Resumo
Este artigo analisa a experiência de um psicólogo
que, durante anos, buscou inserção profissional por meios convencionais — sites
de vagas, processos seletivos e lógica de RH — sem êxito, permanecendo em um
ciclo de repetição e sofrimento psíquico. A partir de um insight intelectual e
simbólico, o profissional passa a compreender que o impedimento não era
pessoal, mas estrutural: o campo institucional opera por mediação, lembrança e
autorização, e não por competição curricular. Discute-se o impacto desse acesso
ao saber estrutural na percepção de si, do campo e do próprio luto
profissional.
1.
Introdução: quando o fracasso não é individual
No discurso contemporâneo do trabalho, o insucesso
profissional costuma ser atribuído à falta de competência, esforço ou
adaptação. Essa lógica individualizante ignora que campos institucionais
distintos operam segundo regras distintas, muitas vezes invisíveis a quem
está fora deles (Bourdieu, 1996).
O psicólogo em questão permaneceu por anos tentando
acessar o campo institucional por vias que lhe haviam sido ensinadas desde a
juventude — currículo, processos seletivos, mérito formal — sem perceber que
tais vias não correspondiam à lógica real daquele campo específico.
2. O
não-acesso ao saber estrutural e a compulsão à repetição
Do ponto de vista psicanalítico, a repetição
insistente de um ato que não produz resultado não é mero erro cognitivo.
Trata-se, muitas vezes, de uma compulsão à repetição (Freud, 1920),
sustentada enquanto algo essencial permanece não simbolizado.
Nesse caso, o psicólogo:
- repetia o envio de
currículos,
- submetia-se a
processos seletivos,
- aguardava
respostas que não vinham,
não por ingenuidade, mas porque não dispunha do
saber estrutural que explicasse por que aquela porta não se abria.
Enquanto o campo era percebido como universal e
neutro, o sofrimento era vivido como falha pessoal.
3. O
insight: quando o campo deixa de ser moral e passa a ser estrutural
O ponto de virada ocorre quando o psicólogo
compreende que:
- o campo
institucional não se acessa prioritariamente por RH,
- mas por indicação,
lembrança e mediação de alguém que já está dentro.
Esse insight desloca radicalmente a compreensão do
problema:
- de “não fui
escolhido porque não sou suficiente”
- para “esse campo
não opera pelo modelo que eu estava aplicando”.
Segundo Bourdieu (2004), os campos sociais possuem
regras implícitas que só se tornam visíveis quando o sujeito deixa de
naturalizá-las. Esse acesso ao saber estrutural rompe a alienação e produz
alívio psíquico.
4. A
função simbólica da teologia na elaboração do insight
Os textos bíblicos de José (Gn 41) e Pedro (Lc 5)
não operam aqui como explicações religiosas, mas como estruturas simbólicas
de inteligibilidade.
- José não entra no
palácio por insistência, mas porque alguém de dentro se lembra dele
quando o campo entra em crise.
- Pedro não fracassa
por incapacidade, mas por aplicar o mesmo método em um mar que já não
responde àquela lógica.
Essas narrativas funcionam como operadores de
sentido, permitindo ao psicólogo nomear algo que antes era vivido apenas
como angústia difusa (Ricoeur, 1977).
5. O que
muda após o acesso ao saber estrutural
Após o insight, observam-se mudanças claras:
5.1 Na
percepção de si
- Redução da culpa e
da autodepreciação.
- Reconhecimento da
própria competência.
- Fim da
identificação com o fracasso.
5.2 Na
compreensão do campo
- O campo deixa de
ser idealizado como justo ou meritocrático.
- Passa a ser visto
como estruturado, fechado e mediado.
- A espera deixa de
ser vivida como passividade.
5.3 No
manejo do luto profissional
- Torna-se possível
elaborar o luto pelo modelo convencional de empregabilidade.
- A compulsão à
repetição cessa.
- O investimento
libidinal é retirado de práticas que não produzem efeito.
Segundo Kübler-Ross (1969), o luto só se elabora
quando a perda é reconhecida como real. Aqui, a perda não é da profissão, mas da
ilusão de acesso universal.
6. “A
psicologia escolhe o sujeito”: um enunciado reatualizado
A
frase frequentemente dita em formação — “a psicologia escolhe o sujeito” —
ganha novo estatuto. Ela deixa de ser mística e passa a ser estrutural: certos
campos convocam quando precisam, não quando o sujeito deseja.
Esse reconhecimento não implica resignação, mas reposicionamento
ético diante do real (Lacan, 1964).
7.
Considerações finais
O sofrimento do psicólogo não derivava de
incapacidade, mas de ignorância estrutural — socialmente produzida e
transmitida como norma universal. O insight não cria garantias de inserção
imediata, mas produz algo fundamental: cessa a repetição estéril e inaugura
uma espera simbolizada.
Quando o saber emerge, o sujeito não precisa mais
lutar contra portas fechadas. Ele pode, finalmente, parar — e esperar sem se
destruir.
Referências
Bibliográficas
Bourdieu, P. (1996). Razões práticas: sobre a
teoria da ação. Campinas: Papirus.
Bourdieu, P. (2004). Os usos sociais da ciência.
São Paulo: UNESP.
Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer.
In: Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago.
Kübler-Ross, E. (1969). On
Death and Dying. New York: Macmillan.
Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: Os quatro conceitos
fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro:
Zahar.
Ricoeur, P. (1977). A simbólica do mal.
Lisboa: Edições 70.
Weber, M. (2004). A ética protestante e o
espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras.
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