A falta não é apenas ausência empírica de algo; é
estrutura constitutiva do sujeito e do desejo. Mas há formas mais ou menos
elaboradas de lidar com a falta.
Na
neurose obsessiva, por exemplo, o sujeito pode reagir à falta multiplicando
demandas, numa lógica de "se esse colega não responde, vou enviar para
outro, e outro, e outro". A compulsão de repetição freudiana se manifesta
aqui: repete-se a cena traumática esperando inconscientemente um desfecho
diferente que nunca chega.
Na
histeria, o sujeito pode transformar a falta em drama: "Ninguém me lê!
Ninguém me valoriza! Sou um incompreendido!". Há nessa posição um gozo
particular - o gozo da insatisfação, que mantém o desejo vivo através da
constante frustração.
Green,
em Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte (1983), fala do
"trabalho do negativo" - a capacidade psíquica de lidar com a
ausência, com a falta do objeto. Quando esse trabalho não pode ser realizado, o
sujeito fica à mercê da angústia de aniquilamento. O silêncio dos colegas pode
ser vivido como ameaça de desaparecimento: "Se não me leem, não
existo".
Mas
há uma saída possível, que passa pelo que Lacan chama de separação. Na
separação, o sujeito renuncia à completude imaginária, aceita que o Outro é
barrado, faltante, incompleto. Os colegas não respondem não necessariamente
porque o trabalho é ruim, mas porque eles também estão divididos, ocupados com
suas próprias demandas e faltas. Reconhecer isso é libertar-se da posição de
dependência absoluta do reconhecimento alheio.
Isso
não significa abandonar a busca por interlocução - algo legítimo e necessário
no campo acadêmico. Mas significa transformar a qualidade dessa busca: de uma
demanda absoluta de amor (que só pode ser frustrada) para um desejo de diálogo
(que aceita encontros e desencontros, presenças e ausências, respostas e
silêncios).
A
questão que se coloca, então, é: como elaborar essa passagem da demanda ao
desejo? Como transformar a ferida narcísica em oportunidade de amadurecimento
psíquico? Essas questões nos levarão aos próximos capítulos, onde
investigaremos as figuras específicas do campo acadêmico que encarnam essas
dinâmicas: os professores como figuras de autoridade e os colegas como rivais
fraternos.
CAPÍTULO
3
TRANSFERÊNCIA
E FIGURAS DE AUTORIDADE NO CAMPO ACADÊMICO
A
transferência é o conceito-chave que nos permite compreender como os afetos e
fantasias inconscientes, originalmente dirigidos às figuras parentais, são
deslocados para outras figuras de autoridade ao longo da vida. Freud descobriu
a transferência no contexto clínico, mas logo percebeu que ela opera em todas
as relações humanas significativas.
Em
A Dinâmica da Transferência (1912), Freud explica que cada sujeito,
através de sua história libidinal, desenvolve clichês ou estereótipos que
determinam como se relacionará com novas figuras de autoridade. Esses padrões
repetitivos são inconscientes e tendem a se atualizar nas relações
profissionais, especialmente com professores, supervisores e mestres.
O
professor ocupa um lugar transferencial complexo. Ele é simultaneamente figura
de autoridade (como o pai) e figura de saber (como o pai idealizado da
infância, aquele que "sabe tudo"). Quando o psicólogo envia seus
escritos ao professor, está oferecendo seus frutos intelectuais à figura
paterna simbólica, esperando aprovação, reconhecimento, bênção.
Freud,
em Totem e Tabu (1913), fala do pai da horda primitiva como aquele que
detinha o monopólio do saber e do gozo. Os filhos, para acessarem o
conhecimento e a legitimação, precisavam do reconhecimento paterno. No campo
acadêmico, essa estrutura mítica se reatualiza: o professor-pai detém o saber
instituído; o aluno-filho busca sua parte nesse saber através do reconhecimento
de suas produções.
Mas
o que acontece quando o pai simbólico não responde? Quando o professor não
oferece o feedback esperado? Reedita-se algo de uma experiência traumática
infantil: a criança que oferece seu desenho ao pai e é ignorada. A criança que
busca o olhar de aprovação e encontra indiferença. Essa experiência deixa
marcas narcísicas profundas.
Lacan,
em O Seminário, Livro 4: A Relação de Objeto (1956-57), fala da
importância da função paterna não apenas como interdição (o "não" do
pai edípico), mas como reconhecimento. O pai precisa reconhecer a criança,
nomeá-la, inscrevê-la na ordem simbólica. Quando o professor silencia diante da
produção do psicólogo-escritor, há uma falha nessa função de reconhecimento
simbólico.
É
importante distinguir aqui entre dois tipos de transferência positiva. Na
transferência idealizada, o aluno projeta no professor todas as qualidades
perfeitas, fazendo dele um objeto idealizado cuja aprovação torna-se condição
necessária para seu próprio valor. Essa transferência é frágil porque qualquer
frustração - como o não retorno de um feedback - pode transformá-la em seu
oposto: a transferência negativa, onde o professor passa a ser visto como
negligente, desinteressado, invejoso.
Já
na transferência de trabalho, conceito lacaniano desenvolvido no contexto da
psicanálise mas aplicável ao campo acadêmico, o aluno supõe no professor um
saber que o impulsiona a produzir seu próprio saber. Aqui a relação é menos
dependente da aprovação imediata e mais sustentada pelo desejo de conhecer. O
silêncio do professor pode ser frustante, mas não é devastador.
Ferenczi,
em Confusão de Línguas entre Adultos e Crianças (1933), nos alerta para
a dimensão traumática quando há uma dessincronia radical entre a demanda do
sujeito e a resposta do outro. A criança fala a linguagem da ternura e o adulto
responde com a linguagem da paixão (ou não responde de modo algum). No campo
acadêmico, o psicólogo-escritor oferece sua produção na linguagem do desejo de
saber e os professores respondem (ou não respondem) na linguagem da competição
profissional, da falta de tempo, da economia acadêmica produtivista.
Essa
confusão de línguas gera desamparo. Winnicott, em A Preocupação Materna
Primária (1956), fala da importância do holding - o ambiente
suficientemente bom que acolhe e reconhece o sujeito. No campo acadêmico, os
professores deveriam oferecer algo desse holding intelectual, um reconhecimento
que sustente o desenvolvimento do pensamento próprio. Quando isso falha, o
psicólogo-escritor pode sentir-se em queda livre, sem sustentação simbólica.
Mas
há também uma questão estrutural que precisa ser elaborada: nenhum professor
pode ocupar definitivamente o lugar do Outro consistente, completo, capaz de
oferecer reconhecimento total. Acreditar nisso é permanecer numa ilusão
infantil. A elaboração psíquica passa por aceitar que os professores são eles
mesmos sujeitos barrados, divididos, incompletos. Eles têm suas próprias
angústias, demandas, limitações.
Bion,
em Aprendendo com a Experiência (1962), fala da importância de
desenvolver a capacidade de pensar por si mesmo, para além da dependência das
figuras de autoridade. O continente externo (o professor que oferece feedback)
precisa eventualmente ser internalizado como continente psíquico próprio. O
psicólogo-escritor precisa desenvolver sua capacidade de autoavaliação, de
diálogo interno com sua própria produção, de metabolização de suas ideias
independentemente do retorno imediato dos mestres.
Isso
não significa autossuficiência narcísica, mas autonomia simbólica. É possível
buscar legitimamente interlocução e reconhecimento sem fazer disso uma questão
de vida ou morte psíquica. A transferência com os professores precisa ser
atravessada, elaborada, e não simplesmente substituída por outra figura
idealizada.
Lacan
nos lembra que a transferência deve ser "liquidada" ao final de uma
análise - não no sentido de desaparecer, mas de ser atravessada, de modo que o
analisante possa prescindir do analista enquanto suporte imaginário do saber.
Analogamente, o psicólogo-escritor precisa poder prescindir da aprovação
imediata dos professores para sustentar sua produção. Não porque essa aprovação
não seja desejável, mas porque ela não pode ser a única fonte de legitimação.
CAPÍTULO
4
A
FERIDA NARCÍSICA: QUANDO O OUTRO NÃO RESPONDE
O
narcisismo é um dos conceitos mais complexos e mal compreendidos da
psicanálise. Frequentemente associado à vaidade ou ao egoísmo, o narcisismo é
na verdade a estrutura mesma através da qual nos relacionamos conosco e com os
outros. Todos precisamos de investimento narcísico para funcionar, criar,
viver.
Freud,
em Introdução ao Narcisismo (1914), distingue entre libido objetal e
libido narcísica. A primeira é dirigida aos objetos externos; a segunda, ao
próprio eu. Essas duas modalidades de investimento estão em equilíbrio
dinâmico. Quando amamos intensamente um objeto externo, desinvestimos
parcialmente nosso eu; quando nos voltamos para nós mesmos, retiramos
investimento dos objetos. O psicólogo que escreve e busca leitores está fazendo
um investimento objetal - oferecendo sua produção aos outros. Quando não recebe
retorno, pode haver um movimento de retração narcísica defensiva.
Mas
o que nos interessa particularmente é o conceito de ferida narcísica. Freud usa
essa expressão para designar as experiências que abalam a imagem idealizada que
temos de nós mesmos. Ele identifica três grandes feridas narcísicas na história
da humanidade: a descoberta de Copérnico (a Terra não é o centro do universo),
a teoria da evolução de Darwin (o homem não é uma criação especial), e a
própria psicanálise (o eu não é senhor em sua própria casa). Essas feridas
obrigaram a humanidade a renunciar à sua posição imaginária de centralidade e
domínio.
No
nível individual, feridas narcísicas são experiências de desvalorização,
rejeição, humilhação. A criança que não recebe atenção dos pais, o adolescente
rejeitado pelo grupo, o adulto desprezado profissionalmente - todas essas são
situações potencialmente ferinas para o narcisismo. O psicólogo-escritor que
não recebe feedback de seus pares está sofrendo uma ferida narcísica.
Kohut,
fundador da psicologia do self, dedicou sua obra a compreender as vicissitudes
do narcisismo. Em A Análise do Self (1971), ele propõe que todos
precisamos de objetos-self ao longo da vida - pessoas que desempenham funções
de espelhamento (confirmam nosso valor), idealização (oferecem modelos a
admirar) e gemelaridade (fazem-nos sentir parte de um grupo). O campo acadêmico
deveria oferecer esses três tipos de objetos-self: colegas que reconhecem a
qualidade do trabalho (espelhamento), professores admiráveis (idealização),
pares com quem compartilhar a jornada intelectual (gemelaridade).
Quando
o psicólogo-escritor envia seus textos e não recebe resposta, há uma falha
simultânea nas três funções: ninguém espelha seu valor, os objetos idealizados
(professores) decepcionam, e não há gemelaridade (os colegas não oferecem
sentimento de pertencimento). Essa falha tripla é devastadora para o
narcisismo.
Kohut
distingue entre raiva narcísica e agressividade saudável. A raiva narcísica
surge quando a ferida narcísica é vivida como insuportável - é uma raiva
absoluta, vingativa, que busca aniquilar o objeto que frustrou. Podemos
imaginar o psicólogo-escritor fantasiando com vinganças: "Um dia vou ser
reconhecido e eles vão se arrepender de não terem me dado atenção". Ou
então desvalorizando defensivamente os colegas: "Na verdade, eles não têm
capacidade de compreender meu trabalho". Essas reações, embora compreensíveis,
mantêm o sujeito preso na lógica da ferida.
A
agressividade saudável, por outro lado, permite afirmar-se sem depender da
destruição do outro. É a capacidade de dizer "meu trabalho tem valor
independentemente do reconhecimento imediato dos outros" e seguir
produzindo, buscando outros interlocutores, criando novos caminhos.
Green,
em O Trabalho do Negativo (1993), nos fala da importância de elaborar as
experiências de perda e frustração. O psicólogo-escritor precisa fazer o luto
do Outro idealizado - aquele que leria seus textos com atenção, ofereceria
feedbacks generosos, reconheceria prontamente seu valor. Esse Outro não existe.
Aceitar isso é doloroso, mas também liberador.
Winnicott
nos oferece outro ângulo através de seus conceitos de verdadeiro e falso self.
Em Distorção do Ego em Termos de Falso e Verdadeiro Self (1960), ele
explica que o verdadeiro self surge quando o ambiente é suficientemente bom
para acolher o gesto espontâneo da criança. O falso self se desenvolve quando a
criança precisa adaptar-se a um ambiente que não a reconhece, tornando-se
aquilo que os outros querem que ela seja.
O
psicólogo que escreve compulsivamente buscando aprovação pode estar operando
desde um falso self - produzindo não por desejo genuíno, mas para atender uma
exigência imaginária do campo. A falta de resposta dos colegas, dos leitores do
senso comum, pode ser paradoxalmente,
uma oportunidade de reconectar-se com o verdadeiro self: "Por que
realmente escrevo? O que me move genuinamente? Posso escrever pelo prazer de
pensar, independentemente do reconhecimento?".
Melanie
Klein, em Inveja e Gratidão (1957), nos alerta para a possibilidade de
que a própria inveja inconsciente esteja operando. O psicólogo-escritor pode
invejar inconscientemente seus professores e colegas bem-sucedidos, e essa
inveja pode contaminar sua relação com eles. A falta de retorno pode então ser
interpretada através dessa lente persecutória: "Eles não me respondem
porque têm inveja de mim". Essa interpretação, verdadeira ou não, mantém o
sujeito numa posição paranoide.
A
passagem da posição esquizo-paranoide para a posição depressiva, conceito
central kleiniano, é fundamental aqui. Na posição esquizo-paranoide, o mundo é
dividido entre objetos totalmente bons e totalmente maus. Os colegas que não
respondem são "maus", negligentes, invejosos. Na posição depressiva,
o sujeito consegue integrar aspectos bons e maus do mesmo objeto: os colegas
têm qualidades e limitações, podem estar genuinamente ocupados, podem ter suas
próprias angústias. Essa integração permite tolerar a ambivalência e reduz o
sofrimento narcísico.
A
ferida narcísica, quando elaborada, pode tornar-se fonte de crescimento. Freud,
em Luto e Melancolia (1917), mostra que o trabalho do luto permite
eventualmente reinvestir a libido em novos objetos. O psicólogo-escritor pode
fazer o luto do reconhecimento não recebido e investir em novas formas de
interlocução: submeter trabalhos a revistas, participar de congressos, criar
grupos de estudo, buscar leitores em outros contextos. A ferida pode
impulsionar a criatividade em vez de paralisá-la.
CAPÍTULO
5
RIVALIDADE
FRATERNA E INVEJA NO CAMPO PROFISSIONAL
Se
o capítulo anterior tratou das relações verticais (com professores, figuras de
autoridade), este capítulo se debruça sobre as relações horizontais - com os
colegas, os pares, aqueles que ocupam posição similar no campo profissional.
Essas relações reeditam as dinâmicas fraternas da infância, com toda sua carga
de rivalidade, inveja, ciúme e também possibilidades de aliança.
Freud
dedica textos importantes à compreensão das relações fraternas. Em Psicologia
das Massas e Análise do Eu (1921), ele argumenta que o sentimento social
nasce originariamente da inveja. As crianças invejam o irmão que recebe atenção
dos pais, mas precisam recalcar essa inveja para manter a coesão familiar. Esse
recalque gera a formação reativa que chamamos de senso de justiça: "Se eu
não posso ter toda a atenção dos pais, então nenhum de nós deve ter vantagens
injustas".
No
campo acadêmico e profissional, essa dinâmica se repete. Os colegas são irmãos
simbólicos competindo pelo reconhecimento dos pais simbólicos (professores,
instituições, o campo do saber). Quando um colega publica, recebe prêmios, é
citado, os outros podem sentir inveja - mesmo que conscientemente desejem o bem
do outro. Essa inveja é estrutural, não acidental.
Melanie
Klein faz da inveja um conceito central em sua obra tardia. Em Inveja e
Gratidão (1957), ela distingue entre inveja, ciúme e voracidade. O ciúme
envolve três pessoas (amo X, que prefere Y). A voracidade é o desejo de ter
tudo para si. A inveja, mais primitiva e destrutiva, é o sentimento de raiva
diante da percepção de que o outro possui algo bom que me falta. Mais ainda: a
inveja busca estragar o que o outro tem, pois se eu não posso ter, ninguém
deveria ter.
Quando
o psicólogo-escritor envia seus textos aos colegas e não recebe resposta, pode
estar sendo vítima da inveja alheia. Os colegas podem invejar sua capacidade
produtiva, sua criatividade, sua coragem de expor-se através da escrita.
Responder ao texto seria reconhecer essa superioridade invejada, então preferem
o silêncio - um modo passivo-agressivo de estragar o prazer do outro na
produção intelectual.
Mas
Klein também nos alerta: podemos projetar nossa própria inveja nos outros. O
psicólogo-escritor pode invejar os colegas que conseguem ter suas produções
lidas e reconhecidas, e então projetar: "São eles que me invejam".
Essa projeção defensiva protege o eu de reconhecer a própria inveja, mas ao
custo de uma visão paranoide dos outros.
René
Girard, embora não seja psicanalista, oferece contribuições importantes com sua
teoria do desejo mimético em Mentira Romântica e Verdade Romanesca
(1961). Para Girard, não desejamos objetos diretamente, mas através da mediação
de um modelo. Desejamos o que o outro deseja. No campo acadêmico, desejamos o
reconhecimento porque vemos outros sendo reconhecidos. Isso cria uma rivalidade
mimética: todos querem o mesmo objeto (aprovação acadêmica) e por isso entram
em conflito.
A
dinâmica fraterna no campo profissional é paradoxal. Por um lado, os colegas
deveriam ser aliados, parceiros de diálogo, comunidade de pensamento. Por
outro, são competidores pelos recursos escassos: publicações, citações,
posições institucionais, atenção dos professores. Essa ambivalência gera culpa
inconsciente. Como posso desejar o bem do colega se sua vitória parece ameaçar
minha posição?
Lacan,
em Os Complexos Familiares (1938), analisa o complexo de intrusão - a
experiência da criança diante do nascimento de um irmão. O irmão é um intruso
que vem usurpar o lugar único que a criança ocupava no amor dos pais. Mas é
também um semelhante que permite à criança reconhecer-se: "Ele é como
eu". Essa identificação ambivalente marca todas as relações horizontais
posteriores.
No
campo profissional, cada colega é potencialmente um intruso (que compete pelos
mesmos espaços) e um espelho (que reflete possibilidades identificatórias). O
psicólogo-escritor que envia textos aos colegas está buscando tanto
reconhecimento quanto identificação: "Vocês, que são como eu, reconhecem
valor no que produzo?". O silêncio pode ser vivido como dupla rejeição:
"Nem me reconhecem como valioso, nem como um dos seus".
Bion,
em Experiências com Grupos (1961), analisa como os grupos podem
funcionar segundo pressupostos básicos inconscientes. Um desses pressupostos é
o de acasalamento: o grupo se organiza na expectativa messiânica de que uma
dupla produzirá algo salvador. Outro é o de luta-fuga: o grupo se une contra um
inimigo externo ou foge da tarefa. No campo acadêmico, podemos observar essas
dinâmicas: grupos que se organizam contra rivais teóricos,
"panelinhas" que excluem os não iniciados, alianças que visam
proteger território.
O
psicólogo-escritor que não recebe resposta dos colegas pode estar excluído
dessas alianças grupais. Pode estar sendo percebido como ameaça (alguém muito
produtivo que expõe a improdutividade alheia) ou como irrelevante (alguém cuja
produção não interessa ao grupo). Em ambos os casos, o silêncio é um mecanismo
de exclusão.
Mas
há também a possibilidade de que os próprios colegas estejam aprisionados em
dinâmicas narcísicas similares. Cada um tão preocupado com sua própria produção
e reconhecimento que não há espaço psíquico para receber a produção do outro. A
cultura acadêmica produtivista contemporânea, com suas exigências incessantes
de publicações, pode estar gerando um ambiente de empobrecimento relacional.
Todos escrevem, poucos leem; todos demandam atenção, poucos podem oferecê-la.
Kaës,
em O Grupo e o Sujeito do Grupo (1993), fala dos pactos denegativos
inconscientes que sustentam os grupos. São acordos não falados sobre o que não
pode ser visto, dito, reconhecido. No campo acadêmico, pode haver um pacto
denegativo sobre a inveja, a competição, o desejo de destruição do rival. Todos
sabem que isso existe, mas ninguém pode falar. O silêncio diante da produção do
colega pode ser uma forma de manter esse pacto: responder seria explicitar a
rivalidade.
Freud,
em O Mal-Estar na Civilização (1930), nos lembra que a agressividade é
constitutiva do ser humano e que a civilização exige sua repressão. O campo
acadêmico é um espaço civilizado por excelência, onde a agressividade precisa
ser sublimada em debate intelectual. Mas quando a sublimação falha, a
agressividade retorna de forma indireta: críticas destrutivas, sabotagens
passivas, e também o silêncio negligente.
A
questão ética que se coloca é: como construir um campo acadêmico mais generoso,
onde a produção do outro possa ser reconhecida sem que isso seja vivido como
ameaça narcísica própria? Como desenvolver a capacidade de alegrar-se
genuinamente com o sucesso do colega, sem negar a própria ambição? Klein
chamaria isso de capacidade para gratidão - poder reconhecer e agradecer o que
o outro oferece, em vez de invejá-lo destrutivamente.
Para
o psicólogo-escritor, a elaboração passa por reconhecer sua própria
ambivalência: "Eu também tenho inveja dos colegas bem-sucedidos. Eu também
às vezes não respondo aos textos que me enviam. Eu também estou preso nessas
dinâmicas fraternas". Reconhecer a própria participação no sistema permite
sair da posição de vítima pura e assumir responsabilidade pela transformação
das relações.
CAPÍTULO
6
REPETIÇÃO
E GOZO: A ECONOMIA PSÍQUICA DO NÃO RECONHECIMENTO
Este
capítulo aborda uma das questões mais enigmáticas da psicanálise: por que o
sujeito repete experiências dolorosas? Por que o psicólogo-escritor continua
enviando textos aos colegas mesmo após repetidas experiências de não
reconhecimento? A resposta psicanalítica passa pelos conceitos de compulsão à
repetição e gozo.
Freud
introduz a compulsão à repetição em Além do Princípio do Prazer (1920),
um de seus textos mais especulativos e perturbadores. Até então, a psicanálise
operava sob o princípio do prazer: o psiquismo busca prazer e evita desprazer.
Mas Freud observa fenômenos que contradizem esse princípio: sonhos traumáticos
que repetem a cena terrível, neuróticos que recriam situações dolorosas, a
brincadeira do fort-da onde a criança repete ativamente a experiência passiva
de ser abandonada pela mãe.
Freud
conclui que há algo mais primitivo que o princípio do prazer: uma compulsão a
repetir, ligada ao que ele chamará de pulsão de morte. O organismo tende a
retornar a estados anteriores, em última instância ao estado inorgânico.
Aplicado à psique, isso significa que há uma tendência a repetir padrões, mesmo
dolorosos, porque são familiares.
O
psicólogo que repete o gesto de enviar textos e não receber resposta está sob o
domínio dessa compulsão. Há algo de familiar nessa experiência de desamparo, de
não reconhecimento. Provavelmente reedita experiências infantis similares: a
criança que oferecia seus desenhos e não recebia atenção adequada, o filho que
buscava aprovação e encontrava indiferença. A repetição é uma tentativa
inconsciente de dominar o trauma, de dar-lhe um desfecho diferente - mas a
tentativa falha porque o cenário atual já está estruturado para reproduzir o
cenário originário.
Lacan
desenvolve e sofistica esses conceitos freudianos através da noção de gozo. O
gozo não é prazer; é uma satisfação paradoxal obtida no próprio sofrimento. Em O
Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise (1959-60), Lacan mostra que o
sujeito está fixado em seu sintoma porque há um gozo específico ali, um tipo de
satisfação que não quer abandonar.
Qual
seria o gozo do psicólogo-escritor em sua posição de não reconhecido? Várias
hipóteses podem ser levantadas:
1.
O gozo masoquista: Há uma
satisfação inconsciente em sofrer, em ser negligenciado. Isso pode estar ligado
a um supereu cruel que exige punição. "Não mereço ser lido,
reconhecido". O sofrimento confirma essa crença inconsciente.
2.
O gozo da queixa:
Manter-se na posição de incompreendido, negligenciado, oferece uma identidade,
um lugar no discurso. "Sou aquele que produz, mas não é reconhecido".
Há uma satisfação narcísica nessa autoimagem de gênio incompreendido.
3.
O gozo da demanda:
Enquanto continua demandando reconhecimento e não o obtém, mantém o desejo
vivo. Se fosse plenamente reconhecido, o que faria? O não reconhecimento mantém
a falta que alimenta o desejo e a produção.
4.
O gozo da repetição em si: Como
na brincadeira infantil do fort-da, há satisfação na repetição do padrão,
independentemente do resultado. A compulsão adquire autonomia.
Nasio,
em O Prazer de Ler Freud (1992), explica que o sintoma é simultaneamente
sofrimento e satisfação. O neurótico sofre com seu sintoma, mas não consegue
abandoná-lo porque extrai dele um gozo específico. O trabalho analítico
consiste em ajudar o sujeito a identificar esse gozo para poder renunciar a ele
- ou pelo menos mudar sua economia.
A
pergunta clínica crucial é: o psicólogo-escritor está pronto para ser
reconhecido? Ou o reconhecimento destruiria a economia psíquica que mantém seu
funcionamento? Às vezes, as pessoas sabotam inconscientemente seu próprio
sucesso porque o fracasso oferece vantagens secundárias: justifica a raiva,
protege da inveja alheia, mantém a posição de vítima.
Winnicott,
em O Medo do Colapso (1974), fala de como algumas pessoas temem
inconscientemente aquilo que conscientemente desejam. O colapso que temem já
aconteceu no passado (geralmente na primeira infância), mas não pôde ser
experimentado porque não havia eu suficientemente constituído. O sujeito passa
a vida temendo e evitando algo que já aconteceu. Aplicado ao nosso caso: talvez
o psicólogo tema inconscientemente o reconhecimento porque isso já aconteceu no
passado de forma traumática (uma aprovação que veio acompanhada de invasão, controle,
demandas excessivas).
Zizek,
em Bem-Vindo ao Deserto do Real (2003), usa conceitos lacanianos para
mostrar como o sujeito prefere frequentemente a fantasia à realidade. A
fantasia do reconhecimento futuro ("um dia serei reconhecido") pode
ser mais satisfatória que o reconhecimento real, que sempre decepciona porque
nunca corresponde à completude imaginária.
O
conceito de sinthoma, de Lacan tardio (Seminário 23), oferece outra
perspectiva. O sinthoma é um modo singular de o sujeito lidar com o real, uma
solução sintomática que não precisa ser eliminada, mas pode ser assumida e
trabalhada criativamente. Talvez a posição de escritor-não-reconhecido seja o
sinthoma desse psicólogo, seu modo particular de estar no mundo e produzir. A
questão não seria eliminá-la, mas transformar sua relação com ela: passar do
sofrimento passivo à assunção criativa.
Para
romper a compulsão à repetição, Freud acreditava na importância da
interpretação e da elaboração. Tornar consciente o inconsciente. Nomear o
padrão repetitivo. Mas ele também reconhecia os limites da interpretação diante
das resistências do eu e especialmente diante do que chamou de "reação
terapêutica negativa" - pacientes que pioram quando melhoram, porque o
sintoma é mais forte que o desejo de cura.
Lacan
propõe o atravessamento da fantasia: o sujeito precisa identificar e atravessar
a fantasia fundamental que estrutura sua realidade. No caso do
psicólogo-escritor, qual seria essa fantasia? Talvez: "Só existo se for
reconhecido pelo Outro". Ou: "O Outro me rejeita porque sou
inadequado". Atravessar essas fantasias não significa eliminá-las, mas
reconhecer que são construções, ficções necessárias mas não verdades absolutas.
Miller,
em Coisas de Finura em Psicanálise (2008), fala da destituição subjetiva
como objetivo do fim de análise. O sujeito se destitui de suas identificações
imaginárias, de seus lugares fixos no discurso, e pode então reinventar-se de
modos mais livres. O psicólogo-escritor precisaria destituir-se de sua
identidade fixa de "não reconhecido" para poder circular de outras
formas no campo acadêmico.
Mas
essas são questões que só podem ser elaboradas em um processo analítico
singular. Este capítulo apenas aponta para a complexidade da economia psíquica
em jogo. O próximo e último capítulo pensará os possíveis caminhos clínicos e
criativos para essa situação.
CAPÍTULO
7
DA
REPETIÇÃO À ELABORAÇÃO: CAMINHOS CLÍNICOS
Este
capítulo final não oferece soluções mágicas ou fórmulas prontas - isso seria
trair o espírito psicanalítico, que reconhece a singularidade de cada sujeito.
Mas podemos pensar caminhos possíveis, desdobramentos clínicos, movimentos de
elaboração que permitam transformar a repetição sintomática em criação
singular.
O
primeiro e mais fundamental caminho é a análise pessoal. Freud, desde o início
da psicanálise, reconheceu que o analista precisa ser analisado. Mas isso vale
para todo profissional que trabalha com a subjetividade, incluindo psicólogos.
A situação descrita neste livro - escrever compulsivamente, buscar
reconhecimento, sofrer com sua ausência - é claramente uma questão analítica.
Na
análise, o psicólogo-escritor poderia investigar as raízes infantis desse
padrão. Que cena originária está sendo repetida? Qual demanda infantil
permanece insatisfeita? Que figuras parentais estão sendo reencenadas nas
figuras dos professores e colegas? A elaboração dessa história permitiria ao
sujeito apropriar-se de seu desejo, distinguindo-o das demandas internalizadas.
Mas
a análise não é apenas arqueologia do passado. É também trabalho sobre o
presente e abertura para o futuro. O trabalho analítico permitiria ao
psicólogo-escritor identificar o gozo em sua posição sintomática e,
eventualmente, renunciar a ele em favor de satisfações mais criativas. Como diz
Lacan, a análise visa substituir o gozo (satisfação paradoxal e repetitiva)
pelo desejo (movimento sempre relançado em direção a novos objetos).
Um
segundo caminho é o desenvolvimento do que Bion chama de "capacidade de
estar só na presença do outro". Em A Capacidade de Estar Só (1958),
Winnicott descreve como o bebê aprende a estar só quando a mãe está presente, mas
não intrusiva. Essa experiência permite desenvolver um self estável que não
depende da presença constante do outro. O psicólogo-escritor precisaria
desenvolver essa capacidade aplicada à escrita: escrever na presença simbólica
da comunidade acadêmica, mas sem depender de sua resposta imediata para
sustentar a produção.
Isso
não significa autossuficiência narcísica ou isolamento. Significa o que
Winnicott chama de "concernimento" - a capacidade de considerar o
outro sem ser dominado por ele. O psicólogo pode considerar seus leitores
potenciais, pensar em como tornar suas ideias mais comunicáveis, buscar
efetivamente interlocução - mas sem fazer disso uma questão de sobrevivência
psíquica.
Um
terceiro caminho envolve ressignificar o próprio ato de escrever. Blanchot, em O
Espaço Literário (1955), fala da escrita como experiência de solidão
essencial. O escritor está fundamentalmente só com a linguagem, numa relação
que precede qualquer leitor empírico. Aceitar essa solidão constitutiva pode
ser liberador: a escrita vale por si mesma, como exercício de pensamento,
elaboração subjetiva, criação de mundo.
Barthes,
em O Prazer do Texto (1973), distingue entre textos de prazer (que
confortam) e textos de gozo (que desestabilizam). Talvez o psicólogo-escritor
precise interrogar-se: escrevo textos que oferecem prazer ao leitor ou textos
que o desafiam ao ponto do gozo? A ausência de retorno pode estar relacionada
ao tipo de texto produzido. Se são textos muito desafiadores, herméticos, podem
afastar leitores. Se são textos muito convencionais, podem não despertar
interesse. Encontrar o ponto de equilíbrio é uma questão de estilo, mas também
de posicionamento subjetivo.
Um
quarto caminho é expandir o campo de interlocução. Se os professores e colegas
próximos não respondem, há outras comunidades possíveis: revistas acadêmicas,
congressos, grupos de estudos online, redes sociais acadêmicas, leitores de
outras regiões ou países. A globalização e a internet ampliaram enormemente as
possibilidades de encontro intelectual. Fixar-se exclusivamente no
reconhecimento de um pequeno grupo pode ser limitante.
Deleuze
e Guattari, em Mil Platôs (1980), falam de rizoma versus árvore. A
estrutura arbórea é hierárquica, centralizada (o tronco, os galhos). O rizoma é
horizontal, descentralizado, múltiplo. O campo acadêmico tradicional funciona
de modo arbóreo (professores no topo, alunos na base). Mas há possibilidades
rizomáticas: redes horizontais de colaboração, coletivos de pensamento, formas
alternativas de produção e circulação de conhecimento. O psicólogo-escritor
poderia explorar esses caminhos menos hierárquicos.
Um
quinto caminho envolve o desenvolvimento da generosidade intelectual. Se o
psicólogo sofre por não receber feedback, pode começar ele mesmo a oferecer
feedback generoso aos textos dos colegas. Essa inversão da posição - de quem
demanda para quem oferece - pode ser transformadora. Como diz a filosofia
budista, a melhor forma de receber é dar. No campo acadêmico, isso pode
significar: ler atentamente, comentar cuidadosamente, reconhecer genuinamente o
trabalho alheio. Criar o ambiente que se deseja habitar.
Isso
não é ingenuidade ou altruísmo idealista. É compreensão de que o reconhecimento
é uma economia simbólica onde todos podem ganhar. Não é um jogo de soma zero
onde o sucesso do outro implica meu fracasso. Quanto mais generosidade circula
no campo, mais todos se beneficiam. O psicólogo-escritor pode ser agente dessa
transformação.
Um
sexto caminho é a supervisão ou intervisão. Grupos de psicólogos que se reúnem
para discutir suas produções, oferecendo uns aos outros o reconhecimento e a
crítica construtiva que faltam. Balint, em O Médico, seu Paciente e a Doença
(1957), desenvolveu os grupos Balint para médicos discutirem casos clínicos. O
mesmo modelo pode ser aplicado à produção acadêmica: grupos de
escritores-pesquisadores que se apoiam mutuamente.
Nesses
grupos, é importante trabalhar não apenas o conteúdo dos textos, mas as
dinâmicas transferenciais e narcísicas que emergem. Um facilitador com formação
psicanalítica pode ajudar o grupo a elaborar as invejas, rivalidades,
idealizações que inevitavelmente surgem. Transformar o grupo em espaço de
elaboração, não apenas de validação narcísica.
Um
sétimo caminho envolve a escrita sobre a própria experiência de escrever.
Meta-escrita, autoficção acadêmica. Em vez de apenas sofrer com a falta de
reconhecimento, fazer dessa experiência objeto de reflexão e criação. Este
livro mesmo é exemplo disso: transformar o sintoma em pensamento, a queixa em
interrogação, o sofrimento em obra.
Foucault,
em A Escrita de Si (1983), analisa as práticas antigas de escrita como
cuidado de si. Os hipomnemata (cadernos de notas), as correspondências, os
diários - eram tecnologias de subjetivação, modos de construir-se como sujeito
ético. O psicólogo-escritor pode desenvolver essas práticas: escrever para si
mesmo, sem destinatário imediato, como modo de elaboração subjetiva.
Paradoxalmente, quanto menos a escrita depende do reconhecimento externo, mais
singular e interessante ela pode se tornar.
Um
oitavo caminho é reconhecer e celebrar os pequenos reconhecimentos que existem.
Talvez os professores e colegas não deem o feedback detalhado sonhado, mas há
leituras, há citações eventuais, há pequenos sinais de que o trabalho circula.
A posição melancólica tende a desvalorizar o que se tem e idealizar o que
falta. A posição de gratidão (no sentido kleiniano) consegue reconhecer e
valorizar o que existe, por menor que seja.
Isso
não significa conformismo ou renúncia à ambição legítima. Significa evitar a
posição de tudo ou nada: ou sou plenamente reconhecido ou não sou nada. A vida
acadêmica, como a vida em geral, é feita de reconhecimentos parciais, ambíguos,
insuficientes. Aprender a sustentar-se nessa incompletude estrutural é sinal de
maturidade psíquica.
Finalmente,
um nono caminho envolve interrogar a própria relação com a profissão. Por que
escolhi ser psicólogo? Que desejo estava e está em jogo? Se a psicologia é
busca de compreensão da subjetividade, como compreendo minha própria
subjetividade de psicólogo-escritor? Essas questões vocacionais podem revelar
camadas profundas de sentido (ou falta de sentido) que pedem elaboração.
Todos
esses caminhos não são excludentes; podem e devem ser combinados. Mas todos
exigem algo fundamental: disposição para mudar. Não apenas os outros (que os
colegas me leiam, que os professores me reconheçam), mas principalmente a si
mesmo. Mudar a posição subjetiva, a relação com o desejo, o modo de estar no
campo profissional e no mundo.
A
psicanálise nos ensina que mudar é difícil e doloroso. Implica lutos,
renúncias, atravessamento de angústias. Mas também nos ensina que mudar é
possível. O sintoma não é destino; é história congelada que pode ser reescrita.
A repetição pode dar lugar à criação. O sofrimento pode se transformar em saber
sobre si mesmo.
CONCLUSÃO
Chegamos
ao fim deste percurso teórico-clínico sobre o psicólogo escritor e o silêncio
do Outro. Atravessamos conceitos fundamentais da psicanálise - desejo, demanda,
transferência, narcisismo, ferida narcísica, inveja, rivalidade fraterna,
compulsão à repetição, gozo - para pensar uma situação aparentemente simples
que revela complexidades insuspeitadas.
O
que aprendemos nessa jornada?
Primeiro,
que a busca por reconhecimento não é superficial ou narcísica em sentido
pejorativo. É estrutural. O sujeito se constitui no campo do Outro e precisa de
reconhecimento para sustentar sua existência simbólica. O psicólogo que escreve
e busca leitores está fazendo algo profundamente humano: oferecendo sua palavra
ao mundo e esperando que ela ressoe, que ela importe, que ela exista para além
de si mesmo.
Segundo,
que o silêncio do Outro - dos professores, dos colegas - não é apenas ausência
empírica de feedback. É vazio que toca camadas arcaicas da subjetividade,
reativando experiências infantis de desamparo, rejeição, não reconhecimento.
Por isso a dor é desproporcional ao evento aparente. Não é "apenas"
uma questão de não receber comentários sobre um texto; é a experiência de não
existir simbolicamente para o Outro.
Terceiro,
que essa situação está inserida em dinâmicas transferenciais verticais (com
figuras de autoridade) e horizontais (com pares). O professor ocupa lugar de
pai simbólico cuja aprovação é buscada como reedição da aprovação parental. Os
colegas ocupam lugar de irmãos simbólicos com quem se compete pelos recursos
escassos do reconhecimento. Essas dinâmicas são inconscientes e por isso tão
poderosas.
Quarto,
que há uma dimensão de repetição compulsiva em jogo. Se o padrão se repete -
enviar textos e não receber resposta - é porque há um gozo sintomático
operando. O sujeito extrai uma satisfação paradoxal de sua posição de não
reconhecido, satisfação que o impede de mudar efetivamente a situação.
Identificar esse gozo é passo fundamental para poder renunciar a ele.
Quinto,
que não há soluções simples ou externas. Não basta mudar de instituição, de
colegas, de área. Enquanto a posição subjetiva permanecer a mesma, o sintoma se
repetirá em novos contextos. A mudança precisa ser interna, psíquica, e isso
exige trabalho - preferencialmente trabalho analítico, mas também trabalho
criativo sobre si mesmo.
Sexto,
que há múltiplos caminhos possíveis: análise pessoal, supervisão, grupos de
intervisão, expansão do campo de interlocução, desenvolvimento da capacidade de
estar só, ressignificação do ato de escrever, cultivo da generosidade
intelectual, escrita sobre a própria experiência de escrever. Nenhum desses
caminhos garante reconhecimento externo, mas todos podem transformar a relação
do sujeito com seu desejo de reconhecimento.
Sétimo,
que o objetivo não é eliminar o desejo de reconhecimento - isso seria
impossível e indesejável. O objetivo é transformar sua qualidade: de demanda
absoluta e desesperada a desejo relançado e criativo. Poder escrever
endereçando-se ao campo simbólico sem depender de resposta imediata. Poder
buscar interlocução sem fazer disso questão de sobrevivência narcísica. Poder
reconhecer os reconhecimentos parciais sem idealizá-los ou desvalorizá-los.
Oitavo,
que o campo acadêmico contemporâneo, com sua cultura produtivista e
competitiva, exacerba essas dinâmicas. Todos escrevem, poucos leem com atenção.
Todos demandam reconhecimento, poucos podem oferecê-lo. Essa realidade
estrutural não desculpa os comportamentos individuais, mas os contextualiza. A
transformação precisa ser tanto subjetiva quanto coletiva.
Nono,
que a psicanálise oferece não soluções técnicas, mas possibilidades de
elaboração. Não diz ao sujeito o que fazer, mas o ajuda a compreender o que
está fazendo inconscientemente e por quê. Essa compreensão, quando genuína e
não apenas intelectual, é transformadora. Abre espaço para escolhas que antes
não eram possíveis.
Décimo,
que escrever - seja artigos acadêmicos, seja este livro - pode ser em si mesmo
um ato de elaboração. A transformação do sintoma em pensamento, da queixa em
interrogação, do sofrimento em obra. Nesse sentido, este livro é ele mesmo
performático: realiza o que teoriza. É uma escrita que não espera passivamente
reconhecimento, mas cria ativamente um espaço de pensamento.
Para
concluir, retomemos a pergunta inicial: o que significa, para um psicólogo,
escrever e não ser lido? A resposta psicanalítica é: depende da posição
subjetiva desde onde se escreve. Se escrevo desde uma demanda infantil de
aprovação parental, o não reconhecimento é devastador. Se escrevo desde um
desejo próprio de pensar e criar, o reconhecimento é bem-vindo, mas não
necessário para a continuidade da produção.
A
passagem da primeira posição à segunda não é simples nem definitiva. É trabalho
constante, sempre a ser retomado. Mas é trabalho que vale a pena, pois liberta
o sujeito da dependência absoluta do Outro e permite-lhe habitar mais
criativamente seu lugar no mundo.
Que
este livro possa ser útil não apenas para psicólogos-escritores, mas para todos
que se interrogam sobre reconhecimento, criação, desejo e sua relação com o
Outro. Que possa contribuir para um campo acadêmico e profissional mais
generoso, onde o reconhecimento genuíno circule e onde o silêncio do Outro não
seja vivido como aniquilamento, mas como espaço para elaboração criativa.
A
palavra final cabe a Lacan, que nos lembra: "O desejo do homem é o desejo
do Outro". Não podemos escapar dessa estrutura. Mas podemos, através da
análise e da elaboração, transformar nossa relação com ela. Desejo não de ser
reconhecido pelo Outro como objeto passivo, mas de criar algo que mereça
reconhecimento - e que valha independentemente dele.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES,
Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Perspectiva, 1973.
BION,
Wilfred R. Aprendendo com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1962.
BION,
Wilfred R. Experiências com Grupos. Rio de Janeiro: Imago, 1961.
BLANCHOT,
Maurice. O Espaço Literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1955.
DELEUZE,
Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, Vol. 1.
São Paulo: Editora 34, 1980.
FERENCZI,
Sándor. Confusão de Línguas entre Adultos e Crianças (1933). In: Obras
Completas, Vol. IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
FOUCAULT,
Michel. A Escrita de Si (1983
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