Pular para o conteúdo principal

Psicologia Lugar Marginal - Sacrificial

 Ano 2025. Autor [Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208]

 

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre a condição contemporânea do psicólogo que, impossibilitado de sustentar-se economicamente por meio da prática psicológica, passa a exercer outra atividade laboral considerada simples ou periférica, relegando a psicologia à condição de “bico/ e ou lugar marginal”. Tal deslocamento não se reduz a uma questão econômica, mas incide diretamente sobre a posição subjetiva do profissional, seu desejo e sua relação com o reconhecimento social e simbólico. A partir de referenciais da psicanálise e da sociologia do trabalho, analisa-se como a psicologia, quando deslocada do centro da vida profissional, perde estatuto de ato e passa a operar como suplemento, produzindo efeitos subjetivos relevantes.

Atender “na folga”, depois de um trabalho exaustivo, é uma configuração típica de sofrimento neurótico moderno do século XXI, que se iniciou no século passado reproduzido por profissionais da psicologia até os dias de hoje como aprendizado. A clínica como suplemento sacrificial deixa de ser realização do desejo e passa a ser penitência. O sujeito responde com cansaço, ressentimento e esgotamento. Na psicanálise, um trabalho não é apenas renda. É um lugar no discurso social. O sujeito quer uma inscrição: • reconhecimento • pertencimento • função legítima • lugar de fala. Sem isso, a psicologia fica como fantasia privada.

Palavras-chave: psicologia; trabalho; desejo; posição subjetiva; precarização profissional.


1. Introdução

O campo da psicologia, especialmente em sua vertente clínica, encontra-se atravessado por transformações sociais, econômicas e institucionais que impactam diretamente a forma como o profissional se insere no mercado de trabalho. Não é incomum que psicólogos, recém-formados ou mesmo experientes, se vejam compelidos a exercer funções alheias à sua formação como estratégia de sobrevivência material. Nesses casos, a psicologia deixa de ocupar um lugar central na vida do sujeito e passa a ser exercida de modo residual, como um “bico” [é realizar um trabalho temporário, informal ou de meio período para complementar a renda, geralmente fora do horário de emprego principal. Trata-se de uma atividade remunerada — como serviços de freelancer, vendas, estágios, voluntariado como recompensa o conhecimento e a pratica, atuar como psicólogo antes/ e ou depois da jornada principal, entregas ou pequenos reparos — que ajuda a pagar dívidas ou aumentar o orçamento e em consequência contribui para aprimorar saberes e experiências]

O presente artigo parte da hipótese de que essa condição não é neutra do ponto de vista subjetivo. Ao contrário, a redução da psicologia a uma atividade secundária incide sobre o desejo do sujeito, sua posição simbólica e o reconhecimento de sua função social. Assim, propõe-se investigar qual é a posição que a psicologia ocupa na vida desse sujeito quando ela deixa de ser trabalho principal e passa a operar como atividade suplementar.

Exemplos práticos: O psicólogo começa a atender no limite, aceita horários ruins, sente-se explorado, mas mantém a clínica como sacrifício. Outro exemplo prático: O psicólogo aceita pacientes fora do enquadre organizacional, perde limites, começa a misturar vida pessoal e trabalho para manter renda. Então neste exemplo prático: O psicólogo aceita que aquele modelo de clínica lugar marginal/ ou bico e ou sacrificial não é sustentável e cria um novo arranjo, onde renuncia a atividade laboral simples.


2. Trabalho, reconhecimento e posição subjetiva

O trabalho não se reduz à sua função econômica. Conforme aponta Dejours (2004), ele é também um operador central de reconhecimento e de construção da identidade. Trabalhar é, em grande medida, responder à pergunta “quem sou eu para o Outro social?”[psicólogo/ e ou empregado numa função simples]. Quando essa resposta não encontra ressonância, produz-se sofrimento psíquico.

Na perspectiva psicanalítica, o trabalho pode ser pensado como um dos destinos possíveis do desejo. Freud (1930/2010) já indicava que o trabalho, quando investido libidinalmente, pode operar como fonte de satisfação e sublimação. Lacan (1966/1998), por sua vez, ao articular o desejo ao campo do Outro, permite compreender que a escolha profissional não é meramente pragmática, mas atravessada pela posição subjetiva do sujeito.

Nesse sentido, ocupar uma função laboral simples — ainda que necessária para a sobrevivência — não é equivalente, do ponto de vista subjetivo, a sustentar uma prática profissional alinhada ao desejo. Quando o psicólogo precisa recorrer a um trabalho que não comporta reconhecimento simbólico nem articulação com seu saber, instaura-se uma clivagem entre sobrevivência e desejo.


3. A psicologia como “lugar comum”

Quando a psicologia deixa de ser o eixo central da vida profissional, ela passa a operar como um suplemento. Atendimentos esporádicos, trabalhos voluntários, projetos pontuais ou práticas clínicas descontinuadas passam a constituir o exercício possível da profissão. É lógico que essas bordas subjetivas quando aplicadas e praticadas se transformam em saberes e experiência para o psicólogo. Entretanto nesse cenário, a psicologia não desaparece, mas ocupa um lugar marginal.

Chamar a psicologia de “lugar marginal” não é apenas uma descrição econômica, mas uma categoria subjetiva. A “posição marginal” caracteriza-se por sua precariedade, intermitência e falta de reconhecimento institucional. Ele não organiza o tempo, a identidade nem o laço social do sujeito. Assim, quando a psicologia assume essa posição, ela deixa de funcionar como ato sustentado e passa a operar como resto. Contudo a posição de bico, que representa o momento em que, o sujeito trabalha num emprego simples integral e depois da jornada vai trabalhar como psicólogo. Neste momento a posição é emprego simples – psicólogo, ou seja, emprego simples centro de tudo – psicólogo com o tempo que restou após a jornada, com o resto de energia física e emocional.

Enquanto a função laboral simples domina o tempo e a energia, é impossível ocupar o eixo da psicologia. Nesse contexto, o sujeito precisa sustentar sem depender da centralidade material da profissão, preservando o desejo e a existência do psicólogo independentemente das condições institucionais ou econômicas.

Aqui encontramos a lógica e nomeamos assim, onde a ordem indica: 1. Emprego simples=centro, tempo integral, prioridade, sobrevivência, legalidade, autorização formal. 2. Psicólogo=resto do tempo, resíduo a clínica não expande por falta de tempo, bico de honorários, clandestinidade atuação ilegal aqui simboliza que ninguém sabe que o indivíduo é psicólogo na organização onde trabalha, mas ele analisa o comportamento de todos os colaboradores, liderança, gerencia dentre outros, precariedade.

Isso mostra que a psicologia não está em conflito com a atividade laboral simples; ela está subordinada a ela. Compreendemos que não é possível sustentar o próprio desejo, enquanto se recebe o salário para sustentar o desejo de todos os Outros, exemplos, colaboradores, gestores, supervisores, colaboradores, liderança, equipe da organização. Depreendemos que o indivíduo no emprego simples é recompensado economicamente para sustentar o desejo do Outro sem interrogar o seu.

No momento que o sujeito passa o dia inteiro sustentando o desejo alheio da instituição, não lhe sobra tempo psíquico, não lhe sobra energia libidinal, não sobra espaço simbólico para sustentar o próprio desejo. Isso não é desprezível, mas um estágio estrutural em algumas trajetórias dos indivíduos graduados em psicologia. Mostra que a centralidade da psicologia exige condições concretas.

Quando uma ocupação simples ocupa o centro do tempo e da energia, torna inviável o exercício da psicologia como eixo e conduz á interrupção de sua prática precarizada, não como morte do desejo, mas como ato de preservação subjetiva diante de uma forma de exercício que se mostrou insustentável ou precário.

Do ponto de vista lacaniano, pode-se afirmar que a psicologia, enquanto bico, não se inscreve plenamente no campo do desejo, mas permanece suspensa, à espera de condições materiais e simbólicas que permitam sua centralidade. O desejo não se extingue, mas é colocado em estado de suspensão, o que produz efeitos como frustração, sentimento de desvalorização e questionamentos sobre a própria escolha profissional.


4. Sobrevivência, renúncia e conflito subjetivo

A manutenção de um trabalho simples como meio de sobrevivência não é, em si, problemática. O impasse surge quando esse trabalho se torna permanente e impede a sustentação da prática psicológica como eixo estruturante da vida do sujeito. Nessa condição, o psicólogo vive um conflito entre a necessidade material e a fidelidade ao próprio desejo.

Segundo Bauman (2001), a precarização do trabalho nas sociedades contemporâneas produz trajetórias profissionais marcadas pela instabilidade e pela fragmentação. Para o psicólogo, essa fragmentação se traduz na dificuldade de ocupar um lugar reconhecido como profissional da saúde mental. O resultado é a vivência de uma espécie de exílio simbólico: o sujeito é psicólogo por formação, mas não o é plenamente em sua inserção social.

No momento em que a clínica ocupa um lugar marginal e sacrificial, e isso é insustentável. A clínica não está no centro da vida profissional e sinaliza que está no lugar de [“bico”, complemento precário, trabalho feito no resto do corpo, função secundária, mas carregada de expectativa simbólica]. Isso produz um paradoxo devastador: a clínica exige investimento subjetivo alto, mas recebe recursos mínimos (tempo, energia, dinheiro), esse desalinhamento esgota. E o psicólogo não percebe porque está agindo de modo inconsciente, ou melhor dizendo, não está totalmente consciente lucido a respeito do seu comportamento. O psicólogo se encontra dentro da compulsão a repetição da clínica lugar marginal – sacrificial, operando de modo inconsciente apenas repetindo o ato sem elaboração.

A eventual decisão de renunciar ao trabalho simples para recolocar a psicologia no centro implica um ato subjetivo. Trata-se de uma aposta no desejo, ainda que sem garantias de retorno econômico imediato. Essa passagem não é universal nem normativa, mas revela a tensão estrutural entre desejo e sobrevivência no exercício da psicologia.


5. Considerações finais

A psicologia, quando é reduzida à condição de “lugar comum repleto de repetições”, ela mediante a este limite pode ocupar um lugar periférico na vida do sujeito, produzindo efeitos significativos sobre sua posição subjetiva, seu desejo e sua relação com o reconhecimento social. Tal condição não deve ser moralizada, mas compreendida em sua complexidade histórica e estrutural.

Reconhecer essa realidade é fundamental para pensar dispositivos de supervisão, formação continuada e políticas institucionais que sustentem o psicólogo em sua prática, especialmente em contextos de precarização do trabalho. Mais do que uma questão econômica, trata-se de uma problemática ética e subjetiva: qual lugar o sujeito pode sustentar para sua prática e para seu desejo no laço social.


Referências

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

DEJOURS, C. A banalização da injustiça social. Rio de Janeiro: FGV, 2004.

FREUD, S. O mal-estar na civilização (1930). In: ______. Obras completas, v. 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.


Comentários

Postagens mais visitadas

Dinâmica De Poder Nas Instituições – Psicologia Organizacional

  Ano 2023. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do para um excelente tópico. A dinâmica de poder em uma organização refere-se à distribuição e ao exercício do poder entre os membros e diferentes níveis hierárquicos dentro da empresa. O poder é uma influência que permite que um indivíduo ou grupo afete o comportamento ou as decisões dos outros. Existem diferentes teorias e abordagens para entender a dinâmica de poder em uma organização. Vou apresentar alguns dos principais através da psicologia organizacional. Teoria das bases de poder: Essa teoria, proposta por French e Raven, identifica cinco bases de poder que uma pessoa pode ter na organização. São elas: Poder coercitivo: baseia-se no medo de punição ou consequências negativas. Poder de recompensa: baseia-se na capacidade de recompensar ou oferecer incentivos. Poder legítimo: baseia-se na autoridade formal concedida pela posição hierárquica. Poder de especialista: bas...

Entre - Lugar

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. O que é o entre - lugar que as vezes nos encontramos em algumas situações. Construa um texto citando como exemplo um indivíduo que está no entre lugar através da psicologia social para ser gravado no Ainda sou podcast pelo host psicólogo Ayrton Júnior adaptado na linguagem assertiva informativa e que movimentos o sujeito realizar para demover se do entre lugar para ocupar na realidade o lugar que lhe pertence por direito Abaixo está um texto adaptado para ser lido no seu podcast "Ainda Sou" , com linguagem assertiva e informativa, fundamentado na psicologia social , explicando o conceito de entre-lugar e como o sujeito pode sair dessa posição ambígua e retomar o seu lugar legítimo na realidade: 🎙️ AINDA SOU — por Ayrton Júnior Hoje, vamos falar sobre um conceito muito presente nas experiências humanas, mas pouco nomeado: o entre-...

Estagnação: Entre o Desejo e a Realidade

  Autor Fiscal psicólogo Sumário Introdução – A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático Capítulo 1 – A morte simbólica do objeto de desejo Capítulo 2 – A compulsão à repetição e a fixação libidinal Capítulo 3 – O princípio de realidade como resistência Capítulo 4 – O papel do ego, superego e id na estagnação Capítulo 5 – Caminhos de elaboração e micro-sublimações Epílogo – A pausa como incubação da energia libidinal Conclusão Final – Entre o cansaço e a reinvenção do desejo Referências Bibliográficas Introdução: A experiência da estagnação psíquica e o adoecimento psicossomático A estagnação psíquica é um estado de suspensão entre o desejo e o princípio de realidade. O sujeito sabe o que quer, sente o impulso da libido em direção a um novo objeto de prazer e realização, mas o contexto externo não oferece condições para que esse desejo se concretize. Surge, então, um vazio existencial em que o ego se vê esgotado e descrente. ...

Desejo, Frustração e Narcisismos Nas Relações Virtuais

  Ano 2025. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do leitor para um excelente tópico. Um indivíduo está utilizando um aplicativo de relacionamento e se vê preso a uma dinâmica repetitiva: deseja mulheres que não o desejam e rejeita aquelas que demonstram interesse por ele. Essa experiência, embora comum, revela aspectos profundos da estrutura psíquica do sujeito, especialmente sob a ótica da psicanálise. O desejo do sujeito não está apenas direcionado às mulheres, mas àquilo que elas representam para ele. Ele projeta sobre as mulheres mais bonitas e jovens um ideal de beleza, juventude e valor social. Desejá-las é, para ele, uma forma de se aproximar do seu próprio ideal do eu — uma imagem idealizada de quem gostaria de ser. Assim, não se trata apenas de querer o outro, mas de desejar ser desejado por esse outro idealizado. Isso é o que Lacan chama de “desejo do desejo do Outro”. Ao desejar ser objeto do desejo dessas mulheres, o ...

NEW AMSTERDAM COMO ESPELHO DA TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: UMA LEITURA A PARTIR DA PSICOLOGIA DA SAÚDE, PSICANÁLISE E PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL

  Resumo O presente artigo propõe uma reflexão interdisciplinar sobre a série televisiva New Amsterdam , analisando-a a partir da Psicologia da Saúde, da Psicanálise e da Psicologia Organizacional. O objetivo é compreender como a narrativa hospitalar pode funcionar como um espelho simbólico para um sujeito que, após experiências profissionais em ambiente hospitalar, encontra-se atualmente inserido em uma organização varejista na função de fiscal de caixa e psicólogo. Discute-se a hipótese de que a série mobiliza processos de identificação, memória institucional, construção identitária e observação dos fenômenos organizacionais, permitindo compreender como experiências passadas permanecem ativas na constituição subjetiva e profissional do indivíduo. Palavras-chave: Psicologia da Saúde; Psicanálise; Identidade Profissional; Organizações; New Amsterdam; Psicologia Organizacional. 1. Introdução As produções audiovisuais frequentemente transcendem a função de entretenimento e t...

Escorpião Dentro De Casa

  Ano 2024. Escrito por Ayrton Junior Psicólogo CRP 06/147208 O presente artigo chama a atenção do Leitor para um excelente tópico. Um sujeito vai orar a Deus e quando se levanta observa um escorpião próximo ao tênis. Então mata escorpião. Na psicanálise, os sonhos, comportamentos e eventos simbólicos podem refletir conteúdos do inconsciente, como desejos reprimidos, conflitos internos ou mecanismos de defesa. O escorpião, nesse caso, pode ser interpretado como um símbolo de algo perigoso, oculto ou reprimido que surgiu à consciência. Vamos analisar o cenário como se você fosse iniciante: A oração a Deus : Representa uma busca por conexão espiritual, proteção ou orientação. Essa atitude pode ser vista como um movimento do ego em busca de equilíbrio e suporte diante de conflitos internos. O escorpião próximo ao tênis : O escorpião, em um contexto simbólico, pode representar algo no inconsciente que o sujeito considera ameaçador, como um medo, um desejo reprimido ou uma culpa...

A ilusão de que o sujeito escolhe o campo quando é o campo quem o escolhe

  Resumo Este artigo discute a crença amplamente difundida de que o indivíduo escolhe livremente seu campo profissional, analisando-a como uma ilusão produzida por discursos meritocráticos e individualizantes. A partir de uma leitura psicanalítica e sociológica, argumenta-se que, na realidade, são os campos institucionais que escolhem os sujeitos segundo lógicas próprias, frequentemente opacas para quem está fora deles. Articula-se essa tese à trajetória de um psicólogo–teólogo que, ao longo de sua história laboral, sempre foi selecionado por instituições em campos abertos, mas sofreu ao tentar acessar campos fechados por meio de estratégias inadequadas. O acesso ao saber estrutural produz a elaboração do luto, o fim da compulsão à repetição e uma nova posição subjetiva diante da espera. 1. Introdução: a narrativa moderna da escolha O discurso contemporâneo do trabalho sustenta que o sujeito escolhe sua profissão, sua instituição e sua trajetória a partir de decisões ra...

O Desinvestimento Psíquico da Vaga de Assistente de RH Generalista: Uma Leitura Psicanalítica e Organizacional do Silêncio Institucional

  Resumo Este artigo analisa o fenômeno do desinvestimento psíquico diante de um processo seletivo interno para a vaga de Assistente de RH Generalista em uma organização supermercadista. O estudo parte da experiência de um fiscal de caixa graduado em Psicologia que se candidata à vaga buscando uma mudança de posição ocupacional. Entretanto, ao longo do processo, emerge uma contradição fundamental: embora a vaga represente uma possibilidade de saída do sofrimento associado à função atual, ela não corresponde integralmente ao seu projeto identitário de atuar como psicólogo organizacional. A partir das contribuições da psicanálise e da psicologia organizacional, discute-se como o silêncio institucional, a ausência de comunicação organizacional e a demora nas decisões administrativas favorecem processos de ansiedade, idealização, investimento libidinal e posterior desinvestimento psíquico. Palavras-chave: Psicanálise; Psicologia Organizacional; Silêncio Organizacional; Investiment...

Entre o Desejo e o Esgotamento: Uma Leitura Psicanalítica do Impasse Profissional e do Limite Subjetivo

  Ano 2026 Autor Ayrton Júnior Psicólogo CRP 06/147208 Resumo O presente artigo analisa, à luz da psicanálise, o impasse vivido por um sujeito que, formado em psicologia, encontra-se inserido em uma função dissociada de seu desejo — atuando como fiscal de caixa em um supermercado — ao mesmo tempo em que enfrenta repetidas frustrações na tentativa de inserção institucional na área psicológica. A investigação percorre três eixos: (1) a busca por uma resposta inconsciente via sonho, (2) a oscilação entre ilusão e realidade no campo do desejo, e (3) o colapso subjetivo sob a forma de esgotamento. Conclui-se que a questão não se reduz à dicotomia “ilusão versus verdade”, mas à relação entre desejo, posição subjetiva e inscrição no real. 1. Introdução O sofrimento psíquico contemporâneo frequentemente emerge na intersecção entre desejo e realidade social. No caso em análise, o sujeito encontra-se dividido entre: o desejo de atuar como psicólogo em uma institu...

Minha Querida Senhorita: uma leitura psicanalítica e psicossocial do sujeito em cena — do drama íntimo ao cotidiano do “fiscal psicólogo”

  Resumo Este artigo propõe uma análise articulada do filme Minha Querida Senhorita a partir de dois eixos teóricos: a psicanálise e a psicologia social. Busca-se compreender como a trajetória da personagem Adela/A.D. evidencia a constituição do sujeito pelo Outro, o papel do recalque e da angústia, bem como os mecanismos de controle social, estigma e normatização do corpo. Além disso, o texto amplia a leitura para o cotidiano, tomando como metáfora o “fiscal psicólogo” no supermercado, enquanto operador de observação e controle, evidenciando como o sofrimento psíquico se manifesta em cenas banais. Conclui-se que o filme explicita a inseparabilidade entre sujeito e laço social, demonstrando que o conflito psíquico é produzido e sustentado por estruturas simbólicas e institucionais. 1. Introdução O filme  Minha Querida Senhorita  (1972), dirigido por Jaime de Armiñán, narra a história de Adela, uma mulher que, ao longo da vida, descobre ser inter...