Resumo
Este artigo analisa a distinção entre escolha
institucional enquanto força de trabalho e reconhecimento subjetivo, a partir
da experiência de um psicólogo que atua como fiscal de caixa em um
supermercado. A reflexão demonstra como o risco psíquico não reside no trabalho
em si, mas na transformação do trabalho em juiz da existência. Sustenta-se que
aceitar o real econômico sem permitir que ele colonize a identidade é um ato
clínico, ético e subjetivamente estruturante.
1.
Introdução: quando o trabalho tenta dizer quem o sujeito é
Em contextos de precarização, sobrevivência
econômica e ausência de reconhecimento institucional, muitos sujeitos passam a
confundir função laboral com valor existencial. Essa confusão não
é acidental: ela é estruturalmente incentivada pelo discurso do mercado, que
tende a reduzir o sujeito à sua produtividade (Han, 2017).
O caso analisado refere-se a um psicólogo que,
diante da impossibilidade concreta de inserção institucional, permanece
trabalhando como fiscal de caixa. O risco central não é ocupar essa função, mas
permitir que ela se torne o significante-mestre que define quem ele é.
2. O que
significa ser escolhido como força de trabalho
Quando o supermercado “escolhe” alguém, ele não
escolhe um sujeito em sua singularidade. Escolhe:
- disponibilidade
física;
- capacidade
operacional;
- adequação
funcional à tarefa;
- resistência à
rotina e ao controle hierárquico.
Trata-se de uma escolha instrumental, não
simbólica. Marx (1867/2013) já apontava que, no capitalismo, o trabalhador é
valorizado enquanto portador de força de trabalho, e não enquanto sujeito
desejante. O vínculo é econômico, não identitário.
Confundir essa escolha com reconhecimento subjetivo
produz sofrimento psíquico, vergonha e autodepreciação.
3. O
risco clínico: quando o trabalho vira juiz
Após encerrar simbolicamente a espera por “salvação
institucional”, surge um novo risco: o trabalho atual ocupar o lugar de juiz da
existência. Clinicamente, isso se manifesta quando o sujeito passa a pensar:
- “Se é isso que
faço, então é isso que valho”;
- “Se não sou mais
psicólogo institucional, fracassei”;
- “Minha função
define quem eu sou”.
Na linguagem lacaniana, o sujeito se deixa capturar
por um significante-mestre (“fiscal de caixa”) que tenta totalizar sua
identidade (Lacan, 1969–1970).
Esse movimento não é efeito do trabalho em si, mas
da internalização do discurso do mercado.
4.
Função, sobrevivência e existência: três registros distintos
Para proteger a integridade psíquica, é necessário
separar três níveis:
1.
Função laboral – o que o sujeito faz para sobreviver;
2.
Condição material – a dependência econômica real;
3.
Existência subjetiva – quem o sujeito é.
O sofrimento emerge quando o primeiro invade o
terceiro. Winnicott (1965) destaca que a saúde psíquica depende da preservação
de um núcleo do self que não seja totalmente colonizado pelas exigências
externas.
Aceitar o trabalho como meio de sobrevivência não
implica aceitá-lo como medida da existência.
5.
Nomear sem totalizar: um gesto clínico essencial
Um recurso clínico simples, porém potente, consiste
em alterar a forma de nomeação:
- Não dizer: “Eu sou
fiscal de caixa”;
- Dizer: “Eu exerço
a função de fiscal de caixa”.
Essa distinção protege o sujeito da identificação
totalizante com a função. Freud (1917) já indicava que a perda de ideais pode
levar à melancolia quando o sujeito se identifica integralmente com aquilo que
perdeu ou com aquilo que o humilha.
Nomear sem totalizar é um ato de separação
subjetiva.
6. O
território inviolável: onde o mercado não entra
Para que o supermercado não se torne o novo juiz, é
necessário preservar um território psíquico mínimo onde o discurso do
mercado não tenha soberania. Esse território pode incluir:
- reflexão
silenciosa;
- escrita não
produtiva;
- leitura teórica;
- oração sem
barganha;
- organização do
próprio saber.
Esse espaço não precisa gerar renda nem
reconhecimento. Sua função é sustentar o sujeito como mais do que força de
trabalho. Sem isso, o mercado ocupa o lugar de Deus, e o sujeito adoece (Han,
2017).
7.
Trabalhar sem se humilhar: um ato ético
Há uma diferença fundamental entre trabalhar e se
humilhar. O trabalho pode ser duro, exaustivo e distante do desejo; a
humilhação começa quando o sujeito aceita que isso o define ou o diminui
enquanto ser humano.
Trabalhar para sobreviver sem permitir que o
trabalho julgue a existência é um ato ético profundo. É a recusa silenciosa
de reduzir-se ao valor de troca.
Considerações
finais
O supermercado escolheu o sujeito como força de
trabalho — e apenas isso. Essa escolha não confere identidade, valor
existencial ou destino. Reconhecer essa distinção permite aceitar a realidade
econômica sem transformar o trabalho em juiz da vida.
O verdadeiro risco não é permanecer no supermercado,
mas permitir que ele colonize o núcleo subjetivo. Separar função de existência
é o que impede o adoecimento psíquico e preserva a dignidade do sujeito.
Referências
Bibliográficas
Freud, S. (1917). Luto e Melancolia. In:
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Vol. XIV. Rio de
Janeiro: Imago.
Lacan, J. (1969–1970). O Seminário, Livro 17: O
Avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar.
Marx, K. (2013). O Capital: Crítica da Economia
Política (Livro I). São Paulo: Boitempo.
Winnicott, D. W. (1965). The
Maturational Processes and the Facilitating Environment. London: Hogarth Press.
Han, B.-C. (2017). Sociedade do Cansaço.
Petrópolis: Vozes.
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