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O PSICÓLOGO ESCRITOR E O SILÊNCIO DO OUTRO

 Ano 2024. Autor [Ayrton Junior Psicólogo]

Uma Leitura Psicanalítica sobre Reconhecimento e Desamparo Profissional


SUMÁRIO

Introdução

Capítulo 1 - A Escrita como Sintoma e Desejo

Capítulo 2 - O Reconhecimento do Outro: Entre a Demanda e a Falta

Capítulo 3 - Transferência e Figuras de Autoridade no Campo Acadêmico

Capítulo 4 - A Ferida Narcísica: Quando o Outro Não Responde

Capítulo 5 - Rivalidade Fraterna e Inveja no Campo Profissional

Capítulo 6 - Repetição e Gozo: A Economia Psíquica do Não Reconhecimento

Capítulo 7 - Da Repetição à Elaboração: Caminhos Clínicos

Conclusão

Referências Bibliográficas


INTRODUÇÃO

Este livro nasce de uma interrogação clínica e epistemológica: o que significa, para um psicólogo, escrever e não ser lido? Mais precisamente, o que está em jogo quando um profissional da psicologia produz artigos e livros, envia seus trabalhos a professores e colegas, e encontra como resposta apenas o silêncio?

A questão ultrapassa o plano da mera sociologia profissional ou da análise institucional. Ela toca o núcleo mesmo da constituição subjetiva: o desejo de reconhecimento, a busca pelo olhar do Outro, a angústia diante da indiferença. Como nos ensina Lacan, o sujeito não é senão aquilo que um significante representa para outro significante. E quando esse outro significante não responde, quando o Outro permanece mudo, o que resta ao sujeito?

A psicanálise nos oferece instrumentos preciosos para pensar essa situação. Desde Freud, sabemos que a escrita pode ser tanto sublimação quanto sintoma, tanto criação quanto repetição compulsiva. A produção intelectual não está fora do campo pulsional; ao contrário, ela é atravessada pelas mesmas forças inconscientes que governam nossas escolhas amorosas, nossas inibições e nossas angústias.

Este trabalho se propõe a investigar, através da lente psicanalítica, as vicissitudes do psicólogo escritor que se confronta com a indiferença de seus pares. Não se trata de um estudo de caso particular, mas de uma análise estrutural das dinâmicas inconscientes que operam nesse cenário.


CAPÍTULO 1

A ESCRITA COMO SINTOMA E DESEJO

A escrita ocupa na psicanálise um lugar paradoxal. Por um lado, Freud via na produção literária e científica uma das mais elevadas formas de sublimação - a capacidade de transformar energia pulsional em criação culturalmente valorizada. Por outro lado, a clínica nos mostra frequentemente que escrever pode ser também uma compulsão, uma tentativa desesperada de dar forma ao que resta informe, de dominar através da palavra o que escapa à simbolização.

"A sublimação é uma satisfação pulsional sem recalque", afirma Freud em O Mal-Estar na Civilização (1930). Quando um psicólogo escreve artigos e livros, ele está canalizando suas pulsões epistêmicas - a pulsão de saber, o desejo de conhecer - para uma produção que beneficia o campo coletivo. Há nisso algo de heroico, de civilizatório.

Mas a questão se complica quando observamos o destino dessa produção. O psicólogo não escreve apenas para arquivar seu saber em uma gaveta. Ele escreve para alguém. Como diz Lacan em O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964): "O inconsciente é o discurso do Outro". A escrita é sempre endereçada, mesmo quando o autor não sabe exatamente a quem.

No caso do psicólogo que envia seus textos a professores e colegas, o endereçamento é explícito. Há uma demanda clara: "Leiam-me. Reconheçam meu trabalho. Digam-me que existo no campo do saber". Esta demanda não é patológica em si mesma - todo produtor de conhecimento busca interlocução. O que merece nossa atenção analítica é o que acontece quando essa demanda encontra o vazio como resposta.

A escrita pode então revelar sua dimensão sintomática. O sintoma, para Freud, é uma formação de compromisso entre o desejo e a defesa. Escrever compulsivamente, enviar textos repetidamente sem obter resposta, insistir nesse movimento - tudo isso pode configurar um sintoma no sentido freudiano: algo que se repete porque não pôde ser elaborado simbolicamente.

Klein nos oferece outra perspectiva. Em Inveja e Gratidão (1957), ela fala da necessidade do bebê de que seu amor seja recebido e valorizado pelo objeto primário. Quando o psicólogo oferece seus escritos e não recebe resposta, reedita-se algo dessa experiência arcaica: a oferta de amor (sob a forma de produção intelectual) que não encontra continente.

A escrita pode ser também reparação no sentido kleiniano - uma tentativa de restaurar o objeto danificado pelas fantasias agressivas. O psicólogo que escreve pode estar, inconscientemente, tentando reparar os objetos internos da profissão: os mestres idealizados, o saber psicológico, a comunidade científica. O silêncio dos pares frustra esse movimento reparatório, deixando o sujeito preso em sua culpa inconsciente.

Winnicott, por sua vez, nos fala do gesto espontâneo e da criatividade primária em O Brincar e a Realidade (1971). A escrita genuína brota de um espaço potencial, de uma área intermediária entre o eu e o não-eu. Mas quando essa criação é sistematicamente ignorada, o espaço potencial colapsa. O que era genuíno e criativo pode se transformar em submissão ao falso self - escrever não mais por desejo próprio, mas por uma exigência superegóica de produtividade.

É importante distinguir aqui entre o desejo de escrever e a demanda de reconhecimento. O primeiro pertence à ordem da sublimação e pode trazer satisfação mesmo sem retorno externo. A segunda pertence à ordem da dependência narcísica e condena o sujeito à busca infinita por validação alheia. A clínica nos mostra que, frequentemente, essas duas dimensões coexistem de forma conflituosa no mesmo sujeito.

Lacan, em sua teoria do desejo, nos lembra que o desejo é sempre desejo do Outro - desejo de ser desejado pelo Outro. O psicólogo que escreve deseja o desejo de seus mestres e pares. Quer ser desejado enquanto produtor de saber, enquanto sujeito que tem algo a dizer. O silêncio que recebe não é apenas ausência de feedback; é ausência de desejo. O Outro não o deseja, e essa constatação é devastadora para a economia narcísica do sujeito.

A interrogação que guiará este trabalho é: como transformar essa compulsão sintomática de escrever e buscar validação em um ato criativo verdadeiro, que possa prescindir do reconhecimento imediato do Outro sem deixar de endereçar-se legitimamente ao campo simbólico?


CAPÍTULO 2

O RECONHECIMENTO DO OUTRO: ENTRE A DEMANDA E A FALTA

O reconhecimento é um conceito central tanto na filosofia quanto na psicanálise. Hegel, em sua dialética do senhor e do escravo, já demonstrava que a consciência de si passa necessariamente pelo reconhecimento mútuo. Não há subjetividade fora da intersubjetividade. Essa tese hegeliana encontra ressonância profunda na teoria psicanalítica.

Para Lacan, o sujeito se constitui no campo do Outro. Em O Estádio do Espelho (1949), ele demonstra como a criança só acede a uma imagem unificada de si mesma através do olhar e da palavra do Outro - geralmente a mãe. Esse Outro primordial confirma: "Sim, esse aí no espelho é você". Sem esse reconhecimento fundante, não há constituição subjetiva possível.

O psicólogo que escreve e busca leitores está, num certo sentido, repetindo essa operação constitutiva. Ele oferece sua produção ao olhar do Outro (professores, colegas, estudantes de psicologia e leitores do senso comum) e espera um reconhecimento que confirme: "Sim, seu trabalho existe. Você é um produtor legítimo de saber". Quando esse reconhecimento não vem, algo da constituição narcísica do sujeito é ameaçado.

Freud, em Introdução ao Narcisismo (1914), distingue entre narcisismo primário e secundário. O narcisismo primário é aquele estado originário em que o bebê se toma a si mesmo como objeto de amor, antes de distinguir-se do mundo exterior. O narcisismo secundário é o retorno da libido aos objetos internos após decepções com os objetos externos. O psicólogo que não recebe feedback pode estar vivendo um movimento de retração narcísica: diante da indiferença dos outros, ele retira seus investimentos e volta-se para si mesmo.

Mas essa solução é precária. Como nos ensina Kohut em A Restauração do Self (1977), todos nós precisamos de objetos-self ao longo da vida - pessoas e instituições que nos confirmem, nos valorizem, nos reflitam. Não se trata de imaturidade ou dependência patológica; é uma necessidade estrutural do psiquismo humano. O problema surge quando essa necessidade se torna absoluta e não encontra satisfação.

A demanda é um conceito lacaniano que nos ajuda a pensar essa situação. A demanda é sempre demanda de amor, diz Lacan em O Seminário, Livro 5: As Formações do Inconsciente (1958). Quando pedimos algo a alguém - seja um feedback sobre um texto, seja um copo d'água - o que realmente pedimos é prova de amor. Queremos ser reconhecidos como dignos de atenção, de cuidado, de consideração.

O psicólogo que envia seus textos aos colegas, professores, posta seus artigos em bloggers está fazendo uma demanda. Na superfície, pede um feedback técnico, uma avaliação acadêmica. Mas na profundidade inconsciente, está pedindo amor profissional - que o outro se importe com sua produção, que dedique tempo e atenção a ler suas palavras, que o reconheça como par digno de interlocução.

Quando essa demanda encontra o silêncio, o sujeito se depara com a falta - conceito fundamental em Lacan. A falta não é apenas ausência empírica de algo; é estrutura constitutiva do sujeito e do desejo. Mas há formas mais ou menos elaboradas de lidar com a falta.

Na neurose obsessiva, por exemplo, o sujeito pode reagir à falta multiplicando demandas, numa lógica de "se esse colega não responde, vou enviar para outro, e outro, e outro". A compulsão de repetição freudiana se manifesta aqui: repete-se a cena traumática esperando inconscientemente um desfecho diferente que nunca chega.

Na histeria, o sujeito pode transformar a falta em drama: "Ninguém me lê! Ninguém me valoriza! Sou um incompreendido!". Há nessa posição um gozo particular - o gozo da insatisfação, que mantém o desejo vivo através da constante frustração.

Green, em Narcisismo de Vida, Narcisismo de Morte (1983), fala do "trabalho do negativo" - a capacidade psíquica de lidar com a ausência, com a falta do objeto. Quando esse trabalho não pode ser realizado, o sujeito fica à mercê da angústia de aniquilamento. O silêncio dos colegas pode ser vivido como ameaça de desaparecimento: "Se não me leem, não existo".

Mas há uma saída possível, que passa pelo que Lacan chama de separação. Na separação, o sujeito renuncia à completude imaginária, aceita que o Outro é barrado, faltante, incompleto. Os colegas não respondem não necessariamente porque o trabalho é ruim, mas porque eles também estão divididos, ocupados com suas próprias demandas e faltas. Reconhecer isso é libertar-se da posição de dependência absoluta do reconhecimento alheio.

Isso não significa abandonar a busca por interlocução - algo legítimo e necessário no campo acadêmico. Mas significa transformar a qualidade dessa busca: de uma demanda absoluta de amor (que só pode ser frustrada) para um desejo de diálogo (que aceita encontros e desencontros, presenças e ausências, respostas e silêncios).

A questão que se coloca, então, é: como elaborar essa passagem da demanda ao desejo? Como transformar a ferida narcísica em oportunidade de amadurecimento psíquico? Essas questões nos levarão aos próximos capítulos, onde investigaremos as figuras específicas do campo acadêmico que encarnam essas dinâmicas: os professores como figuras de autoridade e os colegas como rivais fraternos.


CAPÍTULO 3

TRANSFERÊNCIA E FIGURAS DE AUTORIDADE NO CAMPO ACADÊMICO

A transferência é o conceito-chave que nos permite compreender como os afetos e fantasias inconscientes, originalmente dirigidos às figuras parentais, são deslocados para outras figuras de autoridade ao longo da vida. Freud descobriu a transferência no contexto clínico, mas logo percebeu que ela opera em todas as relações humanas significativas.

Em A Dinâmica da Transferência (1912), Freud explica que cada sujeito, através de sua história libidinal, desenvolve clichês ou estereótipos que determinam como se relacionará com novas figuras de autoridade. Esses padrões repetitivos são inconscientes e tendem a se atualizar nas relações profissionais, especialmente com professores, supervisores e mestres.

O professor ocupa um lugar transferencial complexo. Ele é simultaneamente figura de autoridade (como o pai) e figura de saber (como o pai idealizado da infância, aquele que "sabe tudo"). Quando o psicólogo envia seus escritos ao professor, está oferecendo seus frutos intelectuais à figura paterna simbólica, esperando aprovação, reconhecimento, bênção.

Freud, em Totem e Tabu (1913), fala do pai da horda primitiva como aquele que detinha o monopólio do saber e do gozo. Os filhos, para acessarem o conhecimento e a legitimação, precisavam do reconhecimento paterno. No campo acadêmico, essa estrutura mítica se reatualiza: o professor-pai detém o saber instituído; o aluno-filho busca sua parte nesse saber através do reconhecimento de suas produções.

Mas o que acontece quando o pai simbólico não responde? Quando o professor não oferece o feedback esperado? Reedita-se algo de uma experiência traumática infantil: a criança que oferece seu desenho ao pai e é ignorada. A criança que busca o olhar de aprovação e encontra indiferença. Essa experiência deixa marcas narcísicas profundas.

Lacan, em O Seminário, Livro 4: A Relação de Objeto (1956-57), fala da importância da função paterna não apenas como interdição (o "não" do pai edípico), mas como reconhecimento. O pai precisa reconhecer a criança, nomeá-la, inscrevê-la na ordem simbólica. Quando o professor silencia diante da produção do psicólogo-escritor, há uma falha nessa função de reconhecimento simbólico.

É importante distinguir aqui entre dois tipos de transferência positiva. Na transferência idealizada, o aluno projeta no professor todas as qualidades perfeitas, fazendo dele um objeto idealizado cuja aprovação torna-se condição necessária para seu próprio valor. Essa transferência é frágil porque qualquer frustração - como o não retorno de um feedback - pode transformá-la em seu oposto: a transferência negativa, onde o professor passa a ser visto como negligente, desinteressado, invejoso.

Já na transferência de trabalho, conceito lacaniano desenvolvido no contexto da psicanálise mas aplicável ao campo acadêmico, o aluno supõe no professor um saber que o impulsiona a produzir seu próprio saber. Aqui a relação é menos dependente da aprovação imediata e mais sustentada pelo desejo de conhecer. O silêncio do professor pode ser frustante, mas não é devastador.

Ferenczi, em Confusão de Línguas entre Adultos e Crianças (1933), nos alerta para a dimensão traumática quando há uma dessincronia radical entre a demanda do sujeito e a resposta do outro. A criança fala a linguagem da ternura e o adulto responde com a linguagem da paixão (ou não responde de modo algum). No campo acadêmico, o psicólogo-escritor oferece sua produção na linguagem do desejo de saber e os professores respondem (ou não respondem) na linguagem da competição profissional, da falta de tempo, da economia acadêmica produtivista.

Essa confusão de línguas gera desamparo. Winnicott, em A Preocupação Materna Primária (1956), fala da importância do holding - o ambiente suficientemente bom que acolhe e reconhece o sujeito. No campo acadêmico, os professores deveriam oferecer algo desse holding intelectual, um reconhecimento que sustente o desenvolvimento do pensamento próprio. Quando isso falha, o psicólogo-escritor pode sentir-se em queda livre, sem sustentação simbólica.

Mas há também uma questão estrutural que precisa ser elaborada: nenhum professor pode ocupar definitivamente o lugar do Outro consistente, completo, capaz de oferecer reconhecimento total. Acreditar nisso é permanecer numa ilusão infantil. A elaboração psíquica passa por aceitar que os professores são eles mesmos sujeitos barrados, divididos, incompletos. Eles têm suas próprias angústias, demandas, limitações.

Bion, em Aprendendo com a Experiência (1962), fala da importância de desenvolver a capacidade de pensar por si mesmo, para além da dependência das figuras de autoridade. O continente externo (o professor que oferece feedback) precisa eventualmente ser internalizado como continente psíquico próprio. O psicólogo-escritor precisa desenvolver sua capacidade de autoavaliação, de diálogo interno com sua própria produção, de metabolização de suas ideias independentemente do retorno imediato dos mestres.

Isso não significa autossuficiência narcísica, mas autonomia simbólica. É possível buscar legitimamente interlocução e reconhecimento sem fazer disso uma questão de vida ou morte psíquica. A transferência com os professores precisa ser atravessada, elaborada, e não simplesmente substituída por outra figura idealizada.

Lacan nos lembra que a transferência deve ser "liquidada" ao final de uma análise - não no sentido de desaparecer, mas de ser atravessada, de modo que o analisante possa prescindir do analista enquanto suporte imaginário do saber. Analogamente, o psicólogo-escritor precisa poder prescindir da aprovação imediata dos professores para sustentar sua produção. Não porque essa aprovação não seja desejável, mas porque ela não pode ser a única fonte de legitimação.


CAPÍTULO 4

A FERIDA NARCÍSICA: QUANDO O OUTRO NÃO RESPONDE

O narcisismo é um dos conceitos mais complexos e mal compreendidos da psicanálise. Frequentemente associado à vaidade ou ao egoísmo, o narcisismo é na verdade a estrutura mesma através da qual nos relacionamos conosco e com os outros. Todos precisamos de investimento narcísico para funcionar, criar, viver.

Freud, em Introdução ao Narcisismo (1914), distingue entre libido objetal e libido narcísica. A primeira é dirigida aos objetos externos; a segunda, ao próprio eu. Essas duas modalidades de investimento estão em equilíbrio dinâmico. Quando amamos intensamente um objeto externo, desinvestimos parcialmente nosso eu; quando nos voltamos para nós mesmos, retiramos investimento dos objetos. O psicólogo que escreve e busca leitores está fazendo um investimento objetal - oferecendo sua produção aos outros. Quando não recebe retorno, pode haver um movimento de retração narcísica defensiva.

Mas o que nos interessa particularmente é o conceito de ferida narcísica. Freud usa essa expressão para designar as experiências que abalam a imagem idealizada que temos de nós mesmos. Ele identifica três grandes feridas narcísicas na história da humanidade: a descoberta de Copérnico (a Terra não é o centro do universo), a teoria da evolução de Darwin (o homem não é uma criação especial), e a própria psicanálise (o eu não é senhor em sua própria casa). Essas feridas obrigaram a humanidade a renunciar à sua posição imaginária de centralidade e domínio.

No nível individual, feridas narcísicas são experiências de desvalorização, rejeição, humilhação. A criança que não recebe atenção dos pais, o adolescente rejeitado pelo grupo, o adulto desprezado profissionalmente - todas essas são situações potencialmente ferinas para o narcisismo. O psicólogo-escritor que não recebe feedback de seus pares está sofrendo uma ferida narcísica.

Kohut, fundador da psicologia do self, dedicou sua obra a compreender as vicissitudes do narcisismo. Em A Análise do Self (1971), ele propõe que todos precisamos de objetos-self ao longo da vida - pessoas que desempenham funções de espelhamento (confirmam nosso valor), idealização (oferecem modelos a admirar) e gemelaridade (fazem-nos sentir parte de um grupo). O campo acadêmico deveria oferecer esses três tipos de objetos-self: colegas que reconhecem a qualidade do trabalho (espelhamento), professores admiráveis (idealização), pares com quem compartilhar a jornada intelectual (gemelaridade).

Quando o psicólogo-escritor envia seus textos e não recebe resposta, há uma falha simultânea nas três funções: ninguém espelha seu valor, os objetos idealizados (professores) decepcionam, e não há gemelaridade (os colegas não oferecem sentimento de pertencimento). Essa falha tripla é devastadora para o narcisismo.

Kohut distingue entre raiva narcísica e agressividade saudável. A raiva narcísica surge quando a ferida narcísica é vivida como insuportável - é uma raiva absoluta, vingativa, que busca aniquilar o objeto que frustrou. Podemos imaginar o psicólogo-escritor fantasiando com vinganças: "Um dia vou ser reconhecido e eles vão se arrepender de não terem me dado atenção". Ou então desvalorizando defensivamente os colegas: "Na verdade, eles não têm capacidade de compreender meu trabalho". Essas reações, embora compreensíveis, mantêm o sujeito preso na lógica da ferida.

A agressividade saudável, por outro lado, permite afirmar-se sem depender da destruição do outro. É a capacidade de dizer "meu trabalho tem valor independentemente do reconhecimento imediato dos outros" e seguir produzindo, buscando outros interlocutores, criando novos caminhos.

Green, em O Trabalho do Negativo (1993), nos fala da importância de elaborar as experiências de perda e frustração. O psicólogo-escritor precisa fazer o luto do Outro idealizado - aquele que leria seus textos com atenção, ofereceria feedbacks generosos, reconheceria prontamente seu valor. Esse Outro não existe. Aceitar isso é doloroso, mas também liberador.

Winnicott nos oferece outro ângulo através de seus conceitos de verdadeiro e falso self. Em Distorção do Ego em Termos de Falso e Verdadeiro Self (1960), ele explica que o verdadeiro self surge quando o ambiente é suficientemente bom para acolher o gesto espontâneo da criança. O falso self se desenvolve quando a criança precisa adaptar-se a um ambiente que não a reconhece, tornando-se aquilo que os outros querem que ela seja.

O psicólogo que escreve compulsivamente buscando aprovação pode estar operando desde um falso self - produzindo não por desejo genuíno, mas para atender uma exigência imaginária do campo. A falta de resposta dos colegas, dos leitores do senso comum, pode ser  paradoxalmente, uma oportunidade de reconectar-se com o verdadeiro self: "Por que realmente escrevo? O que me move genuinamente? Posso escrever pelo prazer de pensar, independentemente do reconhecimento?".

Melanie Klein, em Inveja e Gratidão (1957), nos alerta para a possibilidade de que a própria inveja inconsciente esteja operando. O psicólogo-escritor pode invejar inconscientemente seus professores e colegas bem-sucedidos, e essa inveja pode contaminar sua relação com eles. A falta de retorno pode então ser interpretada através dessa lente persecutória: "Eles não me respondem porque têm inveja de mim". Essa interpretação, verdadeira ou não, mantém o sujeito numa posição paranoide.

A passagem da posição esquizo-paranoide para a posição depressiva, conceito central kleiniano, é fundamental aqui. Na posição esquizo-paranoide, o mundo é dividido entre objetos totalmente bons e totalmente maus. Os colegas que não respondem são "maus", negligentes, invejosos. Na posição depressiva, o sujeito consegue integrar aspectos bons e maus do mesmo objeto: os colegas têm qualidades e limitações, podem estar genuinamente ocupados, podem ter suas próprias angústias. Essa integração permite tolerar a ambivalência e reduz o sofrimento narcísico.

A ferida narcísica, quando elaborada, pode tornar-se fonte de crescimento. Freud, em Luto e Melancolia (1917), mostra que o trabalho do luto permite eventualmente reinvestir a libido em novos objetos. O psicólogo-escritor pode fazer o luto do reconhecimento não recebido e investir em novas formas de interlocução: submeter trabalhos a revistas, participar de congressos, criar grupos de estudo, buscar leitores em outros contextos. A ferida pode impulsionar a criatividade em vez de paralisá-la.


CAPÍTULO 5

RIVALIDADE FRATERNA E INVEJA NO CAMPO PROFISSIONAL

Se o capítulo anterior tratou das relações verticais (com professores, figuras de autoridade), este capítulo se debruça sobre as relações horizontais - com os colegas, os pares, aqueles que ocupam posição similar no campo profissional. Essas relações reeditam as dinâmicas fraternas da infância, com toda sua carga de rivalidade, inveja, ciúme e também possibilidades de aliança.

Freud dedica textos importantes à compreensão das relações fraternas. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), ele argumenta que o sentimento social nasce originariamente da inveja. As crianças invejam o irmão que recebe atenção dos pais, mas precisam recalcar essa inveja para manter a coesão familiar. Esse recalque gera a formação reativa que chamamos de senso de justiça: "Se eu não posso ter toda a atenção dos pais, então nenhum de nós deve ter vantagens injustas".

No campo acadêmico e profissional, essa dinâmica se repete. Os colegas são irmãos simbólicos competindo pelo reconhecimento dos pais simbólicos (professores, instituições, o campo do saber). Quando um colega publica, recebe prêmios, é citado, os outros podem sentir inveja - mesmo que conscientemente desejem o bem do outro. Essa inveja é estrutural, não acidental.

Melanie Klein faz da inveja um conceito central em sua obra tardia. Em Inveja e Gratidão (1957), ela distingue entre inveja, ciúme e voracidade. O ciúme envolve três pessoas (amo X, que prefere Y). A voracidade é o desejo de ter tudo para si. A inveja, mais primitiva e destrutiva, é o sentimento de raiva diante da percepção de que o outro possui algo bom que me falta. Mais ainda: a inveja busca estragar o que o outro tem, pois se eu não posso ter, ninguém deveria ter.

Quando o psicólogo-escritor envia seus textos aos colegas e não recebe resposta, pode estar sendo vítima da inveja alheia. Os colegas podem invejar sua capacidade produtiva, sua criatividade, sua coragem de expor-se através da escrita. Responder ao texto seria reconhecer essa superioridade invejada, então preferem o silêncio - um modo passivo-agressivo de estragar o prazer do outro na produção intelectual.

Mas Klein também nos alerta: podemos projetar nossa própria inveja nos outros. O psicólogo-escritor pode invejar os colegas que conseguem ter suas produções lidas e reconhecidas, e então projetar: "São eles que me invejam". Essa projeção defensiva protege o eu de reconhecer a própria inveja, mas ao custo de uma visão paranoide dos outros.

René Girard, embora não seja psicanalista, oferece contribuições importantes com sua teoria do desejo mimético em Mentira Romântica e Verdade Romanesca (1961). Para Girard, não desejamos objetos diretamente, mas através da mediação de um modelo. Desejamos o que o outro deseja. No campo acadêmico, desejamos o reconhecimento porque vemos outros sendo reconhecidos. Isso cria uma rivalidade mimética: todos querem o mesmo objeto (aprovação acadêmica) e por isso entram em conflito.

A dinâmica fraterna no campo profissional é paradoxal. Por um lado, os colegas deveriam ser aliados, parceiros de diálogo, comunidade de pensamento. Por outro, são competidores pelos recursos escassos: publicações, citações, posições institucionais, atenção dos professores. Essa ambivalência gera culpa inconsciente. Como posso desejar o bem do colega se sua vitória parece ameaçar minha posição?

Lacan, em Os Complexos Familiares (1938), analisa o complexo de intrusão - a experiência da criança diante do nascimento de um irmão. O irmão é um intruso que vem usurpar o lugar único que a criança ocupava no amor dos pais. Mas é também um semelhante que permite à criança reconhecer-se: "Ele é como eu". Essa identificação ambivalente marca todas as relações horizontais posteriores.

No campo profissional, cada colega é potencialmente um intruso (que compete pelos mesmos espaços) e um espelho (que reflete possibilidades identificatórias). O psicólogo-escritor que envia textos aos colegas está buscando tanto reconhecimento quanto identificação: "Vocês, que são como eu, reconhecem valor no que produzo?". O silêncio pode ser vivido como dupla rejeição: "Nem me reconhecem como valioso, nem como um dos seus".

Bion, em Experiências com Grupos (1961), analisa como os grupos podem funcionar segundo pressupostos básicos inconscientes. Um desses pressupostos é o de acasalamento: o grupo se organiza na expectativa messiânica de que uma dupla produzirá algo salvador. Outro é o de luta-fuga: o grupo se une contra um inimigo externo ou foge da tarefa. No campo acadêmico, podemos observar essas dinâmicas: grupos que se organizam contra rivais teóricos, "panelinhas" que excluem os não iniciados, alianças que visam proteger território.

O psicólogo-escritor que não recebe resposta dos colegas pode estar excluído dessas alianças grupais. Pode estar sendo percebido como ameaça (alguém muito produtivo que expõe a improdutividade alheia) ou como irrelevante (alguém cuja produção não interessa ao grupo). Em ambos os casos, o silêncio é um mecanismo de exclusão.

Mas há também a possibilidade de que os próprios colegas estejam aprisionados em dinâmicas narcísicas similares. Cada um tão preocupado com sua própria produção e reconhecimento que não há espaço psíquico para receber a produção do outro. A cultura acadêmica produtivista contemporânea, com suas exigências incessantes de publicações, pode estar gerando um ambiente de empobrecimento relacional. Todos escrevem, poucos leem; todos demandam atenção, poucos podem oferecê-la.

Kaës, em O Grupo e o Sujeito do Grupo (1993), fala dos pactos denegativos inconscientes que sustentam os grupos. São acordos não falados sobre o que não pode ser visto, dito, reconhecido. No campo acadêmico, pode haver um pacto denegativo sobre a inveja, a competição, o desejo de destruição do rival. Todos sabem que isso existe, mas ninguém pode falar. O silêncio diante da produção do colega pode ser uma forma de manter esse pacto: responder seria explicitar a rivalidade.

Freud, em O Mal-Estar na Civilização (1930), nos lembra que a agressividade é constitutiva do ser humano e que a civilização exige sua repressão. O campo acadêmico é um espaço civilizado por excelência, onde a agressividade precisa ser sublimada em debate intelectual. Mas quando a sublimação falha, a agressividade retorna de forma indireta: críticas destrutivas, sabotagens passivas, e também o silêncio negligente.

A questão ética que se coloca é: como construir um campo acadêmico mais generoso, onde a produção do outro possa ser reconhecida sem que isso seja vivido como ameaça narcísica própria? Como desenvolver a capacidade de alegrar-se genuinamente com o sucesso do colega, sem negar a própria ambição? Klein chamaria isso de capacidade para gratidão - poder reconhecer e agradecer o que o outro oferece, em vez de invejá-lo destrutivamente.

Para o psicólogo-escritor, a elaboração passa por reconhecer sua própria ambivalência: "Eu também tenho inveja dos colegas bem-sucedidos. Eu também às vezes não respondo aos textos que me enviam. Eu também estou preso nessas dinâmicas fraternas". Reconhecer a própria participação no sistema permite sair da posição de vítima pura e assumir responsabilidade pela transformação das relações.


CAPÍTULO 6

REPETIÇÃO E GOZO: A ECONOMIA PSÍQUICA DO NÃO RECONHECIMENTO

Este capítulo aborda uma das questões mais enigmáticas da psicanálise: por que o sujeito repete experiências dolorosas? Por que o psicólogo-escritor continua enviando textos aos colegas mesmo após repetidas experiências de não reconhecimento? A resposta psicanalítica passa pelos conceitos de compulsão à repetição e gozo.

Freud introduz a compulsão à repetição em Além do Princípio do Prazer (1920), um de seus textos mais especulativos e perturbadores. Até então, a psicanálise operava sob o princípio do prazer: o psiquismo busca prazer e evita desprazer. Mas Freud observa fenômenos que contradizem esse princípio: sonhos traumáticos que repetem a cena terrível, neuróticos que recriam situações dolorosas, a brincadeira do fort-da onde a criança repete ativamente a experiência passiva de ser abandonada pela mãe.

Freud conclui que há algo mais primitivo que o princípio do prazer: uma compulsão a repetir, ligada ao que ele chamará de pulsão de morte. O organismo tende a retornar a estados anteriores, em última instância ao estado inorgânico. Aplicado à psique, isso significa que há uma tendência a repetir padrões, mesmo dolorosos, porque são familiares.

O psicólogo que repete o gesto de enviar textos e não receber resposta está sob o domínio dessa compulsão. Há algo de familiar nessa experiência de desamparo, de não reconhecimento. Provavelmente reedita experiências infantis similares: a criança que oferecia seus desenhos e não recebia atenção adequada, o filho que buscava aprovação e encontrava indiferença. A repetição é uma tentativa inconsciente de dominar o trauma, de dar-lhe um desfecho diferente - mas a tentativa falha porque o cenário atual já está estruturado para reproduzir o cenário originário.

Lacan desenvolve e sofistica esses conceitos freudianos através da noção de gozo. O gozo não é prazer; é uma satisfação paradoxal obtida no próprio sofrimento. Em O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise (1959-60), Lacan mostra que o sujeito está fixado em seu sintoma porque há um gozo específico ali, um tipo de satisfação que não quer abandonar.

Qual seria o gozo do psicólogo-escritor em sua posição de não reconhecido? Várias hipóteses podem ser levantadas:

1.      O gozo masoquista: Há uma satisfação inconsciente em sofrer, em ser negligenciado. Isso pode estar ligado a um supereu cruel que exige punição. "Não mereço ser lido, reconhecido". O sofrimento confirma essa crença inconsciente.

2.      O gozo da queixa: Manter-se na posição de incompreendido, negligenciado, oferece uma identidade, um lugar no discurso. "Sou aquele que produz, mas não é reconhecido". Há uma satisfação narcísica nessa autoimagem de gênio incompreendido.

3.      O gozo da demanda: Enquanto continua demandando reconhecimento e não o obtém, mantém o desejo vivo. Se fosse plenamente reconhecido, o que faria? O não reconhecimento mantém a falta que alimenta o desejo e a produção.

4.      O gozo da repetição em si: Como na brincadeira infantil do fort-da, há satisfação na repetição do padrão, independentemente do resultado. A compulsão adquire autonomia.

Nasio, em O Prazer de Ler Freud (1992), explica que o sintoma é simultaneamente sofrimento e satisfação. O neurótico sofre com seu sintoma, mas não consegue abandoná-lo porque extrai dele um gozo específico. O trabalho analítico consiste em ajudar o sujeito a identificar esse gozo para poder renunciar a ele - ou pelo menos mudar sua economia.

A pergunta clínica crucial é: o psicólogo-escritor está pronto para ser reconhecido? Ou o reconhecimento destruiria a economia psíquica que mantém seu funcionamento? Às vezes, as pessoas sabotam inconscientemente seu próprio sucesso porque o fracasso oferece vantagens secundárias: justifica a raiva, protege da inveja alheia, mantém a posição de vítima.

Winnicott, em O Medo do Colapso (1974), fala de como algumas pessoas temem inconscientemente aquilo que conscientemente desejam. O colapso que temem já aconteceu no passado (geralmente na primeira infância), mas não pôde ser experimentado porque não havia eu suficientemente constituído. O sujeito passa a vida temendo e evitando algo que já aconteceu. Aplicado ao nosso caso: talvez o psicólogo tema inconscientemente o reconhecimento porque isso já aconteceu no passado de forma traumática (uma aprovação que veio acompanhada de invasão, controle, demandas excessivas).

Zizek, em Bem-Vindo ao Deserto do Real (2003), usa conceitos lacanianos para mostrar como o sujeito prefere frequentemente a fantasia à realidade. A fantasia do reconhecimento futuro ("um dia serei reconhecido") pode ser mais satisfatória que o reconhecimento real, que sempre decepciona porque nunca corresponde à completude imaginária.

O conceito de sinthoma, de Lacan tardio (Seminário 23), oferece outra perspectiva. O sinthoma é um modo singular de o sujeito lidar com o real, uma solução sintomática que não precisa ser eliminada, mas pode ser assumida e trabalhada criativamente. Talvez a posição de escritor-não-reconhecido seja o sinthoma desse psicólogo, seu modo particular de estar no mundo e produzir. A questão não seria eliminá-la, mas transformar sua relação com ela: passar do sofrimento passivo à assunção criativa.

Para romper a compulsão à repetição, Freud acreditava na importância da interpretação e da elaboração. Tornar consciente o inconsciente. Nomear o padrão repetitivo. Mas ele também reconhecia os limites da interpretação diante das resistências do eu e especialmente diante do que chamou de "reação terapêutica negativa" - pacientes que pioram quando melhoram, porque o sintoma é mais forte que o desejo de cura.

Lacan propõe o atravessamento da fantasia: o sujeito precisa identificar e atravessar a fantasia fundamental que estrutura sua realidade. No caso do psicólogo-escritor, qual seria essa fantasia? Talvez: "Só existo se for reconhecido pelo Outro". Ou: "O Outro me rejeita porque sou inadequado". Atravessar essas fantasias não significa eliminá-las, mas reconhecer que são construções, ficções necessárias mas não verdades absolutas.

Miller, em Coisas de Finura em Psicanálise (2008), fala da destituição subjetiva como objetivo do fim de análise. O sujeito se destitui de suas identificações imaginárias, de seus lugares fixos no discurso, e pode então reinventar-se de modos mais livres. O psicólogo-escritor precisaria destituir-se de sua identidade fixa de "não reconhecido" para poder circular de outras formas no campo acadêmico.

Mas essas são questões que só podem ser elaboradas em um processo analítico singular. Este capítulo apenas aponta para a complexidade da economia psíquica em jogo. O próximo e último capítulo pensará os possíveis caminhos clínicos e criativos para essa situação.


CAPÍTULO 7

DA REPETIÇÃO À ELABORAÇÃO: CAMINHOS CLÍNICOS

Este capítulo final não oferece soluções mágicas ou fórmulas prontas - isso seria trair o espírito psicanalítico, que reconhece a singularidade de cada sujeito. Mas podemos pensar caminhos possíveis, desdobramentos clínicos, movimentos de elaboração que permitam transformar a repetição sintomática em criação singular.

O primeiro e mais fundamental caminho é a análise pessoal. Freud, desde o início da psicanálise, reconheceu que o analista precisa ser analisado. Mas isso vale para todo profissional que trabalha com a subjetividade, incluindo psicólogos. A situação descrita neste livro - escrever compulsivamente, buscar reconhecimento, sofrer com sua ausência - é claramente uma questão analítica.

Na análise, o psicólogo-escritor poderia investigar as raízes infantis desse padrão. Que cena originária está sendo repetida? Qual demanda infantil permanece insatisfeita? Que figuras parentais estão sendo reencenadas nas figuras dos professores e colegas? A elaboração dessa história permitiria ao sujeito apropriar-se de seu desejo, distinguindo-o das demandas internalizadas.

Mas a análise não é apenas arqueologia do passado. É também trabalho sobre o presente e abertura para o futuro. O trabalho analítico permitiria ao psicólogo-escritor identificar o gozo em sua posição sintomática e, eventualmente, renunciar a ele em favor de satisfações mais criativas. Como diz Lacan, a análise visa substituir o gozo (satisfação paradoxal e repetitiva) pelo desejo (movimento sempre relançado em direção a novos objetos).

Um segundo caminho é o desenvolvimento do que Bion chama de "capacidade de estar só na presença do outro". Em A Capacidade de Estar Só (1958), Winnicott descreve como o bebê aprende a estar só quando a mãe está presente, mas não intrusiva. Essa experiência permite desenvolver um self estável que não depende da presença constante do outro. O psicólogo-escritor precisaria desenvolver essa capacidade aplicada à escrita: escrever na presença simbólica da comunidade acadêmica, mas sem depender de sua resposta imediata para sustentar a produção.

Isso não significa autossuficiência narcísica ou isolamento. Significa o que Winnicott chama de "concernimento" - a capacidade de considerar o outro sem ser dominado por ele. O psicólogo pode considerar seus leitores potenciais, pensar em como tornar suas ideias mais comunicáveis, buscar efetivamente interlocução - mas sem fazer disso uma questão de sobrevivência psíquica.

Um terceiro caminho envolve ressignificar o próprio ato de escrever. Blanchot, em O Espaço Literário (1955), fala da escrita como experiência de solidão essencial. O escritor está fundamentalmente só com a linguagem, numa relação que precede qualquer leitor empírico. Aceitar essa solidão constitutiva pode ser liberador: a escrita vale por si mesma, como exercício de pensamento, elaboração subjetiva, criação de mundo.

Barthes, em O Prazer do Texto (1973), distingue entre textos de prazer (que confortam) e textos de gozo (que desestabilizam). Talvez o psicólogo-escritor precise interrogar-se: escrevo textos que oferecem prazer ao leitor ou textos que o desafiam ao ponto do gozo? A ausência de retorno pode estar relacionada ao tipo de texto produzido. Se são textos muito desafiadores, herméticos, podem afastar leitores. Se são textos muito convencionais, podem não despertar interesse. Encontrar o ponto de equilíbrio é uma questão de estilo, mas também de posicionamento subjetivo.

Um quarto caminho é expandir o campo de interlocução. Se os professores e colegas próximos não respondem, há outras comunidades possíveis: revistas acadêmicas, congressos, grupos de estudos online, redes sociais acadêmicas, leitores de outras regiões ou países. A globalização e a internet ampliaram enormemente as possibilidades de encontro intelectual. Fixar-se exclusivamente no reconhecimento de um pequeno grupo pode ser limitante.

Deleuze e Guattari, em Mil Platôs (1980), falam de rizoma versus árvore. A estrutura arbórea é hierárquica, centralizada (o tronco, os galhos). O rizoma é horizontal, descentralizado, múltiplo. O campo acadêmico tradicional funciona de modo arbóreo (professores no topo, alunos na base). Mas há possibilidades rizomáticas: redes horizontais de colaboração, coletivos de pensamento, formas alternativas de produção e circulação de conhecimento. O psicólogo-escritor poderia explorar esses caminhos menos hierárquicos.

Um quinto caminho envolve o desenvolvimento da generosidade intelectual. Se o psicólogo sofre por não receber feedback, pode começar ele mesmo a oferecer feedback generoso aos textos dos colegas. Essa inversão da posição - de quem demanda para quem oferece - pode ser transformadora. Como diz a filosofia budista, a melhor forma de receber é dar. No campo acadêmico, isso pode significar: ler atentamente, comentar cuidadosamente, reconhecer genuinamente o trabalho alheio. Criar o ambiente que se deseja habitar.

Isso não é ingenuidade ou altruísmo idealista. É compreensão de que o reconhecimento é uma economia simbólica onde todos podem ganhar. Não é um jogo de soma zero onde o sucesso do outro implica meu fracasso. Quanto mais generosidade circula no campo, mais todos se beneficiam. O psicólogo-escritor pode ser agente dessa transformação.

Um sexto caminho é a supervisão ou intervisão. Grupos de psicólogos que se reúnem para discutir suas produções, oferecendo uns aos outros o reconhecimento e a crítica construtiva que faltam. Balint, em O Médico, seu Paciente e a Doença (1957), desenvolveu os grupos Balint para médicos discutirem casos clínicos. O mesmo modelo pode ser aplicado à produção acadêmica: grupos de escritores-pesquisadores que se apoiam mutuamente.

Nesses grupos, é importante trabalhar não apenas o conteúdo dos textos, mas as dinâmicas transferenciais e narcísicas que emergem. Um facilitador com formação psicanalítica pode ajudar o grupo a elaborar as invejas, rivalidades, idealizações que inevitavelmente surgem. Transformar o grupo em espaço de elaboração, não apenas de validação narcísica.

Um sétimo caminho envolve a escrita sobre a própria experiência de escrever. Meta-escrita, autoficção acadêmica. Em vez de apenas sofrer com a falta de reconhecimento, fazer dessa experiência objeto de reflexão e criação. Este livro mesmo é exemplo disso: transformar o sintoma em pensamento, a queixa em interrogação, o sofrimento em obra.

Foucault, em A Escrita de Si (1983), analisa as práticas antigas de escrita como cuidado de si. Os hipomnemata (cadernos de notas), as correspondências, os diários - eram tecnologias de subjetivação, modos de construir-se como sujeito ético. O psicólogo-escritor pode desenvolver essas práticas: escrever para si mesmo, sem destinatário imediato, como modo de elaboração subjetiva. Paradoxalmente, quanto menos a escrita depende do reconhecimento externo, mais singular e interessante ela pode se tornar.

Um oitavo caminho é reconhecer e celebrar os pequenos reconhecimentos que existem. Talvez os professores e colegas não deem o feedback detalhado sonhado, mas há leituras, há citações eventuais, há pequenos sinais de que o trabalho circula. A posição melancólica tende a desvalorizar o que se tem e idealizar o que falta. A posição de gratidão (no sentido kleiniano) consegue reconhecer e valorizar o que existe, por menor que seja.

Isso não significa conformismo ou renúncia à ambição legítima. Significa evitar a posição de tudo ou nada: ou sou plenamente reconhecido ou não sou nada. A vida acadêmica, como a vida em geral, é feita de reconhecimentos parciais, ambíguos, insuficientes. Aprender a sustentar-se nessa incompletude estrutural é sinal de maturidade psíquica.

Finalmente, um nono caminho envolve interrogar a própria relação com a profissão. Por que escolhi ser psicólogo? Que desejo estava e está em jogo? Se a psicologia é busca de compreensão da subjetividade, como compreendo minha própria subjetividade de psicólogo-escritor? Essas questões vocacionais podem revelar camadas profundas de sentido (ou falta de sentido) que pedem elaboração.

Todos esses caminhos não são excludentes; podem e devem ser combinados. Mas todos exigem algo fundamental: disposição para mudar. Não apenas os outros (que os colegas me leiam, que os professores me reconheçam), mas principalmente a si mesmo. Mudar a posição subjetiva, a relação com o desejo, o modo de estar no campo profissional e no mundo.

A psicanálise nos ensina que mudar é difícil e doloroso. Implica lutos, renúncias, atravessamento de angústias. Mas também nos ensina que mudar é possível. O sintoma não é destino; é história congelada que pode ser reescrita. A repetição pode dar lugar à criação. O sofrimento pode se transformar em saber sobre si mesmo.


CONCLUSÃO

Chegamos ao fim deste percurso teórico-clínico sobre o psicólogo escritor e o silêncio do Outro. Atravessamos conceitos fundamentais da psicanálise - desejo, demanda, transferência, narcisismo, ferida narcísica, inveja, rivalidade fraterna, compulsão à repetição, gozo - para pensar uma situação aparentemente simples que revela complexidades insuspeitadas.

O que aprendemos nessa jornada?

Primeiro, que a busca por reconhecimento não é superficial ou narcísica em sentido pejorativo. É estrutural. O sujeito se constitui no campo do Outro e precisa de reconhecimento para sustentar sua existência simbólica. O psicólogo que escreve e busca leitores está fazendo algo profundamente humano: oferecendo sua palavra ao mundo e esperando que ela ressoe, que ela importe, que ela exista para além de si mesmo.

Segundo, que o silêncio do Outro - dos professores, dos colegas - não é apenas ausência empírica de feedback. É vazio que toca camadas arcaicas da subjetividade, reativando experiências infantis de desamparo, rejeição, não reconhecimento. Por isso a dor é desproporcional ao evento aparente. Não é "apenas" uma questão de não receber comentários sobre um texto; é a experiência de não existir simbolicamente para o Outro.

Terceiro, que essa situação está inserida em dinâmicas transferenciais verticais (com figuras de autoridade) e horizontais (com pares). O professor ocupa lugar de pai simbólico cuja aprovação é buscada como reedição da aprovação parental. Os colegas ocupam lugar de irmãos simbólicos com quem se compete pelos recursos escassos do reconhecimento. Essas dinâmicas são inconscientes e por isso tão poderosas.

Quarto, que há uma dimensão de repetição compulsiva em jogo. Se o padrão se repete - enviar textos e não receber resposta - é porque há um gozo sintomático operando. O sujeito extrai uma satisfação paradoxal de sua posição de não reconhecido, satisfação que o impede de mudar efetivamente a situação. Identificar esse gozo é passo fundamental para poder renunciar a ele.

Quinto, que não há soluções simples ou externas. Não basta mudar de instituição, de colegas, de área. Enquanto a posição subjetiva permanecer a mesma, o sintoma se repetirá em novos contextos. A mudança precisa ser interna, psíquica, e isso exige trabalho - preferencialmente trabalho analítico, mas também trabalho criativo sobre si mesmo.

Sexto, que há múltiplos caminhos possíveis: análise pessoal, supervisão, grupos de intervisão, expansão do campo de interlocução, desenvolvimento da capacidade de estar só, ressignificação do ato de escrever, cultivo da generosidade intelectual, escrita sobre a própria experiência de escrever. Nenhum desses caminhos garante reconhecimento externo, mas todos podem transformar a relação do sujeito com seu desejo de reconhecimento.

Sétimo, que o objetivo não é eliminar o desejo de reconhecimento - isso seria impossível e indesejável. O objetivo é transformar sua qualidade: de demanda absoluta e desesperada a desejo relançado e criativo. Poder escrever endereçando-se ao campo simbólico sem depender de resposta imediata. Poder buscar interlocução sem fazer disso questão de sobrevivência narcísica. Poder reconhecer os reconhecimentos parciais sem idealizá-los ou desvalorizá-los.

Oitavo, que o campo acadêmico contemporâneo, com sua cultura produtivista e competitiva, exacerba essas dinâmicas. Todos escrevem, poucos leem com atenção. Todos demandam reconhecimento, poucos podem oferecê-lo. Essa realidade estrutural não desculpa os comportamentos individuais, mas os contextualiza. A transformação precisa ser tanto subjetiva quanto coletiva.

Nono, que a psicanálise oferece não soluções técnicas, mas possibilidades de elaboração. Não diz ao sujeito o que fazer, mas o ajuda a compreender o que está fazendo inconscientemente e por quê. Essa compreensão, quando genuína e não apenas intelectual, é transformadora. Abre espaço para escolhas que antes não eram possíveis.

Décimo, que escrever - seja artigos acadêmicos, seja este livro - pode ser em si mesmo um ato de elaboração. A transformação do sintoma em pensamento, da queixa em interrogação, do sofrimento em obra. Nesse sentido, este livro é ele mesmo performático: realiza o que teoriza. É uma escrita que não espera passivamente reconhecimento, mas cria ativamente um espaço de pensamento.

Para concluir, retomemos a pergunta inicial: o que significa, para um psicólogo, escrever e não ser lido? A resposta psicanalítica é: depende da posição subjetiva desde onde se escreve. Se escrevo desde uma demanda infantil de aprovação parental, o não reconhecimento é devastador. Se escrevo desde um desejo próprio de pensar e criar, o reconhecimento é bem-vindo, mas não necessário para a continuidade da produção.

A passagem da primeira posição à segunda não é simples nem definitiva. É trabalho constante, sempre a ser retomado. Mas é trabalho que vale a pena, pois liberta o sujeito da dependência absoluta do Outro e permite-lhe habitar mais criativamente seu lugar no mundo.

Que este livro possa ser útil não apenas para psicólogos-escritores, mas para todos que se interrogam sobre reconhecimento, criação, desejo e sua relação com o Outro. Que possa contribuir para um campo acadêmico e profissional mais generoso, onde o reconhecimento genuíno circule e onde o silêncio do Outro não seja vivido como aniquilamento, mas como espaço para elaboração criativa.

A palavra final cabe a Lacan, que nos lembra: "O desejo do homem é o desejo do Outro". Não podemos escapar dessa estrutura. Mas podemos, através da análise e da elaboração, transformar nossa relação com ela. Desejo não de ser reconhecido pelo Outro como objeto passivo, mas de criar algo que mereça reconhecimento - e que valha independentemente dele.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHES, Roland. O Prazer do Texto. São Paulo: Perspectiva, 1973.

BION, Wilfred R. Aprendendo com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1962.

BION, Wilfred R. Experiências com Grupos. Rio de Janeiro: Imago, 1961.

BLANCHOT, Maurice. O Espaço Literário. Rio de Janeiro: Rocco, 1955.

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia, Vol. 1. São Paulo: Editora 34, 1980.

FERENCZI, Sándor. Confusão de Línguas entre Adultos e Crianças (1933). In: Obras Completas, Vol. IV. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

FOUCAULT, Michel. A Escrita de Si (1983

 

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