Resumo
Este artigo discute a formulação clínica segundo a
qual o sujeito afirma “não tem saída” quando já não possui energia psíquica
para imaginar possibilidades de deslocamento. Tal posição é compreendida como
efeito do esgotamento libidinal, da repetição defensiva e do isolamento
institucional prolongado. A partir da experiência de precariedade no trabalho,
argumenta-se que o “campo real” não surge como revelação providencial do Outro,
mas se constrói gradualmente por meio de práticas concretas: candidatura insistente,
rede ativa, concursos e reinserção mínima. Sustenta-se que esperar um “campo
desvelado” mantém o sujeito numa posição infantil de demanda ao Outro, enquanto
a elaboração adulta exige construção borda por borda, rompendo a paralisia
depressiva.
Palavras-chave: repetição; desamparo; instituição; desejo;
exaustão; trabalho.
1.
Introdução: quando o sujeito perde a força de imaginar
Há momentos em que o sujeito não diz “não tem saída”
como descrição objetiva da realidade, mas como expressão de esgotamento. A
frase não designa apenas ausência de oportunidades externas, mas um colapso
interno da capacidade de simbolizar e projetar.
Pode-se sustentar, portanto, que:
o
sujeito diz “não tem saída” quando não tem mais força para imaginar a saída.
Essa formulação aponta para um limite da economia
psíquica: quando a defesa se prolonga por anos, a imaginação de futuro se
empobrece, e o desejo perde campo de investimento.
No mal-estar contemporâneo, marcado por precariedade
e desgaste subjetivo, a sensação de não haver saída frequentemente é menos uma
verdade absoluta e mais um efeito de exaustão (Birman, 2006).
2.
Repetição defensiva e esgotamento libidinal
Freud descreve a compulsão à repetição como
insistência de um circuito que retorna mesmo quando produz sofrimento. Em Além
do princípio do prazer, o autor mostra que o sujeito repete não porque
escolhe, mas porque algo do inconsciente insiste para além do princípio do
prazer (Freud, 1920/2010).
No contexto do trabalho precarizado, a repetição
assume forma defensiva:
- permanecer no
lugar conhecido,
- suportar o
sofrimento como preço da sobrevivência,
- evitar o risco do
desamparo material.
A defesa prolongada, entretanto, consome energia. O
sujeito passa a viver não como desejo, mas como resistência. A exaustão surge
quando a defesa deixa de proteger e se torna armadura.
3. Campo
não aparece como revelação: o real se constrói
Um dos pontos centrais do impasse subjetivo é a
fantasia de que o campo profissional surgirá como revelação:
- um lugar que
acolha,
- um reconhecimento
pleno,
- uma instituição
que “desvele” o destino.
Contudo, o campo real não aparece como epifania. Ele
é construído.
O campo é:
- candidatura em
volume
- rede ativa
- concurso
- prática mínima
recente
- presença
insistente
O desejo exige inscrição no real. Lacan insiste que
o Outro não garante plenamente o lugar do sujeito: nenhuma instituição oferece
certeza absoluta (Lacan, 1966/1998). Portanto, esperar um “campo desvelado” é
manter-se numa posição de dependência imaginária.
4. A
posição infantil do Outro que dá e a passagem à posição adulta
Quando o sujeito espera que o Outro institucional o
reconheça e lhe ofereça lugar, ele permanece numa posição infantil de demanda:
“o Outro deve me dar um lugar para que eu exista.”
Na psicanálise, tal posição sustenta a paralisia.
Lacan aponta que o sujeito se constitui no campo do Outro, mas também precisa
separar-se da demanda de garantia total (Lacan, 1964/2008).
Assim, pode-se formular:
Se você espera “campo desvelado”, você permanece na
posição infantil do Outro que dá.
A posição adulta é: construir borda por borda.
A saída não é um salto heroico, mas um deslocamento
progressivo, sustentado por atos mínimos.
5.
Isolamento institucional e apagamento profissional
O ponto decisivo do sofrimento prolongado é o
isolamento. Quatro anos em um contexto institucional que não acolhe a função
desejada tendem a produzir:
- isolamento
profissional
- currículo
desatualizado
- rede morta
Sem rede, o Outro nunca chega. O sujeito fica fora
dos circuitos de contratação, concursos, projetos e trocas simbólicas.
Dunker (2015) mostra que o sofrimento psíquico
contemporâneo é atravessado por condições sociais e institucionais: o sujeito
não adoece apenas “por dentro”, mas também pelo modo como é inserido ou apagado
nos laços de trabalho.
6.
Reconectar-se: a primeira tarefa não é “campo”, é laço
Se o isolamento é estrutural, a primeira tarefa não
é imediatamente encontrar o campo ideal, mas reconectar-se:
- retomar contatos
profissionais,
- entrar em grupos
de supervisão,
- participar de
redes institucionais,
- reconstruir
circulação simbólica.
O desejo não se sustenta no vazio. Ele precisa de
laço.
Kaës (1997) destaca que a instituição não é apenas
cenário externo, mas espaço produtor de efeitos inconscientes. Romper a
repetição exige reinscrição em outros laços institucionais possíveis, mesmo
pequenos.
7.
Desistência depressiva: quando “só resta esperar”
Se o sujeito acredita radicalmente que “só resta
esperar”, aproxima-se de uma posição depressiva:
- perda de
iniciativa,
- colapso da
imaginação,
- sensação de
destino fechado.
Birman (2006) descreve que o mal-estar atual
frequentemente se expressa como esgotamento e impotência diante da
precariedade.
Assim, “não tem saída” não é diagnóstico do mundo,
mas sintoma de exaustão.
A elaboração possível é transformar a espera passiva
em construção mínima, sustentada por repetição ativa e não defensiva.
8.
Considerações finais: construir passagem, não esperar revelação
O sujeito diz “não tem saída” quando não tem mais
força para imaginar a saída. O trabalho clínico e institucional consiste em
reabrir o campo do possível, não como revelação do Outro, mas como construção
gradual:
- rede,
- prática mínima,
- candidatura
insistente,
- concursos,
- reconexão.
A saída não está no milagre institucional, mas na
borda construída ato por ato.
9. A
travessia impossível: o Mar Vermelho e o limite da imaginação
Há narrativas culturais e religiosas que expressam,
de modo emblemático, a experiência humana do impasse e da travessia. Um exemplo
fundamental encontra-se no episódio bíblico do Êxodo, quando o povo de Israel,
fugindo da escravidão, se vê encurralado entre o exército do Egito e o Mar
Vermelho.
Ali, o povo não conseguia imaginar a saída. Não
havia alternativa evidente:
- construir
embarcações seria impossível, pois no deserto não havia madeira;
- atravessar a nado
também não era uma opção, pois não se tratava de um povo habituado ao mar,
tampouco preparado para tal travessia.
O cenário é precisamente o de uma ausência radical
de soluções imagináveis. O sujeito coletivo se encontra diante do Real: não há
recursos simbólicos disponíveis para representar uma saída.
É nesse ponto que a narrativa introduz a abertura do
mar: uma passagem inesperada se produz, permitindo atravessar “a seco”. No
plano religioso, trata-se de um ato divino. No plano psicanalítico e
existencial, pode-se ler como figuração de um momento decisivo: quando o
sujeito não tem mais força para imaginar a saída, a travessia só pode ocorrer
por um deslocamento que excede as alternativas já conhecidas.
Assim, o episódio do Mar Vermelho dramatiza a
formulação central deste trabalho:
o
sujeito diz “não tem saída” quando não tem mais força para imaginar a saída.
O povo não dizia “não há saída” porque objetivamente
não existia caminho, mas porque, esgotado e tomado pela angústia, não podia
simbolizar outra possibilidade. A baixa energia psíquica impede a invenção do
futuro.
Contudo, é importante sublinhar: na clínica e na
vida institucional, não se trata de esperar que o mar se abra como milagre
providencial do Outro. A narrativa bíblica pode ser lida como metáfora da
travessia, mas a passagem subjetiva contemporânea exige outro tipo de
construção.
No lugar da revelação mágica, o campo real se produz
borda por borda:
- candidatura
insistente,
- rede ativa,
- concursos,
- prática mínima
recente,
- presença
sustentada.
Se o sujeito espera que o campo “se desvele” como o
mar que se abre, permanece na posição infantil da demanda ao Outro que dá. A
posição adulta, ao contrário, é reconhecer o desamparo sem sucumbir a ele e
construir, mesmo com recursos mínimos, uma passagem possível.
A travessia do Mar Vermelho, então, ensina menos
sobre um destino garantido e mais sobre a estrutura da angústia: quando o
sujeito está encurralado e esgotado, ele perde a capacidade de imaginar.
Elaborar é recuperar, pouco a pouco, a possibilidade de travessia — não por
milagre, mas por reinscrição gradual do desejo no real.
10.
Considerações finais: construir passagem, não esperar revelaçãoEssa passagem permite integrar Deus e o Mar Vermelho
como narrativa simbólica da travessia impossível, sem cair na ideia paralisante
de que “só Deus pode abrir o caminho”. Clinicamente, o ponto é:
- o sujeito exausto
não imagina saída,
- mas a saída não
vem apenas como revelação,
- ela se constrói
por atos mínimos e reconexão.
O sujeito diz “não tem saída” quando não tem mais
força para imaginar a saída. O trabalho clínico e institucional consiste em
reabrir o campo do possível, não como revelação do Outro, mas como construção
gradual:
- rede,
- prática mínima,
- candidatura
insistente,
- concursos,
- reconexão.
A saída não está no milagre institucional, mas na
borda construída ato por ato.
Referências
Bibliográficas
Birman, J. (2006). Mal-estar na atualidade: a
psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira.
Dunker, C. I. L. (2015). Mal-estar, sofrimento e
sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. São Paulo: Boitempo.
Freud, S. (1920/2010). Além do princípio do
prazer. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
Freud, S. (1914/2010). Recordar, repetir e
elaborar. In: Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras.
Kaës, R. (1997). A instituição e as instituições:
estudos psicanalíticos. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Lacan, J. (1964/2008). O seminário, livro 11: Os
quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Lacan, J. (1966/1998). Escritos. Rio de
Janeiro: Zahar.
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