Resumo
No discurso contemporâneo da psicologia,
especialmente nas redes sociais e no marketing digital, consolidou-se a ideia
de que o psicólogo deve “escolher um nicho” como estratégia racional de
posicionamento profissional. Este artigo sustenta a tese oposta: na clínica,
não é o psicólogo que escolhe o nicho, mas o nicho — entendido como conjunto de
sujeitos em sofrimento — que escolhe o psicólogo. A partir de uma leitura
estrutural, psicanalítica e institucional, argumenta-se que a escolha clínica
se dá por transferência, tempo lógico e autorização simbólica, e não por
decisão voluntária, visibilidade ou mérito técnico. A insistência na lógica da
escolha ativa do nicho pode produzir alienação, compulsão à repetição e
sofrimento profissional.
Palavras-chave: nicho clínico; transferência; campo institucional;
escolha profissional; psicologia clínica.
1.
Introdução: o imperativo contemporâneo da escolha do nicho
Nos últimos anos, tornou-se recorrente o discurso
segundo o qual o psicólogo deve definir racionalmente um nicho, como
“ansiedade”, “depressão”, “casais” ou “trauma”, para então ser escolhido por
esse público. Esse modelo, importado da lógica do marketing e do
empreendedorismo, sugere que a clínica funciona como um mercado de oferta e
demanda previsível.
Entretanto, a experiência clínica concreta
frequentemente desmente esse ideal: psicólogos que investem em formação,
visibilidade e posicionamento não são necessariamente escolhidos pelos
clientes; enquanto outros, sem estratégia deliberada, passam a ser procurados
por um tipo específico de sofrimento. Isso indica que há uma lógica
estrutural distinta da lógica mercadológica operando na clínica
psicológica.
2. A
ilusão da escolha ativa: quando o sujeito acredita que escolhe o campo
A crença de que o psicólogo escolhe o nicho repousa
sobre uma ilusão de autonomia plena do sujeito profissional. Do ponto de vista
psicanalítico, essa ilusão ignora que o sujeito está inserido em campos
simbólicos que o antecedem e o atravessam (Lacan, 1964).
Assim como ocorre no campo institucional, o
psicólogo não cria o campo clínico do nada. Ele se apresenta como oferta,
mas a constituição da demanda não lhe pertence. O nicho não é um objeto neutro
a ser selecionado; ele é composto por sujeitos que sofrem, desejam e escolhem
segundo lógicas inconscientes.
Portanto, dizer “eu escolhi atender ansiedade” não
garante que pessoas com ansiedade escolham aquele psicólogo.
3.
Nicho, demanda e transferência: uma distinção necessária
É fundamental diferenciar três níveis frequentemente
confundidos:
1.
Tema ou queixa (ansiedade, luto, dependência);
2.
Demanda
(pedido de ajuda possível naquele momento);
3.
Transferência (laço simbólico que autoriza o trabalho clínico).
O nicho só se constitui verdadeiramente quando há repetição
transferencial: quando determinado tipo de sofrimento passa a procurar
aquele psicólogo de modo consistente. Esse fenômeno não é decidido; ele é reconhecido
a posteriori.
Freud (1912/1996) já indicava que o tratamento só se
inicia quando a transferência se estabelece. Lacan (1964) radicaliza essa ideia
ao afirmar que o analista é escolhido enquanto lugar, não enquanto pessoa ou
currículo.
4. Por
que a visibilidade não garante ser escolhido
Muitos psicólogos experimentam frustração ao
perceber que, apesar de cursos, postagens e estratégias de divulgação, não são
escolhidos clinicamente. Estruturalmente, isso ocorre porque:
- visibilidade ≠
transferência;
- informação ≠
autorização simbólica;
- competência ≠
escolha clínica.
O cliente não escolhe “o melhor psicólogo”, mas aquele
que, naquele momento, pode sustentar sua fala sem colapsar sua defesa psíquica.
Muitas vezes, o psicólogo altamente qualificado representa um excesso simbólico
para o sujeito.
Assim, a não-escolha não é rejeição pessoal, mas incompatibilidade
estrutural de tempos.
5. O
nicho como efeito, não como ponto de partida
Do ponto de vista clínico e institucional, o nicho
emerge como efeito de percurso, não como decisão inicial. Ele se revela
quando o psicólogo observa, ao longo do tempo, que certos sujeitos o procuram,
retornam e permanecem.
Nesse sentido, o nicho:
- não é escolhido;
- não é controlado;
- não é garantido.
Ele é reconhecido quando o campo começa a “lembrar”
daquele psicólogo — tal como José só foi convocado quando o contexto exigiu
alguém capaz de interpretar sonhos (Gênesis 41), ou Pedro só realizou a pesca
abundante quando lançou as redes segundo outra lógica (Lucas 5).
6.
Consequências clínicas da ilusão da escolha do nicho
A insistência na ideia de que o psicólogo deve
escolher seu nicho pode produzir efeitos nocivos:
- culpabilização do
profissional;
- compulsão à
repetição de estratégias ineficazes;
- alienação ao
discurso do desempenho;
- desvalorização do
tempo clínico e da espera.
Quando o psicólogo compreende que o campo escolhe,
ele pode elaborar o luto da onipotência profissional e sustentar uma posição
ética mais saudável: ofertar seu trabalho sem violentar a clínica nem a si
mesmo.
7.
Conclusão
Não é o psicólogo que escolhe o nicho, assim como
não é o analista que escolhe o analisando. O nicho se constitui quando há
encontro entre oferta, demanda e transferência. Antes disso, há apenas
tentativa, espera e trabalho de sustentação.
Reconhecer essa estrutura não conduz à passividade,
mas à desalienação: o psicólogo deixa de se responsabilizar por aquilo
que não controla e pode, enfim, ocupar seu lugar com maior consistência ética e
psíquica.
Referências
bibliográficas
Freud, S. (1996). A dinâmica da transferência
(1912). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de
Sigmund Freud (Vol. 12). Rio de Janeiro: Imago.
Freud, S. (1996). Recordar, repetir e elaborar
(1914). In: ESB, Vol. 12. Rio de Janeiro: Imago.
Lacan, J. (1964). O Seminário, Livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1958). A direção do tratamento e os
princípios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar.
Bourdieu, P. (1989). O poder simbólico. Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil.
Foucault, M. (2008). Segurança, território,
população. São Paulo: Martins Fontes.
Comentários
Postar um comentário